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Freddy Krueger me deixou sem dormir
(Minhas lembranças de um ícone do terror)
Roberto Queiroz

Eu não costumo sonhar. Ou como dizem os que acreditam no que sonham: "Você sonha todo dia. Apenas não se lembra do que sonhou". E ás vezes tenho a impressão de que não sonho mais com a mesma frequência por causa de Freddy Krueger.

Isso mesmo: esse texto é uma grande homenagem - e também mais uma memória dos meus tempos de moleque - ao protagonista da série de filmes A hora do pesadelo, que fez a cabeça de muitos jovens cinéfilos nas décadas de 1980 e 1990. Digo mais: eram tempos do cinema slasher (traduzindo: aqueles filmes em que os protagonistas eram psicopatas sanguinolentos, portando garras, machados, facões e o que mais estivesse na mão para destrinchar suas vítimas, na linha Jason Voorhees e Michael Meyers) fazendo a garotada ter medo de fechar os olhos à noite.

Porém, que me perdoem Jason, Mike Meyers, o padrasto e outros assassinos em série, mas Freddy é uma lenda (pelo menos, na minha memória). Perdi as contas de quantas vezes cheguei no colégio no dia seguinte de olhos cansados, às vezes avermelhados, por não ter dormido na noite anterior. E por causa de quê? Porque acreditava que seria a última vítima de Freddy se eu fechasse os olhos. Lembro-me que certa vez uma professora chegou a me perguntar se eu sofria de insônia ou algo do tipo. Mal sabia! Freddy era assustador, maquiavélico, e mesmo assim não perdia sua ironia fina.

Também o que esperar de um homem morto pelos próprios habitantes da cidade onde vivia - no caso, a Elm Street do título original em inglês - após ter assassinado dezenas de crianças de forma bárbara. Não satisfeito, o assassino decide voltar para se vingar e para realizar tal façanha habita os sonhos de jovens que precisam apelar para drogas e medicamentos que não os deixam dormir de jeito nenhum. Meu interesse pelo filme foi tamanho que cheguei a perguntar em determinadas farmácias para que serviam determinados medicamentos e os farmacêuticos me olhavam, incrédulos, querendo saber como um garoto de apenas 12, 13 anos ficara sabendo daquela informação. Pergunto-me até onde eu teria ido se naquela época já existisse o google...

A série de filmes A hora do pesadelo é grande: foram dez longas fora o Freddy vs. Jason, encontro entre os dois psicopatas mais famosos de hollywood, que acabou por se tornar uma espécie de sátira ao gênero. Muitos dirão obviamente que o original, de 1984, dirigido por Wes Craven, é único, imbatível, mas sempre preferi o sexto, Pesadelo final: a morte de freddy, de 1993, dirigido por Rachel Talalay. Talvez pelo fato de, na época, ter sido lançado em 3D com aqueles óculos de papelão horríveis, mas que chamaram a atenção de todo mundo que morava na minha rua naquele tempo. Vizinhos meus se perguntavam: pra que servem aqueles óculos? E o pipoqueiro da rua dizendo que o Freddy saía da tela para nos pegar (anos depois eu vi A rosa púrpura do Cairo, de Woody Allen, na tv e Jeff Daniels saindo da tela e pensei comigo: por que o Fred não saiu também?).

O ator que deu vida a Freddy Krueger, Robert Englund, virou uma lenda e tornou-se personagem de vários documentários já feitos sobre o personagem. Inclusive no sétimo filme da série, O novo pesadelo: retorno de Freddy Krueger, que traz de volta à direção o criador da série, Wes Craven, faz-se um paralelo entre criador e criatura muito interessante, mostrando o quanto o ator também foi afetado pela loucura de seu personagem. Englund chegou a participar de uma série de TV chamada V (recentemente transformada em remake com a atriz brasileira Morena Baccarin) sobre uma invasão alienígena, que eu só assistia nas madrugadas do SBT porque tinha "a participação do Freddy Krueger no elenco". Pena que ele nunca conseguiu fazer sua carreira ir além do psicopata das garras.

Muitos atores de renome hoje em hollywood, como Johnny Depp e Patricia Arquette, começaram suas carreiras fazendo participações nessa série. E muitos fãs de hoje ficam tristes por alguns deles nunca mais terem regressado ao gênero terror/suspense.

Com A hora do pesadelo e Freddy - e sua camisa listrada vermelho e verdade - aprendi o quanto a sétima arte pode ser alucinógena e impressionável. Eu realmente, como os atores do filme, acreditava que seria visitado pelo assassino, e chegava às vezes a ouvir suas gargalhadas. Quando minha mãe descobriu que eu não andava dormindo direito, me dava uma bronca: "para de ver essas porcarias na tv altas horas da noite, viu? e, além do mais, amanhã tem aula!". Hoje eu lembro dessas broncas às gargalhadas pensando na minha tolice infantil.

Pois bem: hollywood modernizou-se, assumiu o 3D de vez, Krueger perdeu sua força e a garotada de hoje quer mesmo é ver Game of thrones na tv ou ir ao cinema atrás de Os vingadores e Liga da justiça. O que é uma pena! Pensar que o sobrenatural de outrora deu lugar à Disney tornando heróis figuras de empoderamento e luta contra o racismo, sob certa ótica me faz pensar se eu seria cinéfilo como sou hoje se estivesse começando a história agora. No final das contas: acho que sim. A sétima arte mudou a minha vida para sempre. Mas que faz falta a anarquia e a morbidez bem feita dos tempos passados na minha formação, ah faz!!!

Freddy, onde quer que você esteja, eu não sonhei mais. Então acho que eu venci, não foi... Mas, mesmo assim, volta. O cinema americano sente a sua falta, meu caro (mesmo que não admita).


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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