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Escrever é se aproximar da morte
Flora Fernweh

A escrita permite um retorno essencial ao lirismo das emoções interiores, restabelecendo o elo com o substrato de tudo o que nos forma. A um só tempo, quando escrevo, sinto-me em tudo, despersonificada, capaz de pensar como um rio pensa e de me agitar tal qual as ondas do mar. Ainda, como um paradoxo irreprimível, sou capaz de ver cruamente minha alma e distanciar-me, incorporando a calmaria de uma ilha e a retidão de uma floresta.

Assim, escrever é como meditar: enquanto nos traz intensamente à vida, nos aproxima, naturalmente, da morte e do que nos é exterior. Escrevo para que eu não morra por dentro, mas morro um pouco a cada vez que a poesia me faz visita, porque também vivo um pouco mais. É sublime a morte poética, destituída dos vestígios de si e desiludida de consciência. Até porque há beleza na epifania de desvanecer, salvo se a razão resistir.

Talvez seja esse o mistério insuperável da palavra, ao nos permitir tentar a descoberta do que somos, e após esse movimento primário de buscar a si mesmo, nos levar a reconhecer que não nos encontraremos na escrita que projetamos, e sim naquilo que ela disser sobre nós, a partir de um fluxo de consciência marcado pela intuição e pela liberdade irrestrita dela conosco. Assim, posso morrer como morrem os dias, sem a consciência do que escrevo, sem que eu tenha suficientemente aprendido quem sou. É este o enigma inexorável de toda a existência, e quanto a isso, pouco me resta fazer.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
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