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A NOVA GAVETA DO ESCRITOR
n-
SUELI COUTO ROSA

Resumo:
Uma cronica sobre o desafio de um escritor diante da tela em branco de um computador.

A NOVA GAVETA DO ESCRITOR

Há dias a tela está em branco. Busco palavras, ações, sentimentos, qualquer coisa que possa mudá-la de cor. Mas, o branco da tela insiste em desafiar-me!

Por momentos, diante da tela, parece-me que as palavras vão sair. Mas, não. Ficam presas num lugar ao qual ainda não tive acesso.

Reviro os meus sentidos em busca de palavras que sejam poéticas, ou rancorosas, ou críticas, ou explicativas de alguma coisa. Não importa o quanto desejo que a tela se polua, mesmo que as palavras não façam sentido! Mas, nada!

Sinto-me fracassada! Afinal, quem sou eu? Perdi totalmente a minha capacidade de escrever? Será que, de verdade, já fui uma escritora? Ou, se fui, que falsa escritora eu sou! Talvez seja uma impostora, porque muitos ao meu redor considerava-me uma escritora.

No passado, quando era a folha e não a tela que ficava em branco, até que os meus dedos sabiam o que fazer, ao mover-se sobre as teclas duma velha e macia Olivetti. O fazia de forma rápida e segura.

As estórias e os seus personagens vinham sofregamente visitar-me. Sentia-me obrigada a isolar-me e passar meses ou anos a conviver com esses novos hóspedes. Instalavam-se na minha casa como se fosse a deles e se tornavam como que membros da minha própria família.

Aos poucos eu ia disponibilizando os seus espaços, os seus laços, o seu papel. Assim, adquiriam nomes, raças, biótipos, personalidades, temperamentos e construíam relações entre si. Logo, estabeleciam uma trama entre eles, e quando isto ocorria, eu sentia-me uma escritora. Cada um dos personagens surgia como que extraídos duma gaveta secreta e iam instalando-se no lugar de sua preferência, como se as palavras que os descreviam outorgassem-lhes um documento de identidade.

Algumas das relações entre eles mostravam-se próximas, ou envolventes, ou sedutoras e apaixonadas, ou todas juntas. Grande parte destas relações tendia a referir-se a um núcleo amoroso ou familiar, com um certo grau de conflito. Sempre desenvolvia romances conflituosos. As tramas tendiam a ser complexas e cheias de suspense. A gaveta, como uma caixa de pandora aberta, despejava ciúmes, inveja, despeito, disputas, egoísmo e rivalidades.

A busca por solucionar ou mesmo dar sentido a estas relações empolgavam-me e transformava-me numa parte invisível do enredo. Em alguns casos, alguns personagens discursavam ou defendia ideias que coincidiam com as minhas. Outras vezes, alguns personagens possuíam as mesmas características de pessoas da minha vida real. Talvez eu quisesse redimir-me de algo, não sei.

Por outro lado, era empolgante quando a estória permitia-me viajar por tramas insólitas, novos lugares ainda não visitados, mas que me instigavam a curiosidade. Procurava mergulhar nos seus odores, cores, costumes, amores. Então, sim, visitava as minhas gavetas e as minhas estantes de livros. Vasculhava todas as geografias, demografias, antropologias, políticas e a época em que se situava a minha epopeia.

Possuía dezenas de cadernos de anotações, fotos e até recortes de jornal e revistas. A partir dai, podia construir viagens no tempo e no espaço, criados por mim. Neles, habitavam os meus heróis e os seus adversários. A trama consolidava-se e muitos leitores a absorviam.

Por um bom tempo tornei-me uma escritora até reconhecida como tal e, inclusive, passei a viver de alguns direitos autorais. Porém, esta inspiração, quase gloriosa, parece ter-se volatilizado. Tudo começou com a mudança das críticas, das tendências de linguagem, dos temas e dos gostos literários – e da tecnologia.

Os meus editores diziam que eu devia adaptar-me aos novos tempos, criar novos personagens, observar, através da internet e dos " best-sellers”, o que o público buscava. Pouco a pouco percebi que um abismo se abria entre o que estava dentro de mim, o que desejava expressar e o que era demandado pelos novos leitores.

De repente, precisei mudar de gaveta. Não mais na minha mente e imaginação, nem na minha gaveta real, não mais nos meus alfarrábios geradores de possíveis tramas. Agora, tinha que buscar insistentemente os temas que poderiam atender aos novos interesses do mercado editorial, na internet.

Para começar, troquei a minha Olivetti por um portátil avançado (que ganhei como prêmio duma editora) o qual me levou a trabalhar com mais agilidade.
Contudo, o meu novo modo de produzir afetou diretamente o meu processo de criação. Buscava as palavras, mas a autocrítica passou a prevalecer. Produzia mais palavras e páginas em tempo físico, mas, pouco a pouco, fui perdendo a antiga capacidade de concatenar personagens e as suas tramas.

As palavras, que antes eram construídas letra por letra e que saltavam facilmente para a folha de forma intempestiva, como que jorrando do meu próprio corpo, agora ficavam suspensas, indagadoras, inconclusivas, solitárias. Passei a depender cada vez mais do dicionário online e mesmo a construir as tramas a partir de notícias e sites da internet. De escritora, que talvez fosse, tornei-me uma bisbilhoteira de novos temas e tramas.

Entretanto, da mesma forma que o vírus do computador destrói o seu sistema operacional, um vírus espalhou-se pouco a pouco no meu sistema criativo. Tornei-me muda, oca, sem palavras para superar o desafio da tela em branco.

A gaveta que abro agora traz-me personagens estranhos, suspeitos, criminosos, psicóticos, violentos. Fico insegura em torná-los os meus hóspedes e muito menos amigos ou familiares. Não desejo que entrem na minha casa. As suas tramas são extravagantes e tenho dificuldade em identificar-me com os seus sentimentos, problemas, ideias.

Talvez tenha medo, inconsciente, de transformar-me em um deles. Este medo me paralisa. Será por isto é que a tela continua em branco? O medo matou a escritora em mim?


Sueli Couto Rosa
Cascais, maio de 2018


Biografia:
Socióloga, professora universitária aposentada, escreve poesias, crônicas e contos, aproveitando seu tempo livre.
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