Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Náufragos em SP
Rafael da Silva Claro


Domingão, dia perfeito para dirigir em São Paulo. Algo que eu gostava bastante, além de fazer   me sentir mais importante que o GPS. Porém, estranhamente, eu não queria ir. Diante da insistência eu aquiesci.

Todos a bordo do veículo. A palavra bordo foi levada ao pé da letra, isso ainda vai ficar claro. O destino era o Cirque du Soleil, do lado oposto da cidade. Eu não entrei no circo, o Parque Villa-Lodos era suficiente.

O Cirque du Soleil é assim, digamos, diferente. Esse empreendimento não lembra o cirquinho de bairro nem na lona, ainda menos os artistas. A lona é impecável, esticadinha e sem nenhum furo. Os palhaços são chamados de clowns e, perspicazes, nunca fazem papel de bobo. Os artistas vêm de várias partes do mundo.

Eu sempre fui em circos tradicionais. Por isso, para mim, no picadeiro tem que ter macaco vestido e andando de bicicleta, elefante que chuta bola, um cachorrinho serelepe enfrentando obstáculos, domador colocando a cabeça na boca do leão, palhaço triste, mágico muito manjado e Globo da Morte. Tudo perdeu a graça depois que proibiram circo com animais. Mas foi por um motivo nobre: evitar maus-tratos. Não pode haver algo mais cruel do que retirar um leão da savana africana e obrigá-lo a morar em Diadema.

Muita coisa sempre sai diferente do ensaiado, dá errado. Desde que não seja nada sério, é o que sai mais engraçado. O elenco, que mais parece o maltrapilho Exército de Brancaleone, vive em trailers e vem de lugares como Paraguai, Bolívia e Venezuela. No máximo tem um russo, que dá credibilidade ao “Internacional” que vem junto ao nome do circo (que também é russo).

Além de tudo, o Cirque du Soleil tem que ser compreendido e interpretado, isso é muito para mim. Eu prefiro algo mais óbvio, mais Sessão da Tarde. Acho esse outro conceito de circo também muito sofisticado para mim.

Freak Show, Circo de Aberrações ou Circo dos Horrores, a atração era muito mais roots. Popular de 1840 a 1970, o “show” de gosto duvidoso (mau-gosto), crueldade e vilipêndio foi muito retratado em filmes. O Playcenter (histórico parque de diversões de São Paulo) emulou o clima dessas apresentações bizarras com a Monga - A mulher gorila. Sim, a Monga era uma moça que virava um gorila. Atraente, para os padrões da época e o baixo orçamento, a “atriz” ficava em uma tenda, atrás de grades. No início, todos ficavam só manjando a moçoila; de repente, num truque barato de espelhos, ela se transformava num horrível, nervoso e peludo símio. O, agora, furioso gorila arrebentava a grade e corria atrás dos espectadores. Eu, arrependido por não ter ido à Montanha Encantada, estava lá no meio, fugindo do macacão.

Deixando as elucubrações circenses, o retorno reservaria as emoções que qualquer circo jamais proporcionou. Ao contrário do nome Cirque du Solei (Circo do Sol), estava chovendo muito e era noite. Porém, como era domingo, isso não me preocupou.

Tudo ia bem até que, início da Rodovia Fernão Dias, eu não fiz jus ao velho bandeirantes e fiquei num, ainda incipiente, alagamento. Éramos seis e assim pretendíamos permanecer, de modo que o melhor a fazer foi abandonar o navio (digo, o carro). Eu como comandante da embarcação (motorista do automóvel), não dei uma de Schettino (vada a bordo, cazzo!) e esperei todos desembarcarem (do veículo).

Parecíamos uma família de desabrigados, ensopados e debaixo da chuva, num morrinho à beira da pista e ao lado de uma favela (ou comunidade). Fiz a contagem, todos vivos. Ainda voltei para o barco (carro) umas três vezes para pegar os documentos antes que fossem parar no Rio Tietê. Já estava aguardando a visita agourenta do helicóptero do Datena, entretanto era domingo.

Voltei pro morrinho, com água na cintura, ensaiando aquele antigo discursinho: é só um bem material, você trabalha e compra outro. O importante é que todos estão vivos. Para minha surpresa, todos estavam rindo, como se estivessem curtindo aquela “aventura”. Eu até esbocei um sorrisinho, mas, definitivamente, aquela não era uma situação engraçada.

Depois disso tudo, fomos resgatados, bem como o automóvel (certo!). Chegamos, sobreviventes, em casa. O ingresso e um carro, foi esse o preço para assistir o Cirque du Soleil. Foi muito caro, mas não faltaram emoções.


Biografia:
Ensino secundário completo. Trabalhei em várias empresas, fora da literatura. Tenho um blog, onde publico meus textos: “Gazeta Explosiva” Blogger
Número de vezes que este texto foi lido: 290


Outros títulos do mesmo autor

Ensaios Obrigado não Rafael da Silva Claro
Ensaios O Conto da Vacina Rafael da Silva Claro
Ensaios Fatos & Fotos Rafael da Silva Claro
Ensaios André do Rap Rafael da Silva Claro
Crônicas Cara-pintada cara de pau Rafael da Silva Claro
Ensaios Opinião no ar Rafael da Silva Claro
Ensaios Direto ao Ponto Rafael da Silva Claro
Ensaios Leblon e Vila Madalena Rafael da Silva Claro
Ensaios O Mito de Prometeu Rafael da Silva Claro
Ensaios Pantanal Rafael da Silva Claro

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 63.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 69753 Visitas
A Arte De Se Apaixonar - André Henrique Silva 55971 Visitas
IHV (IAHU) e ISV (IASHUA) - Gileno Correia dos Santos 49446 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 44704 Visitas
viramundo vai a frança - 44580 Visitas
Minha namorada - Jose Andrade de Souza 44332 Visitas
Reencontro - Jose Andrade de Souza 43949 Visitas
Amor e Perdão - Amilton Maciel Monteiro 43527 Visitas
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 42005 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 41597 Visitas

Páginas: Próxima Última