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O novo Adônis
(Dr. Bumbum, vaidade excessiva e o Jardim continua sem delícias)
Roberto Queiroz

A história se repete. Se repete. E se repete. E ninguém dá a mínima por uma razão muito simples: o brasileiro só se preocupa de fato com o próprio umbigo e a própria vaidade. O resto...

Mais de dois anos atrás escrevi aqui, neste mesmo site, um artigo de nome Perdido no jardim sem delícias (texto esse que por muito tempo foi o meu mais acessado aqui). Nele, narrava minha desconfiança e meu descontentamento a respeito desse mundo repleto de mulheres masculinizadas e disformes que eram vendidas como musas, sex symbols e maravilhosas, entre outras designações. Pois bem: graças ao caso do Dr. Bumbum decido voltar ao tema e expurgar um pouco mais dessa mentalidade torpe que invadiu nossa sociedade de forma atroz.

Todos conhecem o caso, está em todos os noticiários do país. E quem não conhece só pode ser alienado ou desinteressado do cotidiano nacional (portanto, não lhes darei atenção). O "Doutor" Denis Furtado - expressão doutor entre aspas é intencional de minha parte - é acusado de matar a bancária Lílian Calixto, de 46 anos, após uma intervenção estética em sua cobertura, na Barra da Tijuca (isso mesmo! eu disse na sua cobertura e não num hospital). Encontra-se foragido, bem como sua mãe. Já a namorada não teve a mesma sorte e foi detida pelas autoridades.

Poderia me estender sobre o caso, mas esse papel cabe à imprensa (que, na maioria das vezes, não está interessada nesse tipo de matéria e sim em baboseiras envolvendo pseudocelebridades) e não a mim, mero curioso e pesquisador sobre praticamente tudo.

Antes de mais nada: quem são as pessoas que idolatram o Dr. Bumbum (apelido que ganhou nas redes sociais, onde tem mais de 600 mil seguidores)? Segundo: onde se encontrava o Conselho Regional de Medicina que nada fez durante o crescimento da popularidade deste "médico" (mais uma vez: as aspas são intencionais de minha parte). Terceiro: vejo a foto da bela Lílian Calixto e me pergunto qual a necessidade de aumentar seus glúteos? E nesse ponto um desdobramento importante: precisamos nos perguntar porque a atual sociedade não se basta com nada, beleza, status, dinheiro, etc.

Chegamos a um ponto no Brasil onde tudo é inatingível. E dentre os piores exemplos dessa faceta encontra-se a velha máxima da busca pelo corpo perfeito. Por mais que os cultuadores ao corpo saibam que a silhueta ideal não existe, a eles soa mais interessante a incerteza, a busca eterna pela perfeição.

Vejo com estarrecimento as atrizes e estrelas que são chamadas de divas pela atual televisão brasileira. Muitas me parecem, isso sim, "homens de cabelo comprido". Certa ocasião, cerca de uns seis meses atrás, um conhecido ficou indignado comigo simplesmente porque lhe disse que nunca vi nada em Viviane Araújo. Ele só faltou me agredir. E fiquei me perguntando se aquele indivíduo viveu a época em que Marinara enlouquecia os homens na plateia dos shows de Fausto Fawcett e Luciana Vendramini exibia suas curvas na tv ao lado do roqueiro Paulo Ricardo, líder do RPM. E para ficar numa imagem mais recente, ele - o indignado - chegou a me jogar na cara que Ísis Valverde, Paolla Oliveira e Débora Fallabella no auge, juntas, não dariam uma Viviane.

Preferi acreditar que ele se referia à massa muscular exagerada da última. Ou então que ele estava maluco (acho a segunda opção mais lúcida).

Resgato este exemplo para corroborar a falta de parâmetro estético com a qual nos deparamos no país. Virou sinônimo de beleza feminina mulheres comprando uma estética própria dos homens, músculos saltados, rostos endurecidos, força à flor da pele. Melhor exemplo do que Gracyanne Barbosa, esposa do cantor Belo, não há. E olha que eu tenho minhas dúvidas se ela aquela moça menstrua!

Em suma: passam-se mais dois anos, retomo a temática aviltante de uma sociedade sem identidade ou estética definida, e a sensação que me fica é: parece que eu escrevi o outro artigo semana passada. E mais: se escrever um próximo daqui a mais dois anos, acho que a situação ficará ainda pior.

A mulheres escolheram a vaidade extrema, caíram nas mãos de fraudes como o tal Dr. Bumbum - que me pareceu, à primeira vista, mestre apenas em vaidade e exibicionismo -, um novo fabricante de milagres, um novo Adônis, pronto para tirar o coelho da cartola, acreditaram na internet e em outras redes sociais como a verdade única e inabalável, sem a necessidade de apurar os fatos. E não somente elas. Homens também entraram nessa onda da "beleza a qualquer preço". Tem quem chame de efeito Cristiano Ronaldo (outro indivíduo que nunca me desceu pela garganta). Grito mais uma vez "onde vamos parar?", mas ando cansado de gritar as mesmas perguntas para a uma plateia de surdos e conformados que veem na imagem a única solução para seus problemas.

No final das contas, o que sobra é o eterno mais do mesmo. Mais um morte para entrar para as estatísticas. Até quando? Até a próxima tola. Quem sabe uma Márcia, uma Yolanda, uma Sarah... No final, só muda mesmo o nome da vítima.

E onde está o belo nisso tudo?


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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