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Sociologia a Serviço: A Neo-Escravidão
Felipe Soares

Resumo:
Os constantes ataques a uma disciplina como a Sociologia denotam por parte do (des) governo duas coisas: responder às exigências do capital internacional e, por conseguinte, utilizá-la como instrumento da ordem.

“também predestinamos e condicionamos” (Aldous Huxley)

O Brasil, como esperado, tem em seu bojo, levando em conta a sua história de explorações constantes e subserviência internacional, mesmo após sua independência, o projeto de ser aquilo que Plínio Jr (2018) chamou de neo-colônia, ou seja, tornar-se um país agroexportador mesmo diante de uma crise mundial que reduz as importações. Basta observar as reiteradas idolatrias do planalto ao agronegócio e sua paranóia à espoliação indígena. De fato isso mostra a nova cara do trabalho, se teremos uma neo-colônia obviamente haverá o neo-escravo. Para que as altas taxas de lucro das elites e os privilégios da cúpula do governo voltem a ser significativos, pois após a crise estrutural do capitalismo a partir de 2008 é preciso atacar os direitos dos trabalhadores, um sacrifício que os operários terão por esse país cheio de valores tão esplendidos. E como se faz isso? Convoca- se o pelourinho,Bolsonaro. Os discursos são enfáticos: “Queremos formar jovens para o trabalho não para a política”; “Não precisamos de sociólogos e filósofos, precisamos de engenheiros e médicos”. Esses discursos são sintomáticos às exigências do capital internacional, precisamos criar mão de obra barata e lucro exorbitante para as classes patronais, pois, crise no capitalismo exige o sacrifício dos pobres, como se os trabalhadores não fossem vítimas dos patrões há tempos. Desta forma, atacar os direitos trabalhistas e a aposentadoria cria um sistema de capitalização que, em última instância os bancos lucram com esses fatores por via dos exorbitantes juros e os empresários com a falta de responsabilidade do patrão com o empregado e sua disposição para atender as exigências do mercado internacional geram a neo-colônia. O progresso para os banqueiros e empresários com a mediação do Estado, eis o sacrifício do trabalhador. A ideologia que ronda a sociedade é que “isso salvará o Brasil, não é um ataque aos pobres”. Eu diria que com o achatamento dos salários, assim como declarou o Senhor Presidente que não haverá aumento real no salário mínimo e trabalhadores sem direitos, apenas geram sujeitos que não são capazes de consumir, então a conta não fecha, mas pode salvar quem gera lucros auspiciosos e corrompem o Estado. Oferecer investimentos em disciplinas ligadas somente à atuação técnica profissional cria uma sociedade que não produz seu próprio conhecimento, subserviente ao controle internacional. O Brasil tem o projeto de ser a mão de obra barata e quem vai garantir o projeto é o Senhor da Casa Grande. Isso não quer dizer, necessariamente o fim da sociologia, e sim o fim das pesquisas a ela, pois conhecimento utilizável já existe. Ela será utilizada como instrumento de controle de massas, ou seja, pega- se aquilo que interessa e descarta- se aquilo que representa uma ameaça a ordem da Feitoria Moderna.

Émile Durkheim (1858- 1917), como herdeiro direto de Auguste Conte (1798- 1857), teve como objetivo central, consolidar a terceira república francesa. A anomia em que vivera o fez criar uma teoria sociológica de consolidação da ordem a partir dos fatos concretos, ou fato social para quem prefere o termo do autor. Os fatos sociais denotam as formas de agir, pensar e sentir que são impostos aos sujeitos por via das representações coletivas como os costumes, literatura, música, língua, etc. Partindo deste principio o (des) governo precisará inverter, por exemplo, a história. Já dizia George Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro”, mudar as expressões culturais, para além da força, criando uma sociedade ideologicamente ligada ao culto do individualismo e as exigências ordeiras do Grande Irmão: Escravos são dóceis, se não forem, haverá a solução Maçaranduba: pancada. Durkheim possui grandes contribuições à Sociologia como um método, revista própria da disciplina e sua inserção como cadeira na universidade, mas sua importância na conjuntura será outra, ele servirá à ordem.

Indo em via oposta, falaremos do sujeito que causa arrepios no burguês e seus gados políticos, Karl Marx (1818-1883). Falaremos da negação da ordem burguesa, e como nos diz Netto (2016), “A teoria que diz respeito à condição de classe do proletariado”.

“Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada época é também a potência dominante espiritual”, assim nos dizem Marx e Engels em 1845/46 ao tratar de ideologia. Nesse sentido, ideologia seria o mascaramento das relações de poder, a dissimulação da luta de classes.

Os discursos que rondam a sociedade, não de forma surpreendente a classe baixa, se ancoram no culto ao individualismo, propriedade privada, meritocracia, família e religião como signos últimos da moralidade social.

A sociedade que se ancora na propriedade privada, falamos aqui dos meios de produção, necessita de um conjunto superestrutural próprio às exigências de manutenção da ordem material das coisas, sendo esta, o sistema ideo-político-religioso. A burguesia cria o Estado ao contrário do que diziam autores da Filosofia Política como Thomas Hobbes (1588-1679) ou o último grande filósofo clássico alemão, Hegel (1770-1831), que atribuíam o Estado como responsável pela racionalização da ordem civil e manipula a religião para servi-la. Basta observar como exemplo o que vem a ser o cristianismo no âmago da Reforma Protestante, basta observar as palavras de ordem Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Esses dois aspectos históricos dizem respeito hoje a 1% da população que detém a propriedade e, por conseguinte, a acumulação de capital pela extração da Mais-Valia. A sociedade burguesa se sustenta pela exploração. “A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em imensa acumulação de mercadorias”, assim nos diz Marx em 1867. Quem produz essas mercadorias? O pobre para ser mais exato. Como manter uma sociedade pauperizada e dócil? O mecanismo mais eficiente é a expressão ideológica burguesa e ela flui por via das suas instituições. Escola, família, Igreja e etc. Reproduzem assim toda estrutura de dominação do macro social ao micro: homem/mulher, pai/filho (a) e afins formando um conjunto infindável de dominação do homem sobre o homem.

O Estado, a Igreja e o patrão dizem: “O trabalho engrandece o homem”. O culto ao trabalho na ordem burguesa diz respeito à produção de mercadorias e isso, que em tese, deveria ser um pensamento de rico se torna o pensamento do pobre explorado, sempre acreditando na meritocracia: “Se eu me esforçar bastante serei rico”. Os ricos na sociedade burguesa do Brasil têm em seu passado familiar exploradores de escravos, grandes latifundiários, bandeirantes, coronéis fazendeiros, a parte civil que apoiou o golpe de 64, em outras palavras, a propriedade privada para exploração é histórica. O pobre deve entender que se ele se esforçar bastante dentro da propriedade do patrão só vai gerar mais lucro, ninguém fica rico assando pão. Mas nessa ordem, o ser pauperizado deve acreditar nessas constantes ideologias do esforço e que a crescente pobreza, violência urbana, guerras, intolerâncias e afins, fazem parte de uma divina ordem de um mundo dos pecados e que há uma disputa nefasta entre o bem e o mal, sem ver na sua frente que essa disputa está na própria materialidade que sustenta a vida na terra.Warren Buffet, um milionário, traz uma frase excepcional para isso: “Quem disse que não há luta de classes? É claro que há uma, e estamos vencendo”.

Os aparatos coercitivos do Estado, como a polícia servem para deter a exceção, manter a racionalidade burguesa do culto ao individualismo, batendo, matando ou enjaulando o pobre desordeiro. Não é a coerção que age em primeira instância e sim a ideologia política e religiosa que mascaram a luta de classes. O pobre pensa como rico. Como expressão disso aí estão os milhões de pobres defendendo o Grande Irmão, batendo palmas como focas adestradas aos inúmeros ataques às organizações dos trabalhadores, aos direitos do trabalho, ao ensino público e à seguridade social, pois no individualismo cada um é responsável por si, que cada um tenha sua arma e pague pela sua aposentadoria, o Estado à sociedade serve apenas para servir a ordem burguesa. Os discursos são diversos, porém, meras repetições quando há criticas ao (des) governo: “Vão trabalhar”; “Querem o mal do Brasil”; “Mito”; “Mas e o PT?”. O trabalho e a ordem são expressões desses escritos, reproduzindo a ideologia da ordem burguesa.

Ou a Sociologia servirá à ordem nos moldes de Durkheim ou servirá àquilo que o burguês chama desordem, para organizar os trabalhadores enquanto classe para enfrentar os senhores fundamentalistas, os ideólogos do Estado Burguês, do planalto. Carlos Benedito Martins (1994) diz: “A Sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório. Para alguns ela representa uma poderosa arma a serviço dos interesses dominantes, para outros ela é a expressão teórica dos movimentos revolucionários”. O (des) governo e seus pseudointelectuais que bem nos fazem alusão aos bobos das cortes mais imbecis, têm como objetivo último o desmonte da classe trabalhadora e do Estado como garantidor de direitos criando, assim, uma sociedade totalmente individualizada, com ilusões que uma bolsa de cotas é privilégio e que os professores são responsáveis pela decadência brasileira.Não são os bancos nem os empresários, esses precisam ser salvos criando um embate bélico entre os sujeitos que deveriam se unir e garantindo o livre mercado da Neo-Colônia. A Sociologia é seu instrumento de dominação, os pobres não podem ter acesso ao outro lado.

Como classe trabalhadora devemos nos colocar como antagonistas por via dos nossos interesses e tomar a Sociologia nos seus moldes de expressão de seres pauperizados, mas com unidade de força, não como categorias trabalhistas em seus interesses particulares, para assim sermos capazes de enfrentar o projeto de espoliação dos mais pobres e progresso aos gados do mercado internacional.

A Sociologia, um instrumento teórico para explicar a sociedade e orientar práticas sociais, agarra-se a ela dessa forma. Dizer ao mesmo tempo em que não somos escravos, somos a classe trabalhadora que produz toda a riqueza material do mundo.

• Não mexam em nossos direitos!
• Greve gera prejuízo? Façamos greves!
• Povo nas ruas é pressão ao congresso? Tomemos as ruas!

A Sociologia é uma arma para os dois lados. Os ataques direcionados a ela são para um único lado. Mas o (des) governo erra ao achar que vão conter a exceção. Somos a expressão da classe trabalhadora. Eles negam o conhecimento, nós vamos fornecê-lo. Nesse aspecto, ou o Senhor da Casa Grande cai à força, ou os trabalhadores morrem na forca. Faremos as perguntas mais incômodas, pois foi- se o tempo em que sociólogos sentiam medo de milicos.

Sociologia, um instrumento de interesses opostos. Ou teremos o avanço da força popular ou a barbárie.

“O capital não tem a menor consideração pela saúde ou duração da vida do trabalhador, a não ser quando a sociedade o força a respeitá-la” (Karl Marx)

Felipe Soares


Biografia:
Estudante de Ciências Sociais (Cruzeiro do Sul)
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Outros títulos do mesmo autor

Artigos Sociologia a Serviço: A Neo-Escravidão Felipe Soares
Poesias Violência Acima de Tudo Lucro Acima de Todos Felipe Soares
Artigos Educação Para o Cidadão Felipe Soares


Publicações de número 1 até 3 de um total de 3.

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