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Retrato Atemporal
Jordan Wolf

Eu vivi me escondendo, sim é verdade, sorri incontáveis vezes até que isso se tornou minha única expressão, minha única reação, verdadeira ou falsa, satisfeita ou triste. Esgueirei-me por toda a vida para proteger algo que eu tinha de precioso, algo delicado, valioso ao ponto de valer o esforço, até que encontrei a chance que valeria a pena compartilhar esse tesouro e fora por tempos à decisão certa, mesmo entre tantas lágrimas. Arrependo-me? Sim, pois esse tesouro só era valioso a mim, para os outros uma porcelana barata bonita o suficiente apenas para ser tocada, ver de perto, sem se importar de derruba-la ou não, não tardou até que se quebrasse, até que me esfaqueassem de novo mas de maneira profunda como nunca antes. Sangrei. Estava cego sem menção alguma disso, sangrava, mas insistia e deitar a cabeça e chorar esperando pelo dia seguinte onde tudo melhoraria, os dias passaram a ter esse significado, um despertar para a espera pungente de 24h escuras pelo dia seguinte.

      Por fim parou de sangrar, não porque se curou a ferida, mas porque o sangue se esvaiu até não mais sobrar de si mesmo, agora esse tesouro que guardava deu lugar a uma cicatriz e apenas isto, feia, dilacerada, ojeriza, mas ainda assim, uma cicatriz é quente, novamente, depois de anos, decidi-me tentar outra vez mostrar minha cicatriz como um tesouro que, agora feio, só servia para ser derrubado de novo, nem mais digno de ser atribuído algum valor, foi dessa vez que me apunhalaram com uma lâmina de gelo que levou em seu fio o resto do meu calor. De uma vez por todas. Um coração congelado é o que levo no peito agora... Desculpe-me, me equivoquei em minha descrição.., Meu coração não é congelado, mas sim tornado em gelo, sem chance de regresso, os dias austeros voltaram, a espera lancinante cronometrada minuciosamente pelo carrasco relógio.

Caminhei por toda a vida olhando para o meu peito e protegendo o que eu julgava ter de melhor que não me dei conta do caminho que seguia, quando finalmente tive forças para erguer a cabeça e encarar com a frieza necessária o que havia ao redor, me deparei com o nebuloso do instante, uma estrada prolongada por um cenário que um dia pareceu ser verde, eu deveria ter visto quando as cores escorreram e o cinza tomou seu lugar como meu novo deus? Afundando no desespero a cada passo como lama, sufocando com o ar caustico dessa atmosfera, tentei, com meu último... Uma luz morna do tamanho de um chama de vela, tão pequena e triste que perdurou enquanto chorei por fora pela última vez, essa lagrima foi suficiente para apaga-la e leva-la de mim para sempre... A estrada agora me parece tão familiar, a névoa é tão espessa e grande, não importa quanto caminhe ou tente correr, não chega a lugar algum, tudo o que sinto é frio, frio e frio de novo, penso que vou me acostumar, mas não demora até que erga as sobrancelhas e busque esperanças num ruído metálico que volta e meia insiste em ecoar aos meus ouvidos, não são portões velhos de casas indiferentes, são os sons dos meus ossos, minhas juntas, minhas vísceras.
   
Se pudesse fazer um único pedido eu desejaria encarar meu reflexo e dizer-lhe a aceitar que não há ninguém no fim da estrada. É disso que vivo e que sou... Um instante congelado no tempo que caminha pelo limiar do que é real, como uma fotografia antiga que se manchou por possuir luz demais. Ali parada. Obediente ao regente cinza. Sem nunca mudar.

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