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toxina
alfredo jose dias

Robin Cook
TOXINA


Toxina
Um conceituado cirurgião cardíaco dos EUA atravessa um momento difícil em
sua vida. Está saindo de um casamento de anos e, no campo profissional, enfrenta
problemas com um plano de saúde que administra o hospital onde trabalha. Sua maior
alegria é a filha Becky, uma menina bonita, inteligente e talentosa.
Em uma noite de sexta-feira, os dois saem para jantar. Vão a uma lanchonete
comer hambúrgueres. Mas eles não podiam imaginar que a carne malpassada
escondesse uma variedade especialmente maligna da bactéria E. coli, que envenena o
sangue de Becky.
Incapaz de impedir a progressão da doença e vendo a administração do hospital
revogar seus últimos privilégios, ele entra em desespero. Enlouquecido pela dor, ele se
lança em uma investigação solitária para descobrir como e por que sua filha ficou
doente. A trilha de pistas leva às grandes indústrias de carne e a suas práticas
assustadoras. Auxiliado em sua busca pela ex-mulher, ele descobre que o preço a pagar
pela verdade pode ser a própria vida, ou pior, a de seus entes mais queridos.
Robin Cook
Este livro é dedicado às famílias que sofreram por causa da E Coli 0157:H7 e outras
doenças alimentares
Gostaria de agradecer a:
Beruce Berman, por suas sugestões no início deste projeto e, também, por sua crítica
inteligente do esboço de Toxina;
Nikki Fox, por compartilhar comigo sua extensa pesquisa com doenças alimentares;
Ron Savenor, por me ajudar a superar uma barreira em particular na minha própria
pesquisa;
Jean Reeds, pelos comentários e sugestões valiosos durante o progresso deste trabalho.

http://groups.google.com/group/digitalsource


PRÓLOGO
9 de janeiro
O céu era uma imensa abóboda de nuvens pesadas e escuras, que curvavam de
ponta a ponta o horizonte. Era o típico céu do Meio-Oeste americano naquela época do
ano. No verão, o solo era inundado por um mar de milho e soja, mas agora, em pleno
inverno, a paisagem era uma desolação gelada, com restolhos cobertos de neve suja e
algumas árvores desfolhadas, esqueléticas.
Nuvens de chumbo excretaram uma chuvinha preguiçosa durante todo o dia;
mais garoa do que chuva de verdade. Lá pelas dez horas a precipitação cessara. Quando
o velho furgão reformado tomou um desvio para uma estrada de terra, o único limpador
de pára-brisa que funcionava não era mais necessário.
— O que disse o velho Oakly? — perguntou Bart Winslow, que dirigia o furgão.
Bart e seu acompanhante, Willy Brown, sentado no banco do passageiro, eram
dois peões locais que podiam se passar por irmãos. Suas faces ásperas e enrugadas eram
o testemunho da vida árdua do campo. Ambos trajavam macacões sujos e usados por
cima dos suéteres de malha e mascavam tabaco.
— Benton Oakly não foi muito claro — respondeu Willy depois de limpar a
saliva do queixo com as costas da mão. — Disse apenas que uma de suas vacas
amanheceu doente.
— Doente como? — quis saber Bart.
— Parece que muito mal — respondeu Willy. — Caganeira da braba.
Ao longo dos anos, Bart e Willy tinham trocado o trabalho braçal pelo serviço
pelo qual os fazendeiros os chamavam de homens da quarta dimensão. Eles recolhiam
animais mortos, agonizantes, doentes ou incapacitados, especialmente vacas,
percorrendo as fazendas da região e transportando-as para a fábrica de ração. Não era
um serviço cobiçado, mas servia perfeitamente bem para os dois.
Assim que passaram por uma caixa de correio enferrujada, dobraram numa
segunda estradinha lamacenta, ladeada por uma cerca de arame farpado. Dois
quilômetros adiante entraram numa pequena fazenda. Bart conduziu o furgão até o
portão do celeiro, manobrou e entrou de ré. Tão logo puseram os pés para fora do
veículo, Ben Oakly apareceu.
— Tarde — disse Benton.
Era tão lacônico quanto Bart e Willy. Algo na paisagem parecia fazer calar as
pessoas. Benton era um homem alto, magro e com os dentes ruins. Manteve uma certa
distancia de Bart e Willy, imitado por seu cão, Shep, que estivera rosnando até os dois
descerem do furgão. Com o focinho crispado, sentindo o cheiro da morte, Shep
encolheu-se por trás de seu dono.
— No celeiro — disse Benton, fazendo um gesto com a mão antes de conduzir
os visitantes até o fundo do galpão. Parando diante de um cercado, apontou por cima da
grade.
Bart e Willy subiram na tábua para dar uma espiada e torceram o nariz. As fezes
frescas exalavam um terrível mau cheiro. Dentro do cercado, uma vaca visivelmente
doente estava deitada por cima da própria diarréia. Ela ergueu a cabeça cambaleante e
lançou um olhar para Bart e Willy. Uma de suas pupilas era cinza como cimento.
— O que há no olho dela? — perguntou Willy.
— É assim desde pequena — disse Benton. — Levou uma chifrada ou coisa
parecida.
— Só ficou doente hoje de manhã? — perguntou Bart.


— Isso mesmo — respondeu Benton. — Mas já não dá leite há mais de um mês.
Quero que ela saia daqui antes que contamine as outras.
— Tudo bem, nós cuidaremos dela — disse Bart.
— Ainda são vinte e cinco dólares para levar até a fábrica de ração?
— São — respondeu Willy — mas podemos jogar uma água nela antes de
colocá-la no furgão?
— Sinta-se em casa — disse Benton. — A mangueira está pendurada na parede.
Enquanto Bart abria a porteira do cercado, Willy foi buscar a mangueira.
Tomando cuidado para ver onde pisava, Bart deu umas palmadinhas no dorso da vaca.
Relutante, ela se levantou cambaleando.
Willy voltou com a mangueira e lavou o animal até que ficasse razoavelmente
limpo. Com afagos, os dois persuadiram-na a sair do cercado e, ajudados por Benton,
carregaram-na para fora e a enfiaram no furgão. Willy bateu a porta traseira do veículo.
— Quantas cabeças mais vocês têm aí dentro? — perguntou Benton.
— Quatro — disse Willy. — Apareceram todas mortas esta manhã. Algum tipo
de infecção está atacando na fazenda Silverton.
— Isso é horrível! — rosnou Benton, alarmado, entregando algumas notas
amassadas a Bart. — Suma logo com elas de minhas terras.
Bart e Willy deram uma cuspidela no chão e embarcaram cada um em seu lado
do carro. O motor velho e cansado cuspiu uma fumaça preta antes de empurrar o veículo
para fora da fazenda.
Como de hábito, Bart e Willy não trocaram uma palavra até que o furgão
chegasse à estrada. Bart acelerou e finalmente engatou a quarta marcha.
— Está pensando o mesmo que eu? — perguntou Bart.
— Acho que sim — disse Willy. — Essa vaca não ficou tão mal depois da
mangueirada. Com os diabos, parece até melhor do que a que vendemos para o
abatedouro na semana passada.
— Ainda fica de pé e pode até andar um pouco — comentou Bart.
— Está bem em cima da hora — disse Willy, consultando o relógio.
Os dois continuaram em silêncio até deixar a estrada vicinal e pegar uma pista
que contornava um vasto complexo industrial, comprido, baixo e com poucas janelas.
Um letreiro do tamanho de um outdoor dizia: HIGGINS E HANCOCK. Nos fundos do
prédio ficava um curral vazio que mais parecia um mar de lama pisoteada.
— Você espera aqui — disse Bart, estacionando perto de uma rampa que ligava
o curral ao interior da fábrica.
Bart desceu do furgão e desapareceu por trás da rampa. Willy também saltou e
encostou-se na porta traseira. Bart reapareceu cinco minutos depois, acompanhado de
dois sujeitos corpulentos, vestindo aventais brancos compridos e manchados de sangue,
botas amarelas e capacetes de plástico da mesma cor. Os dois usavam crachás de
identificação. No do mais forte, lia-se: JED STREET, SUPERVISOR. No outro:
SALVATORE MORANO, CONTROLE DE QUALIDADE. Jed trazia uma prancheta.
Bart fez um sinal, e Willy abriu a porta traseira do furgão. Salvatore e Jed
prenderam a respiração e examinaram o interior. A vaca doente ergueu a cabeça. Jed
perguntou a Bart:
— O animal fica em pé?
— Com certeza. Pode até andar um pouco.
Jed fitou Salvatore.
— O que diz, Sal?
— Onde está o inspetor? — quis saber Salvatore.
— O que acha? — disse Jed. — No vestiário, para onde sempre vai depois que


passa o último animal.
Salvatore enfiou a mão por baixo do avental branco e pegou o rádio de
comunicação que usava pendurado ao cinto. Ligou-o e levou-o à boca.
— Gary, aquele último tonel que vai para a Mercer Meats já está cheio?
A resposta veio em meio à estática:
— Quase.
— Muito bem — continuou Salvatore. — Estamos mandando mais um animal.
Salvatore desligou o rádio e disse para Jed:
— Vamos terminar logo com isso.
Jed balançou a cabeça e dirigiu-se a Bart:
— Está bem, negócio fechado, mas, como eu já disse, só pagamos cinqüenta
dólares.
— Cinqüenta está bom — concordou Bart.
Enquanto Bart e Willy subiam no furgão para tirar a vaca, Salvatore voltou pela
rampa e puxou do bolso um par de protetores de ouvido. Ao pôr os pés no interior do
abatedouro, já tinha se esquecido do animal doente. Sua única preocupação era com a
infinidade de relatórios que ainda teria de preencher antes de pensar em voltar para casa.
Com os protetores nos ouvidos, Salvatore não era perturbado pelo barulho
enquanto atravessava o pátio de abate do matadouro. Aproximou-se de Mark Watson, o
supervisor de linha, e gesticulou para ele.
— Temos mais um animal entrando — berrou Salvatore sobre alarido
ensurdecedor. — Mas é só para carne sem osso. Sem carcaça. Entendeu?
Mark juntou o indicador com o polegar para dizer que havia entendido.
Em seguida, Salvatore abriu a porta à prova de som que dava para o setor
administrativo do prédio. De volta à sua sala, pendurou o avental ensangüentado e o
capacete atrás da porta, sentou-se à mesa e concentrou-se nos formulários de rotina.
Absorto, Salvatore já tinha perdido a noção do tempo quando Jed apareceu
subitamente à porta.
— Temos um probleminha — disse Jed.
— O que é agora? — perguntou Salvatore.
— A cabeça daquela vaca doente despencou da esteira.
— Algum inspetor viu?
— Não — respondeu Jed. — Estão todos no vestiário, batendo papo com o
inspetor.
— Então mande recolocá-la no gancho e lavá-la com a mangueira.
— Tudo bem. Achei que devia ficar sabendo.
— Claro — disse Salvatore. — Para evitar qualquer problema, vou preencher
um Relatório de Ocorrência. Qual é o número do lote da cabeça desse animal?
Jed consultou a prancheta.
— Lote trinta e seis, cabeça cinqüenta e sete.
— Entendi — disse Salvatore.
Ed saiu do escritório e voltou para a área de abate. Lá chegando, cutucou o
ombro de José, uma espécie de faxineiro cujo serviço era varrer ininterruptamente todos
os restos espalhados pelo chão para os ralos. José tinha pouco tempo de casa. Manter os
varredores era um problema crônico por causa da natureza do trabalho.
José quase não falava inglês, e o espanhol de Jed era ainda pior. Portanto a
comunicação tinha de ser feita basicamente através de mímica. Jed gesticulou para que
José fosse ajudar Manuel, um dos esfoladores, a erguer a cabeça da vaca e pendurá-la
num dos ganchos móveis afixados à esteira rolante.
Depois de algum tempo, José finalmente conseguiu compreender. Felizmente,


ele e Manuel podiam se comunicar sem dificuldade, porque o serviço exigia duas etapas
e um esforço considerável. Primeiro, tiveram de colocar a cabeça, que pesava mais de
cinqüenta quilos, sobre a passarela suspensa. Depois foi preciso que eles próprios
subissem na passarela, para segurar a cabeça numa altura que desse para espetá-la em
um dos ganchos móveis.
Jed sinalizou com o polegar erguido para os dois homens ofegantes, que no
último segundo quase tinham deixado cair a carga escorregadia. Em seguida, Jed lavou
com o jato da mangueira a sujeira da cabeça esfolada do animal enquanto ela passava
pendurada no trilho da esteira. Mesmo para o tarimbado Jed, a catarata no olho dava
uma aparência horripilante àquela cabeça. Entretanto, ficou satisfeito com a quantidade
de imundícies que saiu sob a alta pressão da água. E, no momento em que a cabeça
passou pela abertura da parede a caminho da sala de desossa, tinha um aspecto
razoavelmente limpo.

1
Sexta-feira, 16 de janeiro
Sterling Place Mall resplandecia com o mármore, o bronze cintilante e a madeira
lustrada de suas lojas luxuosas. A Tiffany competia com a Cartier, a Neiman-Marcus
com Saks. O concerto n°. 23 para piano, de Mozart, era tocado em alto-falantes ocultos.
Pessoas elegantes, calçando Gucci e trajando casacos Armani, aproveitavam aquela
tarde de sexta-feira para circular pelos corredores, avaliando as ofertas pós-natalinas.
Em circunstâncias normais, Kelly Anderson não se importaria de ficar ali boa
parte da tarde. Como repórter de TV, aquilo era bem diferente das matérias sérias, e em
sua maioria perigosas, para as quais era freqüentemente destacada e que precisava
cobrir em qualquer ponto da cidade para o jornal das seis ou das onze. Mas, naquela
sexta-feira em especial, não estava conseguindo o que queria no shopping.
— Parece brincadeira — comentou Kelly, irritada e ansiosa, olhando ao redor à
procura de um provável candidato para entrevistar, mas ninguém parecia adequado.
— Acho que chega por hoje — disse Brian Washington, um afro-americano
magricela e desengonçado; o operador de vídeo predileto de Kelly. Em sua opinião, ele
era o melhor que a WENE tinha para oferecer, e Kelly manobrou, bajulou e até fez
ameaças para conseguir que a emissora o mandasse trabalhar com ela.
As bochechas de Kelly se incharam antes que ela soltasse a respiração em uma
expressão de desespero.
— Droga, você tem razão — concordou ela. — Estamos desperdiçando tempo.
Aos trinta e quatro anos, Kelly Anderson era uma mulher agressiva, sensata e
inteligente, que buscava o reconhecimento e a passagem para os telejornais em rede
nacional. Muitos acreditavam que suas chances eram grandes, caso conseguisse
encontrar uma história que seduzisse a opinião pública. Era dona de uma imagem
profissional perfeita, com suas feições determinadas e os olhos penetrantes emoldurados
por cachos de cabelos louros. Para obter maior destaque, sempre se vestia com extrema
elegância, na última moda, além de conservar a maquiagem absolutamente impecável.
Kelly passou o microfone para a mão direita para poder olhar para o relógio.
— E para piorar, estamos ficando sem tempo. Preciso ir buscar minha filha. A
aula de patinação já acabou.
— Tudo bem — disse Brian. Ele tirou a câmera do ombro e desconectou o cabo
de força. — Também preciso apanhar a minha na creche.
Kelly guardou seu microfone e foi ajudar Brian a desmontar o equipamento.
Com a habilidade dos mais experientes, penduraram tudo nos ombros e saíram


caminhando para o centro do shopping.
— O que está parecendo óbvio — argumentou Kelly — é que as pessoas não
estão ligando a mínima para a fusão do Hospital Samaritano com o Centro Médico
Universitário, a menos que tenham precisado de internação nos últimos seis meses.
— Não é uma matéria que sensibilize facilmente o público — disse Brian.
— Não há crime, sexo ou escândalos, nem gente famosa.
— As pessoas deveriam se importar — lamentou-se Kelly.
— O que elas deveriam fazer nunca coincide com o que realmente fazem —
comentou Brian. — Você sabe disso.
— O que descobri é que jamais deveria ter pautado essa matéria para o noticiário
desta noite. Estou nervosa. Diga-me como transformá-la em algo atraente.
— Se tivesse essa capacidade, eu seria o astro, e não o câmera — respondeu
Brian com uma risada.
Saindo de um dos radiantes corredores do Sterling Place Mall, Kelly e Brian
chegaram ao espaçoso epicentro. Bem no meio, sob uma clarabóia com
aproximadamente três andares de altura, ficava o ringue oval. A superfície gelada
brilhava sob a iluminação de mercúrio.
Cerca de uma dúzia de crianças e alguns adultos deslizavam pelo ringue em
todas as direções. O caos aparente era devido ao intervalo entre as aulas das turmas
intermediária e avançada.
Assim que avistou o saiote vermelho da filha, Kelly acenou e chamou-a pelo
nome. Caroline Anderson acenou de volta, mas continuou patinando no mesmo ritmo.
Caroline herdara muito de sua mãe. Era esperta, atlética e decidida.
— Vamos logo, querida — disse Kelly, quando Caroline finalmente se
aproximou. — Precisamos ir para casa. Mamãe tem prazo para entregar a matéria e está
com um sério problema.
Caroline deixou o ringue, caminhou até o banco nas pontas das lâminas dos
patins e se sentou, dizendo:
— Quero comer um hambúrguer no Onion Ring. Estou morta de fome.
— Vai depender de seu pai, meu amor — disse Kelly. — Vamos, apresse-se!
Kelly inclinou-se e tirou os sapatos de Caroline da mochila, colocando-os sobre
o banco, ao lado da filha
— Temos ali uma patinadora excepcional — comentou Brian.
Kelly ergueu o pescoço, protegendo com a mão os olhos da fonte de iluminação.
— Onde?
— Ali no centro — respondeu Brian, apontando. — De roupa cor-de-rosa.
Kelly olhou naquela direção e logo ficou evidente a quem ele se referia.
Uma menina com aproximadamente a mesma idade de Caroline executava um
exercício de aquecimento que tinha feito muita gente parar para olhar.
— Puxa! — exclamou Kelly. — Ela é boa mesmo. Parece uma profissional.
— Não é assim tão boa — disse Caroline, trincando os dentes na tentativa de
arrancar do pé um dos patins.
— Pois parece excelente — disse Kelly. — Quem é a garota?
— Seu nome é Becky Reggis. — Depois de desistir de arrancá-los à força,
Caroline preferiu desamarrar os cordões dos patins — Ela foi a campeã estadual infantil
do ano passado.
Sentindo-se observada, a menina executou dois rodopios amplos em série, antes
de contornar o fundo da pista com os calcanhares unidos. Alguns espectadores
irromperam em aplausos espontâneos.
— Ela é incrível!— disse Kelly.


— E foi chamada para participar do campeonato nacional deste ano —
acrescentou Caroline, relutante.
— Hummm — murmurou Kelly, fitando Brian. — Podemos ter uma história aí.
Brian deu de ombros.
— Talvez para o jornal das seis — disse. — Certamente não para o das onze.
Kelly voltou a atenção para a patinadora.
— Seu sobrenome é Reggis, certo?
— Isso! — respondeu Caroline. Já tinha tirado os dois patins e agora procurava
os sapatos dentro da mochila.
— Não seria filha do Dr. Kim Reggis?
— Só sei que o pai dela é médico — disse Caroline.
— Como sabe?
— Ela estuda na minha escola. Está um ano mais adiantada que eu.
— Ora, mas que boa surpresa!
— Conheço essa efervescência em seu olhar — disse Brian. — Parece um leão
pronto para saltar sobre a presa. Você está tramando alguma coisa?
— Não consigo encontrar meus sapatos — reclamou Caroline.
— Acabo de ter uma idéia — disse Kelly, pegando os sapatos de Caroline no
banco e pondo-os no colo da filha. — O Dr. Kim Reggis seria perfeito para essa matéria
sobre a fusão. Ele era o chefe da cardiologia no Hospital Samaritano antes da fusão, mas
depois foi excluído por motivos políticos. Aposto que deve ter algo quente a dizer.
— Sem dúvida — concordou Brian. — Mas será que estaria disposto a
conversar com você? A imagem dele não ficou muito boa depois daquela reportagem
sobre "Pobres menininhos ricos" que você fez.
— Oh, aquilo são águas passadas — minimizou Kelly.
— Talvez para você, mas duvido que o doutor pense da mesma forma.
— Foi ele quem pediu. Tenho certeza de que compreendeu. Pelo que há de mais
sagrado, não consigo entender como os cirurgiões cardíacos não percebem que ficar
choramingando sobre as taxas de reembolso do Medicare não causa a menor emoção no
público, quando eles têm renda de mais de seis dígitos por ano. Estão querendo mesmo
é mais mordomias.
— Merecendo ou não, só consigo imaginá-lo furioso. Duvido que aceite falar
com você.
— Você está se esquecendo de que cirurgiões como o Dr. Kim Reggis adoram
publicidade — disse Kelly. — De qualquer forma, acho que vale a pena correr o risco.
O que temos a perder?
— Tempo — respondeu Brian.
— Que, aliás, não temos muito. — Virando-se para Caroline, Kelly perguntoulhe: — Querida, saberia dizer se a mãe de Becky está aqui?
— Claro, é aquela de suéter vermelho — respondeu Caroline, apontando.
— Muito conveniente — comentou Kelly, erguendo o pescoço para localizá-la.
— Essa é realmente uma feliz coincidência. Ouça querida, termine de calçar os sapatos.
Eu volto já. — Kelly virou-se para Brian: — Agüente firme.
— Vai fundo, garota — disse Brian com um sorriso.
Kelly contornou o ringue e aproximou-se da mãe de Becky. A mulher
aparentava a mesma idade que ela. Era atraente e elegante, mesmo por trás das roupas
conservadoras. Kelly não via um suéter de marinheiro sobre uma blusa de gola branca
numa mulher desde seus tempos de escola. A mãe de Becky estava inteiramente
concentrada num livro que em nada se parecia com um Best-seller de ficção. Ela
sublinhava as páginas cuidadosamente com uma caneta amarela de marcar texto.


— Perdoe-me — disse Kelly — espero não estar incomodando.
A mãe de Becky ergueu os olhos. Era uma mulher de pele morena, os traços
salientes, cílios castanho-avermelhados. Suas feições eram bem delineadas e sua
expressão era gentil e irradiava uma simpatia natural.
— Está tudo bem — respondeu a mulher. — Posso ajudá-la?
— É a Sra. Reggis? — perguntou Kelly.
— Sim, mas pode me chamar de Tracy.
— Obrigada. Parece leitura séria para um ringue.
— Preciso aproveitar todos os momentos disponíveis — explicou ela.
— Parece um livro didático.
— É verdade! Acabei retomando à faculdade depois de velha.
— É bastante louvável.
— Eu diria desafiador — corrigiu Tracy.
— Qual o título?
Tracy virou o livro para mostrar a capa: Avaliação da personalidade da criança e
do adolescente.
— Caramba! Parece pesado — ponderou Kelly.
— Nem tanto — afirmou Tracy. — Na verdade, é bem interessante.
— Tenho uma filha de nove anos — disse Kelly. — Talvez seja útil ler sobre o
comportamento adolescente antes que o teto desabe sobre minha cabeça.
— Mal é que não pode fazer — prosseguiu Tracy. — Os pais precisam de toda
ajuda que possam obter. A adolescência pode ser um período difícil e, por minha
própria experiência, sei que quando as dificuldades podem acontecer, elas acontecem.
— Você parece conhecer um pouco sobre o assunto.
— Um pouco — admitiu Tracy. — Antes de retomar à faculdade, no semestre
passado, estava trabalhando principalmente em terapia de crianças e adolescentes.
— Psicóloga? — perguntou Kelly.
— Assistente social — respondeu Tracy.
— Interessante — disse Kelly para mudar de assunto. — Meu nome é Kelly
Anderson e trabalho no noticiário da WENE. Na verdade, vim até aqui para me
apresentar a você.
— Eu sei quem você é — falou Tracy com certo desdém.
— Opa! — suspirou Kelly. — Tenho a estranha sensação de que minha
reputação me precede. Espero que não tenha ficado com raiva de mim por causa
daquela reportagem sobre a questão dos cirurgiões cardíacos e o Medicare.
— Achei que foi desleal. Kim tinha a impressão de que você seria solidária
quando consentiu em dar a entrevista.
— E fui, até certo ponto. Afinal, enfoquei ambos os lados da questão.
— Só na questão da redução dos salários — argumentou Tracy. — E que você
transformou no centro da discussão. Na verdade, este é somente um dos aspectos
envolvendo a questão dos cirurgiões cardíacos.
Uma silhueta rósea passou em alta velocidade à frente de ambas, desviando-lhes
a atenção para o ringue. Becky aumentara a velocidade e agora parecia flutuar de costas,
a coluna curvada para trás. Em seguida, para satisfação da platéia improvisada,
executou um giro triplo com perfeição, arrancando mais aplausos do público. Kelly deu
um assovio de admiração.
— Sua filha é uma patinadora fantástica — elogiou.
— Obrigada — disse Tracy. — Achamos que ela é uma pessoa fantástica.
Kelly observou Tracy por um instante, numa tentativa de interpretar aquele
comentário. Não conseguia definir se fora arrogante ou meramente informativo. O


semblante de Tracy, porém, não dava muitas pistas. Ela respondeu ao olhar de Kelly
com uma expressão tão sentimental quanto enigmática.
— Becky herdou da mãe esse talento para a patinação? — perguntou Kelly.
Tracy soltou uma boa gargalhada e jogou a cabeça para trás.
— Dificilmente — respondeu. — Nunca calcei patins nesses meus pés
atrapalhados. Não sabemos de onde vem esse talento. Um dia ela simplesmente disse
que queria patinar e o resto é história.
— Minha filha disse que Becky vai participar do campeonato nacional deste ano.
Pode ser uma boa história para a WENE.
— Acho que não. Becky recebeu o convite, mas decidiu não participar.
— Que pena! Você e nosso bom doutor devem ter ficado tristes.
— O pai não ficou, digamos, nas nuvens de felicidade — disse Tracy. — Mas,
para ser honesta, eu me sinto aliviada.
— E por quê?
— Uma competição desse nível exige muito sacrifício de qualquer um,
principalmente de uma criança nessa idade. Nem sempre é mentalmente saudável. É
muito risco por um retorno incerto demais.
— Hummm — ponderou Kelly. — Preciso pensar um pouco mais sobre isso.
Mas, por enquanto, estou com outro problema me pressionando. Preciso fazer uma
matéria para o noticiário das onze, já que hoje completamos seis meses desde a fusão do
Samaritano com o Centro Médico Universitário, sob a nova direção do AmeriCare. O
que eu buscava era a reação da comunidade, mas bati de frente com uma total
indiferença do público. Por isso gostaria muito de obter um depoimento de seu marido
sobre o assunto, já que sei que ele tem uma posição assumida. Existe a possibilidade
dele aparecer por aqui hoje?
— Não — respondeu Tracy, com uma risadinha, como se Kelly tivesse sugerido
um absurdo. — Ele nunca deixa o hospital antes das seis ou sete da noite nos dias de
semana. Nunca!
— Isso é péssimo — comentou Kelly, enquanto sua mente processava
velozmente várias possibilidades. — Diga-me, acredita que seu marido aceitaria falar
comigo?
— Realmente, não faço a menor idéia — respondeu Tracy. — Veja bem,
estamos divorciados há meses, de modo que não sei como ele se sente a seu respeito no
momento.
— Sinto muito — disse Kelly com sinceridade. — Eu não sabia
— Sem constrangimentos. Foi melhor para ambos, creio eu. Uma casualidade
dos tempos e um choque de personalidades.
— Bem, acredito que ser esposa de um cirurgião, principalmente cardíaco, não
deve ser nada fácil. Quero dizer, eles acham que tudo é secundário comparado ao que
fazem.
— Humm — balbuciou Tracy, evasivamente.
— Eu não seria capaz de agüentar. Personalidades egoístas, procurando sempre
estar no centro das atenções, como seu ex-marido, não combinam comigo.
— Talvez esta seja a forma que você encontra para se mostrar um pouco —
sugeriu Tracy.
— Você acha? — Kelly fez uma pausa, reconhecendo que falava com uma
pessoa gentil, porém não menos inteligente e perspicaz. — Talvez tenha razão. De
qualquer forma, deixe-me perguntar uma coisa: saberia dizer onde poderia encontrar seu
ex-marido neste exato momento? Eu realmente gostaria muitíssimo de conversar com
ele.


— Provavelmente no centro cirúrgico. Por causa da redução de salas de
operação, tem sido obrigado a atender todos os seus pacientes às sextas-feiras.
— Obrigada. Acho que vou direto até lá para ver se ainda consigo pegá-lo.
— Não há de quê — respondeu. Ela retribuiu o aceno de Kelly. Observou-a
afastar-se a passos rápidos. — Boa sorte — murmurou Tracy consigo mesma.

2
Sexta-feira, 16 de janeiro
Todas as vinte e cinco salas cirúrgicas do Centro Médico Universitário eram
idênticas. Recentemente reformadas, tinham sido reequipadas; eram o que havia de
melhor e mais moderno. Os assoalhos tinham sido revestidos com um piso sintético
branco que imitava granito. As paredes, de azulejo cinza. As luminárias e os móveis
eram de aço inoxidável ou níquel brilhante.
A sala de número 20 era uma das duas destinadas às cirurgias cardíacas e, às
quatro e quinze da tarde, ainda se encontrava em plena atividade. Mal havia espaço em
seu interior, no meio de cirurgiões, enfermeiras, instrumentadoras, anestesistas e seus
assistentes, além do indispensável equipamento de alta tecnologia. Naquele exato
instante, o coração imóvel do paciente era inteiramente visível embaixo de uma
profusão de ataduras sujas de sangue, afastadores de aço e chapas verde-claras.
— Ok, acabou — disse o Dr. Reggis, enquanto entregava a agulha da sutura a
uma das instrumentadoras e esticava as costas para aliviar a tensão.
Ele estava operando desde as sete e meia da manhã. Aquela era sua terceira e
última cirurgia. — Vamos interromper a solução de cardioplegia e pôr esse coração em
funcionamento.
Ao comando de Kim, a tela do cardiógrafo registrou uma pequena oscilação. Os
interruptores foram acionados.
— Esquentando — anunciou uma voz para ninguém em particular. — A
anestesista levantou a cabeça e ficou observando a tela.
— Quanto tempo ainda? — perguntou.
— Vou levar cinco minutos com a sutura — respondeu Kim — Desde que o
coração colabore. Ele parece promissor.
Depois de algumas batidas erráticas, o coração retomou o ritmo normal.
— Muito bem, podemos desligar o cardiógrafo.
Durante os vinte minutos seguintes ninguém disse uma palavra. Todos na equipe
conheciam bem suas funções e por isso não era necessário comunicação verbal. Depois
que o esterno aberto foi costurado, Kim e o Dr. Tom Bridges afastaram-se do corpo
enfaixado do paciente e começaram a retirar os aventais esterilizados, as luvas e os
protetores faciais de plástico. Enquanto isso, os residentes da cirurgia torácica ocuparam
seus lugares.
Kim chamou a atenção dos residentes:
— Quero uma restauração plástica nessa incisão. Entendido?
— Perfeitamente, Dr. Reggis — disse Tom Harkly. Tom era o residente-chefe da
torácica.
— Mas não precisa fazer disso sua obra-prima — brincou Kim. — O paciente já
passou por muitas coisas.
Kim e Tom deixaram a sala de operações e foram lavar o talco das mãos na pia
do hall interno. O Dr. Tom Bridges era cirurgião cardíaco como ele. Trabalhavam


juntos havia anos e tinham se tomado amigos, embora mantivessem um relacionamento
essencialmente profissional. Freqüentemente, cobriam o horário um do outro,
especialmente nos fins de semana.
— Foi um trabalho de mestre — comentou Tom. — Não sei como consegue
encaixar aquelas válvulas tão perfeitamente e fazer com que isso pareça tão fácil.
— Com a prática desenvolvida ao longo dos anos,
Kim adquirira especial habilidade na reposição de válvulas cardíacas. Tom
especializara-se mais na implantação de pontes.
— Do mesmo modo como não consigo entender como pode suturar aquelas
ínfimas artérias coronarianas do jeito que faz — respondeu Kim.
Quando se afastou da pia, Kim entrelaçou os dedos e flexionou os braços por
sobre seus quase dois metros de altura. Em seguida, dobrou-se para a frente até alcançar
o chão com as palmas das mãos abertas, mantendo as pernas bem esticadas, para forçar
a cintura. Kim era um tipo atlético, forte e em boa forma, que tinha jogado futebol
americano, basquete e beisebol na Universidade de Dartmouth. Devido às exigências do
trabalho, atualmente seus esportes estavam reduzidos a um tênis esporádico e muitas
horas na bicicleta ergométrica de sua casa.
Tom, por sua vez, já tinha desistido. Ele também tinha jogado futebol americano
na universidade, mas após anos de vida sedentária, a massa muscular que não perdera
tinha se transformado praticamente em pura gordura. Ao contrário de Kim, tinha a
barriga de um bebedor de chope, apesar de raramente tomar cerveja.
Os dois atravessaram o corredor azulejado, que àquela hora do dia parecia
relativamente calmo. Apenas nove salas de operação estavam em atividade, além das
duas de emergência. Era o andamento normal do turno da tarde.
Kim coçou o rosto angular mal barbeado. Como de costume, ele tinha se
barbeado às cinco e meia e, agora, doze horas depois, uma sombra cobria-lhe as faces.
Passou a mão pelos cabelos castanhos e longos.
Quando era adolescente, no início dos anos 70, usava-os abaixo dos ombros.
Agora, aos quarenta e três anos de idade, seu cabelo ainda era considerado comprido
para alguém de sua posição, embora fosse muito mais curto do que costumava ser.
Kim verificou as horas no relógio preso ao jaleco.
— Droga, já são cinco e meia, e ainda nem fiz minhas visitas! Gostaria de não
precisar operar às sextas-feiras. Sempre atrapalha qualquer plano para o fim-de-semana.
— Pelo menos agora tem seu horário comprimido — disse Tom — Com certeza
não é mais como no Samaritano, quando você era o chefe.
— Nem me fale — disse Kim. — Com o AmeriCare dando as cartas e o atual
status da profissão, duvido que nos dias de hoje eu fosse estudar medicina.
— Eu também — concordou Tom. — Agora, então, com essas novas taxas de
reembolso do Medicare, permaneci acordado a noite passada fazendo contas. Estou com
medo de ficar completamente sem dinheiro depois de pagar as despesas de meu
consultório. Ora, em que situação estamos? A coisa anda tão mal, que Nancy e eu já
pensamos em vender a casa.
— Boa sorte — disse Kim. — A minha está à venda há cinco meses e não recebi
sequer uma oferta que merecesse estudo.
— Já tive que tirar os garotos da escola particular — disse Tom. — Mas, enfim,
eu mesmo freqüentei a escola pública.
— Como vai você com Nancy?
— Para ser honesto, não muito bem — disse Tom. — O ambiente anda
carregado.
— Sinto muito, sei como é. Acabo de passar por isso. É uma fase estressante.


— Não é o que eu esperava a essa altura da vida — disse Tom, soltando um
suspiro.
— Nem eu.
Os dois pararam logo depois da escrivaninha da sala de operações, bem diante
da enfermaria.
— Por acaso vai ficar na cidade durante o fim-de-semana? — perguntou Tom.
— Com certeza — respondeu Kim. — Por quê?
— Aquele paciente que você me ajudou a operar na terça-feira. Ele apresenta
uma hemorragia residual e, se não parar, vão precisar de mim. Se acontecer, poderia
contar com você para me ajudar?
— Ligue para o meu celular — disse. — Estarei disponível. Minha ex-mulher
quis ficar livre todo o fim-de-semana. Acho que está saindo com alguém. Pelo menos
estarei na companhia de Becky.
— E como Becky está reagindo ao divórcio?
—Muito bem. Melhor do que eu, com certeza. No momento, ela é a única luz em
minha vida.
— Creio que as crianças possuem uma capacidade de recuperação bem maior do
que imaginamos — ponderou Tom.
— Aparentemente sim — concordou Kim. — Ah, e obrigado pela ajuda de hoje.
Desculpe ter demorado tanto com a segunda cirurgia.
— Problema algum. Foi um trabalho virtuoso, uma experiência merecedora.
Vejo você no vestiário da cirurgia.
Kim foi para a enfermaria. Hesitante, da soleira da porta ele procurou pelos
leitos de seus pacientes. O primeiro que viu foi o de Sheila Donlon. Ela fora seu caso
precedente e extremamente difícil, tendo de trocar duas válvulas em vez de uma.
Kim aproximou-se do leito. Uma das enfermeiras da enfermaria estava ocupada,
trocando o frasco de soro, já quase vazio. Os olhos experientes de Kim checaram
primeiro a cor da paciente e depois os monitores. O ritmo cardíaco era normal, assim
como a pressão e a oxigenação arterial.
— Está tudo bem? — perguntou Kim, enquanto erguia o prontuário médico para
dar uma olhada nos gráficos.
— Nenhum problema — respondeu a enfermeira sem interromper sua tarefa.
— Seu estado é estável e ela está bem-disposta.
Kim repôs a prancheta com o prontuário no lugar e aproximou-se mais do leito.
Levantou cuidadosamente o lençol e verificou as roupas da mulher. Kim sempre
instruíra seus residentes a que deixassem os pacientes com o mínimo necessário de
roupas. Se ocorresse uma hemorragia inesperada, preferia ficar sabendo o mais
rapidamente possível.
Satisfeito, Kim cobriu a mulher e procurou o segundo paciente. Se a metade dos
leitos estava ocupada, por isso ele não demorou muito.
— Onde está o Sr. Glick? — perguntou Kim. Ralph Glick fora o paciente da
primeira cirurgia.
— Pergunte à Sra. Benson, no balcão — respondeu a enfermeira, preocupada em
ajeitar o estetoscópio nos ouvidos enquanto tirava a pressão de Sheila Donlon.
Irritado pela falta de colaboração, Kim dirigiu-se ao balcão da recepção, mas
encontrou a Sra. Benson, a enfermeira-chefe, igualmente ocupada. Estava dando
instruções detalhadas a alguns empregados da manutenção que deveriam desmontar,
limpar e trocar um dos leitos.
— Com licença — disse Kim. — Estou procurando...
A Sra. Benson fez um sinal de que estava ocupada. Kim teve vontade de


reclamar que seu tempo era mais valioso que o dos zeladores, mas não o fez. Preferiu
equilibrar-se na ponta dos pés e procurar uma vez mais por seu paciente.
— O que posso fazer para ajudá-lo, Dr. Reggis? — perguntou a Sra. Benson
assim que os empregados saíram andando na direção do leito recentemente desocupado.
— Não estou vendo o Sr. Glick — disse Kim, procurando-o com o olhar pela
sala.
— O Sr. Glick foi mandado para o andar dele — disse a Sra. Benson,
sumariamente. Ela pegou o caderno de controle de medicamentos e abriu na página que
queria.
Kim a fitou com os olhos faiscando.
— Mas eu fiz um pedido específico para que ele fosse mantido aqui até eu
terminar a última cirurgia.
— O estado do paciente era estável — prosseguiu a Sra. Benson. — Não havia
motivo para manter outro leito ocupado.
Kim suspirou.
— Mas vocês têm muitos leitos. Era só uma questão de...
— Sinto muito, Dr. Reggis — interrompeu a Sra. Benson. — A questão é que o
Sr. Glick mostrou-se clinicamente apto para sair.
— Mas eu tinha pedido para que não o removessem daqui. Isso teria me
economizado tempo.
— Dr. Reggis — disse a Sra. Benson, vagarosamente. — Com todo o respeito
que merece, a equipe da enfermaria não trabalha exclusivamente para o senhor. Nós
temos regras. Trabalhamos para o AmeriCare. Se tem alguma dúvida quanto a isso,
sugiro que procure um dos administradores.
Kim sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Começou a discursar sobre o conceito
de trabalho de equipe, mas logo desistiu. A Sra. Benson tinha concentrado sua atenção
no caderno de folhas soltas em sua mesa.
Rosnando epítetos bem escolhidos, Kim deixou a enfermaria. Sentiu saudades
dos velhos tempos no Hospital Samaritano. Cruzou o hall até a recepção e parou em
frente à escrivaninha da sala de operações. Pelo interfone, checou a situação do último
paciente. A voz de Tom Harkly assegurou-lhe que ele reagia dentro do quadro esperado.
Kim saiu do setor cirúrgico e seguiu pelo corredor até a recentemente te
inaugurada sala familiar. Era uma das poucas inovações implantadas pelo AmeriCare
que Kim aprovava. Surgira da preocupação do AmeriCare com amenidades. O salão era
especificamente destinado aos parentes daqueles que estavam sendo operados ou em
trabalho de parto. Antes da incorporação do Centro Médico Universitário ao
AmeriCare, não existia um local apropriado para os membros da família esperarem.
Àquela hora do dia, a sala não estava muito cheia. Somente alguns futuros pais
caminhavam de um lado para o outro ou nervosamente folheavam revistas, enquanto
aguardavam as cesarianas de suas esposas. Num dos cantos, um padre consolava um
casal angustiado.
Kim procurou ao redor pela Sra. Gertrude Arnold, mulher do último paciente.
Não estava com a menor disposição para falar com ela. Era-lhe difícil suportar a
personalidade da mulher. Mas ele sabia que tinha a responsabilidade de lhe comunicar o
estado do marido. Encontrou-a sentada no canto oposto ao do casal transtornado lendo
uma revista.
— Sra. Arnold — disse Kim, forçando um sorriso.
Levando um susto, Gertrude ergueu os olhos. Por uma fração de segundo seu
rosto registrou surpresa, mas assim que reconheceu Kim, ficou visivelmente irritada.
— Bem, já não era sem tempo! — reclamou a Sra. Arnold. — O que está


acontecendo? Houve algum problema?
— Problema algum — assegurou-lhe Kim. — Muito pelo contrário. Seu marido
reagiu muito bem à cirurgia. Ele está sendo...
— Mas já são quase seis horas! — reclamou, veemente. — O senhor disse que
terminaria às três.
— Foi uma estimativa, Sra. Arnold — disse Kim, esforçando-se para não alterar
o tom da voz, apesar da irritação. Tinha preparado uma boa resposta, mas só iria piorar
ainda mais a situação. — Infelizmente, o caso anterior tomou mais tempo que o
esperado.
— Então meu marido deveria ter ido na frente — esbravejou Gertrude. — O
senhor me deixou esperando aqui o dia inteiro sem saber o que estava se passando. Eu
estou um lixo!
Kim perdeu o controle e, apesar do esforço, não conseguiu evitar que seu rosto
se contorcesse num sorriso deturpado.
— Não sorria na minha cara, meu jovem — reclamou Gertrude. — Quer saber o
que penso? Vocês, médicos, acham que são grandes e poderosos e podem fazer gente
comum esperar o tempo todo.
— Sinto muito que meu procedimento a tenha angustiado. Tentamos fazer o
melhor possível.
— Então me deixe dizer o que mais aconteceu — prosseguiu Gertrude. — Um
dos administradores do AmeriCare me procurou e disse que o AmeriCare não pagará
pelo primeiro dia de internação de meu marido. Eles disseram que ele deveria ser
admitido esta manhã, no dia da cirurgia, e não na véspera. O que tem a dizer sobre isso?
— Este é um problema crônico que estou tentando resolver com a administração
— respondeu Kim. — Se um paciente apresenta um quadro tão negativo como era o de
seu marido antes da cirurgia, eu não posso permitir, em sã consciência, que ele seja
internado no dia da cirurgia.
— Bem, eles disseram que não vão pagar — disse Gertrude — E nós também
não podemos.
— Se o AmeriCare não ceder, eu tiro do meu bolso — disse Kim.
Gertrude deixou cair o queixo.
— O senhor vai pagar?
— Já aconteceu antes, e eu mesmo paguei — respondeu Kim. — Agora, quanto
a seu marido, ele logo se restabelecerá. Vai permanecer na UTI até seu estado ficar
estabilizado e depois voltará para o andar da cardiologia. Poderá vê-lo, então.
Kim deu meia-volta e deixou a sala, fingindo não escutar a voz da Sra. Arnold
gritando seu nome.
Retornou pelo corredor e atravessou o saguão do setor cirúrgico, onde um grupo
de anestesistas e enfermeiras aproveitavam uma folga para conversar. Kim
cumprimentou alguns dos colegas que o reconheceram. Trabalhando no Centro Médico
Universitário havia apenas seis meses, desde a implementação da fusão, não conhecia
bem a equipe, principalmente nos turnos da tarde e da noite.
Assim que entrou no vestiário, Kim desabotoou o avental, arrancou-o com raiva
e jogou-o para dentro do cesto de roupa suja. Sentou-se, então, no banco em frente aos
armários e começou a soltar o relógio do cós da calça. Tom, que já tinha saído do
banho, estava ocupado, vestindo a camisa.
— Antigamente, eu sentia uma certa euforia depois do término de uma cirurgia
— comentou Kim. — Atualmente, sinto apenas uma ansiedade desagradável.
— Conheço a sensação — disse Tom.
— Corrija-me se estiver errado. Houve um tempo em que dava prazer trabalhar.


Kim se virou do espelho com um risinho.
— Perdoe-me por rir, mas você diz isso como se fosse uma revelação
transcendental.
— Não estou falando em termos econômicos — disse Kim. — Refiro-me às
pequenas coisas, como o respeito da equipe e a gratidão dos pacientes. Hoje em dia não
se tem mais em quem confiar.
— Os tempos mudaram — concordou Tom. — Principalmente depois que os
planos de saúde e o governo se associaram para fazer de nós, especialistas, um bando de
miseráveis. Às vezes imagino um desses burocratas chegando a mim para um
transplante e eu o entregando nas mãos de um clínico geral.
Kim levantou-se e tirou a calça.
— O mais irônico é que tudo isso está acontecendo exatamente numa época em
que nós, cirurgiões cardíacos, temos em mãos o que há de melhor para oferecer ao
público.
Kim já ia arremessar a calça no cesto de roupas ao lado da porta quando esta se
abriu e uma das anestesistas, a Dra. Jane Flanagan, enfiou a cabeça para dentro. Ao
deparar-se com a visão do corpo semi-desnudo de Kim, deixou escapar um assobio.
— Esteve bem perto de virar cabide para essas calças meladas de suor —
preveniu Kim.
— Valeria a pena pelo visual — respondeu Jane, em tom de brincadeira.
— Mas estou aqui para avisá-lo de que seu público aguarda aqui fora no salão.
A porta se fechou e o rosto alegre de Jane desapareceu.
Kim olhou para Tom.
— Público? O que ela quis dizer?
— Meu palpite é que tem visita. E como ninguém entrou aqui presumo que seja
mulher.
Kim pegou um jaleco limpo no armário e o vestiu. "E agora?”, pensou, irritado.
Fez uma pausa diante da porta e virou-se para Tom:
— Se for a Sra. Arnold, mulher do meu último paciente, eu vou gritar!
Kim saiu do vestiário para o salão. Imediatamente viu que não se tratava de
Gertrude Arnold. Kelly Anderson estava parada em frente à máquina de café, servindose de uma xícara. Alguns metros atrás, estava seu assistente, com a câmera pendurada
no ombro.
— Ah, Dr. Reggis! — exclamou Kelly, assim que se deu conta do surpreso e
nada satisfeito Kim. — Mas quanta bondade sua, vindo falar conosco!
— Com mil diabos, como conseguiu entrar aqui? — perguntou Kim, indignado.
— E como me encontrou? — A sala dos cirurgiões era uma espécie de santuário que
nem mesmo os outros médicos não cirurgiões ousavam violar. Para Kim, a idéia de ser
confrontado por alguém ali, ainda mais com Kelly Anderson, era absolutamente
inaceitável.
— Sua ex-esposa nos informou de que estaria aqui — disse Kelly. — E sobre
como conseguimos entrar, fico feliz em dizer que fomos convidados pelo Sr. Lindsay
Noyes, que teve a gentileza de nos acompanhar até aqui. — Kelly apontou para um
cavalheiro sob a porta, vestindo terno cinza e que preferira aguardar fora do salão. —
Ele é do departamento de relações públicas do AmeriCare; aqui no Centro Médico
Universitário.
— Turno da tarde, Dr. Reggis — completou Lindsey, nervoso. — Só precisamos
de um minuto do seu tempo. A Srta. Anderson está interessada numa reportagem
comemorativa dos seis meses de fusão de nosso hospital. Certamente, teremos enorme
prazer em ajudá-la da melhor maneira possível.


Por alguns instantes, os olhos escuros de Kim se alternaram entre Kelly e
Lindsey. Não sabia qual dos dois o irritava mais, se a jornalista enxerida ou o
administrador intrometido. Finalmente, decidiu que não era importante.
— Se quer ajudá-la, então fale você mesmo com ela — respondeu Kim, antes de
dar as costas para voltar ao vestiário sem mais palavras.
— Dr. Reggis, espere! — implorou Kelly. — Já ouvi a parte burocrática do
AmeriCare. Estamos interessados agora na sua opinião pessoal; a visão, por assim dizer,
das trincheiras.
Com a porta do vestiário semi-aberta, Kim deu uma parada e refletiu. Virou-se e
fitou o rosto de Kelly Anderson.
— Depois que me traiu com aquela reportagem que apresentou na TV, jurei
nunca mais falar com você.
— E por quê? Eu não coloquei as palavras em sua boca...
— Você distorceu os fatos com a edição das perguntas — respondeu Kim,
enfurecido. — E deixou de fora os temas de importância fundamental que eu lhe tinha
passado.
— Sempre editamos nossas entrevistas — informou Kelly. — É um fato da vida.
— Procure outra vítima.
Kim abriu violentamente a porta do vestiário e praticamente já entrara quando
Kelly bradou, em tom desafiante:
— Dr. Reggis! Apenas responda a uma pergunta: a fusão está mesmo sendo tão
boa para a comunidade como alega o AmeriCare? Eles dizem que estão fazendo tudo
isso por puro altruísmo. Insistem que é o maior avanço no âmbito da assistência médica
nesta cidade desde a descoberta da penicilina.
Kim hesitou novamente. O absurdo de um comentário como aquele fez com que
fosse impossível para ele não responder. Virou-se para Kelly outra vez.
— Não sei como alguém pode fazer uma declaração dessa natureza e ainda ter a
consciência limpa para dormir à noite. A verdade é que o único fundamento dessa fusão
foi aumentar o lucro líquido do AmeriCare. Tudo o mais que lhe disserem é puro
descaramento e mentira.
Kim bateu a porta às suas costas. Kelly fitou Brian. Ele sorriu para ela e fez um
sinal com o polegar para cima.
— Filmei — disse Brian.
Kelly devolveu-lhe o sorriso.
— Perfeito! Exatamente como queria o doutor.
Lindsay pigarreou educadamente sobre o punho fechado.
— Evidentemente — disse ele — o Dr. Reggis apenas externou sua opinião
pessoal, a qual, posso assegurar, não é compartilhada por outros membros do quadro
profissional.
— Oh, é mesmo? — perguntou Kelly, percorrendo o salão com os olhos. —
Alguém aqui desejaria comentar qualquer coisa sobre o depoimento do Dr. Reggis?
Ninguém se moveu.
— Contra ou a favor?
Continuaram todos imóveis. Em meio ao silêncio reinante, o folhear das páginas
do livro de ocorrências poderia servir como fundo sonoro para uma novela de TV.
— Bem — disse Kelly com a voz forte —, obrigada a todos pela atenção.
Tom já tinha vestido seu jaleco e arrumado a coleção de canetas, lápis e
lanternas que levava no bolso superior. Kim havia entrado no vestiário e, depois de tirar
a roupa e atirá-la no cesto, entrou no chuveiro sem dizer uma palavra.
— Não vai me dizer quem estava lá fora? — perguntou Tom.


— Era Kelly Anderson, do jornal da WENE — respondeu Kim, do chuveiro.
— Na nossa sala de cirurgiões? — questionou Tom.
— Dá para acreditar? Pediu para um daqueles babacas do AmeriCare mostrar o
caminho. Parece que minha ex-mulher lhe disse onde me encontrar.
— Espero que lhe tenha dito na cara o que achou daquela reportagem sobre os
cirurgiões cardíacos — disse Tom. — Depois que meu mecânico assistiu àquilo, tenho
certeza de que aumentou os preços — Quero dizer, a situação parece ter retrocedido:
minha renda está diminuindo e os custos dos serviços estão subindo.
— Falei o mínimo que pude.
— Ei, a que horas você ficou de apanhar Becky?
— Às seis. Que horas são?
— É bom se apressar. São quase seis e meia.
— Droga. Ainda nem fiz minhas visitas. Que vida!

3
Sexta-feira, 16 de janeiro
Quando Kim acabou de fazer suas visitas e de verificar as condições do Sr.
Arnold na enfermaria, uma hora havia se passado. Partiu para a casa da ex-esposa no
bairro universitário da cidade e, pisando fundo no acelerador do velho Mercedes de dez
anos, fez o trajeto em tempo recorde. Mas já eram praticamente oito horas quando parou
atrás de um Lamborghini amarelo estacionado bem diante do portão.
Kim saltou do carro e atravessou correndo o jardim da casa. Era uma construção
modesta do início do século, com alguns toques góticos vitorianos, como as janelas de
pontas arqueadas nos quartos do segundo andar. Kim saltou os degraus da varanda de
dois em dois e tocou a campainha. Sua respiração exalava vapor no vento frio do
inverno. Agitou os braços enquanto aguardava, para se manter aquecido. Ele estava sem
casaco.
Tracy abriu a porta, pondo as mãos na cintura. Estava visivelmente irritada e
ansiosa.
— Kim, são quase oito horas. Disse que chegaria no máximo … às seis —
reclamou.
— Desculpe. Foi inevitável. A segunda cirurgia demorou mais do que o previsto.
Houve uma complicação.
— Creio que já deveria ter me acostumado a isso — disse Tracy dando um passo
atrás e gesticulando para Kim entrar. Ela fechou a porta atrás dele.
Kim dirigiu o olhar para a sala de estar e viu um sujeito vestido com despojada
elegância, de seus quarenta e poucos anos, usando jaqueta de camurça com franjas e
botas de couro. Estava sentado no sofá com um drinque numa das mãos e um chapéu de
caubói na outra.
— Se eu soubesse que você ia demorar tanto, teria preparado alguma coisa para
Becky comer. Ela está morrendo de fome.
— Isso é fácil de remediar — disse Kim. — Combinamos jantar fora.
— Gostaria que tivesse dado ao menos um telefonema.
— Estava na cirurgia e só saí depois das cinco e meia. Não é como se estivesse
jogando golfe.
— Eu sei — disse Tracy com ar resignado. — É tudo muito nobre. O problema é
que foi você quem escolheu a hora, não eu. É uma questão de consideração. A cada


segundo ela achava que você estava chegando. Ainda bem que não vamos embarcar
num vôo comercial.
— Vôo? — espantou-se Kim. — Para onde você vai?
— Aspen — respondeu Tracy. — Becky tem o número do telefone onde podem
me encontrar.
— Aspen só por dois dias?
— Acho que é hora de me divertir um pouco nessa vida, se é que conhece algum
tipo de diversão fora de sua cirurgia.
— Bem, já que estamos nesse clima de gracinhas sarcásticas — disse Kim —
obrigado por me mandar Kelly Anderson ao centro cirúrgico. Foi uma surpresa
extremamente agradável!
— Eu não a mandei.
— Ela disse que sim.
— Só disse a ela que você podia estar na cirurgia.
— Ora, é a mesma coisa.
Por sobre o ombro de Kim, Tracy notou seu convidado levantar-se. Percebendo
seu constrangimento diante de seu bate-boca com o ex-marido, Tracy fez um gesto para
Kim entrar na sala.
— Chega dessa conversa fiada — disse ela. — Kim, gostaria que conhecesse um
amigo meu, Carl Stahl.
Os dois apertaram as mãos e entreolharam-se cautelosamente.
— Vocês dois fiquem à vontade — sugeriu Tracy. — Vou dar uma subida para
ver se Becky está levando tudo o que precisa. Depois poderemos tomar nossos rumos.
Kim observou-a desaparecer no alto da escada. Só então voltou a olhar para o
aparente namorado de Tracy. Era uma situação constrangedora e Kim não podia deixar
de sentir um certo ciúme, mas pelo menos Carl tinha muitos centímetros a menos que
ele e seu cabelo já estava notadamente ralo. Por outro lado, o homem estava bem
bronzeado, apesar de ser inverno. Parecia também conservar uma forma física razoável.
— Posso servir-lhe um drinque? — sugeriu Carl, apontando uma garrafa de
uísque.
— Creio que sim, obrigado. — Kim não tinha o costume de beber, embora nos
últimos seis meses um coquetel noturno tivesse se tornado freqüente.
Carl largou o chapéu de caubói e dirigiu-se ao barzinho. Kim percebeu que ele
queria dar ares de proprietário.
— Assisti àquela entrevista sua com Kelly Anderson no mês passado — disse
Carl, enquanto despejava vários cubos de gelo no copo.
— É uma pena — respondeu Kim. — Gostaria que as pessoas a tivessem
perdido.
Carl serviu uma dose generosa e entregou o copo a Kim. Sentou-se novamente
no sofá do lado do chapéu, enquanto Kim escolhia uma poltrona.
— Você tem todo o direito de estar zangado — disse Carl com ar
condescendente. — Não foi justo. Os noticiários da TV têm essa característica irritante
de desvirtuar os fatos.
— É triste, mas é verdade — concordou Kim, sorvendo prazerosamente um gole
da bebida.
— De minha parte, achei o fim da picada — disse Carl. — Vocês merecem cada
centavo que ganham. Pessoalmente, sinto um grande respeito por vocês, médicos.
— Obrigado — respondeu Kim. — É muito animador.
— Sério. Na verdade, cheguei a cursar dois semestres de medicina.
— É mesmo? E o que aconteceu? Não gostou?


— A medicina não gostou de mim — respondeu Carl, soltando uma risada que
terminou com um ronco peculiar. — Começou a me exigir demais e passou a atrapalhar
minha vida social. — Soltou outra risada como se acabasse de contar uma piada.
Kim começou a se perguntar o que Tracy teria visto naquele sujeito.
— O que você faz? — perguntou ele, para manter a conversa.
Além disso, estava mesmo interessado. Considerando a vizinhança de classe
média, o Lamborghini amarelo em frente ao portão só podia ser de Carl. E Tracy
mencionara um vôo não comercial. Isto era ainda mais preocupante.
— Sou o diretor-presidente da Foodsmart — disse Carl. — Estou certo de que já
ouviu falar de nós.
— Creio que não — respondeu Kim.
— É uma grande empresa agropecuária. Na verdade, uma das maiores do
estado.
— Atacado ou varejo? — perguntou Kim, embora não conhecesse nada no ramo
de negócios.
— Os dois. Trabalhamos principalmente com exportação de grãos e carne, mas
também somos os acionistas majoritários da cadeia de lanchonetes Onion Ring.
— Essa eu conheço. Tenho até algumas ações.
— Escolheu bem.
Inclinando-se e olhando a sala com uma expressão furtiva como se houvesse
algum espião, Carl sussurrou:
— Compre mais ações da Onion Ring. A companhia está abrindo filiais no
mercado nacional. É informação confidencial. E não conte a ninguém onde ficou
sabendo.
— Obrigado — disse Kim, depois acrescentou com sarcasmo. — Estou mesmo
procurando onde aplicar meus extraordinários rendimentos.
— Você ainda vai me agradecer — acrescentou Carl, insensível ao descaso de
Kim. — As ações vão para as nuvens. Em um ano a Onion Ring estará competindo com
o McDonald's, o Burger Kit e o Wendy's.
— Tracy disse que vão para Aspen num avião particular disse Kim, mudando de
assunto. — Que aparelho você pilota?
— Eu? — espantou-se Carl. — Eu não piloto, Deus me livre! Seria o último a
entrar num avião comigo por trás dos controles.
Carl deu outra risada em seu estilo peculiar. Kim teve vontade de saber se o
sujeito roncava durante o sono.
— Tenho um novo Lear Jet — prosseguiu Carl. — Bem, tecnicamente é da
Foodsmart, para efeito da receita pública federal. De qualquer forma, como sabe, para
uma aeronave desse porte, o Ministério da Aeronáutica exige dois pilotos qualificados.
— É claro — concordou Kim, como se tivesse grande familiaridade com o
assunto.
Só não queria se passar por idiota e deixar transparecer a indignação que sentia
de um comerciante que só sabia embaralhar papéis poder ser tão pretensioso, enquanto
ele, trabalhando mais de doze horas por dia salvando vidas, tinha dificuldade para
manter rodando seu Mercedes de dez anos de uso.
Os passos na escada anunciaram a chegada de Becky. Trazia uma sacola e seus
patins pendurados no ombro. Deixou tudo sobre uma cadeira no hall e correu para a
sala.
Kim não via Becky desde o domingo, quando tinham passado juntos um dia
agradável, patinando no parque. Becky pulou para cima de Kim num abraço, agarrandoo pelo pescoço e quase o derrubando sobre a poltrona. Com o rosto colado ao dela, Kim


sentiu que seus cabelos morenos ainda estavam úmidos depois do banho recente. O
perfume do xampu fazia com que ela cheirasse como um pomar de macieiras maduras.
Sem soltá-lo, Becky o fitou nos olhos com severa expressão de reprovação.
— Está atrasado, papai.
As atribulações do dia desvaneceram na presença de sua querida e precoce filha
de dez anos, irradiando graça, jovialidade e energia. Sua pele era macia e sedosa, os
olhos grandes e expressivos.
— Sinto muito, meu amor — disse Kim. — Sei que está com fome.
— Estou morta de fome. Mas veja! — Becky virou a cabeça de um lado para o
outro. — Gostou dos meus novos brincos de diamante? Não são lindos? Carl me deu de
presente.
— Bobagem — disse Carl, modesto. — Só um presentinho. Natal atrasado e
também para agradecer por me emprestar sua mãe no fim-de-semana.
Kim engoliu em seco. Tinha sido pego de surpresa.
— Muito comovente — conseguiu dizer.
Becky desceu do colo do pai e foi até o hall pegar suas coisas e tirar o casaco do
armário da entrada. Kim foi atrás dela na direção da porta.
— Só quero que vá para a cama na hora certa, mocinha — disse Tracy. —
Combinado? Tem uma gripe atacando.
— Mas, mãe...! — reclamou Becky.
— Estou falando sério. Não quero que perca a escola.
— Fica tranqüila, mãe — disse Becky. — Divirta-se e não fique nervosa sobre...
— Será um ótimo fim-de-semana — interrompeu Tracy, antes que a filha
dissesse algo embaraçoso. — E ficará ainda melhor se eu não precisar me preocupar
com você. Está levando o número, do telefone que eu lhe dei?
— Sim, estou — respondeu, aborrecida. Então, alegrando-se completou: —
Esquie o Big Burn por mim.
— Okay, eu prometo — disse Tracy, pegando o casaco das mãos da filha. —
Quero que o vista agora.
— Mas nós vamos de carro — reclamou Becky.
— Não interessa — prosseguiu Tracy, ajudando a filha a vestir o casaco.
Becky correu até Carl, que estava de pé na entrada da sala de estar. Deu-lhe um
abraço apertado e cochichou em seu ouvido:
— Ela está muito nervosa, mas passa logo. E obrigada pelos brincos, eu adorei!
— Não precisa agradecer, Becky — respondeu Carl, embaraçado.
Becky correu até Tracy e deu-lhe mais um abraço rápido e forte antes de
atravessar correndo a porta aberta por Kim. Saltou os degraus da varanda e acenou para
Kim se apressar. Ele teve que correr atrás dela.
— Telefone se acontecer alguma coisa — berrou Tracy da varanda.
Os dois acenaram antes de entrar no carro.
— Ela é tão chata! — comentou Becky.
Kim deu a partida e Becky apontou para a frente.
— É um Lamborghini. Pertence a Carl e é demais! — disse ela.
— Tenho certeza que sim — respondeu Kim, querendo dar a impressão de que
não estava ligando.
— Devia comprar um, papai. — Ela virou o rosto para olhar o carro enquanto
partiam.
— Vamos falar de comida — disse Kim. — Estava pensando em pegar a Ginger.
Achei que podíamos ir os três ao Chez Jean.
— Não quero jantar com a Ginger — respondeu Becky contrariada.


Kim tamborilou com os dedos no volante. O dia estressante no hospital mais o
encontro com Carl abalara-lhe os nervos. Desejou ter tempo para jogar tênis. Precisava
de algum tipo de exercício para poder descarregar. A última coisa que queria era um
conflito entre Becky e Ginger.
— Becky — começou Kim. — Já falamos sobre isso antes. Ginger gosta da sua
companhia.
— Só quero ficar com você, não com sua recepcionista — exclamou Becky.
— Mas você vai estar comigo. Estaremos todos juntos e Ginger não é apenas
minha recepcionista.
— Também não quero comer naquele restaurante velho e abafado — disse
Becky, comovida. — Odeio aquele lugar.
— Está bem, está bem — disse Kim, lutando para manter o controle. — Que tal
irmos ao Onion Ring da Prairie Highway, só você e eu? É perto daqui.
— Maravilha! — Becky revigorou-—se e, apesar do cinto de segurança,
conseguiu arrumar um jeito de se virar e dar um beijo no rosto do pai.
Kim se espantava com a habilidade que a filha tinha de manipulá-lo. Sentia-se
melhor agora que ela retomara sua vitalidade normal, mas depois de alguns quilômetros
a conversa de Becky voltou a atormentá-lo novamente.
— Sinceramente — disse Kim — não entendo por que você tem essa
implicância com Ginger.
— Porque foi ela quem separou você da mamãe — respondeu Becky.
— Meu Deus! — exclamou Kim. — É isso o que sua mãe disse?
— Não. Ela diz que isso é só uma parte. Mas eu acho que foi culpa da Ginger.
Você e mamãe nunca discutiam antes dela aparecer.
Kim voltou a tamborilar no volante. Apesar do que Becky dizia, Tracy só podia
estar pondo coisas na cabeça dela.
Ao dobrar no estacionamento do Onion Ring, Kim lançou um rápido olhar para
Becky. Seu rosto brilhava sob o letreiro luminoso da lanchonete. Ela sorria, sonhando
com seu hambúrguer.
— O motivo do meu divórcio com sua mãe é muito complicado — começou
Kim — e Ginger teve muito pouco a ver com isso.
— Cuidado! — gritou Becky.
Kim olhou para a frente e viu a silhueta de um garoto passando de skate ao lado
do pára-lama direito. Kim freou e jogou o volante para a esquerda. O carro deu uma
guinada e derrapou, chocando-se contra a traseira de outro veículo estacionado.
Ouviram o inconfundível estilhaço de vidro.
— Você bateu com o carro — gritou Becky, como se estivesse fazendo uma
pergunta.
— Eu sei que bati com o carro! — berrou Kim de volta.
— Não foi culpa minha — respondeu Becky, indignada. — Não grite comigo!
O garoto do skate deu uma parada para ver o estrago. Depois de uns segundos
passou diante da janela do carro, olhou para a cara de Kim e disse irreverente:
— Babaca!
Kim fechou os olhos por um instante, procurando recuperar o controle.
— Desculpe — disse para Becky. — Claro que não foi culpa sua. Eu devia ficar
mais atento. E certamente não deveria ter gritado com você
— O que vamos fazer agora? — Becky olhava irrequieta ao redor temendo ser
vista por algum colega da escola.
— Vou ver o tamanho do prejuízo.
Abriu a porta e desceu do carro. Voltou depois de uns segundos e pediu a Becky


que lhe passasse um bloco e dentro do porta-luvas.
— O que foi que quebrou?
— Nosso farol dianteiro e a lanterna traseira dele. Vou deixar um bilhete.
Assim que pôs os pés no restaurante, Becky já tinha esquecido por completo o
acidente. Como em todas as noites de sexta-feira, o Orion Ring fervilhava, em sua
maioria de adolescentes desfilando ridículas coleções de roupas grandes demais para
eles e penteados punk. Mas havia também um bom número de famílias com crianças
pequenas e até bebês. O barulho era considerável devido à excitação das crianças e à
competição entre aparelhos de som portáteis.
As Lanchonetes Onion Ring eram particularmente populares entre as crianças
porque elas podiam preparar seus próprios hambúrgueres de gourmet com uma mistura
radical de temperos. Podiam também fazer seus próprios sundaes usando uma infinidade
de coberturas.
— Não é um lugar maneiríssimo? — comentou Becky ao entrar com o pai numa
das filas.
— Simplesmente demais — brincou Kim. — Especialmente com essa suave
música clássica de fundo.
— Ah, pai! — gemeu Becky, revirando os olhos.
— Já veio aqui com Carl alguma vez?
— Claro. Ele nos trouxe umas duas vezes. Foi legal! Ele é dono do lugar.
— Não é bem assim — disse Kim, com certa dose de satisfação — na verdade o
Onion Ring é uma empresa de capital privado. Sabe o que isso quer dizer?
— Mais ou menos — respondeu Becky.
— Significa que um monte de gente é dona de ações. Até eu tenho ações do
Onion Ring, portanto também sou um dos donos.
— É, mas quando vim aqui com Carl não tivemos de esperar na fila.
Kim respirou fundo e expirou lentamente.
— Vamos mudar de assunto. Já pensou melhor sobre o campeonato nacional?
Fiquei sabendo que o dia de encerramento das inscrições está chegando.
— Não quero participar — respondeu Becky, sem hesitar.
— Não mesmo? — argumentou Kim. — Mas por quê? Você é tão boa. E venceu
com tanta facilidade o estadual do ano passado...
— Gosto de patinar. Não quero estragar isso.
— Mas poderia ser a melhor.
— Não quero ser a melhor em competições.
— Sinceramente, Becky, estou decepcionado. Eu ficaria orgulhoso de você.
— Mamãe disse que você diria algo assim.
— Ah, mas que ótimo! — exclamou Kim. — Sua mãe psiquiatra sabe-tudo.
— Disse também que eu deveria fazer o que achasse melhor.
Os dois chegaram ao caixa. Por trás da máquina registradora, um rapaz de
expressão entediada olhou para os dois e perguntou o que queriam.
Becky grudou os olhos no menu preso ao vidro do caixa. Apertou os lábios e
espetou o dedo no rosto.
— Humm, não sei o que vou querer.
— Coma um hambúrguer — disse Kim. — Não é de que mais gosta?
— Está bem. Quero um hambúrguer, batata frita e milk shake de baunilha.
— Normal ou especial? — perguntou o caixa com a voz cansada.
— Normal.
— E o senhor?
— Espere, deixe-me ver — Kim também consultou o menu. — sopa do dia e


uma salada, eu acho. Com chá gelado.
— São sete e noventa — disse o caixa.
Kim pagou e o rapaz lhe entregou o recibo com uma senha.
— Seu número é vinte e sete.
Kim e Becky deixaram a área de pedidos. Demorou um pouco, mas eles
acabaram achando lugares vazios em uma das mesas perto da janela. Becky se sentou,
mas Kim deu a ela o pedido e disse que precisava ir ao banheiro Becky balançou a
cabeça inexpressivamente; observava com atenção um menino bonitinho de sua escola
que estava sentado à mesa ao lado.
Foi um verdadeiro sacrifício para Kim atravessar o restaurante até o corredor que
dava para os banheiros. Havia dois telefones, mas estavam ambos cercados por um
enxame de garotas adolescentes. E atrás de cada um deles, uma fila. Kim enfiou a mão
no bolso do casaco e tirou seu celular. Encostou-se à parede e levou o aparelho ao
ouvido.
— Ginger, sou eu — disse.
— Onde diabos está você? — esbravejou Ginger. — Esqueceu que nossa reserva
no Chez Jean era para as sete e meia?
— Não podemos ir. Fui obrigado a mudar os planos. Becky e eu estamos
fazendo um lanche no Onion Ring da Prairie Highway.
Ginger não respondeu.
— Alô? — disse Kim. — Ainda está aí?
— Sim, ainda estou aqui.
— Ouviu o que eu disse?
— É claro que ouvi. Eu não comi nada e estou aqui esperando. Você não ligou, e
além do mais, prometeu que iríamos jantar no Chez Jean esta noite.
— Escute — prosseguiu Kim, novamente alterado — não piore ainda mais as
coisas para mim, você também. Não posso satisfazer a todos. Atrasei-me para apanhar
Becky e ela estava morta de fome.
— Isso é muito tocante. Você e sua filhinha curtindo um belo jantarzinho juntos.
— Você está me irritando, Ginger!
— E como acha que eu me sinto? Durante um ano a desculpa era sua esposa.
Agora vai ser sua filha.
— Já chega, Ginger! Não vou ficar discutindo. Becky e eu estamos aqui
comendo e depois passaremos aí para te apanhar.
— Talvez me encontre, talvez não. Estou ficando cansada de estar sempre em
segundo plano.
— Então está certo, você é quem sabe.
Kim desligou e enfiou de volta o aparelho no bolso do casaco. Rangeu os dentes
e praguejou em voz baixa. Nada parecia dar certo naquela noite.
Os olhos de Kim foram involuntariamente atraídos pelo rosto de uma
adolescente que aguardava na fila de um dos telefones. Usava um batom vermelho tão
escuro que parecia marrom, dando a impressão de alguém que sucumbira aos elementos
na face norte do monte Everest.
A garota percebeu Kim olhando para ela. Parou de ruminar o chiclete e mostrou
a língua para ele. Kim tomou um susto e desencostou da parede, indo para o banheiro
molhar o rosto e lavar as mãos.
O grau de atividade na cozinha e área de serviço do Onion Ring era relativo ao
número de fregueses no restaurante, um pandemônio controlado. Roger Polo, o gerente
que normalmente dobrava nas sextas e sábados, os dias de maior movimento na semana,
era um homem nervoso de seus trinta e tantos anos que cobrava muito de si mesmo e de


todo o pessoal.
Quando o restaurante enchia como naquele momento em que Kim e Becky
esperavam seus pedidos, Roger trabalhava na fila da caixa. Era ele quem pedia os
hambúrgueres com fritas para Paul, o cozinheiro; ou a sopa com salada para Júlia, e as
bebidas para Claudia. Todo o serviço de limpeza e rearrumação das mesas era feito por
Skip, o ajudante.
— Número vinte e sete saindo — avisou Roger em voz alta — Quero uma sopa
com salada.
— Sopa com salada — respondeu Júlia.
— Chá gelado e milk shake de baunilha — pediu Roger.
— Saindo — disse Claudia.
— Hambúrguer normal e fritas médias.
— Na mão — disse Paul.
Paul era bem mais velho que Roger. Tinha o rosto profundamente marcado e
enrugado; parecia mais um fazendeiro que cozinheiro. Passara vinte anos como chefe de
cozinha num poço de petróleo do Golfo Pérsico. No braço direito tinha tatuado um poço
de petróleo com a inscrição: Eureka!
Paul trabalhava na chapa de fritura, que ficava no centro da cozinha por trás da
fileira dos caixas. O tempo todo ele mantinha um número certo de hambúrgueres
fritando na chapa, um para cada pedido. Ele adotava um sistema de rodízio que fazia
com que cada hambúrguer ficasse o mesmo tempo fritando na chapa. Para atender à
última leva de pedidos, Paul buscou mais hambúrgueres no interior do refrigerador que
ficava às suas costas.
— Skip! — berrou Paul, quando viu que eles tinham acabado. — Me traz mais
uma caixa de hambúrgueres do freezer.
Skip largou o esfregão.
— Já estou indo!
O freezer ficava no fundo da cozinha, ao lado do depósito. Skip, que trabalhava
no local havia apenas uma semana, já sabia que boa parte de seu serviço consistia em
carregar estoques de suprimentos da despensa para a cozinha.
Ele abriu a porta pesada do freezer e entrou. A porta era montada sobre uma
mola de ferro que se fechou às suas costas. O interior media cerca de quatro metros por
oito e era iluminado por uma única lâmpada protegida por uma tela de arame. As
paredes eram forradas com material metálico parecendo papel de alumínio. O chão era
forrado por um deque de madeira.
O espaço estava quase todo repleto de caixas de papelão, exceto por um corredor
no meio. À esquerda, grandes caixas cheias de hambúrgueres congelados. À direita
estavam as caixas de batatas fritas, filés de peixe e pedaços de frango.
Skip agitou os braços sob a temperatura glacial. Sua respiração vinha em nuvens
congeladas. Ansioso para voltar ao calor da cozinha, raspou o gelo no rótulo da primeira
caixa à esquerda para certificar-—se de que era carne moída. Estava escrito: MERCER
MEATS. REG.0.I. CARNE MAGRA, HAMBÚRGUER. LOTE 6 REM. 9-14.
PRODUZIDO EM: JAN. 12. VÁLIDO ATÉ: ABR. 12.
Satisfeito, Skip rasgou a caixa e retirou do interior uma das embalagens que
continha quinze dúzias de hambúrgueres e levou-a para o refrigerador de Paul.
— Missão cumprida!— disse Skip.
Paul não respondeu. Estava concentrado no tempo de fritura dos hambúrgueres e
calculando a quantidade necessária para atender aos novos pedidos que Roger lhe
entregara. Quando teve uma chance, abriu o refrigerador. retirou o número necessário


de bifes e quando já estava fechando notou a data no rótulo da caixa.
— Skip! — berrou Paul. — Mova esse seu traseiro até aqui.
— Algo errado? — perguntou Skip. Ele estava agachado bem próximo, trocando
um saco de lixo.
— Você me trouxe a caixa errada — vociferou Paul. — Estes foram
descarregados hoje.
— E que diferença isso faz? — perguntou Skip.
— Muita — respondeu Paul. — Já lhe mostro num segundo. — Virou-se para o
lado e chamou: — Roger, quantos hambúrgueres têm para depois do vinte e seis?
Roger conferiu seus papéis.
— Vou querer um para o vinte e sete, quatro para o vinte e oito e três para o
vinte e nove. Oito no total.
— Foi o que calculei — disse Paul, atirando os oito hambúrgueres que tinha na
mão sobre a chapa e dando meia-volta para retirar a caixa do refrigerador. Afobado do
jeito como estava, não percebeu que o primeiro que jogou sobre a chapa cobriu
parcialmente um outro que já estava fritando.
Paul fez um sinal para que Skip o seguisse e foi explicando pelo caminho:
— O reabastecimento da carne congelada é feito de quinze em quinze dias —
explicou. — E temos de usar as mais antigas primeiro.
Paul abriu a porta do freezer na cozinha e deu imediatamente de cara com a
caixa aberta por Skip. Paul enfiou a embalagem que trazia dentro da caixa e fechou a
tampa.
— Está vendo essa data? — perguntou Paul, apontando para um rótulo.
— Sim, estou.
— Aquelas outras caixas lá no fundo têm datas anteriores. Têm de ser usadas
primeiro.
— Alguém podia ter me avisado — reclamou Skip.
— Eu estou lhe avisando agora. Vamos, ajude-me a pôr as caixas novas no
fundo e puxar as do fundo para a frente.
Kim saiu do banheiro e conseguiu dar um jeito de se espremer na cadeira ao lado
de Becky. Mais seis pessoas ocupavam a mesa, inclusive uma criança de uns dois anos,
com o rosto lambuzado de ketchup, batendo com uma colher de plástico sobre o que
sobrara do hambúrguer.
— Becky, por favor, seja razoável — disse Kim, tentando desviar sua atenção da
criança. — Eu disse a Ginger que iríamos pegá-la depois de comer.
Becky respirou fundo e soltou um suspiro, deixando cair os ombros
pesadamente. Estava de mau-humor, o que não era característico nela.
— Estou fazendo tudo o que você quer — prosseguiu Kim. — Estamos jantando
juntos, aqui, só você e eu, e não é no Chez Jean.
— Você não perguntou se eu queria sair com a Ginger. Quando disse que
vínhamos para cá, pensei que não iríamos vê-la hora nenhuma.
Kim olhou para a frente e contraiu o maxilar. Amava a filha, mas sua obstinação
o irritava. Como cirurgião cardíaco, tinha se habituado com as pessoas de sua equipe
seguindo suas ordens.
Paul encontrou Roger à beira de um ataque de nervos quando voltou da
arrumação do freezer.
— Por onde andou? — berrou Roger. — Estamos muito atrasados.
— Não se preocupe. Está tudo sob controle.


Paul apanhou a espátula e começou a colocar os hambúrgueres prontos nos
respectivos pães. O pedaço que ficara por cima do outro foi posto do lado para remover
o de baixo.
— Número trinta — gritou Roger. — Dois hambúrgueres normais e um especial.
— Saindo — respondeu Paul abrindo o refrigerador para pegar a carne.
Girou hambúrgueres sobre si mesmos e os atirou na chapa. Em seguida usou a
espátula para virar o pedaço que tinha ficado por cima do outro. A superfície continuou
grudada no pedaço de baixo e não totalmente em contato com a chapa. Paul já ia separála quando Roger desviou sua atenção.
— Paul, você fez besteira! — esbravejou Roger. — O que está acontecendo com
você hoje?
Paul ficou olhando para Roger com a espátula suspensa na mão.
— O número vinte e cinco são dois especiais e não dois normais — reclamou
Roger.
— Merda, desculpe! — disse Paul virando-se para pegar mais dois
hambúrgueres no refrigerador. Atirou-os na chapa e os apertou com a espátula. O
especial exigia o dobro do tempo para fritar.
— E o vinte e cinco era com fritas médias — berrou Roger irritado, sacudindo o
papel na mão como a ameaçá-lo.
— Já vai — disse Paul. Encheu rapidamente um saco com as batatas.
Roger pegou o saco, colocou-o na bandeja com o número vinte e cinco e
empurrou-o sobre o que eles chamavam balcão de distribuição.
— Certo — disse Roger para Paul.— Número vinte e sete aguardando. Onde
está o hambúrguer com fritas? Vamos, Paul, mexa-se.
— Já vai, já vai!— Paul usou a espátula para tirar o pedaço que ficara mais
tempo por cima dos outros dois. Colocou-o dentro do pão e pôs o sanduíche no prato de
papelão que Roger deixara a sua frente. Acrescentou umas cebolas e encheu outro saco
de batatas fritas.
Em poucos segundos a garota no balcão de distribuição anunciava pelo
microfone: "Saindo número vinte e cinco e número vinte e sete.”
— Somos nós — disse Kim, levantando-se. — Vou pegar a comida. Mas,quando
acabarmos, vamos apanhar a Ginger e ponto final. E espero que você seja legal, certo?
— Tudo bem — disse Becky, renitente. Ela também se levantou.
— Eu pego a comida. Você fica aqui.
— Mas quero preparar meu hambúrguer.
— Ah. É! Tinha me esquecido.
Enquanto Becky enfeitava seu sanduíche com uma impressionante variedade de
coberturas, Kim escolheu o molho que parecia menos prejudicial. Então pai e filha
voltaram para seus lugares. Kim ficou satisfeito ao ver que o pirralho lambuzado de
ketchup já tinha ido embora.
Becky pareceu ficar sensivelmente mais animada quando o garoto de sua escola
lhe pediu um pouco de suas batatas. Kim segurou a colher e estava prestes a provar a
sopa quando o celular tocou em seu bolso. Pegou o aparelho e levou-o ao ouvido.
— Dr. Reggis falando.
— Aqui é a enfermeira Nancy Warren. Estou ligando porque a Sra. Arnold exige
que o senhor venha até aqui para ver o marido dela.
— O que aconteceu?
Becky usava as duas mãos para segurar o sanduíche. Mesmo assim alguns
pedaços de picles caíram do pão. Avidamente, ela deu uma mordida arrancando um
pedaço. Mastigou por um instante e examinou a superfície mordida.


— O Sr. Arnold está muito ansioso — dizia Nancy — e reclama que os
analgésicos não estão fazendo efeito. Sofreu também queda de pressão venosa central.
Becky cutucou o braço de Kim, procurando chamar-lhe a atenção para a
superfície mordida de seu hambúrguer. Kim fez um sinal para que ela esperasse um
instante.
— A queda da pressão foi muito grande?
— Não muito — respondeu Nancy — porém o suficiente para que ele
percebesse.
— Administre potássio e dobre a dose dos analgésicos. Quem está no plantão?
— A Dra. Silber. Mas creio que o senhor deveria vir. A Sra. Arnold é insistente.
— Sem dúvida — disse Kim, desanimado. — Mas vamos esperar pelo nível de
potássio primeiro. Confira também se há sinais de distensão abdominal.
Kim desligou o aparelho. A Sra. Arnold já era uma chateação maior do que
esperava.
— Veja só meu hambúrguer — disse Becky.
Kim examinou o sanduíche de Becky e notou a faixa rosada no meio do
hambúrguer, mas estava mais preocupado e nada feliz com a ligação que acabara de
receber do hospital.
— Humm! Era assim que costumava comer meus hambúrgueres quando tinha a
sua idade.
— Verdade!? — duvidou Becky. — Isso é nojento!
Achando melhor falar diretamente com a médica de plantão, Kim ligou para o
hospital.
— Eu só comia hambúrguer assim — disse para Becky enquanto esperava
completar a ligação. — Malpassado, com uma fatia de cebola crua; não essas fritas
reconstituídas e, principalmente, sem nenhum molho artificial.
A recepcionista atendeu e Kim perguntou pela Dra. Alice Silber, dizendo que
esperaria na linha.
Becky examinou novamente o hambúrguer, sacudiu os ombros e deu outra
mordida, ainda mais voraz. Tinha de admitir que estava uma delícia.

4
Sábado, 7 de janeiro
Kim dobrou a esquina de sua rua no velho Mercedes e diminuiu a marcha para
cruzar o portão. Era uma grande construção em estilo Tudor, erguida no meio de um
espaçoso terreno ajardinado, num elegante subúrbio da cidade. A casa já tivera seus
tempos de esplendor, mas agora parecia abandonada. As folhas secas do outono cobriam
o gramado como um tapete de entulho umedecido. As paredes descascavam e
precisavam de uma pintura urgente. Algumas persianas estavam empenadas e no
telhado umas poucas telhas tinham se soltado e ameaçavam despencar dentro da calha.
Eram nove horas de uma manhã de sábado fria e cinzenta, e a vizinhança parecia
deserta. Não havia sinal de vida quando Kim cruzou o portão e parou em frente à
garagem. Até o jornal do vizinho ainda estava na porta.
O interior da casa era o reflexo do exterior. Estava praticamente despojado de
toda a mobília e dos objetos que Tracy decidira levar ao se mudar. Além disso, a casa
não passava por uma faxina havia meses. A sala de estar, em particular, tinha uma
aparência de salão de dança, contendo apenas uma cadeira, um pequeno carpete


desbotado, uma mesa de canto com o telefone e um único abajur de pé.
Kim deixou as chaves numa prateleira do hall antes de atravessar a sala em
direção à cozinha. Chamou pelo nome de Becky, mas ela não respondeu. Kim deu uma
espiada na pia. Nenhum prato sujo.
Tendo acordado pouco depois das cinco da manhã, como de costume, Kim já
tinha ido ao hospital para fazer suas visitas. Àquela hora, já esperava encontrar Becky
de pé e pronta para sair.
— Becky, sua dorminhoca, onde está você? — perguntou enquanto subia as
escadas. Assim que chegou ao segundo andar escutou a porta do quarto de Becky se
abrindo.
Ela surgiu no corredor ainda de pijama. Estava de olheiras os olhos semicerrados
e os cabelos mais pareciam um espanador de pó, de tão embaraçados.
— O que há com você? — perguntou Kim. — Pensei que estivesse com pressa
de chegar à aula de patinação. Vamos embora.
— Não estou me sentindo bem — respondeu Becky, coçando os olhos com as
costas da mão.
— Como assim? O que está sentindo?
— Estou com dor de barriga.
— Bem, não é nada. Tenho certeza. A dor vem e passa ou contínua?
— Vem e passa.
— Onde, exatamente, está doendo?
Becky fez alguns movimentos em círculo com a mão sobre o abdômen.
— Sente calafrio? — perguntou Kim, colocando a palma da mão sobre a testa da
menina.
Becky sacudiu negativamente a cabeça.
— Humm, só um pouco de cólica — concluiu Kim. — Provavelmente é seu
pobre estômago reclamando da porcaria que você comeu ontem à noite. Vá tomar um
banho e se arrumar enquanto preparo um café para você. E rápido; não quero sua mãe
reclamando no meu ouvido que chegou atrasada na aula.
— Não tenho fome — disse Becky.
— O banho abrirá seu apetite. Vejo você lá embaixo.
Na cozinha, Kim pôs à mesa os cereais, o leite e o suco. Voltou ao pé da escada
para chamar Becky, mas escutou o som inconfundível do chuveiro. Aproveitou o
momento e ligou para Ginger.
— Está tudo tranqüilo no hospital — disse Kim, assim que ela atendeu. — Os
três pós-operados estão reagindo bem. Só os Arnolds, principalmente Gertrude Arnold,
é que têm me enchido a paciência.
— Fico feliz — disse Ginger num tom acre.
— O que há de errado dessa vez? — perguntou Kim. Ele tivera outro bate-boca
com uma das enfermeiras no turno daquela manhã e só pensava agora em ter um dia
tranqüilo.
— Bem, ontem à noite eu queria sair. Não acho justo.
— Vamos parar por aí! — cortou Kim. — Não quero mais voltar a esse assunto,
por favor. Estou cansado dessa besteira. Além do mais, Becky não acordou bem esta
manhã.
— O que há com ela? — A preocupação de Ginger era sincera.
— Nada grave, só uma dor de estômago. — Kim ia contar os detalhes, mas
ouviu Becky descendo a escada. — Ela está descendo. Encontre-nos no ringue do
Sterling Place. Tchau!
Quando Becky entrou na cozinha, Kim já tinha pendurado o fone no gancho.


Estava enrolada no roupão dele, que ficava tão grande que se arrastava pelo chão, com
as mangas caindo até as batatas das pernas.
— Tem cereais, leite e suco à mesa — disse Kim. — Sente-se melhor?
Becky sacudiu a cabeça.
— O que vai comer?
— Nada — respondeu.
— Você precisa de alguma coisa. Que tal uma colherada de antiácido?
Becky fez uma careta de horror.
— Vou tomar um pouco de suco— sugeriu.
As lojas do Sterling Place Mall ainda estavam abrindo na hora em que eles
atravessavam a alameda que dava no ringue. Kim não tinha voltado a tocar no assunto,
mas estava certo de que Becky se sentia melhor. Ela acabou comendo um pouco dos
cereais e, no carro, foi a mesma tagarela de sempre.
— Vai assistir à minha aula? — perguntou ela.
— Essa é a idéia — respondeu o pai. — Estou ansioso para ver esse seu giro
triplo de que vem falando tanto.
Na borda do ringue, Kim entregou os patins que carregava para Becky. Um apito
tocou, indicando o fim da aula da turma intermediária.
— Bem na hora — disse Kim.
Becky sentou-se para desamarrar o cadarço do tênis. Kim deu uma olhada ao
redor nos outros pais. A maioria era de mães. Subitamente, seus olhos cruzaram com os
de Kelly Anderson. Apesar da hora, parecia estar vindo de um salão de beleza para um
desfile de moda. Ela sorriu. Kim olhou para o lado.
Uma menina com mais ou menos a mesma idade de Becky chegou deslizando e
saiu do ringue. Sentou-se ao lado de Becky e disse:
— Oi!
Becky respondeu do mesmo jeito.
— Ah, meu cirurgião cardíaco predileto!
Kim se virou e, para sua tristeza, deu de cara com Kelly.
— Já conhecia minha filha? — perguntou ela.
Kim sacudiu a cabeça.
— Caroline, cumprimente o Dr. Reggis.
Apesar de relutante para conversar, Kim cumprimentou a menina e apresentou
Becky a Kelly.
— Que maravilhosa coincidência encontrá-lo novamente — disse Kelly,
endireitando-se depois de se inclinar para cumprimentar Becky. — Vocês viram minha
reportagem no jornal de ontem à noite, sobre os seis meses da fusão do hospital?
— Não! — respondeu Kim.
— Mas que pena, iria gostar. Ficou bastante tempo no ar e todo mundo acha que
sua declaração sobre o "lucro líquido" roubou o espetáculo. Os telefones da emissora
não param de tocar, o que o diretor adora.
— Por favor, me lembre de nunca mais falar com você.
— Calma aí, Dr. Reggis! — disse Kelly com a expressão brincalhona — assim,
magoa meus sentimentos.
— Kim! — chamou uma voz do outro lado do ringue. — Kim, aqui!
Ginger tinha acabado de chegar e acenava com entusiasmo. Começou a vir na
direção de Kim e Kelly. Era bem jovem, não mais que vinte e cinco anos. Tinha a
leveza de uma fada, cabelos louros compridos e lisos, e pernas fatais. Fora do serviço,
fazia questão de se vestir com um estilo casual e sexy muito pessoal. Naquela manhã
vestia jeans apertados, um bustiê decotado expondo a barriga rija bem delineada. Usava


uma faixa na testa e munhequeiras, evidência de sua paixão pela aeróbica. Calçava tênis
especiais de corrida e estava sem casaco.
— Mas vejam só! — murmurou Kelly, observando Ginger aproximando-se. —
O que temos aqui? Farejo uma manchete sensacionalista; o renomado cirurgião cardíaco
e a professora de aeróbica.
— Ela é minha recepcionista — explicou Kim, numa tentativa de minimizar o
confronto inevitável.
— Não duvidaria disso nem por um segundo. Mas olhe só aquele corpo. E que
entusiasmo. Acho que, para ela, você é o máximo.
— Estou lhe dizendo que ela trabalha para mim — rebateu Kim asperamente.
— Ei, acredito em você. Por isso fiquei interessada. Meu clínico e meu
oftalmologista também se divorciaram para casar com suas recepcionistas. Farejo uma
história aqui. O que poderá ser isso? A típica crise da meia-idade no universo da
medicina?
— Quero que fique longe dela— rosnou Kim.
— Ora vamos, Dr. Reggis. Vocês, cirurgiões cardíacos, se consideram os tais.
Esse é o tipo de assunto que o público gosta, especialmente se ela tem a metade de sua
idade.
Becky virou-se para Caroline e sussurrou:
— A gente se vê. Aí vem a namorada enxerida do meu pai. — Becky ficou de
pé, entrou no ringue e saiu deslizando em velocidade.
Ginger chegou perto de Kim e antes que ele desse conta, saudou-o com um
vigoroso beijo no rosto.
— Sinto muito, querido — disse. — Sei que fui rude ao telefone esta manhã. Só
estava com saudades.
— Humm! Nem tão profissional — comentou Kelly. — A prova do batom.
Kim esfregou o rosto com as costas da mão.
— Uau! — exclamou Ginger ao perceber a marca no rosto dele. — Deixe que eu
limpo.
Antes que Kim tivesse tempo de esboçar outra reação, Ginger juntou os dedos e
passou-os no rosto dele.
— Agora saiu! — comentou Kelly.
Ginger virou-se para Kelly e imediatamente reconheceu-a como celebridade
local.
— Kelly Anderson! — disse, emocionada. — Que prazer! Adoro o seu jornal.
— Ora, obrigada. E você é?
— Ginger Powers.
— Prazer em conhecê-la, Ginger. Fique com um cartão meu. Talvez possamos
conversar numa hora qualquer.
— Puxa, obrigada. — Ginger pegou o cartão, sorrindo de felicidade. — Adoraria
bater um papo com você.
— Ótimo! Estou sempre editando alguma matéria ligada à saúde ou correndo
atrás de opiniões de quem trabalha no ramo.
— Está me dizendo que gostaria de me entrevistar? — Perguntou Ginger. Estava
surpresa e maravilhada.
— Por que não? — respondeu Kelly.
Ginger apontou para Kim.
— Você devia entrevistar a ele e não a mim. Kim sabe tudo sobre medicina.
— Parece que você tem uma profunda admiração pelo nosso bom doutor. Estou
certa?


— Como se houvesse dúvida — respondeu Ginger, fingindo indignação. — É o
melhor cirurgião cardíaco do mundo. E o mais bonito também. — Ginger tentou
beliscar o rosto de Kim, mas dessa vez ele conseguiu evitá-la.
— Bem, acho que está na minha hora — disse Kelly — Caroline, vista o casaco
e vamos. Ginger, querida, não se esqueça de me ligar. Vamos conversar a sério. E, Kim,
eu certamente compreendo por que escolheu Ginger como atendente e acompanhante.
Mãe e filha começaram a se distanciar. Kelly ajudava Caroline com os patins e a
mochila. A menina estava um pouco atrapalhada vestindo o casaco.
— É mesmo simpática — disse Ginger, observando a figura de Kelly.
— É uma cascavel — disse Kim. — E eu não quero que você fale com ela.
— Por quê?
— Ela só me traz aborrecimento.
— Mas seria divertido — queixou-se Ginger.
— Ouça bem — fuzilou Kim. — Se eu souber que falou com ela, poderá
considerar-se desempregada e fora de minha vida. Entendeu?
— Oh! — respondeu, de cara amarrada. — Mas como está rabugento! O que há
de errado com você?
Becky, que fazia seus exercícios de aquecimento, apareceu no local onde Kim e
Ginger estavam.
— Não posso fazer a aula — disse Becky, saindo do ringue. Sentando no banco,
começou a desamarrar os patins apressadamente.
— Por que não? — perguntou Kim.
— A dor de barriga voltou — respondeu Becky. — Preciso ir ao banheiro
urgente!

5
Domingo, 18 de janeiro
Kim abriu a gaveta e puxou a ficha de Harvey Arnold. Eram quase oito horas da
manhã e as enfermeiras do turno da manhã estavam ocupadas redigindo os relatórios.
Kim podia ficar à vontade na sala de enfermagem, apenas sob as vistas do vigia.
Leu as anotações das enfermeiras para saber o que tinha acontecido na véspera e
na noite anterior. Teve que segurar um sorriso. Aparentemente, a Sra. Arnold estava
incomodando as enfermeiras tanto quanto incomodavam a ele, mas a recuperação do Sr.
Arnold estava se encaminhando bem. Essa impressão era confirmada pelos gráficos das
funções vitais e pelos exames laboratoriais do dia anterior. Satisfeito, Kim guardou a
ficha na gaveta e foi ver seu paciente.
O Sr. Arnold estava sentado na cama, tomando o café da manhã e assistindo à
televisão. Pensando consigo mesmo, Kim admirou-se do progresso que a cirurgia
cardiovascular tinha atingido nos últimos vinte anos, como mostrava aquele paciente.
Ali estava um homem de setenta anos que há menos de quarenta e oito horas
encontrava-se gravemente doente e se submetera a uma cirurgia interna no coração. O
órgão fora literalmente parado, cortado e separado e já era possível vê-lo relativamente
alegre, praticamente livre de dores e aproveitando uma significativa melhora em sua
qualidade de vida. Sentiu-se frustrado com a depreciação desse milagre pelo sistema
econômico vigente.
— Como se sente, Sr. Arnold? — perguntou Kim.
— Muito bem — disse.
Ele limpou o queixo com o guardanapo. Quando estava sozinho, o Sr. Arnold


era um homem agradável, mas quando a mulher estava junto, o ambiente fumegava.
Kim interrompeu o café de seu paciente apenas o tempo necessário para verificar
sua roupa e o volume das fezes. Estava tudo normal.
— Tem certeza de que vou poder jogar golfe? — perguntou o Sr. Arnold.
— Sem dúvida — respondeu Kim. — Vai poder fazer tudo que quiser.
Depois de mais algumas brincadeiras, Kim saiu do quarto. Infelizmente, deu de
cara com Gertrude Arnold entrando.
— Aí está o senhor, doutor. Fico feliz por encontrá-lo. Exijo uma enfermeira de
plantão aqui o dia todo, ouviu?
— Qual é o problema? — perguntou Kim.
— O problema? Vou lhe dizer qual é o problema. As enfermeiras deste andar
nunca estão disponíveis. Às vezes leva horas para aparecer alguém. Quando Harvey
toca a campainha, elas demoram demais.
— Talvez saibam que o Sr. Arnold está em ótimo processo de recuperação —
explicou Kim — e estão ocupadas com outros pacientes que não estão indo tão bem.
— Não venha o senhor agora com desculpas para mim. Quero uma enfermeira
aqui o tempo todo.
— Vou chamar uma pessoa para resolver esse assunto — disse Kim.
Momentaneamente aliviada, a Sra. Arnold concordou.
— Não me deixe esperando muito tempo.
— Verei o que posso fazer — disse Kim.
Na sala de enfermagem, Kim pediu ao vigia que localizasse o administrador do
AmeriCare e o chamasse para atender a Sra. Arnold. Kim não conseguiu esconder um
risinho de satisfação enquanto aguardava o elevador. Adoraria ouvir a conversa entre os
dois. A idéia de chatear os administradores do AmeriCare lhe dava um imenso prazer.
A porta do elevador se abriu e Kim teve que se espremer para entrar. Estava
muito cheio para uma manhã de domingo. Kim ficou imprensado ao lado de um
residente alto e magro, em seu típico jaleco branco. No bolso da camisa lia-se: DR.
JOHN MARKHAM - PEDIATRA.
— Com licença — disse Kim. — Por acaso sabe se existe algum vírus entérico
atacando crianças em idade escolar atualmente?
— Não que eu saiba — respondeu John. — Estamos tendo muito trabalho com
uma gripe, mas com origem respiratória. Por que pergunta?
— Minha filha está com um desarranjo intestinal.
— Quais os sintomas?
— Começaram ontem pela manhã com cólicas. Depois, diarréia. Dei a ela um
gastrintestinal.
— Ajudou?
— No início achei que sim. Mas ontem à noite os sintomas voltaram.
— Teve náuseas ou vômitos?
— Um pouco de náusea, mas sem vômito, ao menos por enquanto. Perdeu
também o apetite.
—Febre?
— Não, nenhuma.
— Quem é o pediatra dela?
— Era George Turner. Depois da fusão, ele teve de sair da cidade.
— Eu me lembro do Dr. Turner — disse John. — Eu atendia no Samaritano. É
um bom homem.
— Com certeza — disse Kim. — Está trabalhando em Boston, no Hospital da
Criança.


— Para prejuízo nosso — comentou John. — Mas voltando à sua filha, sou
capaz de apostar que ela teve uma intoxicação alimentar e não propriamente um vírus.
— Sério? Sempre associei intoxicação alimentar a efeitos fulminantes. Como o
famoso estafilococo na salada de batatas do piquenique.
— Não necessariamente. Ela pode ocorrer de muitas formas. Mas enfim, pelo
sintoma da diarréia aguda, a maior probabilidade é mesmo de uma intoxicação
alimentar. Estatisticamente, é a coisa mais provável. Para que tenha uma idéia, o Centro
para Controle de Doenças estima que ocorram de duzentos a trezentos milhões de casos
anuais.
O elevador parou, e John desembarcou.
— Espero que sua filha melhore — disse John, com a porta se fechando.
Kim sacudiu a cabeça. Virou-se para outro residente.
— Ouviu isso? Duzentos a trezentos milhões de vítimas de intoxicação alimentar
anualmente! É uma loucura!
— Significa que todo mundo no país sofre em média uma por ano — comentou
o residente.
— Não é possível — disse uma enfermeira que deixava o serviço.
— Eu acho que é — opinou outro residente. — A maioria das pessoas atribui os
sintomas a um mal—estar estomacal. Ora, sabemos que não existe essa coisa de malestar estomacal.
— É de estarrecer — disse Kim. — Faz você pensar duas vezes antes de sair
para comer fora.
— Também não é difícil contrair uma intoxicação alimentar dentro de casa —
disse uma mulher no fundo. — Na maioria das vezes, acontece por causa das sobras de
comida, embora o manuseio impróprio do frango cru também seja uma das principais
causas.
Kim balançou a cabeça. Sentia uma desagradável sensação de que todos no
elevador sabiam mais sobre o assunto do que ele.
Chegando ao térreo, Kim saltou do elevador e deixou o hospital. Enquanto
dirigia, não pôde parar de pensar em intoxicação alimentar. Ainda estava chocado com a
idéia dos duzentos a trezentos milhões de casos anuais nos Estados Unidos. Se essa
estatística fosse verdadeira, parecia-lhe inacreditável o fato de nunca ter lido nada a
respeito em nenhuma revista médica.
Kim não conseguia tirar esses pensamentos da cabeça quando entrou em casa e
atirou as chaves sobre a mesinha do hall. Pensou em navegar na Internet e procurar uma
estatística sobre intoxicação alimentar, quando escutou o som da TV vindo da cozinha.
Foi até a porta e entrou.
Ginger estava debruçada sobre a pia, lutando com o abridor de lata preso na
parede. Vestia uma roupa de ginástica que não deixava muito espaço para a imaginação.
Tanto aos sábados quanto aos domingos, fazia religiosamente sua aeróbica. Becky
estava prostrada no sofá da sala de estar, assistindo a desenhos animados. Estava com o
cobertor enrolado até o pescoço. Parecia ligeiramente p lida em contraste com a lã
verde-escura.
Tinham passado a noite anterior em casa por causa do estado de Becky. Ginger
fez uma galinha, que a menina quase não tocou. Depois que Becky foi dormir, Ginger
ficou para fazer companhia. Kim esperou que estivesse tudo em paz. Àquela hora,
quando estava chegando das suas visitas, esperava encontrá-las ainda dormindo.
— Oi, meninas, cheguei!
Nenhuma das duas respondeu.
— Droga! — exclamou Ginger. — Essa coisa está um lixo.


— Qual o problema? — perguntou Kim, dando um passo em sua direção. Ela
desistira do abridor e estava com as mãos na cintura. Parecia exasperada.
— Não consigo abrir essa lata — disse, mal-humorada.
— Eu abro — ofereceu-se Kim, tomando-lhe a lata das mãos. Antes porém
verificou o rótulo. — O que é isso?
— Caldo de galinha, exatamente como diz aí — respondeu Ginger.
— O que vai fazer com isso às nove da manhã?
— É para Becky. Minha mãe sempre fazia isso para mim quando eu tinha dor de
barriga.
— Eu já disse a ela que não estou com fome — gritou Becky.
— Minha mãe sabia das coisas — disse Ginger.
Kim largou a lata em cima da mesa e foi até a sala de estar. Curvou-se sobre o
sofá e pôs a mão na testa de Becky. Ela mexeu a cabeça tentando manter o aparelho
dentro de seu campo de visão.
— Sente-se melhor? — perguntou Kim.
Ela parecia um pouco quente.
— Não. E também não quero comer nada. Faz a barriga doer mais.
— Ela precisa comer — disse Ginger. — Não jantou quase nada.
— Se o organismo dela está recusando, então é melhor deixar. — respondeu
Kim.
— Mas ela vomitou tudo — prosseguiu Ginger.
— Foi mesmo, Becky? — O vômito era um novo sintoma.
— Só um pouco — admitiu.
— Não seria melhor chamar um médico? — perguntou Ginger.
— E o que você pensa que eu sou? — retrucou Kim, ofendido.
— Sabe o que quero dizer. Você é o melhor cirurgião cardíaco do mundo, mas
não tem muita prática em lidar com barrigas de criança.
— Por que não vai lá em cima e me traz o termômetro?
— Onde?
— No banheiro maior, prateleira superior direita. — E perguntando para Becky:
— E as cólicas?
— Continuam.
— Estão piores?
— Na mesma. Vão e vêm.
— E a diarréia?
— Precisamos falar disso? Tenho vergonha.
— Está bem, querida. Tenho certeza de que em poucas horas estará se sentindo
bem novamente. Não quer mesmo comer alguma coisa agora?
— Não tenho fome.
— Tudo bem — disse Kim. — Quando quiser, é só pedir.
Já estava escuro quando Kim dobrou na rua de Tracy e estacionou em frente ao
gramado. Desceu do carro e deu a volta para abrir a porta do passageiro. Becky estava
enrolada no cobertor até a cabeça. Kim ajudou a menina a saltar do carro e subir a
escada da varanda. Ela passara o dia todo deitada, assistindo à TV. Kim tocou a
campainha e esperou. Tracy abriu a porta e foi logo dizendo oi para a filha, mas calouse espantada e franziu a testa.
— Por que o cobertor? — perguntou. Seus olhos dirigiram-se para Kim em
busca de uma explicação e depois para Becky — Entrem!
Becky entrou e Kim a acompanhou. Tracy fechou a porta.


— O que aconteceu? — perguntou Tracy, levantando a ponta do cobertor do
rosto de Becky. — Está pálida. Você está doente?
Minúsculas lágrimas se formaram no canto dos olhos de Becky. Tracy percebeu
a angústia da filha e imediatamente a envolveu num abraço protetor. Abraçada à
menina, lançou um olhar para Kim.
— Ela está um pouco enjoada — admitiu Kim, defensivamente.
Tracy segurou Becky pelos ombros para observá-la melhor. Becky esfregou os
olhos.
— Você está muito pálida — disse Tracy. — O que está havendo?
— Apenas um ligeiro distúrbio gastrintestinal — opinou Kim. Provavelmente
intoxicação alimentar. Pelo menos foi essa a opinião de um pediatra residente com
quem conversei.
— Se é tão ligeiro, por que ela está tão pálida? — questionou Tracy pondo a
mão na testa de Becky.
— Ela não tem febre — disse Kim. — Apenas cólicas e diarréia.
— Deu alguma coisa a ela?
— É claro. Tomou Pepto-Bismol e como pareceu não fazer efeito dei Imodium.
— Melhorou?
— Um pouco.
— Preciso ir ao banheiro— disse Becky.
— Está bem, querida — disse Tracy — use o de cima. Eu subo num instante.
Becky largou o cobertor e subiu correndo a escada.
Tracy virou-se para Kim. Tinha o rosto vermelho de indignação:
— Meu Deus, Kim! Menos de quarenta e oito horas com você, e já é o suficiente
para ela voltar doente. O que fez com ela?
— Nada de incomum.
— Seria melhor não ter viajado — desabafou Tracy.
— Ora, vamos — disse Kim, começando a irritar-se — se ela contraiu algum
vírus, pode muito bem ter acontecido antes do fim-de-semana, enquanto você ainda
estava aqui.
— Pensei tê-lo ouvido dizer que foi intoxicação alimentar — disse Tracy.
— Foi só uma opinião de um pediatra residente.
— Ginger cozinhou alguma coisa no fim-de-semana?
— Na verdade, sim. Fez um frango delicioso ontem para jantar.
— Frango! — exclamou Tracy — É claro, só pode ter sido isto.
— Então, a culpa é da Ginger? — disse Kim com sarcasmo. — Você não gosta
mesmo dela, não é?
— Nem gosto, nem desgosto. Hoje em dia ela não me diz nada. Mas é um fato
que é jovem e sem dúvida inexperiente na cozinha. Quem conhece sabe que é preciso
ter muito cuidado com frangos.
— Você acha que sabe tudo. Bem, para seu conhecimento, Becky não tocou no
frango. Além disso, ela não se sente bem desde a manhã de sábado. Isso significa que se
foi vítima de intoxicação alimentar, então foi no Onion Ring da Prairie Highway, o
lugar que seu novo namorado gosta de se gabar dizendo para Becky que é dele.
Tracy dirigiu-se para a porta.
— Boa noite, Kim — disse, rudemente.
— Outra coisa que tenho para lhe dizer — desabafou Kim — Não gosto que
fique insinuando para Becky que sou algum tipo de bicho-papão por Encorajá-la a
competir no campeonato nacional.
— Nunca aprovei essa sua obsessão — disse Tracy. — Quando Becky me


explicou por que não queria disputar esse torneio, eu a apoiei. Disse também que você
provavelmente tentaria convencê-la a mudar de idéia. Foi só isso.
Kim lançou um olhar colérico sobre a ex-mulher. Aquele ar superior de
psicóloga que assumia toda vez que discutiam o deixava fora do sério, especialmente
quando ela resolvia advertir a filha a respeito do que ele iria dizer a ela.
— Boa noite, Kim! — repetiu Tracy, com a porta ainda aberta.
Kim girou sobre os calcanhares e saiu sem olhar para trás.

6
Segunda-feira, 19 de janeiro
O despertador ficava programado para tocar às cinco e quinze da manhã, mas
raramente era utilizado. Kim geralmente acordava alguns minutos antes do alarme e
travava o pino da campainha antes de perturbar a paz da madrugada. Habituara-se a
levantar bem cedo desde seu primeiro ano como residente de cirurgia. Ele ergueu-se da
cama quente no escuro e deu uma corridinha até o banheiro, completamente nu.
Seguindo sua rotina diária, que não exigia raciocínio, Kim abriu a pesada porta
de vidro do boxe e abriu a torneira até o fim. Kim e Tracy sempre preferiram o banho de
chuveiro ao de banheira. Aquele tinha sido o único cômodo da casa a sofrer algum tipo
de reforma depois da compra, há dez anos. Tinham retirado a banheira e montado no
local um amplo boxe de três metros de comprimento por um e oitenta de largura. As
paredes internas eram de mármore. A porta de vidro temperado com um centímetro de
espessura tinha braçadeiras de metal montadas verticalmente, de forma que pareciam
atravessar o vidro. Para Kim, uma extravagância digna das melhores revistas
especializadas.
Seu café da manhã foi um donut com café com leite que comprou em uma loja
da Dunkin' Donuts perto de sua casa. Comia enquanto dirigia na escuridão da manhã.
Também aproveitava aqueles momentos para escutar fitas de atualidades médicas. Às
seis já estava no consultório, gravando relatórios dos pacientes e assinando cheques para
as despesas gerais. Às seis e quarenta e cinco dava aula no hospital para os residentes da
cirurgia torácica e fazia questão de visitar seus próprios pacientes. Às sete e meia estava
no salão de conferência para a inevitável reunião diária. Naquela manhã os assuntos
abordados foram as credenciais hospitalares e a concessão de privilégios.
Após a reunião administrativa, que acabou se prolongando mais que o esperado,
Kim reuniu-se com outros colegas da cirurgia torácica cuja pesquisa ele supervisionava
e da qual participava. Nessa reunião apresentou um caso de tripla reposição de válvulas.
Por volta das dez, estava de volta ao consultório, porém atrasado, como de
costume. Logo descobriu que Ginger marcara duas emergências, uma para as nove e
meia e outra para as nove e quarenta e cinco. Cheryl Constantine, a enfermeira, já tinha
conduzido os pacientes para as duas saletas de exame.
A manhã transcorreu com os pacientes se sucedendo ininterruptamente. Na hora
do almoço, comeu um sanduíche que Ginger pediu por telefone, enquanto verificava
exames e chapas de raios X. Encontrou tempo também para responder a um colega em
Salt Lake City, sobre outro paciente que se submeteria a uma tripla reposição de
válvulas.
A tarde não foi diferente, com a sala de espera repleta de pacientes com hora
marcada e algumas emergências que Ginger conseguira encaixar entre uma consulta e
outra. Às quatro, Kim teve de ir ao hospital resolver um caso não muito grave com um
de seus internos. Já que estava lá, aproveitou para uma rápida visita a seus pacientes


internados.
De volta ao consultório, procurou em vão recuperar o tempo. Muitas horas e
muitos pacientes depois, parou um pouco para tomar fôlego antes de entrar no que
chamava sua sala de exames "A". Apanhou a ficha do paciente e ficou feliz de ver que
seria um exame pós-operatório de rotina, ou seja, rápido. O paciente se chamava Phil
Norton e quando Kim entrou no cubículo, Phil já estava obsequiosamente sentado sobre
a cama de exame, sem camisa.
— Meus parabéns, Sr. Norton — disse Kim, depois de ler a ficha. — O seu teste
de esforço físico está normal agora.
— Graças a Deus! — disse Phil.
E graças aos avanços da cirurgia moderna, refletiu Kim. Ele se inclinou e
examinou a marca da incisão no centro do peito de Phil. Kim apalpou a estria estufada
de tecido com a ponta dos dedos. Pelo toque podia ter uma avaliação perfeita das
condições internas do paciente.
— E a cicatrização parece excelente — acrescentou Kim, dando um passo para
trás. — Bem, no que me diz respeito, já pode começar a treinar para a maratona de
Boston.
— Não creio que esteja em meus planos — respondeu Phil, sorridente. — Mas
na primavera com certeza estarei firme no golfe.
Kim deu um tapinha no ombro do cliente e apertou-lhe a mão.
— Divirta-se — disse — mas não se esqueça de seguir à risca seu novo estilo de
vida.
— Não se preocupe. Vi tudo o que me deu para ler em casa e vou fazer tudo
direitinho. Para começar, cigarros nunca mais.
— E lembre-se: dieta e exercícios.
— Não se preocupe. Não quero passar por isso de novo.
— Ora, até que não foi tão mal assim— brincou Kim.
— Não, mas foi aterrorizante.
Kim deu mais um tapinha nas costas de Phil, fez uma anotação rápida em sua
ficha e deixou a saleta. Atravessou o corredor para atender na sala "B", mas não havia
nenhuma ficha pendurada na porta.
— O Sr. Norton foi o último paciente — disse Cheryl, às suas costas.
Kim deu meia-volta e sorriu para sua enfermeira. Passou a mão cansada pelo
cabelo revolto.
— Bom. Que horas são?
— Já passa das sete.
— Obrigado por ficar até mais tarde.
— Não foi nada.
— Espero que esse atraso crônico não lhe cause problemas em casa.
— Problema nenhum. Estou ficando acostumada, e meu marido também. Agora
ele sabe que precisa ir buscar meu filho na creche.
Kim foi para sua sala. Afundou na poltrona e observou a pilha de recados que
ainda tinha de responder antes de voltar para casa. Esfregou os olhos. Estava exausto e
com os nervos à flor da pele. Como de costume, as tensões do dia tinham acumulado.
Ele adoraria jogar tênis e por um instante pensou em parar no clube antes de ir para
casa. Poderia ao menos correr um pouco na esteira rolante.
O rosto de Ginger apareceu no vão da porta.
— Tracy acaba de ligar — disse, com uma voz cortante.
— O que queria? — perguntou Kim.
— Não quis dizer. Só pediu para você ligar.


— Por que está aborrecida?
Ginger respirou fundo e pôs a mão na cintura.
— Ela é seca e mal-educada. Eu procuro ser gentil, mas não adianta. Até
perguntei como Becky estava passando.
— E o que ela disse?
— Só para você ligar.
— Está bem, obrigado — disse ele, pegando imediatamente o telefone.
— Já estou indo para a aula de aeróbica — avisou Ginger.
Com um aceno, Kim deu a entender que tinha escutado.
— Ligue-me mais tarde— disse ela.
Kim assentiu com a cabeça. Ginger saiu e fechou a porta atrás de si. No instante
seguinte, Tracy atendeu.
— O que há? — foi logo perguntando Kim.
— Becky piorou — respondeu Tracy.
— Como assim?
— Ela está chorando de dor e evacuando sangue.
— De que cor?
— Pelo amor de Deus, o que quer dizer com "que cor"?
— Vermelho vivo ou escuro?
— Verde amarelado— respondeu Tracy, exasperada.
— Estou falando sério — disse Kim. — Vermelho vivo ou escuro, quase
marrom?
— Vermelho vivo — respondeu Tracy.
— Quanto?
— Como vou saber? — disse Tracy, irritada. — É sangue, é vermelho. E mete
medo. Isso é suficiente para você?
— Não é tão incomum uma hemorragia leve na diarréia — disse Kim.
— Não estou gostando.
— O que pretende fazer?
— E você pergunta a mim? — questionou Tracy, incrédula. — você o médico,
não eu!
— Talvez seja melhor ligar para George Turner em Boston — disse Kim.
— E o que ele vai fazer a dois mil quilômetros de distância? Quero que ela seja
examinada; quero que ela seja examinada agora!
— Está bem, está bem. Acalme-se!
Kim respirou fundo para coordenar os pensamentos. Além de George, não tinha
nenhum outro colega pediatra a quem recorrer. Pensou em falar com algum residente,
mas ficou em dúvida. Parecia exagero incomodar alguém à noite só por causa de uma
diarréia leve com dois dias de duração, mesmo apresentando um pouco de sangue
vermelho vivo.
— Faça o seguinte — decidiu Kim. — Encontre-me no pronto-socorro do
Centro Médico Universitário.
— Quando?
— Em quanto tempo acha que pode chegar lá?
— Meia hora, talvez.
— Eu a vejo lá.
Apenas dez minutos o separavam do hospital, agora que o transito tinha
diminuído. Kim aproveitou os vinte minutos seguintes para responder ao maior número
possível de telefonemas. Tracy ainda não tinha aparecido quando ele chegou ao pronto-


socorro. Preferiu esperar na recepção. Enquanto isso, diversas ambulâncias subiram a
plataforma da portaria, abrindo passagem com o som agudo das sirenes. Com rapidez e
agilidade, os enfermeiros desembarcaram dois pacientes em estado crítico. Um deles
desceu entubado. Kim ficou observando-os até desaparecerem no fundo de um corredor
e relembrou com nostalgia seus dias de residência. Kim tinha trabalhado duro e se
consagrado como um dos melhores residentes na história do hospital. Fora uma época
de idealismos e em muitos aspectos bem mais gratificante que a atual.
Kim já estava com o celular na mão quando viu a caminhonete de Tracy
procurando vaga no estacionamento. Correu até o carro e ajudou Becky a saltar. Ela lhe
dirigiu um pálido sorriso.
— Você está bem, querida?
— A barriga dói muito — respondeu Becky.
— Já vamos dar um jeito nisso — disse. Ele olhou para Tracy, que tinha descido
e dado a volta no carro. Parecia tão irritada quanto na noite anterior.
Kim seguiu na frente e ajudou Becky a subir os seis degraus até a portaria.
Passaram pela porta giratória e entraram.
Como todo pronto-socorro de uma grande cidade do Meio-Oeste, a unidade
parecia uma estação rodoviária em dia de feriado. O atendimento nas noites de segundafeira parecia multiplicar-se por causa dos excessos do fim-de-semana.
Amparando Becky, Kim abriu caminho por entre a multidão, passou direto pelo
balcão da recepção e atravessou a sala de espera lotada. Quando passava pelo núcleo de
enfermagem, uma mulher enorme, com um físico descomunal, interceptou-lhe o
caminho. Sua massa corporal bloqueava completamente a passagem de Kim. Na tarja de
sua blusa estava escrito: MOLLY MCFADDEN. Era alta o suficiente para encarar Kim,
olho no olho.
— Desculpe — disse Molly. — Não pode entrar aqui sozinho. Precisa preencher
a ficha na recepção.
Kim tentou forçar a passagem, mas ela não arredou pé.
— Com licença — disse Kim. — Sou o Dr. Reggis. Trabalho aqui e minha filha
precisa ser examinada.
Molly soltou uma risada curta.
— Não me interessa se você é o Papa João não sei das quantas. — Ela pigarreou
e continuou: — Todo mundo, eu disse, todo mundo, tem de pegar a ficha na recepção, a
menos que chegue na maca.
Kim estava tão abismado que perdeu a fala por um instante. Não podia acreditar
que estivesse ali sendo publicamente desafiado, ouvindo desaforos de uma enfermeira.
Ficou olhando incrédulo os ameaçadores olhos azuis daquela mulher. Ela parecia mais
uma lutadora de sumô vestida de branco. Se já tinha ouvido o nome de Kim como
membro da equipe do hospital, não demonstrou o menor sinal.
— Quanto mais rápido preencher sua ficha, doutor, mais rápido sua filha será
atendida.
— Ouviu bem o que eu disse? Sou o cirurgião-chefe da cardiologia.
— Não sou surda, doutor — respondeu Molly. — A questão é: o senhor me
ouviu?
Kim fuzilou-a com o olhar, mas a mulher não se intimidou.
Tracy sentiu o peso do impasse. Conhecendo bem o temperamento de seu exmarido, tomou a frente para contornar a situação.
— Vamos, querida — disse para Becky, tomando-a pela mão. — Vamos fazer
como manda o regulamento e preencher sua ficha.
Tracy levou Becky de volta pelo mesmo caminho. Kim lançou outro olhar


raivoso para Molly, deu as costas e saiu atrás das duas. Juntos, entraram na fila de
registro. Kim continuava indignado.
— Vou dar queixa daquela mulher — rosnou. — Ela vai pagar pela insolência.
Desgraçada! Não posso acreditar.
— Só está fazendo o trabalho dela — comentou Tracy, aliviada com o fim do
incidente.
— É mesmo? — retrucou Kim. — Ainda quer defendê-la?
— Acalme-se! Está apenas cumprindo ordens. Você acha que é ela quem faz o
regulamento?
Kim sacudiu a cabeça. A fila avançou um pouco. Naquele momento só havia
uma funcionária no balcão. Seu trabalho era o de preencher as fichas com os dados
pessoais do paciente, incluindo o seguro de cobertura quando o paciente não pertencia
ao plano de saúde do AmeriCare.
Subitamente, o rosto de Becky contorceu-se num espasmo de dor. Apertando as
mãos contra a barriga, começou a choramingar.
— O que está sentindo? — perguntou Kim.
— O que você acha?— disse Tracy. — São cólicas.
Becky começou a transpirar e empalidecer. Olhou para a mãe como a pedir por
socorro.
— Vai passar como das outras vezes, querida — disse Tracy. Afagou Becky e
enxugou o suor do seu rosto. — Quer se sentar?
Becky balançou a cabeça.
— Guarde nosso lugar — pediu Tracy a Kim.
Kim ficou observando Tracy acompanhar Becky até uma das cadeiras prémoldadas de plástico encostadas à parede. Kim percebeu que Tracy dizia qualquer coisa
a Becky e ela balançava a cabeça. A cor foi voltando ao rosto de Becky. Alguns minutos
depois Tracy voltou à fila.
— Como ela está? — perguntou Kim.
— Sente-se melhor agora. — Tracy reparou que a fila quase não tinha avançado.
— Não há nenhuma alternativa para essa demora?
— É noite de segunda—feira. Uma noite difícil em qualquer pronto-socorro.
— Sinto falta do Dr. Turner — disse ela, depois de exalar um suspiro.
Kim fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ergueu-se na ponta dos pés para ver
o que estava acontecendo, mas não viu nada.
— Isso é ridículo! — exclamou. — Volto já!
Com os dentes trincados, Kim foi se espremendo entre as pessoas para chegar
até o balcão. Logo compreendeu por que a fila não andava. Um sujeito bêbado, com o
paletó sujo e amarrotado, estava encontrando certa dificuldade para preencher sua ficha.
Seus cartões de crédito tinham caído da carteira e sumido no chão. Estava com um corte
feio na parte de
trás da cabeça.
— Olá! — gritou Kim, procurando chamar a atenção da recepcionista. Era uma
garota afro-americana de seus vinte e poucos anos. — Sou o Dr. Kim Reggis, da
cardiologia. Estou com...
— Perdão — disse a recepcionista, interrompendo Kim. — Só posso atender
uma pessoa de cada vez.
— Escute! — ordenou Kim. — Sou da equipe deste hospital e...
— Não importa. O serviço aqui é o mesmo para todos. Quem chega antes é
atendido primeiro. É a norma de rotina para qualquer emergência.
— Rotina de emergência? — perguntou Kim.


Aquilo era uma tolice ridícula. O ímpeto de argumentar com aquela funcionária
cedeu ante a frustrante sensação que sentia quando era obrigado a conversar com algum
representante de seguradora ou plano de saúde. Antes de dar alta a um paciente. Esse
aspecto tinha se tornado um dos piores problemas da medicina moderna.
— Por favor, aguarde no fim da fila — disse a recepcionista. — Se me deixar
resolver a situação dessa gente logo, poderei atender o senhor em menos tempo
também. — Dizendo isso, voltou-se para o bêbado. Nesse meio tempo, ele tinha
conseguido juntar todos os documentos espalhados.
Era óbvio que seria pura perda de tempo tentar dialogar com aquela mulher. Ela
talvez sequer soubesse o significado da palavra equipe. Frustrado, humilhado e irritado,
Kim voltou para onde estava Tracy.
— Não sei como empregam essa gente — reclamou Kim. — São uns autômatos.
— Estou impressionada em ver a dimensão do seu prestígio neste hospital.
— Seu sarcasmo não ajuda em nada. Tudo isso é conseqüência da fusão. Não me
conhecem aqui. Para dizer a verdade, acho que jamais estive nesse pronto-socorro.
— Se ouvisse as queixas de Becky no fim-de-semana, provavelmente não
estaríamos aqui agora.
— Eu ouvi — defendeu-se Kim.
— Sim, é claro. Dando a ela um comprimidinho para dor de barriga. Muito
eficiente! Mas, sabe de uma coisa? Não fico surpresa. Jamais levou a sério algum
problema de Becky. E nem meu, já que estamos tocando no assunto.
— Não é verdade! — respondeu Kim, ressentido.
— É sim. Somente a esposa de um cirurgião cardíaco pode compreender. Para
você, qualquer sintoma que não exija um transplante imediato do coração é exagero ou
fingimento.
— Você me agride, assim.
— Você também me agride.
— Está certo. doutora sabe-tudo. O que faria então se estivesse no meu lugar?
— Teria encontrado alguém para cuidar de Becky. Um de seus muitos colegas.
Você deve ter mil amigos médicos, não custa nada pedir.
— Espere um instante! — disse Kim, lutando para não perder o controle. —
Becky só teve uma diarréia e um pouco de cólica. Era fim-de-semana. Não iria
incomodar um colega por causa disso.
— Mamãe! — chamou Becky. Ela aproximara-se por trás dos dois. — Preciso ir
ao banheiro!
Tracy se virou e a preocupação com a filha arrefeceu imediatamente sua raiva.
Passou o braço ao redor do ombro dela.
— Claro, querida, desculpe. Vamos procurar um banheiro.
— Esperem — disse Kim. — Vamos aproveitar para coletar uma amostra de
fezes.
— Deve estar brincando — disse Tracy. — Ela precisa ir logo.
— Agüente firme, Becky. Volto num minuto.
Kim desapareceu pelas dependências internas do pronto-socorro. Sem Becky e
Tracy, não teve dificuldade para passar e não viu sinal da troglodita Molly McFadden.
A sala de emergência era subdividida em cubículos separados por cortinas de
pano, uma ala de ortopedia com alguns quartos individuais equipados com máquinas de
última geração, outras saletas de exame destinadas principalmente aos casos
psiquiátricos.
Como na sala de espera, o local era caótico. Todas as salas de ortopedia estavam
ocupadas, e dezenas de plantonistas, residentes enfermeiros, enfermeiras e residentes


circulavam desordenadamente.
Ao entrar, Kim procurou alguém que conhecesse. Infelizmente não viu nenhum
rosto conhecido. Dirigiu-se a um dos ordenanças e perguntou:
— Com licença, preciso de um frasco de coleta.
O enfermeiro o fitou de cima a baixo.
— Quem é você?
— Dr. Reggis — disse Kim.
— Tem seu cartão de identificação?
Kim mostrou-lhe o cartão.
— Certo — disse o enfermeiro. — Volto já.
Kim observou o homem desaparecer por trás de uma porta, aparentemente um
almoxarifado.
— Olha a frente! — disse uma voz vinda de trás.
Kim virou-se ainda a tempo de se desviar de uma unidade móvel de raios X,
com as carretilhas rangendo, empurrada por um técnico. Logo depois o enfermeiro
reapareceu. Entregou dois sacos plásticos a Kim, com dois recipientes.
— Obrigado — disse Kim.
— De nada — respondeu o enfermeiro.
Quando voltou, a fila estava quase no mesmo lugar. Becky tinha os olhos
fechados. Em seu rosto corriam lágrimas.
Kim entregou um dos sacos plásticos a Tracy.
— Mais cólicas? — perguntou.
— É claro, seu imbecil — disse Tracy. Agarrou a mão da filha e saiu na direção
do banheiro.
Kim ficou guardando o lugar na fila e avançou mais um passo. A funcionária
agora era outra. Aparentemente, a primeira tinha saído para um intervalo. Às nove e
quinze, o saguão do pronto-socorro estava transbordando. As cadeiras pré-moldadas de
plástico estavam todas ocupadas. As pessoas encostavam-se às paredes ou sentavam-se
no chão. Quase ninguém conversava. Num dos cantos uma televisão suspensa no teto
transmitia a CNN. Um choro de criança cobria a voz do locutor. Lá fora começava a
chover e uma atmosfera úmida envolveu o ambiente.
Kim, Tracy e Becky já tinham encontrado espaço para se sentar juntos e ali
ficaram, à exceção de Becky, que precisou ir por diversas vezes ao banheiro. Kim
segurava o frasco de coleta. Apesar dos pigmentos de sangue citados por Tracy, a
coloração do material coletado agora era marrom, claro e uniforme. Becky estava
deplorável e mortificada. Tracy,
exasperada. Kim, fervilhando de indignação.
— Não posso acreditar nisso — disse Kim. — Eu realmente não posso acreditar!
A todo instante acho que vamos ser chamados, mas nunca somos! — Consultou o
relógio. — Faz uma hora e meia que estamos aqui.
— Bem-vindo ao mundo real — disse Tracy.
— Isso é o que Kelly Anderson devia ter mostrado na reportagem sobre a fusão
— disse Kim. — É um absurdo. O AmeriCare fechou o pronto-socorro do Samaritano
para cortar despesas e forçar a vinda de todos para cá. Com a única finalidade de
aumentar os lucros.
— E as inconveniências — acrescentou Tracy.
— E verdade. O AmeriCare está definitivamente decidido a desencorajar o
atendimento emergencial.
— Não vejo melhor forma.
— É inconcebível que ninguém me reconheça — rosnou Kim. — É incrível.


Diabos, sou o cirurgião mais conhecido da cardiologia!
— Não há nada que possa fazer? Becky está péssima.
Kim ergueu-se da cadeira.
— Muito bem, vou tentar.
— Mas não brigue — advertiu Tracy. — Só vai piorar as coisas.
— Não pode ficar pior do que já está.
Kim dirigiu-se à recepcionista da enfermaria. Dera apenas alguns passos quando
o som de uma sirene de ambulância reverberou pela porta de vaivém à sua esquerda. No
momento seguinte, o reflexo de uma luz vermelha brilhou no vidro da porta. A sirene
parou e, em questão de segundos, várias pessoas ensangüentadas, aparentemente vítimas
de acidente automobilístico, entraram em macas diretamente para o setor cirúrgico.
Kim não pôde deixar de se perguntar se aquelas novas emergências não
atrasariam ainda mais o atendimento a Becky.
Molly McFadden não se encontrava no núcleo. Uma funcionária falava ao
telefone e transcrevia exames laboratoriais, enquanto outra enfermeira solitária
organizava um arquivo e bebericava uma xícara de café. No bolso de seu uniforme liase: MONICA HOSKINS, enfermeira.
Esforçando-se para manter a civilidade, Kim chamou a atenção da moça batendo
gentilmente com os dedos no balcão.
— Boa noite — disse, quando ela notou sua presença. — Talvez esteja me
reconhecendo.
Monica apertou ligeiramente os olhos enquanto analisava a fisionomia de Kim.
— Creio que não. Eu deveria?
— Sou da equipe cirúrgica. Estou esperando atendimento para minha filha há
mais de uma hora e meia. Pode me dizer quanto tempo ainda vai levar?
— A noite está muito movimentada com todos esses acidentes de carro —
explicou Monica. — Qual o nome?
— Dr. Reggis — disse, arqueando os ombros.
— Não o seu. O da paciente.
— Rebeca Reggis.
Monica pegou uma pilha de fichas. Depois de molhar a ponta do dedo com a
língua, folheou-as rapidamente.
— Muito bem — comentou, retirando uma delas. — Aqui está. — Leu o motivo
da consulta e ergueu os olhos para Kim, levantando as sobrancelhas.
— Diarréia, dois dias de duração — disse. — Não é exatamente uma
emergência.
Kim mostrou o frasco de coleta.
— Ela apresentou um quadro hemorrágico esta manhã.
Monica inclinou-se sobre o balcão.
— Não parece haver sangue.
— Mas houve antes. A mãe ficou apavorada.
— Nós a atenderemos assim que for possível — disse Monica, evasivamente. —
É só o que posso informar — e recolocou a ficha de Becky no mesmo local.
— Ouça — prosseguiu Kim, num tom de voz deliberadamente controlado. —
Como médico do hospital, eu espero um mínimo de consideração, e depois de já ter
esperado todo esse tempo, exijo que minha filha seja examinada imediatamente. Estou
sendo claro? Ela está passando muito mal.
Monica o fitou com um sorriso de visível falsidade.
— Conforme acabei de lhe dizer, iremos examiná-la tão logo seja possível.
Nossos recursos são limitados. Se já está a uma hora e meia esperando, deve ter


reparado nas vítimas do acidente que entraram, e agora mesmo a polícia alertou que um
homem baleado está a caminho.
Mal acabou de dizer aquelas palavras e uma sirene anunciou a chegada de outra
ambulância.
— Aposto que são eles agora — disse Monica, levantando-se. Foi até o interfone
e apertou um botão. Avisou alguém na sala da traumatologia para que ficasse de
prontidão e num instante ela própria desapareceu pelo interior do pronto-socorro.
Frustrado com a tentativa, Kim desistiu e voltou ao salão de espera. Quando
passava pela entrada principal, uma equipe de enfermeiros irrompeu pelo saguão com a
vítima baleada numa maca. O paciente usava máscara de oxigênio e recebia uma
intravenosa. Estava cinza como chumbo.
— E então? — perguntou Tracy, enquanto Kim retomava seu assento.
— Disseram que vão atendê-la o mais breve possível.
Kim ficou constrangido de relatar o resto da conversa. Notou que Becky se
encolhera toda em sua cadeira e mantinha os olhos fechados.
— Isso é muito vago — disse Tracy. — Quanto tempo? Quinze minutos? Uma
hora, amanhã de manhã?
— Quer dizer exatamente o mais breve possível — respondeu Kim, secamente.
— Uma vítima baleada acaba de dar entrada e a poucos minutos chegaram outras de um
acidente de carro. O movimento é muito grande.
Tracy suspirou e sacudiu a cabeça em desalento.
— Como está Becky? — perguntou Kim.
— Acaba de ter outra crise. Por aí você calcula. Você é o médico.
Kim olhou ao redor e trincou os dentes. Não era fácil manter a calma. E ainda
por cima estava faminto.
Permaneceu silencioso e carrancudo por mais uma hora. Não conseguia esquecer
aquela ridícula cena no pronto-socorro e não via a hora de desabafar com os colegas.
Eles iriam entender. Tracy e Becky pareciam mais resignadas com a espera.
Cada vez que uma das enfermeiras ou residentes aparecia no saguão, Kim
esperava ouvir o nome de Rebeca Reggis. Mas isso nunca acontecia. Consultou o
relógio pela milésima vez.
— Já passa de duas horas e meia — disse, levantando-se indignado —
Sinceramente, não posso acreditar nisso. Se eu fosse só um pouquinho paranóico, diria
que se trata de uma conspiração diabólica. Agora eles vão ter de fazer alguma coisa.
Espere-me aqui.
Tracy olhou de esguelha para o ex-marido. Sob circunstâncias normais, ficaria
preocupada pelo temperamento de Kim, mas depois de todo aquele tempo, já não estava
ligando. Queria que Becky fosse atendida logo. Ficou calada, enquanto ele se
distanciava.
Kim foi direto ao núcleo da enfermagem. Parte da equipe encontrava-se na
saleta, num bate-papo despretensioso e pontuado com risadas.
Com o braço apoiado no balcão, Kim procurou por algum rosto conhecido, mas
nenhum lhe era familiar, e ninguém pareceu reconhecê-lo. A única pessoa que percebeu
sua presença foi o vigia, um jovem com aparência de estudante universitário.
— Sou o Dr. Reggis — disse Kim. — O que está acontecendo? — Apontou para
o pessoal.
— Só vieram respirar um pouco — respondeu o rapaz. — A vítima baleada e os
últimos pacientes do acidente de carro acabam de subir para a cirurgia.
— Quem é o coordenador do turno da noite?
— Acho que é o Dr. David Washington — respondeu o funcionário.


— Ele está aqui no momento?
O rapaz olhou ao redor para certificar-se.
— Não — disse. — Deve estar na ortopedia.
— E a enfermeira-chefe, ou supervisora?
— Nora Labat. Está atendendo na psiquiatria.
— Entendo — disse Kim. — Obrigado.
Kim posicionou-se diante do centro do balcão. Erguendo a mão, disse em voz
alta:
— Com licença, pessoal! Olá!
Ninguém notou seu gesto ou sua voz.
Ele manteve o olhar, procurando estabelecer algum contato visual. Não adiantou.
Agarrou então uma bandeja de alumínio em cima do balcão e balançou-—a sobre a
cabeça, pensando que assim alguém iria perceber sua presença. Ninguém o notou.
Kim bateu com a caixa metálica violentamente sobre a fórmica do balcão.
Repetiu o gesto e continuou batendo com força cada vez maior, até deformá-la
totalmente.
Conseguiu, assim, atrair finalmente a atenção de todos. As conversas cessaram
no meio. Residentes, enfermeiras e enfermeiros, todos cravaram os olhos em Kim. Um
guarda da segurança que estava encostado ao lado do banco dos elevadores veio
correndo, protegendo com a mão um molho de chaves pendurado no cinto.
Procurando controlar a fúria, sua voz soou trêmula:
— Sei que vocês são todos muito ocupados, mas certamente não me parecem
ocupados agora. Eu estou esperando aqui com minha filha há duas horas e meia. Como
profissional, poderia estar usando meu tempo de forma bem mais útil.
— Por favor, senhor — disse o guarda, segurando-lhe o braço.
Kim soltou-se com um safanão e se virou para encarar o homem.
— Não toque em mim — rosnou para o guarda.
O segurança, sabiamente, recuou e puxou seu rádio de comunicação. Além de
uns quinze centímetros mais alto, Kim era bem mais forte.
— Não precisa chamar ninguém — disse Kim. Sacou seu cartão de identificação
e o esfregou no nariz do guarda. — Sou médico desse hospital, embora ninguém do
pronto-socorro pareça admitir.
Os olhos do segurança revolveram nas órbitas ao conferir o cartão de
identificação de Kim.
— Sinto muito, doutor — balbuciou.
— Está tudo bem — prosseguiu Kim, mais controlado. Virou-se novamente para
o balcão. Monica Hoskins assumira seu posto.
— Quero falar com o Dr. David Washington.
— Sinto muito pela demora, doutor — disse Monica. — Estamos fazendo o
melhor possível.
— Mesmo assim, eu quero falar com o chefe do departamento.
— O Dr. Washington está ocupado com um pneumotórax — explicou.
— Quero vê-lo agora! — disse Kim, pausadamente. — Estou certo de que há um
residente competente que saiba cuidar de um pneumotórax.
— Só um momento — disse Monica.
Ela foi até o fundo da saleta e conversou com Molly e as demais enfermeiras.
Voltou em menos de um minuto. Enquanto isso, uma delas pegava no telefone.
— Uma autoridade já está vindo falar com o senhor — disse Monica.
— Já não era sem tempo — ponderou.
O breve acesso de fúria de Kim tinha amedrontado a maioria do pessoal, que


preferiu sair do local. Monica apanhou a bandeja de alumínio e fez uma tentativa para
desamassá-la, porém sem sucesso.
O pulso de Kim estava acelerado. Um rebuliço às suas costas chamou-lhe a
atenção. Uma adolescente entrava escoltada por uma equipe de enfermeiros. Estava
soluçando e tinha ambos os pulsos amarrados com toalhas de prato ensangüentadas:
uma clara tentativa de suicídio. No caso daquela menina, sem dúvida, um grito
desesperado de socorro.
Kim voltou a perscrutar com ansiedade a ala interna do pronto-socorro. Esperava
ver o médico-encarregado chegando a qualquer instante. Em vez disso, sentiu um
tapinha no ombro. Dando meia-volta, surpreendeu-se ao ver Tracy.
— Onde está Becky? — perguntou Kim.
— No banheiro. Só vim pedir que não provoque mais uma de suas cenas
narcisistas. Quando saiu do saguão para vir até aqui, não me importei com o que ia
fazer, mas agora me importo. Tenho certeza que não vai melhorar em nada a situação.
Pelo contrário, Becky pode acabar tendo que esperar ainda mais.
— Não me venha com essa sua baboseira psicológica. Só quero ter uma
conversa normal, porém enérgica, com o homem que dirige esse lugar. O que está
acontecendo é inaceitável. Serei simples e direto.
— Apenas tente se controlar — disse Tracy, secamente. — Quando terminar,
sabe onde nos encontrar. — Tracy deu meia-volta e retornou ao saguão.
Kim tamborilou com os dedos impacientemente. Depois de um certo tempo,
o1hou para o relógio. Mais cinco minutos tinham se passado. Debruçou sobre o balcão
outra vez para ver se acontecia alguma coisa nas dependências internas do prontosocorro. Havia muitos funcionários, mas ninguém vindo em sua direção. Seus olhos
encontraram-se com os da recepcionista, que imediatamente desviou sua atenção. Toda
a equipe do pronto-socorro evitava olhar para Kim, fingindo ocupar-se com serviços
burocráticos.
Um som como o de uma sineta abafada anunciou a chegada do elevador. Kim
viu descer um homem pesadão, vestindo um terno cinza e conservador. Para sua
surpresa, o homem veio diretamente em sua direção.
— Dr. Reggis? — inquiriu. Tinha uma voz grave e autoritária.
— Sim, sou o Dr. Reggis.
— Sou Barclay Bradford — disse o homem com ar severo. — Sou um dos vicepresidentes do hospital e o administrador-chefe encarregado do turno da noite.
— Muito conveniente — disse Kim. — Pois então aconselho que volte lá para
dentro, localize o babaca chefe do departamento e traga-o aqui. Eu e ele temos um
assunto a tratar. Estou esperando há duas horas e meia para minha filha ser atendida.
— Dr. Reggis — foi dizendo Barclay como se Kim não tivesse dito nada —
como membro de nossa equipe profissional, particularmente um cirurgião, sabe melhor
que ninguém que a triagem é necessária em qualquer pronto-socorro. Casos com risco
de vida têm preferência frente a uma simples diarréia juvenil.
— É claro que entendo a triagem — respondeu Kim. — Trabalhei muitos anos
no pronto-atendimento. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa. Quando cheguei aqui há dez
minutos havia uma dúzia de funcionários tomando café e batendo papo.
— As aparências podem ocultar a verdade — comentou Barclay,
condescendente, e piscou os olhos. — Estavam provavelmente conferenciando sobre
algum caso particularmente difícil. Mas, independente disso, o seu comportamento
infantil de espatifar uma bandeja de metal em cima do balcão não pode ser tolerado. É
inteiramente inadequado que o senhor exija tratamento especial.
— Tratamento especial? Comportamento infantil?


O rosto de Kim foi ficando vermelho e os olhos inflados. Subitamente, o
administrador à sua frente passou a encarnar toda sua frustração diante daquele episódio
no
Pronto-socorro, a fusão do hospital, o AmeriCare e toda a medicina moderna em geral.
Num acesso instintivo de fúria e perdendo inteiramente o controle, Kim desferiu um
violento direto no queixo do administrador.
Sacudiu a mão e segurou-a com a outra em resposta à dor que sentiu nos nós dos
dedos. Barclay recuou desequilibrado e cambaleante, desabando sobre o chão. Kim
surpreendeu-se da própria violência. Deu um passo à frente e fitou Barclay estendido a
seus pés. Sentiu um impulso de ajudar o homem a se erguer. Um murmúrio coletivo se
fez presente por trás do balcão. O guarda da segurança voltou correndo. A recepcionista
agarrou o interfone e gritou:
— Socorro, socorro! No balcão da enfermagem!
Residentes, enfermeiras e enfermeiros chegaram de todas as partes. Até Tracy
apareceu depois do apelo no alto-falante. Uma multidão rodeou Kim e Barclay. O vicepresidente do hospital conseguiu sentar-se e levou a mão ao lábio inferior. Estava
sangrando.
— Droga, Kim! — reclamou Tracy — Eu avisei!
— Isso é totalmente inaceitável — disse Monica. Ela se virou para a
recepcionista. — Chame a polícia!
— Espere, não chame ninguém! — disse uma voz profunda, ressonante. As
pessoas abriram caminho. Um afro-americano elegante, de constituição física
privilegiada, apareceu, removendo as luvas de borracha enquanto caminhava até o
centro do ringue. Na etiqueta de identificação estava escrito DR. DAVID
WASHINGION, CHEFE DO SETOR DE EMERGÊNCIA. Seus olhos alternaram entre
Kim e Barclay, sentado no chão. — O que está acontecendo aqui?
— O Sr. Bradford acaba de ser agredido por esse homem — disse Monica,
apontando para Kim. — Isso depois dele ter estraçalhado uma bandeja de metal batendo
com ela no balcão.
— Acredite se quiser, ele é médico do hospital — acrescentou Molly.
David estendeu a mão e ajudou Barclay a ficar de pé. Deu uma olhada no lábio
cortado do homem e apalpou-lhe o maxilar.
— Está tudo bem? — perguntou David ao administrador.
— Creio que sim — respondeu Barclay. Pegou um lenço e pressionou-o contra o
lábio.
David virou-se e pediu a Monica:
— Leve o Sr. Bradford e limpe o ferimento. Depois peça ao Dr. Krugger que o
examine para saber se será necessário um raios X.
— Certo — disse Monica. Ela amparou Barclay pelo braço para conduzi-lo por
entre a multidão. Barclay observou Kim em silêncio antes de se deixar levar.
— Todos de volta ao trabalho — disse David, acenando com a mão. Em seguida
fitou Kim novamente, que parecia ter recobrado o juízo.
— Qual o seu nome? — perguntou David.
— Dr. Kim Reggis.
— Agrediu mesmo o Sr. Bradford? — David parecia perplexo.
— Temo que sim — respondeu Kim.
— O que poderia tê-lo provocado a esse ponto?
Kim respirou fundo.
— Aquele presunçoso acusou-me de estar exigindo tratamento especial para
minha filha doente que está esperando há quase três horas.


David ficou observando Kim por alguns instantes. Estava assombrado por aquele
comportamento vindo de um colega.
— Qual o nome da menina?
— Rebeca Reggis — respondeu Kim.
David foi até a balconista e pediu a ficha de Rebeca. A moça, nervosa, procurou
no fichário.
— Trabalha mesmo aqui no Centro Médico Universitário? — perguntou David
enquanto aguardavam.
— Desde a fusão. Sou cirurgião cardíaco, mas é difícil acreditar pela forma
como fui destratado aqui no pronto-socorro.
— Fazemos o melhor possível.
— É, já ouvi essa desculpa uma infinidade de vezes hoje.
David olhou mais uma vez nos olhos de Kim.
— Sabe, você deveria ter vergonha de si mesmo — disse. — Esmurrando gente,
destruindo bandejas. Age como um adolescente desajustado.
— Não fode! — disse Kim.
— Dessa vez vou atribuir esse comentário ao estresse.
— Não precisa ser condescendente.
— Aqui está — disse a balconista, entregando a ficha.
David deu uma rápida olhada e consultou seu relógio.
— Pelo menos tem certa razão quanto ao tempo de espera. Quase três horas.
Certamente seu comportamento não tem justificativa, mas o tempo é muito longo.
David fitou Tracy.
— É a Sra. Reggis? — perguntou.
— Sou a mãe de Rebeca Reggis — disse Tracy.
— Pode trazer a jovem. Vou providenciar para que seja atendida imediatamente.
— Obrigada — disse Tracy, retornando ao saguão.
David entrou na saleta, pegou uma prancheta e chamou uma enfermeira pelo
interfone. Quando saiu, Tracy já tinha voltado com Becky. No instante seguinte a
enfermeira apareceu. O nome na etiqueta era Nicole Michaels.
— Como se sente, minha jovem? — perguntou David a Becky.
— Mal — admitiu Becky. — Quero ir para casa.
— Estou certo disso — disse David. — Mas antes vamos dar uma olhada. Por
que não vai na frente com Nicole? Ela vai levá-la até uma sala de exames.
Tracy e Kim levantaram-se para acompanhá-la. David esticou o braço,
impedindo a entrada de Kim.
— Prefiro que espere aqui fora, se não se importa — disse David.
— Vou com minha filha — respondeu Kim, decidido.
— Não vai não — disse David. — Já mostrou que está emocionalmente
estressado. Age como um míssil desgovernado.
Kim hesitou. Por mais que não quisesse admitir, David tinha certa razão. Ainda
assim, era uma situação irritante e humilhante.
— Vamos, doutor! Estou certo de que compreende.
Kim observou as silhuetas de Becky e Tracy se distanciando. Fitou David
novamente e viu que ele não estava disposto a se intimidar nem fisicamente nem de
qualquer outra forma.
— Mas... — recomeçou Kim.
— Sem porém — disse David. — Não me obrigue a chamar a polícia, o que
farei se não colaborar.
Relutante, Kim virou as costas e voltou para a sala de espera. As cadeiras


estavam todas ocupadas. Encostou-se na parede ao lado da entrada e tentou assistir à
televisão, mas não conseguia concentrar-se. Ergueu as mãos e olhou para elas: estavam
trêmulas.
Meia hora se passou antes que Tracy e Becky surgissem da área de atendimento.
Foi por sorte que Kim as viu atravessando o saguão e saindo pela porta giratória.
Estavam indo embora sem lhe dirigir sequer uma palavra.
Rapidamente, Kim vestiu o casaco, as luvas e correu atrás delas. Tracy ajudava
Becky a entrar no carro quando as alcançou.
— O que está fazendo? — perguntou Kim, indignado. — Vai simplesmente me
ignorar desse jeito?
Tracy não deu uma palavra. Bateu a porta do lado de Becky e começou a dar a
volta para o seu.
Kim foi atrás dela e forçou a porta, impedindo-a de abrir.
— Por favor, não cause mais problemas — disse Tracy. — Você já nos
envergonhou bastante por hoje.
Surpreso por essa nova e inesperada confrontação, Kim soltou a porta. Tracy
entrou no carro, mas não fechou a porta. Fitou-lhe o rosto surpreso e magoado:
— Vá para casa e durma um pouco — disse. — É isso o que nós vamos fazer.
— O que aconteceu lá dentro? O que disseram?
— Não muito — relatou Tracy. — Aparentemente a contagem sanguínea e os
eletrólitos, ou seja lá como for, estão bem. Disseram para dar muito líquido e evitar
laticínios.
— Só isso?
— Só — respondeu Tracy. — A propósito, disseram também que o motivo pode
muito bem ter sido o frango de Ginger. São freqüentes as intoxicações com origem no
frango.
— Não foi o frango. É impossível! Pergunte a Becky! Ela estava passando mal
na manhã antes de comer o frango. — Kim inclinou-se para falar diretamente com a
filha. — Não é verdade, querida?
— Quero ir para casa — disse Becky, olhando pela janela.
— Boa noite, Kim — disse Tracy, batendo a porta. Deu a partida e acelerou.
Kim ficou observando o carro até desaparecer na esquina. Só então começou a
caminhar até o estacionamento privativo dos médicos. Sentiu-se só, tão só como nunca
se sentira na vida.

7
Terça feira, 20 de janeiro
A porta da sala de cirurgia se abriu de repente. Tom e Kim saíram da sala 20
diretamente para a área de assepsia. Desamarraram as máscaras cirúrgicas deixando-as
penduradas sobre o peito e lavaram as mãos para remover o talco.
— Obrigado pela colaboração assim tão em cima da hora — disse Tom.
— Foi um prazer ajudar — respondeu Kim, sério.
Os dois começaram a descer pelo corredor em direção à sala de recuperação.
— Você está me parecendo bastante deprimido — disse Tom. — O que
aconteceu? Seu contador o avisou da redução de seus rendimentos por causa das novas
contribuições para o Medicare?
Kim não achou graça nenhuma. Sequer respondeu.
— Está tudo bem com você? — perguntou Tom, agora sério.


— Creio que sim — respondeu Kim, friamente. — Apenas uma série de
agravantes.
Kim contou sobre a noite anterior no pronto-socorro.
— Uau! — exclamou Tom ao fim do relato. — Que coisa desagradável! Mas
não fique se culpando por ter dado um murro naquele Barclay Bradford. Eu mesmo
quase o acertei uma vez. Administradores! Li no jornal ontem que atualmente nos
Estados Unidos existem dois administradores para cada três médicos e enfermeiras. Dá
para acreditar?
— Sim, dá — disse Kim. — Por isso nossos custos com a saúde são tão altos.
— Esse era exatamente o tema do artigo. Seja como for, posso entender por que
nocauteou Bradford. Se fosse comigo, teria enlouquecido. Três horas! Caramba, eu teria
arrebentado a cara dele.
— Obrigado, Tom. Agradeço pelo apoio. Mas o pior foi que depois de tudo não
consegui falar com o médico que examinou Becky.
— Como ela está hoje?
— Ainda não sei. Era muito cedo para telefonar quando me levantei e Tracy não
ligou. Deve ter melhorado. A atividade sanguínea era boa, e estava sem febre.
— Dr. Reggis! — chamou uma voz.
Kim se virou e viu Débora Silverman, a enfermeira-chefe do centro cirúrgico,
acenando para ele. Kim foi até sua mesa. — O Dr. Biddle quer falar com o senhor —
disse Débora. — Deixou um recado para que passe na sala dele depois que tiver
terminado.
Kim pegou o bilhete. Estava marcado com diversos pontos de exclamação.
Aparentemente, o assunto era sério.
— Opa! — comentou Tom por sobre o ombro de Kim. — Parece que o chefe
planeja agravar ainda mais sua situação.
Os dois separaram-se em frente à enfermaria. Kim entrou no vestiário e, apesar
da suposta urgência na mensagem de Forrester Biddle, agiu sem a menor pressa. Não
era difícil saber do que se tratava. O problema é que ele próprio já não estava certo da
justificativa de seu comportamento.
Durante o banho, meditou sobre a experiência da noite anterior. Concluiu apenas
que estava vivendo sob uma carga excessiva de estresse. Vestiu um jaleco limpo e usou
o telefone do salão cirúrgico para falar com Ginger no consultório sobre o horário da
tarde. Só depois procurou o gabinete do chefe no setor administrativo.
O Dr. Forrester Biddle era a quintessência do conservadorismo da Nova
Inglaterra. Possuía o olhar lúgubre de um pregador puritano, com sua personalidade
exacerbada. Sua única e salvadora qualidade era a de ser um excelente cirurgião.
— Entre e feche a porta — disse Forrester, logo que Kim entrou no gabinete
apertado e cheio de jornais. — Sente-se.
Kim puxou uma cadeira e acomodou-se. Forrester pediu que esperasse enquanto
terminava de preencher alguns papéis. Kim percorreu a sala com os olhos. Lembrou-se
da sua, incomparavelmente melhor, no tempo em que era chefe da cardiologia no
Samaritano.
Depois de completar a assinatura com um floreio, Forrester deixou a caneta cair
sobre a mesa, produzindo um estalido como o cão de uma arma.
— Vou direto ao assunto — disse ele, assumindo uma expressão mais
carrancuda que a habitual. — Seu comportamento ontem à noite no pronto-socorro
causou grande constrangimento não só a este departamento como a toda a equipe
médica.
— Minha filha sofria dores muito fortes — disse Kim, simplesmente.


Era uma explicação e não uma desculpa. Não pretendia dar mostras de
arrependimento.
— Não há desculpa para a violência. O Sr. Bradford está pensando em registrar
queixa e eu não o censuro.
— Se há motivo para processo, devia ser contra o AmeriCare — disse Kim. —
Fui obrigado a esperar por três horas para o AmeriCare não deixar de aumentar seus
lucros.
— Agredir um administrador não é a forma mais adequada de expressar sua
opinião. Nem tampouco, devo acrescentar, apelar diretamente para a mídia. Eu não ia
comentar nada a respeito do que disse a Kelly Anderson no jornal de sexta-feira à noite,
mas depois da agressão de ontem, declarar publicamente que o objetivo da fusão do
Centro Médico Universitário com o Hospital Samaritano é o de aumentar o lucro
líquido do AmeriCare fere a reputação do hospital.
Kim ficou de pé. Não estava disposto a discutir, e nada poderia obrigá-lo a ficar
ali sentado, ouvindo repreensões como um delinqüente juvenil.
— Se isso é tudo, tenho pacientes à minha espera.
Forrester empurrou sua cadeira para trás e também se levantou.
— Acho que deve conservar em mente, Dr. Reggis, que o departamento
considerou seriamente a possibilidade de contratar outro cirurgião para ocupar o seu
lugar na área de reposição de válvulas antes da fusão. Seu comportamento vem nos
obrigando a reavaliar o assunto.
Kim deu as costas e saiu sem responder. Não iria se abalar por isso. Pouco se
importava com a ameaça de Forrester. Na realidade, recebia inúmeros convites para
assumir cargos de prestígio por todo o país. O único motivo que o mantinha no Centro
Médico Universitário era a custódia de Becky e o fato de que Tracy não podia se mudar
por causa de seu curso na Universidade de Artes Liberais.
Entretanto, estava enraivecido outra vez. Ultimamente, aquele parecia ser seu
estado natural. Assim que saiu do setor administrativo, quase atropelou Kelly Anderson
e seu operador de vídeo, Brian.
— Ah! — exclamou Kelly com aparente satisfação. — Dr. Reggis! Exatamente
o homem que estou procurando.
Kim lançou um olhar de ódio para a jornalista e seguiu adiante em passo rápido.
Kelly se voltou depressa e correu atrás dele. Brian a acompanhou com o equipamento
pesado.
— Meu Deus, Dr. Reggis — disse Kelly, ofegante — está treinando para a
maratona? Vá mais devagar, preciso falar com o senhor.
— Não tenho a menor intenção de falar com você — disse.
— Mas quero ouvir sua versão do episódio de ontem à noite no pronto-socorro.
Kim parou de repente, obrigando Brian a colidir com ele. O operador pediu
efusivas desculpas. Kim o ignorou e olhou bem nos olhos de Kelly, atônito.
— Como, em nome de Deus, ficou sabendo disso tão depressa?
— Surpreso? — comentou Kelly com um sorriso perspicaz. — Acho que saberá
compreender que não posso revelar minhas fontes. Veja bem, trabalho tanto junto à área
médica que formei uma espécie de quinta-coluna aqui no hospital. Ficaria surpreso com
as fofocas que sei. Infelizmente, na maioria são só bobagens do tipo quem transou com
quem. Mas, de vez em quando, consigo um bom furo como seu episódio no prontosocorro ontem à noite. Cirurgião cardíaco nocauteia administrador: isso é notícia!
— Não tenho nada para lhe dizer — respondeu Kim, retomando o passo.
Kelly partiu atrás dele.
— Eu acho que tem — disse. — Esperar por três horas num pronto-socorro para


uma criança ser atendida é um problema que precisa ser discutido.
— Pior! — disse Kim. — Ainda por cima fui advertido por aquele comentário a
respeito do lucro líquido. Não vou falar mais nada com você.
— Então a administração não quer mostrar a verdade — disse Kelly. — Este já é
um fato significativo por si só.
— Não falo mais nada — repetiu Kim. — Pode economizar o fôlego.
— Ora, vamos! — insistiu Kelly. — Sua indignação por ser obrigado a esperar
durante horas para ser atendido no pronto-socorro contará com o coro familiar de meus
telespectadores, especialmente tratando-se de um médico. Não precisamos nem
mencionar a agressão, se preferir.
— Como se eu pudesse confiar em você.
— E pode. Veja bem, eu penso que o motivo disso tudo tem a ver com a história
da fusão. Acredito que seja apenas interesse financeiro por parte do AmeriCare. E você,
o que acha?
Kim a observou enquanto andavam. Seus olhos azul-esverdeados brilhavam.
Kim teve de admitir que embora fosse uma chata radical, era esperta como uma raposa.
— Você disse isso, não eu — disse Kim. — Portanto, sem comentários. Minha
vida neste momento já está complicada o bastante. Não preciso de você para piorar
ainda mais as coisas. Adeus, Srta. Anderson.
Kim cruzou a porta de vaivém que dava para o setor cirúrgico. Kelly finalmente
parou, para alívio de Brian. Ambos já estavam sem fôlego.
— Bem que tentamos — disse Kelly. — A triste ironia é que desta vez estou
mesmo do lado dele. No mês passado também esperei por mais de duas horas até minha
filha ser atendida.
Kim entrou no consultório pela porta dos fundos. Era uma forma de não ser visto
na sala de espera. Enquanto tirava o paletó, avisou Ginger pelo interfone:
— Cheguei — disse. Com o fone agarrado sob o pescoço, andou até o armário.
O fio era longo o suficiente.
— A sala está cheia de pacientes — disse Ginger. — Por causa da cirurgia de
emergência de Tom, está quase duas horas atrasado.
— Algum telefonema importante? — perguntou Kim. Depois de pendurar o
paletó, pegou o jaleco de mangas curtas.
— Nada de urgente.
— Tracy não ligou?
— Não.
— Muito bem, peça a Cheryl que leve os primeiros pacientes às salas de exames.
Depois de vestir o jaleco e ajeitar as canetas e outros objetos que guardava nos
bolsos, Kim discou o número de Tracy e pendurou o estetoscópio no pescoço enquanto
esperava.
Tracy atendeu logo, como se estivesse esperando ao lado do aparelho.
— Bem, como vai nossa paciente? — Kim procurou mostrar-se animado.
— Sem muita novidade — respondeu Tracy.
— Teve febre?
— Não.
— E as cólicas?
— Continuam, mas consegui que ela tomasse um caldo de galinha.
Kim sentiu vontade de dizer que Ginger tentara fazer o mesmo no domingo, mas
pensou duas vezes e preferiu dizer:
— Parece que está fazendo progressos. Estou certo de que Becky logo estará
bem.


— Assim espero.
— É a tendência natural — comentou Kim. — Sem febre e sem aumento dos
glóbulos brancos, seu corpo certamente dominou a infecção. Mas me mantenha
informado, ok?
— Não se preocupe — disse Tracy. E acrescentou: — Sinto muito ter sido tão
estúpida ontem à noite.
— Não precisa se desculpar.
— Acabei dizendo coisas desagradáveis. Estava muito aborrecida.
— Por favor. Fui eu que perdi a linha, não você.
— Eu ligo se houver alguma mudança.
— Estarei aqui ou em casa.
Kim desligou o telefone. Pela primeira vez no dia, sentiu-se relativamente
contente. Sorriu para Cheryl no corredor e leu a primeira ficha.
A escuridão envolveu Kim assim que ele apagou os faróis do carro, em frente ao
portão da garagem. Eram oito horas, mas parecia meia-noite. Não havia lua e a única luz
era um clarão distante no horizonte, provocado pela iluminação urbana refletida nas
nuvens. A casa era uma silhueta escura como um bloco de pedra.
Kim abriu a porta do carro e a luz interna se acendeu. Apanhou as caixinhas do
restaurante chinês que tinha comprado na volta do consultório. O último paciente havia
sido atendido às sete e quinze.
Carregando a comida e alguns relatórios que esperava completar durante a noite,
Kim fez o caminho do portão da garagem até a porta da casa no instinto. Naquele breu,
era difícil de acreditar que no verão, àquela mesma hora, o sol ainda brilhava no céu.
Kim ouviu o telefone tocando ainda do lado de fora. O aparelho tocava
insistentemente. Sem motivo aparente, entrou em pânico. Quando foi tirar a chave do
bolso, deixou cair os relatórios. Depois não conseguia encontrar a chave certa. Soltou a
comida no chão para encontrá-la com as duas mãos. Finalmente, abriu a porta e entrou.
Acendeu a luz do hall, correu para a cavernosa sala de jantar quase vazia e
atendeu. Sentiu uma aterrorizante sensação de que a ligação cairia assim que ele
atendesse. Mas não. Era Tracy.
— Becky piorou — disse ela, abruptamente. Parecia desesperada, à beira das
lágrimas.
— O que aconteceu? — perguntou Kim com o coração batendo forte.
— Ela teve hemorragia — gritou. — O banheiro está cheio de sangue.
— Está lúcida?
— Sim, e mais calma do que eu. Está deitada no sofá.
— Ela pode andar? Está com tonteira?
— Sim, ela pode andar normalmente — disse Tracy, readquirindo seu
autocontrole. — Estou feliz que tenha atendido. Eu já ia ligar para o 911.
— Coloque—a no carro e vá para o pronto-socorro, se tiver condições de dirigir.
Caso contrário, podemos ligar para o 911 e chamar uma ambulância.
— Eu posso dirigir normalmente.
— Encontro vocês lá.
Kim desligou o telefone e correu para a biblioteca. Abriu a gaveta central da
escrivaninha e procurou a agenda de endereços. Quando encontrou, abriu na letra T e
percorreu a página com o dedo até encontrar George Turner. Pegou o celular, digitou o
número e apertou a tecla SEND.
Com o aparelho no ouvido, Kim voltou para o carro. Quase pisou nas
embalagens de comida e nos relatórios espalhados sobre o capacho.
A Sra. Turner atendeu no instante em que Kim abria a porta do carro. Com a voz


preocupada, perguntou se George estava em casa. Quando ele atendeu, Kim já estava
dando a ré.
— Sinto muito incomodá-lo — disse.
— Incômodo nenhum — respondeu George. — O que há? Nada, espero.
— Infelizmente, sim. Não que seja o fim do mundo, mas Becky apresenta
sintomas semelhantes à disenteria: cólicas, diarréia e agora hemorragia, mas sem febre.
— Sinto muito em saber — disse George.
— Nunca consultamos outro pediatra depois que você viajou e os poucos que
conheço deixaram a cidade. Na noite passada nós a levamos ao pronto-socorro do
Centro Médico Universitário e tivemos de esperar por três horas.
— Meu Deus! Isso é o fim.
— Tenho até vergonha de dizer que dei um soco na cara de um administrador do
AmeriCare — relatou Kim. — Mas, enfim, Becky voltou para casa do mesmo jeito.
Nenhuma medicação. Tracy acaba de me ligar dizendo que ela teve uma hemorragia.
Não sei qual a intensidade, mas Tracy estava meio histérica. Vou encontrá-las agora no
pronto-socorro. Sabe de alguém que eu possa procurar?
— Hummm! Não creio que um pediatra seja a melhor opção. Eu recomendaria
um especialista em doenças infecciosas ou um gastroenterologista.
— Qual dos dois? — perguntou Kim. — Quem você pode recomendar? Os que
conheço não trabalham muito com crianças.
— Deixe-me ver — disse George. — O melhor que conheço é Claude Faraday.
— Obrigado, George.
— Fico feliz em poder ajudar. É uma pena que eu não esteja aí.
— Uma pena mesmo — disse Kim.
— Mantenha-me avisado.
— Claro.
Kim desligou e discou o número do hospital. Pediu à telefonista que ligasse para
Claude Faraday. Para alívio seu, o homem estava. Kim explicou a situação da mesma
forma como fez com George. Claude ouviu, fez algumas perguntas pertinentes e
amavelmente concordou em ir diretamente para o pronto-socorro.
Chegando ao hospital, Kim entrou diretamente no estacionamento privativo do
pronto-socorro. Procurou pela caminhonete de Tracy, mas não a viu. Subiu a escada da
portaria e entrou.
O pronto-socorro parecia quase tão movimentado quanto na noite anterior,
apesar de algumas cadeiras vazias. Kim contornou a recepção e foi direto ao núcleo de
enfermagem. Por coincidência, Molly e Monica eram as enfermeiras de serviço naquele
momento. As duas trocaram olhares aflitos.
— Minha filha já chegou? — perguntou Kim.
— Eu não vi — disse Molly, ressabiada e procurando mostrar-se desinteressada.
— Nem eu — acrescentou Monica.
— Era para ela voltar hoje? — perguntou Molly.
Kim ignorou a pergunta. Saiu da saleta e foi entrando no ambulatório.
— Ei, para onde está indo? — inquiriu Molly. Ela se levantou, pensando em
barrar a passagem de Kim como fizera na noite anterior, mas ele já ia longe. Molly
correu atrás dele.
Monica estalou os dedos para chamar a atenção do segurança. Quando ele a
percebeu, ela apontou freneticamente para a figura fugidia de Kim. O segurança fez um
sinal com a cabeça e partiu atrás dele também. Enquanto corria, puxou o rádio de
comunicação do coldre.
Kim ia enfiando o nariz no interior de cada sala por onde passava e Molly


conseguiu alcançá-lo.
— Ei, o que pensa que está fazendo?
Kim ignorou a mulher, acompanhada agora pelo segurança. Ambos seguiram
Kim.
— O que devo fazer? — perguntou o segurança. — Ele é um médico.
— Não sei — respondeu Molly.
Kim chegou à última sala do lado esquerdo e recomeçou nos do lado oposto.
Finalmente encontrou o Dr. David Washington suturando uma laceração na mão de uma
criança. Estava sendo auxiliado por uma enfermeira. David usava óculos de lentes
duplas e fitou Kim por sobre eles.
— Minha filha está vindo para cá — avisou Kim. — Acaba de sofrer uma
hemorragia.
— Sinto muito em saber disso — disse David. — Como estão o pulso e a
pressão arterial?
— Isso eu não sei, ainda não a vi. Ela está vindo para cá com minha ex-mulher.
Com as mãos enluvadas e esterilizadas erguidas no ar, David virou-se para
Molly e pediu-lhe que preparasse um quarto com um carrinho com medicamentos e
equipamentos de emergência e expansor do plasma para uma eventual necessidade.
Molly concordou com um aceno de cabeça e desapareceu.
— Quero atendimento imediato para minha filha — exigiu Kim — e também a
opinião de um especialista em doenças infecciosas.
— Dr. Reggis — David foi dizendo — vamos tentar ser amigos. Seria útil se
reconhecesse que sou o encarregado aqui.
— Já falei com Claude Faraday — prosseguiu Kim, parecendo ignorar o apelo
de David. — Ele está vindo para cá. Creio que já ouviu falar dele.
— É claro que sim. Não é essa a questão. Pelo procedimento habitual, nós
marcamos as consultas dos pacientes que não têm um AmeriCare. O AmeriCare é bem
claro quanto a isso.
— Quero que ela seja examinada pelo Dr. Faraday.
— Está bem. Mas compreenda ao menos que estamos lhe fazendo um favor. Não
é assim que as coisas correm normalmente por aqui.
— Obrigado — disse Kim, dando meia-volta e deixando a sala. Foi para o
saguão de recepção e como não viu Tracy e Becky, dirigiu-se à plataforma de
desembarque, do lado de fora. Ficou ali esperando, como na noite anterior.
Em poucos minutos a caminhonete de Tracy apareceu subindo a rampa. Kim
chegou à porta traseira antes dela puxar o freio de mão.
Kim abriu a porta e meteu a cabeça para dentro. Becky estava deitada de lado
sobre o banco traseiro. Kim pôde ver seu rosto sob o reflexo das luzes. Apesar da
palidez, ela lhe dirigiu um sorriso que o fez sentir-se aliviado.
— Como se sente, mocinha?
— Melhor, agora — disse Becky. — A dor parou.
— Ainda bem. Vamos, deixe-me carregá-la.
— Eu posso andar.
— Vou carregá-la assim mesmo.
Passou o braço direito por baixo dos joelhos dela e puxou-a para poder sustentála. Ela o enlaçou pelo pescoço e afundou o rosto sob seu queixo.
— Muito bem — disse Kim, carinhosamente. — Papai já te pegou.
— Ela não está muito pesada? — perguntou Tracy.
— Nem um pouco.


Kim entrou na frente. Subiu os degraus e cruzou a porta giratória. Ao passar
diante da recepção com Tracy logo atrás dele, uma das funcionárias gritou para que
fossem até o balcão preencher a ficha. Kim a ignorou. Apesar do leve constrangimento,
Tracy prosseguiu calada.
Monica estava atendendo no balcão da enfermagem quando ouviu o grito da
recepcionista. Bem à sua frente, Kim vinha se aproximando. Levantou-se
imediatamente e postou-se no meio do corredor para interceptar-lhe a passagem. Mas
ela não tinha o físico de Molly.
— Não! — disse Monica. — O senhor não vai entrar com essa criança sem a
ficha de entrada.
Kim manteve o passo. Monica recuou alguns metros.
— Não pode fazer isso — protestou.
Tracy cutucou o braço de Kim.
— Não vamos armar outro escândalo — disse ela.
Inflexível, como um rolo compressor, Kim seguiu adiante, e Monica se viu
afastada para o lado.
— Pode copiar os dados da ficha de ontem à noite — disse Kim por sobre o
ombro.
Monica correu afobada para o interfone, na intenção de avisar David
Washington.
Kim deixou Becky na primeira sala que encontrou disponível e a deitou sobre o
leito. Tracy ficou do lado oposto, segurando a mão de Becky. Kim apanhou o aparelho
de pressão e o enrolou no braço dela. Monica reapareceu depois de ter dado queixa e
tentou controlar a situação, mas Kim não deu sinal de reconhecer sua presença. Ajeitou
o estetoscópio nos ouvidos e começou a inflar o aparelho.
David Washington e Molly McFadden entraram. David usava um jaleco branco.
Cumprimentou Tracy com um aceno de cabeça e esperou Kim terminar de tirar a
pressão. Também fez um sinal para Monica dando-lhe permissão para sair.
— Você não respeita mesmo o protocolo — comentou David, enquanto Kim
tirava o estetoscópio dos ouvidos.
— A pressão está nove por cinco — disse Kim. — Vamos aplicar uma
intravenosa. Quero que o tubo seja preso com esparadrapo apenas por segurança.
Também...
David perdeu finalmente sua paciência.
— Espere um pouco! — vociferou, erguendo as mãos enfaticamente. Em
seguida, em voz calma, acrescentou: — Dr. Reggis, com todo o devido respeito, se
esquece de que não está no comando aqui?
— Só estou preparando o básico — disse Kim. — Srta. McFadden, que tal me
arranjar um cateter de diâmetro vinte e um. Vou precisar de um torniquete e mais
esparadrapo.
David fez um gesto para Molly não se mexer, e andou até Kim. Agarrou-lhe o
antebraço com força.
— Só vou lhe pedir uma vez — disse David em voz serena, mas autoritária. —
Quero que saia e espere lá fora. É para o bem de sua própria filha. Estou certo que se
parar e pensar por um segundo, irá compreender.
Os olhos de Kim se estreitaram quando cruzaram com os de David.
Vagarosamente, baixou-os até a mão dele agarrada em seu braço. Por um breve instante,
o silêncio foi total. O único som era o de um monitor cardíaco, instalado numa sala
vizinha.


Tracy sentiu a eletricidade no ar. Para ela, foi como a calmaria que antecede uma
tempestade de verão. Para evitar a indubitável cena litigiosa, contornou rapidamente o
leito e passou o braço ao redor do ombro de Kim, fazendo pressão para convencê-lo a
sair.
— Por favor, Kim — pediu. — Deixe que façam o trabalho deles.
Gradualmente, Kim foi reagindo ao apelo de Tracy e acalmou-se. Só então
David soltou seu braço.
Kim balançou a cabeça afirmativamente.
— Está bem — disse. Em seguida, virou-se para Becky e segurou-lhe o braço.
— Papai vai estar no corredor, querida.
— Não quero nenhuma injeção — implorou Becky, melancolicamente.
— Precisa receber um pouco de soro — disse Kim. — Mas é só uma picada, só
vai durar um segundo. Sei que não é agradável, mas precisa ser forte para poder ficar
boa, entendeu?
— Está bem — aceitou Becky, relutantemente.
Tracy apertou a mão de Becky, dizendo que estaria com Kim e que voltariam
logo. Becky concordou, mas era evidente que não se sentia nem um pouco à vontade.
Sua expressão era de medo.
Os dois deixaram a sala. Ela podia ouvir a respiração forte de Kim. Não disse
nada até passarem pelo núcleo de enfermagem.
— Kim, você precisa se acalmar. — Tracy segurou o braço dele com suavidade.
— Está nervoso demais.
— David Washington me deixa louco.
— Está fazendo o trabalho dele. Se a situação fosse o inverso e você estivesse
cuidando do filho dele, tenho certeza de que agiria da mesma forma. Não ia querer que
ele desse as ordens.
Kim ponderou sobre esse aspecto enquanto atravessava a porta giratória que
dava para a rua. O sopro do vento frio no rosto causou-lhe uma sensação agradável.
Parou diante da portaria e respirou fundo, soltando o ar lentamente. Tracy ainda
segurava-lhe o braço.
— Acho que está certa — disse, finalmente. — Mas é difícil para mim assistir
Becky ali deitada e tão vulnerável.
— Posso imaginar — disse Tracy. — Deve ser muito difícil.
Seus olhos se cruzaram.
— Você me entende? Sério?
— Inteiramente. Você é um cirurgião. Foi treinado para salvar vidas. E quem
poderia ter maior desejo de cuidar da própria filha? Para você, a pior coisa do mundo é
ver Becky precisando de cuidados e não poder fazer nada.
— É isso mesmo.
— Eu sei. Estou sempre certa.
Kim não pôde evitar um sorriso.
— Eu não iria tão longe. Pode acertar com freqüência, mas nem sempre!
— Aceito, desde que a gente volte para dentro — disse Tracy, retribuindo o
sorriso. — Estou congelando.
— Claro, sinto muito. Só precisava de um pouco de ar frio.
— O soro está incomodando? — perguntou Kim.
Becky ergueu a mão esquerda, que estava presa com esparadrapo a uma tábua
que impedia o movimento do pulso. Um tubo de plástico transparente atravessava a
gaze que lhe cobria as costas da mão.


— Não sinto nada — disse ela.
— Está vendo? — disse Kim.
— Sente um frio no braço? — perguntou Tracy. — É só disso que me lembro do
hospital, quando você nasceu.
— Está mesmo frio! — disse Becky. — Não tinha percebido. Meu braço está
todo frio.
David tinha feito um exame completo em Becky. Aplicou a intravenosa, pediu
um exame de sangue, outro de urina e tirou duas chapas do abdômen, uma vertical e
outra horizontal. Apesar do raios X ainda não ter ficado pronto, os resultados do
hemograma e da urina deram normais, mostrando que a perda de sangue fora mínima.
Só então chamou Kim e Tracy para fazerem companhia a Becky, enquanto aguardavam
pela chegada do Dr. Claude Faraday.
O especialista em doenças infecciosas chegou pouco depois. Apresentou-se ao
casal e em seguida cumprimentou Becky. Era um moreno elegante, de olhar profundo.
Escutou calado todo o relato do problema, desde os primeiros sintomas na manhã de
sábado até a hemorragia daquela noite. Balançava a cabeça a todo momento,
principalmente quando Becky acrescentava algum detalhe específico.
— Muito bem, Srta. Reggis — disse ele. — Importa-se que eu dê uma olhadinha
em você?
— Não — respondeu Becky. — Só não quero mais agulhas.
— Sem agulhas — garantiu Claude.
Ele começou um exame rápido, porém meticuloso. Primeiro verificou o pulso de
Becky e o inchaço de sua pele. Depois examinou a garganta, os ouvidos e utilizou um
oftalmoscópio para observar os olhos. Auscultou o tórax e procurou por erupções na
pele. Pressionou suavemente o abdômen, que estava sensível à dor. Procurou por
gânglios linfáticos dilatados.
— Você me parece bem, exceto por essa ligeira dor no estômago — disse,
finalmente. — Agora, vou conversar com seus pais lá fora.
Becky concordou, balançando a cabeça.
Tracy inclinou-se e deu um beijo na testa da filha antes de acompanhar Claude e
Kim além da cortina. O corredor estava movimentado e por isso foram até um canto
afastado do tumulto. David os viu por acaso e se aproximou. Apresentou-se a Claude,
que disse:
— Eu já ia dar um diagnóstico aos pais.
— Vocês se importam se eu ouvir? — perguntou David.
Claude fitou o casal.
— Tudo bem — disse Tracy.
— No geral ela me pareceu bem — começou Claude. — Está um pouco pálida, é
claro, e um pouco desidratada. Há também uma flacidez abdominal generalizada. De
resto, no exame físico ela está normal.
— Mas e a hemorragia? — perguntou Tracy. Receava que Claude a tivesse
ignorado.
— Deixe-me terminar. Verifiquei também os exames laboratoriais. Comparados
aos de ontem à noite, há uma ligeira queda na hemoglobina. Não seria estatisticamente
importante, mas tendo-se em conta a leve desidratação, pode representar um fator
importante considerando o histórico da hemorragia. Há também uma ligeira diminuição
das plaquetas. De resto, está tudo dentro dos limites normais.
— Qual é, então, o seu diagnóstico presumível? — perguntou Kim.
— Eu diria uma doença bacteriana de origem alimentar.
— Não seria viral?


— Creio que não. Acredito mesmo que seja bacteriana — disse Claude. E
dirigindo-se a David: — Acho também que deve ter sido seu diagnóstico de ontem à
noite.
— Sim, foi — disse David.
— Mas por que a ausência de febre? — perguntou Kim.
— A ausência de febre me faz pensar que ela sofreu mais uma toxemia que uma
infecção — disse Claude. — O que também justifica a contagem normal de glóbulos
brancos.
— E quanto à cultura de ontem à noite? — perguntou Kim. — Já temos uma
leitura preliminar das primeiras vinte e quatro horas?
— Não vi nenhuma cultura — disse Claude. Ele olhou para David.
— Não fizemos a cultura — disse David.
Kim sacudiu a cabeça, incrédulo.
— Mas o que, diabos, está me dizendo? — bufou. — Eu mesmo lhe entreguei a
amostra
— Não fazemos coprocultura de rotina por causa de uma diarréia simples aqui
no pronto-socorro — explicou David.
Kim deu um tapa na própria testa.
— Espere aí! Está dizendo que fez um diagnóstico provável de infecção
bacteriana. Por que não pediu a cultura? Era a única coisa sensata a fazer, especialmente
por parte de um bom médico. Não pode ser de outro jeito.
— O regulamento do AmeriCare proíbe culturas de rotina num caso como esse
— respondeu David. — O custo não cobre a despesa.
O rosto de Kim enrubesceu. Tracy foi a única a notar. Ela segurou o braço de
Kim, mas ele se livrou.
— Não cobre a despesa? Que conversa fiada é essa? Que porcaria de prontosocorro é esse que você dirige aqui? Está me dizendo que para economizar alguns
míseros dólares deixou de enviar a amostra?
— Escute aqui, sua prima-dona — disse David, irritado. — Acabei de dizer que
é uma norma do pronto-socorro não fazer culturas. Nem para você, nem para ninguém.
Perdendo novamente o controle, como na noite anterior, Kim agarrou David pela
gola da jaqueta.
— Prima-dona, é? Pois essa merda dessa sua maldita norma nos fez perder um
dia inteiro!
Tracy apertou o braço de Kim.
— Pare, Kim! — implorou. — De novo, não!
— Tire suas mãos de cima de mim, seu filho da puta arrogante — rosnou David.
— Acalmem-se! — disse Claude, tentando separar os dois, bem maiores que ele.
— Está tudo bem. Vamos colher outra amostra hoje. Não se perdeu muito tempo e
duvido que já tivessem começado o tratamento.
Kim soltou David. David desamarrotou o jaleco. Os dois homens continuaram se
encarando.
— O que espera saber com a cultura? — perguntou Tracy, com esperança de
acalmar os ânimos e retomar o rumo da conversa. Que tipo de bactéria acha que pode
ser?
— Provavelmente salmonela, shigella ou alguma das recentes formas anômalas
de E. coli — respondeu Claude. — Mas também poderia ser alguma outra coisa.
— O sangue me deixou transtornada. Talvez eu tenha exagerado. Ela terá de
ficar internada?
Claude fitou David.


— Seria bom — disse. — Mas não é decisão minha.
— Acho que deve — disse David. — Ela precisa de soro. E assim poderemos
avaliar um possível quadro de anemia e controlar a hemorragia.
— E quanto a antibióticos? — perguntou Tracy.
— Eu não recomendo — disse Claude. — Não nesse estágio antes de um
diagnóstico definitivo.
— É por isso que a maldita cultura tinha de ter sido feita ontem à noite! —
rosnou Kim.
— Por favor, Kim! — pediu Tracy. — Temos de lidar com a situação presente.
Seria melhor se você cooperasse.
— Está bem — respondeu Kim, resignado. — Se não tem uma cultura, por que
não aplicar algum antibiótico de amplo espectro? Podem sempre ser trocados depois que
o organismo e suas defesas se tornem conhecidos.
— Mesmo assim, eu não recomendaria — repetiu Claude. — Se o agente
agressor for uma forma anômala de E. coli, antibióticos podem piorar a situação.
— Mas como? — perguntou Kim. — Isso não faz sentido.
— Os antibióticos podem dizimar a flora intestinal e deixar mais espaço para o
E. coli renegado proliferar.
— Ela ficará sob seus cuidados? — perguntou Tracy.
— Não, isso não será possível. O AmeriCare exige um médico conveniado. Mas
posso ajudar, principalmente se o médico responsável requisitar um especialista.
— Já que Becky não tem um pediatra da equipe, será admitida sob a orientação
de Claire Stevens — disse David. — É ela quem está de plantão hoje. Posso chamá-la.
— Não poderia haver outra pessoa mais indicada que Claire — comentou
Claude.
— Você a conhece? — quis saber Tracy.
— Sim, muito. Estamos com sorte de tê-la nesse turno. É ela quem trata de meus
filhos.
— Finalmente, alguma coisa parece começar a dar certo — disse Kim.

8
Quarta-feira, 21 de janeiro
Passava um pouco das seis da manhã quando Kim entrou no estacionamento do
hospital. Não passou pelo consultório, como fazia sempre. Estava ansioso para ver
Becky e certificar-se de que as coisas iam bem.
Tudo correra bem na noite anterior, depois do desagradável episódio com David
Washington. A Dra. Claire Stevens levou meia hora para chegar ao pronto-socorro
depois de ter sido chamada. Nesse meio tempo, Kim ligou uma segunda vez para
George Turner e pediu sua opinião a respeito da pediatra. George confirmou a opinião
de Claude, deixando Kim e Tracy aliviados.
Claire era uma mulher alta e magra, quase da altura de Kim. Tinha os traços
fortes, que não correspondiam à sua maneira meiga e confiante. A primeira impressão
de Kim foi idêntica à de seus colegas. Ela aparentava ter uma idade parecida com a sua,
sugerindo muitos anos de experiência. E mais: sua competência era claramente
perceptível e inspirava confiança. Igualmente importante, ela estabeleceu imediata
comunicação com Becky.
Kim entrou no quarto de Becky. Havia uma luz embutida na parede, acima do
rodapé, que deixava todo o ambiente mergulhado numa luz suave. Silenciosamente,


Kim aproximou-se da cama e observou a filha dormindo. O halo formado pelos seus
cabelos escuros dava ao rosto uma tonalidade de marfim. A transparência de sua pele
parecia deixá-la frágil, como se fosse feita de porcelana.
Kim sabia que naquelas circunstancias o mais apropriado para Becky era ficar no
hospital. Entretanto, sua permanência ali não deixava de ser preocupante. Com sua larga
experiência em hospitais, não podia deixar de pensar que aquele também era um
ambiente onde o horror podia estar oculto.
A respiração de Becky era regular e profunda. O soro fluía lentamente. Feliz por
vê-la descansando tão tranqüila, Kim saiu do quarto sem fazer ruído. Não queria
perturbá-la.
De volta à sala de enfermagem, Kim pegou a ficha de Becky. Percorreu
rapidamente os dados de internação ditados por Claire e leu o relatório da enfermeira.
Viu que Becky levantara-se duas vezes durante a noite com diarréia persistente. Estava
notificada a presença de algum sangue, mas descrito somente por Becky. Nenhuma das
enfermeiras chegara a ver.
Kim virou a folha e ficou satisfeito ao constatar que Claire tinha mantido sua
palavra, requisitando a consulta de gastroenterologista para aquele dia.
— É uma criança maravilhosa — disse uma voz cadenciada.
Kim interrompeu a leitura. Uma enfermeira gordinha, de rosto redondo e rosado,
corado pelo esforço, com os cabelos louros cheios de cachinhos de permanente e
covinhas nas bochechas o observava por cima de seus ombros. A etiqueta de
identificação dizia que seu nome era Janet Emery.
— Está cuidando dela? — perguntou Kim.
— Estou — disse Janet. — Seu quarto fica no meu setor. Ela é uma gracinha.
— E como ela está reagindo?
— Bem, eu acho — respondeu Janet sem muita convicção.
— Isso não me parece muito positivo — disse Kim. Um calafrio de medo
percorreu-lhe a espinha, provocando um tremor involuntário.
— Na última vez em que se levantou, ela me pareceu fraca. Claro, deve ter sido
por causa do sono. Ela tocou a campainha para eu ajudá-la a voltar para a cama.
— Pelo relatório, entende-se que não chegou a ver a quantidade de sangue que
ela perdeu.
— É verdade. A pobrezinha fica com vergonha. Já pedi que não puxe a descarga
depois de usar o banheiro, mas ela não obedece. O que se há de fazer?
Kim registrou mentalmente o problema para depois conversar com Claire e
também com Becky. Era importante saber se o sangue era residual ou se era coisa pior.
— O senhor é o médico que vai dar sua opinião sobre o caso? — perguntou
Janet.
— Não. Sou o Dr. Reggis, pai de Becky.
— Ai, meu Deus, pensei que fosse o médico que ia opinar sobre o caso! Espero
não ter dito nada de errado.
— Absolutamente. Vejo que gosta dela.
— Pode ter certeza, doutor. Adoro crianças. É por isso que trabalho neste andar.
Kim despediu-se dela e foi dar uma olhada nos seus pacientes internados. Em
seguida compareceu à série de reuniões marcadas para aquela manhã.
Como acontecia nas segundas-feiras, as quartas eram particularmente repletas de
assuntos administrativos. Por causa disso, não pôde voltar ao quarto de Becky antes das
dez. Quando lá chegou, foi informado pelo enfermeiro de plantão que Becky tinha ido
para a sala de raios X e Tracy estava com ela.
— Tem alguma notícia sobre o laudo do gastroenterologista? — perguntou Kim.


— Já foi pedido, se é o que deseja saber.
— Tem idéia de quando vai ser?
— Acho que ainda esta tarde.
— Se importaria de me ligar, quando ele chegar?
Kim entregou-lhe um cartão.
— De forma alguma — respondeu o enfermeiro.
Kim agradeceu e partiu apressado para o consultório. Seria bom se pudesse ver
Becky e falar com ela nem que fosse por um momento, mas não havia tempo. Já estava
atrasado outra vez, um fato sobre o qual andava filosofando muito, já que vinha
acontecendo com freqüência.
— Bem, Sr. Amendola — disse Kim — o senhor tem alguma pergunta?
O Sr. Amendola era um bombeiro atarracado de sessenta e poucos anos. A
medicina moderna o intimidava e o veredicto de Kim o deixou em pânico: precisava
trocar uma válvula do coração. Algumas semanas antes não sabia sequer que o coração
tinha válvulas. Agora, depois de ter alguns sintomas alarmantes, soube que uma delas
estava funcionando mal e que isso poderia matá-lo.
Kim passou a mão nervosamente pelos cabelos, enquanto o Sr. Amendola
ponderava sobre a última pergunta. De sua janela, observou o céu cinzento do inverno.
Estava preocupado. Tracy tinha ligado há uma hora, dizendo que Becky parecia ter
piorado e que estava apática, com os olhos vidrados.
Com sua sala de espera repleta, Kim pôde apenas instruir Tracy a enviar uma
mensagem para o pager de Claire informando a situação de Becky. Pediu também que
lembrasse o enfermeiro de plantão de entrar em contato com ele assim que o
gastroenterologista chegasse.
— Talvez fosse bom conversar com meus filhos — disse o Sr. Amendola.
— Como? — disse Kim. Esquecera-se do que tinha perguntado ao homem.
— Meus filhos. Preciso perguntar a eles o que acham que seu velho pai deve
fazer.
— Boa idéia — disse Kim, levantando-se. — Converse com a família. Se tiver
alguma dúvida, ligue para mim.
Kim acompanhou o Sr. Amendola até o corredor.
— Tem certeza de que os testes que realizou estão corretos? — perguntou o Sr.
Amendola. — Talvez minha válvula não esteja assim tão mal.
— Está — disse Kim. — Lembre—se de que já tivemos uma segunda opinião.
— É verdade. — O Sr. Amendola concordou, resignado. — Está certo, volto a
procurá-lo.
Kim esperou no corredor até certificar-se de que o Sr. Amendola estava a
caminho da recepção. Pegou, então, a ficha do próximo paciente no arquivo que ficava
atrás da porta da segunda sala de exames.
Antes que chegasse a ler o nome, Ginger apareceu pela porta do corredor. Ela
precisou se espremer contra a parede para que o Sr. Amendola pudesse passar.
— O enfermeiro de plantão no andar de Becky acaba de ligar — disse ela. —
Ele falou que o tal gastro-qualquer-coisa está examinando Becky neste exato momento.
— Então já estou de saída. — Kim repôs a ficha no lugar e voltou apressado até
sua sala particular. Enquanto tirava o paletó do armário, Ginger entrou.
— Aonde vai? — perguntou, espantada.
— Para o hospital.
— A que horas vai voltar?
— Não sei. — Kim vestiu o paletó de inverno. — Avise Cheryl para dispensar
os pacientes nas salas de exames.


— E quanto aos outros?
— Diga que surgiu uma emergência. Eu voltarei, mas só daqui a umas duas
horas.
Kim pegou as chaves do carro e dirigiu-se para a porta dos fundos.
Ginger sacudiu a cabeça. Era ela quem teria de enfrentar os pacientes. Já tinha a
experiência de como ficavam aborrecidos, principalmente os que vinham de fora da
cidade.
— Procure ser paciente — disse Kim, como se pudesse ler sua mente.
Kim correu para o carro. Entrou, deu a partida e saiu para a rua congestionada,
buzinando e ultrapassando em velocidade. Estava desesperado. Principalmente depois
do que Tracy dissera, não queria perder a oportunidade de falar pessoalmente com o
gastroenterologista.
No saguão do hospital, socou o botão do elevador, repetidas vezes, como se
aquilo apressasse sua chegada. As pessoas ficaram observando-o, espantadas.
Desceu no andar da pediatria e saiu, literalmente correndo pelo corredor. Chegou
ofegante ao quarto de Becky. Encontrou Tracy num canto, conversando com uma
mulher vestida num longo e acadêmico avental branco. Logo à primeira vista, pôde
perceber que Tracy estava perturbada.
Becky estava reclinada com a cabeça escorada no travesseiro. Olhava fixamente
para a frente. Naquele instante, o único movimento perceptível era o fluxo lento e
constante do soro.
Kim chegou até a beira da cama.
— Como está passando, querida? — Ele pegou em sua mão e a levantou. Não
sentiu muita resistência.
— Estou cansada — disse Becky.
— Sei que está, filha.
Instintivamente, Kim tomou-lhe o pulso. O ritmo cardíaco estava um pouco
acelerado. Abaixando ligeiramente uma das pálpebras, examinou a conjuntiva. Estava
esbranquiçada, mas não muito mais do que anteriormente. Examinou sua pele. Não
parecia particularmente quente ou úmida e o nível de hidratação era melhor que o da
noite anterior.
O pulso de Kim se acelerou. Percebia agora o que Tracy quis dizer. Uma
mudança tinha ocorrido em Becky, e a descrição que ela fez dos olhos vitrificados e da
apatia era exata. Era como se parte da força vital de Becky estivesse em suspenso. Ela
havia se tornado letárgica.
— Vou conversar com a mamãe — disse Kim.
— Está bem — respondeu Becky.
Kim dirigiu-se para o canto onde Tracy estava. Notou que as mãos dela tremiam
ligeiramente.
— Esta é a Dra. Kathleen Morgan — disse Tracy.
— É a gastroenterologista?
— Sou — respondeu Kathleen.
Kim analisou a mulher. Em muitos aspectos era, fisicamente, a antítese de Claire
Stevens, embora regulassem na idade. Kim calculou que devia medir no máximo um
metro e sessenta de altura. Tinha o rosto redondo e traços suaves. Usava óculos com aro
de metal, o que lhe conferia um ar de diretora escolar. O cabelo escuro apresentava
mechas prematuramente grisalhas.
— A Dra. Morgan considera o caso de Becky bastante grave — articulou Tracy.
— Ora, grande dedução — comentou Kim em tom visivelmente debochado. —
Grave, é? Não preciso que alguém venha me dizer que o caso é grave. Ela não estaria


nesse maldito hospital se não fosse grave. Preciso de alguém que me diga o que ela tem
e o que fazer para tratá-la e curá-la.
— O laboratório vai chamar assim que sair o resultado dos exames — disse
Kathleen, cautelosamente. Fora apanhada de surpresa pelas palavras de Kim. — Antes
disso não há nada que se possa fazer.
— Já a examinou? — perguntou Kim.
— Sim. E conferi os resultados dos exames já realizados.
— E?
— Sou da mesma opinião que o Dr. Faraday — disse Kathleen. — Infecção
bacteriana de origem alimentar.
— Ela parece que piorou — disse Kim.
— Concordo — acrescentou Tracy. — Houve uma mudança de ontem para hoje.
Não é a mesma, parece ausente.
Embaraçada, Kathleen observou Becky. Ficou mais aliviada ao ver que a menina
não prestava atenção à conversa. Mesmo assim, sugeriu que continuassem do lado de
fora.
— Como esta é a primeira vez que a vejo, não posso julgar isso — disse
Kathleen. — E não há nada em relação a isso nos relatórios das enfermeiras.
— Quero que ela seja mais bem monitorada. Seria possível transferi-la para um
dos quartos de isolamento da UTI?
— Sou apenas a médica que opinará sobre o caso — respondeu Kathleen. —
Oficialmente, Becky está sob os cuidados da Dra. Claire Stevens, que é a pediatra
responsável.
— Então, que tal tentar convencê-la? Ontem à noite fiz a mesma sugestão, mas
tive a impressão de que ela está do lado do AmeriCare, preocupada com os custos.
— Isso não me parece típico de Claire. Para ser franca, não creio que sua filha
necessite de transferência para a UTI. Ao menos por enquanto.
— Isso é muito animador — respondeu Kim, começando novamente a perder a
calma. — Em outras palavras, vão esperar que ela piore enquanto ficam de braços
cruzados sem fazer nada.
— Não está sendo justo, Dr. Reggis — disse Kathleen, ofendida.
— Pro inferno, se não estou, Dra. Morgan — explodiu Kim, finalmente.
Pronunciou o nome dela demonstrando maior desprezo do que realmente sentia. — Não
do meu ponto de vista. Na minha qualidade de cirurgião, faço um diagnóstico e depois
conserto o defeito. Em outras palavras, eu faço alguma coisa ao passo que neste
momento estou tendo a impressão de ver minha filha rolando montanha abaixo diante
de meus olhos sem que ninguém faça nada.
— Pare com isso, Kim! — disse Tracy, segurando as lágrimas. Nervosa do jeito
que já estava, não queria ter ainda de lidar com o gênio explosivo de Kim.
— Parar com o quê? — retrucou Kim.
— Com essa briga! Essa sua guerra interminável com os médicos e enfermeiras
não está ajudando em nada. Está me levando à loucura.
Kim cravou os olhos em Tracy, estarrecido. Não podia acreditar que ela se
voltasse contra ele tão rápido, principalmente quando o assunto era a saúde de Becky.
— Dr. Reggis, venha comigo! — disse Kathleen, subitamente. Fez um gesto de
mão e seguiu para a sala de enfermagem.
— Vá! — encorajou-o Tracy. — E veja se você se controla!
Tracy retornou para o quarto de Becky e Kim precisou correr para alcançar
Kathleen. Ela tinha os lábios apertados e andava num passo surpreendentemente veloz,
levando-se em conta suas pernas relativamente curtas.


— Para onde está me levando? — perguntou Kim.
— Para a sala de radiografia, atrás do núcleo de enfermagem. Quero lhe mostrar
uma coisa, e acho que precisamos ter uma conversa, só o senhor e eu, de médico para
médico.
A sala de enfermagem parecia uma colméia em atividade. A turma da manhã
estava de saída enquanto a equipe do turno da noite se preparava para começar a
trabalhar. Kathleen esgueirou-se com agilidade por entre o pessoal, abriu a porta da sala
de radiografia e acenou para Kim entrar.
Com a porta fechada, a calma voltou a reinar. Não havia janela na sala. Somente
escrivaninhas embutidas e as telas de leitura dos raios X. No canto da mesa ficava a
cafeteira comunitária.
Em silêncio, Kathleen retirou algumas chapas de um envelope. Prendeu-as na
tela de leitura e ligou o interruptor. Eram chapas de um abdômen de criança.
— São de Becky? — perguntou Kim.
Kathleen balançou a cabeça, confirmando.
Kim inclinou-se para estudar os detalhes com seus olhos treinados. Estava mais
acostumado a analisar chapas do tórax, mas conhecia o básico
— O intestino parece apresentar um edema uniforme — disse, após um rápido
exame.
— Exatamente — concordou Kathleen, impressionada. Pensou que teria de lhe
apontar a patologia. — O revestimento mucoso está dilatado em quase toda a sua
extensão.
Kim voltou à posição original.
— O que isso significa para você? — perguntou. Não estava gostando do que
via, mas não sabia qual a relação com os sintomas clínicos.
— Me faz suspeitar especificamente do E. coli 0,57: H7 — respondeu Kathleen.
— Apresenta o mesmo quadro da disenteria de shigella, mas a paciente estaria
provavelmente com febre. Como sabe, a temperatura de Becky é normal.
— E quanto à administração de antibióticos? Claude Faraday os desaconselhou
com receio de danificarem a flora normal. Concorda com ele?
— Sim. Não só em função dos danos causados à flora, mas também porque
provavelmente seriam inúteis. Na ausência de febre, a maior possibilidade é de que o
agente agressor já tenha sido expulso do intestino.
— No caso de estarmos lidando com uma toxemia em potencial, como faremos
o diagnóstico?
— Existe a possibilidade do teste pela própria toxina — disse Kathleen.
— Infelizmente o AmeriCare não autoriza nosso laboratório a fazer esse tipo de
exame.
— Não me diga que é por questão financeira...
— Receio que sim. É um daqueles testes que não são feitos em numero
suficiente que justifique o custo. O AmeriCare não o considera dentro dos padrões de
custo-benefício.
— Deus do céu! — explodiu Kim, esmurrando o balcão da mesa, revoltado. —
Se ouvir novamente a palavra custo-benefício acho que vou ter um acesso. Desde o
instante em que Becky ficou doente, parece que estou sendo assombrado pelo lucro
líquido do AmeriCare.
— Infelizmente a saúde gerenciada é uma realidade da qual não podemos fugir
— disse Kathleen. — Neste caso, porém, tomei a decisão pessoal de enviar uma
amostra ao Laboratório Sherring. Teremos o resultado dentro de vinte e quatro a
quarenta e oito horas.


— Aleluia! — festejou Kim. — Obrigado, e peço desculpas por ter dito que
estava de braços cruzados. Você me entende, o dinheiro não devia ser o principal
quando o que está em jogo é a saúde de Becky.
— O que sabe a respeito desse E. coli em particular e suas toxinas? — perguntou
Kathleen. — Supondo-se que seja isso mesmo o que ela tem.
— Não muito. Nem sequer sabia que os antibióticos são ineficazes. Não tenho
de lidar com o E. coli em minha área. Já o enterecocus, resistente à vancomicina, é
outro caso. Nós, cirurgiões cardíacos, temos pavor dele.
— Entendo. Eu não estou familiarizada com o problema do enterococus, mas
estou com o do E. coli 0,57: H7. Talvez até demais. Acho que você e sua esposa
deveriam ficar logo sabendo que se trata de um micróbio muito perigoso.
— Como assim? — perguntou Kim, nervoso.
Não tinha gostado da entonação de Kathleen e muito menos das implicações a
que ela se referia. Kim sequer se importou em corrigir o equívoco de que ele e Tracy
continuavam casados.
— Talvez seja melhor sentar-se — sugeriu Kathleen, procurando encontrar a
melhor maneira de explicar seus receios sem estressá-lo ainda mais. Podia perceber
claramente seu descontrole emocional.
Respeitosamente, Kim puxou uma cadeira e sentou-se. Teve medo que suas
pernas dobrassem.
— Se o problema de Becky é causado pelo E. coli — explicou Kathleen — o
que me preocupa é a diminuição nas plaquetas que ela sofreu. Ontem à noite a redução
era mínima, mas depois que foi reidratada, a queda ficou mais evidente e
estatisticamente mais importante. Isso me leva a suspeitar de SUH.
— SUH? Mas que diabo é isso?
— É o acrônimo para a Síndrome Urêmica Hemolítica. Está associada às toxinas
do tipo shigella, que o E. coli 0,57:H7 é capaz de produzir. Veja bem, esse tipo de
toxina pode provocar a coagulação intravascular das plaquetas e causar a destruição dos
glóbulos vermelhos. Isso pode ocasionar um colapso múltiplo de órgãos. Os rins são
geralmente os mais afetados, daí o nome síndrome urêmica.
O queixo de Kim foi caindo lentamente. Estava atordoado. Por um momento,
tudo o que conseguiu foi olhar para Kathleen numa vã esperança de que ela sorrisse de
repente e dissesse que aquilo tudo era só uma piada de mau gosto. Mas isso não
aconteceu.
— Acha que Becky tem SUH? — perguntou Kim, com uma calma que não
sentia.
— Vamos colocar desse modo — disse Kathleen, tentando diminuir o impacto.
— É uma suspeita minha. Não temos nenhuma confirmação ainda. Neste momento, é só
minha intuição clínica.
Kim sentiu um nó na garganta. Tinha a boca seca.
— O que podemos fazer? — perguntou.
— Não muito, por enquanto. Enviei a amostra para descobrirmos qual a toxina.
Nesse meio tempo, sugiro que ela tenha o acompanhamento de um hematologista e de
um nefrologista. Não acho cedo para ouvir suas opiniões.
— Vamos convocá-los!
— Calma, Dr. Reggis. Não se esqueça que estou aqui apenas para expressar
minha opinião. Somente Claire Stevens tem autorização para pedir outros consultores.
O AmeriCare é bem claro nesse aspecto.
— Então vamos chamá-la, pelo amor de Deus.
— Quer que a chame neste exato momento?


— Sem a menor dúvida — disse Kim. Pegou no telefone e o entregou na mão de
Kathleen.
Enquanto Kathleen usava o aparelho, Kim cobriu a cabeça com as mãos. Sentiuse tomado por uma súbita angústia. O que parecia nada mais que um ligeiro mal-estar,
apesar do sofrimento de Becky ter sido maior que o esperado, forçando-a inclusive a se
internar no hospital, assumia agora outra dimensão. Pela primeira vez em sua vida
encontrava-se do lado do paciente com um problema grave de saúde; um problema que
sequer conhecia bem. Seria obrigado a aprender, e rápido. Pensou em como iria fazer
isso.
— Claire está de pleno acordo — anunciou Kathleen, desligando o aparelho.
— Tem sorte dela estar no caso. Nós juntas já tratamos de diversos casos de
SUH.
— Quando os especialistas irão examinar Becky?
— Assim que Claire os localizar, estou certa.
— Eu os quero agora mesmo! — disse Kim, exaltado. — Esta tarde!
— Dr. Reggis, o senhor precisa se acalmar. Foi por isso que o trouxe até aqui,
para que pudéssemos conversar com tranqüilidade, de profissional para profissional.
— Não consigo ficar calmo — admitiu Kim. Sua respiração era ofegante. —
Qual a incidência de SUH?
— Infelizmente, vem se tornando relativamente freqüente — disse Kathleen.—
É causada geralmente pelo E. coli 0,57:H7 e gira em torno de vinte mil casos anuais.
Atualmente é a maior causa de colapso renal agudo em crianças.
— Deus do céu! — exclamou Kim, coçando a cabeça, visivelmente nervoso. —
Vinte mil casos anuais!
— Essa é uma estimativa dos casos provocados por E. coli O,57:H7 — disse
Kathleen. — Somente um percentual inclui SUH.
— Existem casos fatais de SUH? — esforçou-se Kim para perguntar.
— Tem certeza de que quer falar sobre isso? Lembre-se de que o diagnóstico de
E. coli ainda não foi comprovado. Só queria prepará-lo para uma eventual possibilidade.
— Responda à minha pergunta, droga!
Kathleen suspirou, resignada. Esperava não ter de tocar naquele assunto, mas ele
não lhe deixava alternativa. Pigarreou e foi direta aos fatos:
— Morrem cerca de duzentas a quinhentas pessoas ao ano, em sua maioria
crianças, em conseqüência do E. coli 0,57:H7, vitimadas geralmente por SUH.
A testa de Kim ficou encharcada de suor. Mostrava-se outra vez visivelmente
atordoado.
— De duzentas a quinhentas mortes por ano — repetiu. — É inacreditável, ainda
mais por eu nunca ter ouvido falar em SUH.
— Como disse, são só estimativas do Centro para Controle de doenças.
— Com essa taxa de mortalidade, por que não se tem maior conhecimento da
doença? — perguntou Kim.
A intelectualização sempre fora um mecanismo de defesa para Kim quando
lidava com carga emocional da problemática da medicina.
— Isso não sei responder — comentou Kathleen. — Ocorreram pelo menos dois
episódios trágicos de grandes dimensões relacionados a essa cepa de E. coli, como o
surto do Jack-in-the-Box em noventa e dois e o da Hudson Meat no verão de noventa e
sete. Por que esses e outros casos não motivaram a conscientização geral do público, eu
não sei.
— Eu me lembro desses dois episódios. Pensei que o governo ou o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos tivessem cuidado do problema.


Kathleen deixou escapar uma risada cínica.
— Tenho certeza de que era nisso que o Departamento de agricultura dos
Estados Unidos e a indústria da carne esperavam que o público acreditasse.
— É basicamente um problema com a carne vermelha? — Perguntou Kim.
— Carne moída, para ser mais exata. Carne moída malpassada. Mas é verdade
que já foram registrados casos provocados por suco de maçã ou cidra e até pelo leite não
pasteurizado. O fator chave do contato com as fezes do animal infectado.
— Não me lembro desse problema quando era criança — disse Kim. — Sempre
comia hambúrguer malpassado.
— E uma situação relativamente nova — explicou Kathleen. — Acredita-se que
tenha se originado no final dos anos setenta, talvez na Argentina. A teoria mais provável
é de que uma bactéria Shigella tenha transmitido a uma bactéria E. coli o DNA propício
… criação de uma toxina do tipo shigella.
— Por conjugação bacteriana— sugeriu Kim.
— Exatamente. Conjugação é a resposta bacteriana para reprodução sexual, um
método de mistura genética. Mas, se houve conjugação, é curioso, já que a conjugação
normalmente só ocorre dentro da mesma espécie. Porém, o aspecto mais surpreendente
que, uma vez criada, essa cepa anômala E.coli passou a alastrar-se com uma rapidez
extraordinária por todo o mundo. Atualmente existe em cerca de três por cento dos
intestinos bovinos.
— As vacas infectadas ficam doentes? — questionou Kim.
— Não necessariamente. Embora possa causar algum tipo de diarréia bovina, os
animais mostram-se geralmente imunes à toxina, pelo menos no aspecto sistêmico.
— Estranho! — comentou Kim. — E irônico! Com a biologia molecular ainda
engatinhando, delineava-se um cenário apocalíptico e aterrorizante: um cientista teria
dado condições a uma bactéria E. coli de produzir a toxina do botulismo e essa bactéria
inadvertidamente teria sido solta na natureza.
— É uma boa analogia — disse Kathleen. — Especialmente levando-se em
conta que a natureza provavelmente não tem culpa no caso do E. coli 0, 57:H7. O
homem ajudou.
— Como assim? — perguntou Kim.
— Acredito que o E. coli 0,57:H7 surgiu com as modernas técnicas agrícolas
intensivas usadas hoje em dia. A necessidade de proteína barata para alimentar os
animais resultou em soluções tão criativas quanto repulsivas. O gado é alimentado com
rações feitas de farinha de carne, incluindo ele mesmo. Até o esterco de galinha está
sendo amplamente utilizado.
— Está brincando! — disse Kim.
— Quem me dera! Além disso, são administrados antibióticos ao gado. Os
elementos químicos formam uma papa no interior dos intestinos dos animais, que
favorece novas mutações. O E. coli 0,57:H7 foi, de fato, criado quando o DNA da
toxina shigella foi transferido junto com o DNA necessário para resistir contra algum
antibiótico em particular.
Kim sacudiu a cabeça, sem poder acreditar. Estava aprendendo sobre um assunto
de considerável interesse. Mas então, repentinamente lembrou-se do caso em questão: a
situação de Becky. Foi como se tivessem jogado um balde de água fria em sua cabeça.
— O grande problema está na matéria fecal bovina, encontrada especialmente na
carne moída — disse Kim. Sua voz tinha retomado a entonação angustiada de antes.
— Pode-se dizer que sim.
— Então, já sei como Becky contraiu a bactéria — disse Kim, com raiva. — Ela
comeu um hambúrguer malpassado na lanchonete Onion Ring, na noite de sexta-feira.


— Isso é bastante coerente. Apesar do período de incubação do E. coli 0, 57:H7
ser geralmente maior, às vezes de até uma semana.
A porta da sala de radiografia abriu-se de supetão, assustando a ambos. Uma
enfermeira meteu a cabeça para dentro da sala. Tinha a respiração ofegante.
— Dra. Morgan! — disse, apressada. — Uma emergência com a paciente
Rebeca Reggis!
Kim e Kathleen saíram em disparada pelo corredor rumo ao quarto de Becky.

9
Quarta-feira, 21 de janeiro - Tarde
Quando Kim entrou no quarto, viu uma enfermeira em cada lado do leito da
filha. Uma delas tirava a pressão sanguínea, a outra conferia a temperatura. Becky
gemia e se contorcia de dor. Estava pálida como um fantasma. Tracy estava encostada à
parede, tampando a boca com as mãos. Estava quase tão lívida quanto Becky.
— O que aconteceu? — perguntou Kim.
Kathleen chegou atrás dele.
— Não sei — balbuciou Tracy. — Becky e eu estávamos conversando quando
ela deu um grito. Reclamou de uma dor horrível no estômago e no ombro esquerdo.
Logo depois sofreu um espasmo.
Uma das enfermeiras avisou que a pressão sanguínea era de dez por seis.
Kathleen contornou a cama e verificou o pulso de Becky.
— Já chamaram a Dra. Stevens? — perguntou.
— Já, ela está a caminho — respondeu uma das enfermeiras.
— A temperatura é de quarenta graus e meio — disse a outra, desanimada. Seu
nome era Lorraine Phillips. Sua colega chamava-se Stephanie Gragoudos.
Kim afastou Lorraine do lado direito da cama de Becky. Estava transtornado.
Ver sua filha sofrendo daquela forma era como receber uma facada no coração.
— Becky, o que está sentindo? — perguntou Kim.
— Meu estômago dói — conseguiu balbuciar entre gemidos. — Dói demais.
Papai, por favor!
Kim ergueu o lençol de Becky. Ficou chocado ao ver uma faixa arroxeada em
sua barriga, causada por hemorragia subcutânea. Olhou para Kathleen:
— Sabia da existência dessa púrpura? — perguntou.
Kathleen fez que sim com a cabeça
— Mais cedo.
— Não estava assim ontem à noite — disse Kim. E, virando-se para Becky:
— Mostre para o papai onde está doendo.
Becky apontou para a parte direita inferior do abdômen, tendo o cuidado de não
tocar no local.
Kim apenas colocou a ponta dos dedos sobre a região que havia apontado e
pressionou levemente a superfície da pele. Becky soltou um gemido.
— Por favor, não toque aí, papai! — implorou.
Kim afastou a mão instintivamente. Becky arregalou os olhos e deixou escapar
um grito de dor por entre seus lábios ressecados. Era exatamente a reação que ele temia,
chamada flacidez repercussiva, uma forte indicação de peritonite, ou seja, a inflamação
do tecido da cavidade abdominal. E a causa daquela catástrofe só podia ser uma. Kim se
levantou.
— Ela tem uma crise aguda de peritonite — berrou. — Está perfurada!


Sem hesitar, Kim esticou o braço até a extremidade da cama e destravou as rodas
dianteiras.
— Alguém, destrave as rodas de trás — prosseguiu, aos berros. — Usaremos o
leito para transportá-la. Temos de levá-la para a cirurgia.
— Acho que devemos esperar pela Dra. Stevens — disse Kathleen, serenamente.
Fez um sinal para que Stephanie se afastasse do pé da cama. Kathleen, então,
aproximou-se de Kim, na cabeceira.
— Para o inferno com a Dra. Stevens! Esta é uma emergência cirúrgica. Chega
de cordialidades, temos de agir!
Kathleen segurou o braço de Kim, ignorando a expressão feroz em seus olhos.
— Dr. Reggis, o senhor não está no comando. Precisa se acalmar. Em seu
desespero, Kim considerou Kathleen apenas um obstáculo, não uma colega. Decidido a
levar Becky para a cirurgia o mais rápido possível, ele literalmente a varreu de sua
frente. Com um safanão, inadvertidamente a jogou por sobre a mesa na cabeceira do
leito.
Kathleen tentou apoiar-se na mesa numa frustrada tentativa para ficar de pé, mas
só conseguiu derrubar tudo o que estava em cima. A jarra de água, o copo, o vaso de
flores e o termômetro espatifaram-se todos no chão à sua volta.
Stephanie saiu correndo pelo corredor pedindo socorro, enquanto Lorraine se
esforçava para segurar o leito no lugar. Mesmo com as rodas traseiras travadas, Kim
tinha conseguido empurrá-lo alguns metros em direção à porta.
Tracy recobrou-se do choque inicial e se lançou sobre Kim. Agarrou-o pelo
braço, tentando fazê-lo soltar a cabeceira do leito.
— Pare, Kim! — soluçava. — Por favor!
Diversas enfermeiras apareceram, inclusive a enfermeira-chefe, acompanhada de
um enfermeiro forte. Todos convergiram sobre Kim, empenhado em conduzir o leito até
o corredor. Até Kathleen levantou-se do chão para ajudar. Finalmente dominado, Kim
soltou a cama, mas estava possesso. Xingava e berrava que todos os que não percebiam
que ela precisava ser operada com urgência eram uns incompetentes.
— De que jeito me farão dormir? — perguntou Becky, já com a voz bastante
sonolenta.
— Só vão colocar um remédio no seu soro — disse Kim. — Não se preocupe,
não vai sentir nada. Quando perceber, estará acordada e sentindo-se muito melhor.
Becky estava sobre um leito na sala de pré-anestesia do setor cirúrgico. Tinha a
cabeça coberta por uma touca cirúrgica e já havia sido pré-medicada. Por isso não sentia
dores e o mal-estar diminuíra, mas estava nervosa ante a expectativa da cirurgia.
Kim estava de pé ao lado do leito dela, em meio a outros leitos com pacientes
que aguardavam para serem conduzidos a suas respectivas salas de cirurgia. Vestia um
jaleco, usava uma touca, mocassins nos pés. Tinha recuperado a razão depois da cena no
quarto de Becky, uma hora e meia antes. Arrependido, pediu profundas desculpas a
Kathleen. Ela, gentilmente, disse que o compreendia. Claire chegou logo depois e
ordenou a imediata intervenção cirúrgica.
— Eu vou ficar boa, papai? — perguntou Becky.
— Do que está falando? — falou Kim, tentando soar como se a pergunta fosse
ridícula. — É claro que vai ficar boa! Eles só irão abri-la como um zíper, consertarão o
buraquinho e pronto.
— Talvez esteja sendo punida por não me inscrever no campeonato nacional —
disse Becky. — Sinto muito, mas agora não dá mais tempo. Sei que você queria.
Kim prendeu as lágrimas que ameaçaram correr. Por um instante, olhou à volta


para se recompor e tentar encontrar uma resposta. Achava complicado falar com sua
filha a respeito do destino quando ele próprio buscava uma explicação. Há apenas
alguns dias ela era o exemplo da força e do vigor da juventude; e agora estava
envenenada, à beira do abismo. "Por quê?", pensou.
— Vou pedir à mamãe para trazer uma ficha de inscrição — acrescentou Becky.
— Não se preocupe com o campeonato nacional. Não me importo com ele. Só
com você.
— Muito bem, Becky — disse uma voz confiante. — É hora de deixá-la novinha
em folha.
Kim ergueu a cabeça. Jane Flanagan, a anestesista, e James O'Donnel, o
cirurgião gastrointestinal, surgiram do interior do centro cirúrgico. Eles foram até o leito
de Becky. Jane soltou as travas das rodas na cabeceira da cama.
Becky agarrou Kim pela mão, surpreendendo-o pela força, considerando a
quantidade de medicamentos pré-operatórios que tinha tomado.
— Vai doer? — perguntou ao pai.
— Não com Jane cuidando de você — respondeu James em tom brincalhão. —
Ninguém sabe ninar como ela.
— Posso até mandar descer um bom sonho — brincou Jane.
Kim conhecia e admirava aqueles dois profissionais. Já havia tido a
oportunidade de trabalhar com Jane numa infinidade de casos e participado com James
de inúmeros comitês hospitalares. Foram colegas no Samaritano, onde James adquirira a
reputação de ser o melhor cirurgião gastrointestinal da cidade. Kim ficou aliviado
quando ele concordou em deixar tudo de lado naquela quarta-feira para operar Becky.
James posicionou-se ao pé do leito. Com Jane andando de costas e James
guiando, levaram Becky para a porta de vaivém que dava para o corredor do centro
cirúrgico.
Kim os acompanhou. Becky ainda conservava sua mão agarrada à dele. Jane
utilizou o traseiro para abrir a porta. Quando o leito passou por ela, James segurou Kim
pelo braço, impedindo-o de seguir adiante. A porta fechou-se por trás de Becky e Jane.
Kim olhou para a mão do amigo segurando-lhe o braço e em seguida fitou-lhe o
rosto. James não era tão alto quanto Kim, mas tinha mais corpo. Seu nariz era salpicado
de sardas.
— O que está fazendo? — inquiriu Kim. — Solte meu braço, James!
— Eu soube do ocorrido lá embaixo — disse James. — Acho melhor você ficar
fora do centro cirúrgico.
— Mas eu quero entrar.
— Pode querer; mas não vai.
— E quem irá me impedir? É minha filha, minha única filha!
— Por isso mesmo. Você fica aqui no saguão, se quiser que eu opere. É simples.
O rosto de Kim enrubesceu. Entrou em pânico ao ver-se acuado, confuso quanto
ao que deveria fazer. Queria desesperadamente que James a operasse, mas estava
aterrorizado com a idéia de ficar longe de Becky.
— Você tem que se decidir — disse James. — Quanto mais o tempo passa, pior
vai ficando para Becky.
Brutalmente, Kim soltou o braço e sem dizer uma palavra baixou os olhos. Foi
direto para o vestiário do centro cirúrgico. Evitou olhar para as pessoas enquanto
atravessava a sala dos médicos do centro cirúrgico. Estava distraído e perturbado. Sua
passagem, porém, não ficou despercebida.
No vestiário, Kim abriu a torneira da pia e deixou que enchesse. Curvou-se e
jogou água fria no rosto diversas vezes com as mãos em concha. Quando olhou no


espelho, percebeu a presença de Forrester Biddle às suas costas.
— Quero conversar com você — disse Forrester com a voz entrecortada.
— Fale — disse Kim. Pegou uma toalha e enxugou o rosto rapidamente. Não se
virou.
— Depois de lhe pedir encarecidamente que não declarasse mais suas opiniões
para a mídia, fiquei estarrecido ao ver Kelly Anderson citando-o novamente no
noticiário das onze.
Kim deixou escapar uma risada curta e seca.
— Curioso, considerando-se que me recusei em conversar com ela.
— Ela disse que o senhor acredita que o AmeriCare fechou o pronto-socorro do
Samaritano para cortar despesas e aumentar os lucros, obrigando os cidadãos a procurar
o sobrecarregado pronto-socorro do Centro Médico Universitário.
— Eu não disse isso — respondeu Kim. — Foi ela.
— Ela citou seu nome.
— Uma situação curiosa — disse Kim, negligentemente.
Em seu presente estado de espírito, sentiu uma vontade mórbida de ridicularizar
Forrester em sua pretensa integridade. Conseqüentemente, não estava preocupado em
defender-se, apesar do incidente ter reforçado sua decisão de nunca mais abrir a boca
diante daquela jornalista de TV.
— Estou avisando novamente — disse Forrester. — Eu e a administração
estamos no limite de nossa paciência.
— Ótimo, considere-me, então, avisado novamente.
Por um instante, a boca cerrada de Forrester ficou parecendo uma horrível linha
sem lábios.
— Pode ir em frente com seu sarcasmo — disse ele, secamente. — Devo
lembrá-lo de que só porque era o chefe do departamento no Samaritano não deve
esperar por nenhum privilégio especial aqui.
— Isso já ficou evidente — respondeu Kim. Atirou a toalha no cesto e saiu do
vestiário sem dirigir sequer um olhar para Forrester.
Usando o telefone de uma das cabines fechadas para evitar Forrester Kim ligou
para Ginger e disse que não voltaria ao consultório Ela respondeu que já desconfiava e
que tinha dispensado todos os pacientes.
— Ficaram muito aborrecidos? — perguntou Kim.
— É preciso perguntar? É lógico que sim, mas compreenderam quando eu disse
que era uma emergência. Espero que não se importe de ter dito que era um problema
com sua filha. Sabia que eles iam entender.
— Acho que não tem importância — disse Kim, apesar de não gostar de
misturar a vida pessoal com a profissional.
— Como está Becky?
Kim narrou-lhe os acontecimentos e comunicou que Becky estava sendo operada
naquele momento.
— Sinto muito. Existe algo que eu possa fazer?
— Não consigo pensar em nada.
— Ligue-me mais tarde — disse Ginger. — Vou estar em casa depois da
aeróbica.
— Está bem — disse Kim, desligando.
Sabendo que não conseguiria ficar ali parado, esperando o fim da cirurgia, Kim
decidiu ir até a biblioteca do hospital. Tinha muito para ler. Tinha de aprender o que
pudesse sobre E. coli 0,57:H e SUH.
Kim consultou o relógio. Era quase meia-noite. Observou Becky mais uma vez e


sentiu um estremecimento. Seu rosto estava transfigurado por um tubo de plástico
transparente que saía de uma das narinas e estava conectado à baixa aspiração. O cabelo
escuro e ondulado de Becky ressaltava a lividez do rosto, outrora suave e angelical.
Tracy ficara penteando-a por quase uma hora. Era algo de que Becky sempre gostara e
surtira o efeito desejado. Becky dormia profundamente e assemelhava-se naquele
momento ao retrato da serenidade.
Kim estava parado próximo à cama de Becky. O quarto encontrava-se
mergulhado no brilho suave da luz noturna, assim como naquela manhã. Kim estava
física e mentalmente exausto.
Tracy tinha se recostado numa das duas cadeiras de vinil que havia no quarto, no
lado oposto da cama. Seus olhos estavam fechados, mas Kim sabia que estava acordada.
Silenciosamente, a porta girou nas dobradiças. Janet Emery, a enfermeira
corpulenta do turno da noite, entrou sem dar uma palavra. Seus cabelos louros
cintilaram na penumbra. Dirigiu-se para o lado da cama onde Tracy estava. Seus sapatos
tinham sola de borracha macia e por isso seus passos eram inaudíveis. Utilizando uma
pequena lanterna, tirou a pressão de Becky, verificou o pulso e a temperatura. Becky se
moveu, mas voltou imediatamente ao sono profundo.
— Tudo normal com ela — disse Janet em voz baixa.
Kim balançou a cabeça.
— Talvez fosse bom os dois irem para casa — acrescentou Janet. — Estarei
tomando conta de seu anjinho bem de perto.
— Obrigado, mas prefiro ficar — disse Kim.
— Acho que seria melhor se descansassem um pouco — disse Janet. — Foi um
dia longo.
— Apenas faça o seu trabalho — resmungou Kim.
— Sem dúvida — disse Janet, bem-humorada. Dirigiu-se para a porta e
desapareceu silenciosamente.
Tracy abriu os olhos e fitou Kim. Sob aquela tensão, a aparência dele estava
péssima. O cabelo desalinhado e o rosto coberto pela barba por fazer. A luz fraca,
próxima ao chão, acentuava a magreza de seu rosto e fazia dos olhos duas cavidades
enegrecidas.
— Kim! — disse ela. — Será que não consegue se controlar? Não está ajudando
a ninguém e muito menos a você mesmo.
Tracy esperou por uma resposta, mas ela não veio. Kim parecia uma estátua
retratando a angústia humana.
Tracy suspirou e espreguiçou-se.
— Como ela está reagindo? — perguntou.
— Reage bem — disse Kim. — Ao menos a cirurgia deteve a crise aguda.
A operação em si tinha sido rápida. De fato, o que exigira mais tempo, segundo
o relato de James, foi a meticulosa irrigação do abdômen para diminuir as chances de
infecção. Após a cirurgia, Becky passou algum tempo na sala de recuperação antes de
ser trazida de volta ao seu quarto. Kim requisitou novamente uma transferência para a
UTI, mas ela foi outra vez indeferida.
— Fale-me mais sobre essa colostomia — pediu Tracy. — Disse que pode ser
fechada em duas semanas.
— Em torno disso — disse Kim, extenuado. — Se tudo correr bem.
— Foi um trauma para Becky — disse Tracy. — Do mesmo modo que o tubo no
nariz. Está sendo difícil de aceitar. O pior é que ela se sentiu traída, porque ninguém a
avisou de que essas coisas podiam acontecer.


— Não havia outra coisa a fazer — retrucou, ríspido.
Kim afundou em uma cadeira parecida com a de Tracy. Apoiou os cotovelos
sobre os braços da cadeira e enterrou o rosto entre as mãos.
Tudo o que Tracy podia ver agora era o topo da cabeça de Kim por sobre o leito.
Ele permanecia imóvel. O retrato da angústia humana assumira outra pose, ainda mais
expressiva.
A postura abatida de Kim acabou por fazê-la analisar a situação pelo ângulo
dele. Mediante sua experiência como terapeuta, podia avaliar o quanto lhe devia ser
difícil, considerando-se não apenas sua preparação como cirurgião, mas também, e
principalmente, o seu narcisismo. Repentinamente, toda a raiva que sentia dele se
esvaiu.
— Kim, talvez seja melhor você ir para casa. Acho que está precisando
descansar, sair um pouco daqui. Lembre-se que tem seus pacientes amanhã. Eu posso
ficar. Perderei apenas uma aula.
— Não conseguiria dormir mesmo que fosse para casa — disse Kim, sem
descolar o rosto das mãos. — Agora, eu sei demais.
Durante todo o tempo em que Becky esteve na cirurgia, Kim pesquisou a
respeito de SUH na biblioteca do hospital. O que descobriu era esmagadoramente
assustador. Tudo o que Kathleen dissera era verdade. A SUH era uma doença terrível e
agora tudo o que podia fazer era rezar para que Becky tivesse outra coisa qualquer. O
problema era que tudo apontava na direção de SUH.
— Estou começando a perceber como deve estar sendo difícil para você, lidar
com uma situação que escapa do seu conhecimento, de seu treinamento médico — disse
Tracy, com sinceridade.
Kim ergueu o rosto e fitou Tracy.
— Por favor, não seja condescendente comigo usando essa babaquice
psicológica. Agora não!
— Pode chamar do que quiser — disse Tracy. — Mas estou vendo que essa
talvez seja a primeira vez em sua vida em que se vê diante de uma situação cuja
gravidade sua força de vontade ou suas habilidades não podem alterar. Acho que isso
deve tornar as coisas especialmente difíceis para você.
— Pois é, e suponho que isso tudo não a esteja afetando em nada.
— Muito pelo contrário. Isso me afeta terrivelmente. Mas é diferente para você.
Acho que está tendo de lidar com coisas que estão além das condições de Becky. Está
tendo de conviver com novos limites, novos conceitos e lutar contra as barreiras que o
impedem de agir em benefício dela. É o preço que tem de pagar.
Kim pestanejou. Sempre odiou a teorização psicológica de sua ex-mulher, mas
naquele momento tinha de admitir que o que ela dizia fazia algum sentido.

10
Quinta-feira, 22 de janeiro
Kim acabou voltando para casa mas, como esperava, não conseguiu dormir
muito, e quando conseguiu seu sono foi povoado de pesadelos. Alguns foram
incompreensíveis; era castigado e ridicularizado por ter tirado notas baixas nas provas
da faculdade. O mais terrível envolveu Becky, e foi fácil para ele compreender. No
sonho, ela tinha caído de um píer no mar agitado. Apesar de estar junto dela, não
conseguia salvá-la por mais que se esforçasse. Acordou sobressaltado e molhado de
suor.


Apesar de não conseguir descansar muito, a ida para casa ao menos deu a Kim a
oportunidade de tomar um banho e fazer a barba. Com pelo menos a aparência um
pouco mais apresentável, estava dirigindo seu carro às cinco horas da manhã. Rodou
pelas ruas desertas e escorregadias sob uma neve rala e úmida.
No hospital encontrou Becky do mesmo jeito que a deixara. Parecia
enganosamente estar dormindo na mais absoluta paz. Tracy também estava mergulhada
em sono profundo, encolhida na poltrona de vinil e coberta com uma manta do hospital.
No núcleo de enfermagem, Kim encontrou Janet Emery ocupada com seu
serviço burocrático.
— Sinto muito se fui rude ontem à noite — disse Kim,deixando-se cair
pesadamente sobre o banco ao lado de Janet. Abriu a gaveta e retirou a ficha de Becky.
— Não considerei como ofensa pessoal — disse Janet. — Conheço a tensão de
ter uma criança internada. Tive uma experiência igual com meu filho.
— Como ela passou a noite? — perguntou Kim. — Aconteceu algo que eu deva
saber?
— O quadro dela é estável. E o mais importante, a temperatura permanece
normal.
— Graças a Deus! — disse.
Ele encontrou o relatório da cirurgia ditado por James e que fora anexado à ficha
durante a noite. Kim o leu, mas não encontrou nada que já não soubesse. Sem mais
nada a fazer, Kim foi para o consultório e ocupou-se com uma montanha de trabalho
acumulado. Trabalhou consultando o relógio. Quando achou que a hora já era adequada,
levando em consideração a diferença de fusos horários com relação à Costa Leste, ligou
para George Turner. George foi extremamente solidário quando Kim lhe contou da
perfuração e a conseqüente cirurgia. Kim agradeceu-lhe a preocupação e tocou no ponto
que o interessava: queria a opinião de George sobre o que fazer caso fosse confirmado o
diagnóstico de SUH provocada por E. coli 0,57:H7. Estava particularmente interessado
em saber se Becky deveria ser transferida para outro lugar.
— Eu não recomendaria — disse George. — Você tem uma excelente equipe
com Claire Stevens e Kathleen Morgan no comando. Elas têm muita experiência com
essa síndrome. Talvez mais que qualquer outro.
— Já cuidou de algum caso de SUH? — perguntou Kim.
— Só uma vez — respondeu George.
— É tão terrível assim como descrevem? Pesquisei em toda a literatura
disponível, inclusive na Internet. O problema é que não existe muito material sobre o
assunto.
— O caso de que tratei foi uma experiência desalentadora — admitiu George.
— Pode descrevê-la?
— Foi imprevisível e inexorável. Só torço para que o problema de Becky seja
outro.
— Pode ser mais específico? — pediu Kim.
— Prefiro não comentar — respondeu George. — É uma síndrome multiforme.
As possibilidades são de que mesmo que Becky a tenha contraído, a evolução da doença
ocorra de forma bem diferente. No meu caso, foi muito deprimente.
Kim desligou poucos minutos depois. George pediu para ficar informado sobre o
progresso de Becky e Kim prometeu-lhe que o avisaria.
Imediatamente, discou para a sala de enfermagem do andar de Becky. Quando
Janet atendeu, perguntou por Tracy.
— Ela já acordou — respondeu Janet. — Eu a vi na última vez em que passei


pelo setor.
— Se importaria de colocá-la na linha?
— De maneira nenhuma — disse Janet, de forma amistosa.
Enquanto aguardava, Kim pensou a respeito do comentário de George. Não
gostara do tom de sua voz quando disse "imprevisível e inexorável" e de que seu caso
fora deprimente. Tal descrição o fez lembrar-se do pesadelo que tivera durante a noite.
Sentiu o corpo transpirar.
— É você, Kim? — perguntou Tracy assim que pegou no aparelho.
Durante alguns minutos conversaram sobre como cada um tinha passado as
últimas cinco horas. Nenhum dos dois tinha conseguido dormir bem. A conversa então
recaiu sobre Becky.
— Ela parece um pouco melhor que ontem à noite — disse Tracy. — Está mais
lúcida. Acho que já eliminou totalmente a anestesia. Queixa-se mais do tubo
nasogástrico. Quando poderá ser retirado?
— Assim que o sistema gastrintestinal estiver trabalhando direito.
— Vamos torcer para que isso aconteça logo.
— Falei com George agora de manhã.
— O que ele disse?
— Que Becky não poderia estar em melhores mãos que as de Claire e Kathleen,
principalmente se for confirmada a SUH. Disse que provavelmente não há equipe
melhor em nenhum outro lugar.
— Isso é animador.
— Escute, vou ter de ficar por aqui. Preciso examinar alguns pacientes, inclusive
os que têm cirurgia marcada para amanhã. Espero que não se incomode.
— Não me incomodo nem um pouco — disse Tracy.— Na verdade, acho que é
mesmo uma boa idéia.
— É difícil para mim ficar aqui sentado sem fazer nada. — explicou Kim.
— Compreendo perfeitamente. Faça o que tem de fazer. Eu estarei aqui, por isso
não se preocupe.
— Ligue para mim se houver alguma mudança.
— É claro! Você vai ser o primeiro a saber.
Quando Ginger chegou, pouco antes das nove horas, Kim pediu a ela que
cancelasse o maior número possível de pacientes porque desejava voltar ao hospital à
tarde.
Ginger perguntou sobre Becky, dizendo ter ficado desapontada por ele não lhe
ter ligado na véspera. Ficou preocupada a noite toda, mas teve medo de incomodar.
Kim contou a ela que Becky estava melhor depois da cirurgia. Também explicou
que tinha chegado em casa depois da meia-noite e achado que era tarde demais para
telefonar.
No início, não foi fácil para Kim atender os clientes naquelas circunstâncias,
mas esforçou-se para se concentrar no trabalho. Gradualmente, o esforço foi surtindo
efeito. Por volta do meio-dia sentia-se ligeiramente mais relaxado, embora o coração
disparasse a cada vez que o telefone tocava.
Não sentia fome na hora do almoço e o sanduíche que Ginger trouxe
permaneceu intacto sobre a mesa. Kim preferiu dedicar-se inteiramente aos problemas
de seus pacientes. Dessa forma não tinha tempo de pensar nos seus.
No meio da tarde, Kim falava ao telefone com um cardiologista de Chicago
quando Ginger abriu a porta. Por seu semblante carregado, podia-se dizer que havia
algo errado. Kim tampou o fone com a palma da mão.
— Tracy estava na outra linha — disse Ginger. — Estava muito nervosa. Disse


que Becky teve uma recaída súbita e foi levada para a UTI.
O pulso de Kim disparou. Rapidamente, encerrou a conversa com o colega de
Chicago e desligou. Vestiu o paletó, pegou as chaves do carro e correu para a porta.
— O que devo fazer com o resto dos pacientes? — perguntou Ginger
— Mande-os para casa — disse ele, secamente.
Kim dirigiu com determinação, freqüentemente cortando pelo acostamento para
evitar o congestionamento da tarde. Quanto mais se aproximava do hospital, mais
angustiado ficava. Apesar de sua insistência em removê-la para a UTI, estava apavorado
agora que ela tinha sido transferida. Conhecendo bem a política de corte de despesas do
AmeriCare, estava certo de que a transferência não teria motivos profiláticos; algo
extremamente grave devia ter acontecido.
Esquivando-se do estacionamento privativo dos médicos, Kim subiu diretamente
pela rampa da plataforma de desembarque. Saltou do carro e jogou as chaves para um
espantado guarda de segurança.
Kim não conseguia contro1ar o nervosismo durante a lenta subida do elevador
até o andar da UTI. Uma vez no corredor apinhado de visitantes, moveu-se o mais
rápido que pôde. Chegando à sala de espera reservada especialmente para os familiares
dos pacientes internados na UTI, Kim divisou Tracy. Ela se levantou assim que o viu e
correu até ele.
Tracy enlaçou Kim pelo pescoço e apertou-o desesperadamente, sem querer
soltá-lo. Kim teve de fazer força para separar-se. Olhou bem nos olhos dela, inchados e
lacrimejantes.
— O que aconteceu? — perguntou. Tinha medo de ouvir a resposta.
— Ela piorou muito e aconteceu tão de repente como a perfuração.
— O que foi? — perguntou Kim, alarmado.
— Foi a respiração. De repente ela não conseguia mais respirar.
Kim fez menção de entrar, mas ela o agarrava pelo paletó.
— Kim, você tem de me prometer que vai se controlar. É preciso, pelo bem de
Becky! — implorou.
Kim soltou-se de Tracy e atravessou a sala correndo.
— Kim, espere! — gritou ela, e correu atrás dele.
Ignorando Tracy, Kim apressou-se pelo corredor e entrou na UTI.
Transtornado, Kim cruzou a porta da UTI. Parou por um instante e examinou a
sala. A maioria dos leitos estava ocupada. Eram todos pacientes em estado grave. Havia
enfermeiras ao lado de quase todos os leitos. Pilhas de equipamentos de monitoração
eletrônica faziam barulho e mostravam informações vitais.
A atividade era mais intensa num dos quartos menores que ficavam à direita. No
seu interior estava um grupo de médicos e enfermeiras cuidando de um caso agudo.
Kim dirigiu-se até lá e parou diante da porta. Podia ver um respirador e escutar seu
ritmo cíclico.
Judy Carlson, uma enfermeira que Kim conhecia, notou a presença dele. Ela o
chamou pelo nome e todos à volta do leito de Becky, silenciosamente, deram um passo
atrás para que Kim tivesse uma visão melhor. Becky tinha sido entubada. Um tubo
grosso saía de sua boca e estava preso ao rosto com esparadrapo. Ela respirava com o
auxílio do aparelho.
Kim correu até a beira da cama. Becky o fitou, aterrorizada. Tinha sido sedada,
mas estava ainda consciente. Seus braços tinham sido amarrados para evitar que
arrancasse o tubo endotraqueal.
Kim sentiu uma forte pressão no peito. Estava revisitando o sonho que tivera
durante a noite; só que ali era real.


— Está tudo bem, querida, papai está aqui — disse Kim, lutando para controlar
as emoções.
Queria desesperadamente encontrar algo para dizer que pudesse confortá-la.
Apertou seu braço. Ela tentou falar, mas não pôde por causa do tubo na garganta.
Kim olhou para as pessoas presentes à volta. Centralizou a atenção em Claire
Stevens.
— O que aconteceu? — perguntou, mantendo a voz serena.
— É melhor conversarmos lá fora — disse Claire.
Kim concordou com um aceno de cabeça. Apertou novamente a mão de Becky e
disse que estaria de volta num minuto. Becky tentou dizer alguma coisa, mas não
conseguiu.
Os médicos deixaram a sala e se reuniram num canto. Kim cruzou os braços para
disfarçar a tremedeira.
— Fale comigo! — exigiu Kim.
— Primeiro, deixe-me apresentá-lo aos outros — disse Claire. — É claro que
conhece Kathleen Morgan. Temos o Dr. Arthur Horowitz, nefrologista; o Dr. Walter
Ohanesian, hematologista; e o Dr. Kevin Blanchard, pneumologista.
Claire apontou uma pessoa de cada vez. Todos acenaram com a cabeça para
Kim, que acenou de volta.
— E então? — perguntou, impaciente.
— Em primeiro lugar, devo dizer que estamos definitivamente lidando com E.
coli 0,57:H7 — disse Claire. — Saberemos qual a variedade amanhã, quando sair o
resultado da eletroforese.
— Por que foi entubada?
— A toxemia comprometeu os pulmões. A gasometria arterial venosa despencou
subitamente.
— Também sofre de insuficiência renal — disse Arthur. — Demos início a uma
diálise peritoneal. — O especialista em rins era um homem totalmente calvo e de barba
densa.
— Por que não usar a máquina para diálise? — perguntou Kim. — Não é mais
eficaz?
— Não deve haver problema com a diálise peritoneal — disse Arthur.
— Mas ela acaba de sofrer uma cirurgia por causa da perfuração.
— Isso foi levado em consideração. O problema é que o AmeriCare só oferece
máquinas de diálise no Hospital Suburbano. Teríamos de transferir a paciente, o que não
é, absolutamente, recomendável.
— Outro sério problema é a diminuição crescente na contagem de plaquetas —
disse Walter. O especialista em sangue era um homem mais velho e grisalho, rondando
seus setenta anos. — Estão caindo vertiginosamente. Achamos que precisam ser
repostas, apesar dos riscos inerentes. Caso contrário, teremos nas mãos um quadro
hemorrágico irreversível.
— Ainda temos o problema hepático — disse Claire. — As enzimas do fígado
subiram extraordinariamente, sugerindo...
A mente de Kim já não suportava mais carga. Estava tão atordoado que não
conseguia absorver as informações que iam sendo apresentadas. Podia ver os médicos
falando, mas não os ouvia. O pesadelo repetia-se uma vez mais, com Becky debatendose no mar raivoso.
Meia hora depois, Kim deixou a UTI e foi para a sala de espera. Tracy
Levantou-se no instante em que o viu. Era um homem arrasado.
Por um momento entreolharam-se em silêncio. Agora foi a vez de Kim irromper


em lágrimas. Tracy segurou em seu ombro e entrelaçaram-se num abraço de medo e de
dor.

11
Sexta-feira, 23 de janeiro
Kim fez uma ligeira pausa para recuperar o fôlego. Deu uma olhada no relógio
pendurado na parede azulejada da sala de cirurgia. Eram quase duas horas da tarde.
Estava indo bem. Aquele era seu terceiro e último caso.
Kim examinou o fundo da incisão. O coração encontrava-se totalmente exposto.
Estava no processo de colocar o paciente em bypass cardiopulmonar. Assim que
concluísse, o coração poderia ser paralisado e aberto, para que fosse trocada a válvula
danificada.
O estágio seguinte era particularmente crítico: a introdução da cânula de infusão
arterial para aspergir as artérias coronárias. Através dessa cânula seria bombeada a
solução para a cardioplegia, que provocaria aparada do coração com seu alto nível de
potássio, reduzindo a temperatura e nutrindo-o durante a operação. A questão era
manter a pressão arterial sob controle.
— Bisturi — disse Kim.
A enfermeira entregou-lhe na palma da mão o bisturi com a lâmina apropriada.
Kim introduziu o afiado instrumento na cavidade torácica e posicionou-o no
sentido da aorta. A lâmina tremeu em sua mão; Kim pensou consigo mesmo se Tom
teria percebido.
Pez um minúsculo corte na aorta e em seguida cobriu a incisão com a ponta do
indicador esquerdo. Foi um movimento rápido para que a perda de sangue fosse
mínima. Tom limpou o excesso.
— Cânula de infusão arterial— pediu Kim.
O instrumento foi colocado em sua mão. Introduziu-o na cavidade torácica e
posicionou-o próximo ao dedo, de forma a obstruir a incisão na aorta. Moveu a ponta
sob o dedo, pressionando-a para o interior da artéria pulsante. Por alguma estranha
razão, a cânula não penetrou na parede arterial. O sangue arterial começou a jorrar.
Excepcionalmente, Kim entrou em pânico. Com o sangue inundando o
ferimento, pressionou com demasiada força o instrumento e cortou a aorta, aumentando
a abertura. Agora o corte era grande demais para encaixar na extremidade bulbosa da
cânula. O sangue espirrou com força suficiente para salpicar a máscara de proteção
facial de Kim.
Kim, agora, estava diante de uma emergência cirúrgica. Em vez de se deixar
tomar pelo pânico, sua experiência falou mais alto. Recuperando rapidamente a
compostura, levou a mão esquerda ate a incisão. Às cegas, seu dedo encontrou o buraco
no vaso pulsante e ele o apertou, interrompendo parcialmente o sangramento. Tom
rapidamente drenou sangue suficiente para dar a Kim uma visão parcial.
— Sutura! — vociferou Kim.
A agulha com um fio de seda negra foi colocada em sua mão. Habilmente,
atravessou com a agulha a parede arterial. Fez isso algumas vezes e quando puxou a
sutura o buraco se fechou.
Contida a hemorragia, Kim e Tom entreolharam-se por sobre o corpo do
paciente. Tom fez um sinal com a cabeça e Kim concordou. Para surpresa da equipe,


ambos dirigiram-se a um canto da sala. Mantiveram as mãos enluvadas e esterilizadas
pressionadas contra o peito coberto pelo gown esterilizado.
— Kim, deixe-me terminar essa última cirurgia — insinuo Tom em voz baixa.
Era uma sugestão apenas para os ouvidos de Kim. — É uma forma de retribuir o que fez
por mim há duas semanas, quando fiquei gripado. Lembra-se?
— Claro que lembro.
— Você está visivelmente exausto.
Era verdade: Kim estava morto de cansaço. Passara a maior parte da noite na
sala de espera da UTI com Tracy. Quando as condições de Becky pareceram
estabilizadas, Tracy conseguiu convencê-lo a tirar algumas horas de descanso num dos
quartos de plantão dos residentes. Foi ela também quem o persuadiu a não desistir das
cirurgias marcadas, argumentando que os pacientes precisavam dele. Ela insistiu que
seria melhor manter-se ocupado, já que não havia nada a fazer por Becky além de
esperar. Convenceu-o de que já estaria no hospital e, portanto, disponível em caso de
necessidade.
— Como conseguíamos agüentar tudo isso quando éramos residentes? —
lembrou-se Kim. — Não dormíamos nunca.
— As virtudes da juventude — disse Tom. — A questão é que não somos mais
jovens.
— E verdade — comentou, fazendo uma pausa. Entregar o caso a outra pessoa,
mesmo alguém tão qualificado como Tom, não era uma decisão fácil para ele. — Está
bem — disse, finalmente. — Você assume. Mas estarei de olho em você como um
falcão.
— Não poderia esperar outra coisa — sorriu Tom. Conhecia Kim bem o
suficiente para reconhecer seu senso de humor.
Os dois cirurgiões voltaram à mesa de operação. Dessa vez Tom se posicionou
do lado direito do paciente.
— Muito bem, pessoal — disse Tom. — Vamos introduzir a cânula. Bisturi, por
favor!
Com Tom na direção, a operação transcorreu tranqüilamente. Embora Kim
estivesse do lado esquerdo do paciente, foi ele quem colocou a válvula em posição e fez
as primeiras suturas. Tom cuidou do resto. Assim que o esterno foi fechado, Tom
sugeriu que Kim encerrasse seu dia de trabalho.
— Não se importa?
— Claro que não. Vá logo ver como está Becky.
— Obrigado — disse Kim, tirando o avental e as luvas.
No instante em que abria a espessa porta da sala de cirurgia, Tom o avisou:
— Não se preocupe que eu e Jane cuidaremos dos relatórios pós-operatórios. E
se precisar de alguma coisa, conte comigo.
— Eu agradeço — disse.
Kim deu uma passada rápida no vestiário e vestiu um jaleco comprido que
abotoou sobre a roupa que usava. Estava ansioso para chegar à UTI e não queria Perder
tempo trocando de roupa.
Kim visitara a unidade de tratamento intensivo antes e depois de cada cirurgia.
Becky mostrara um leve sinal de recuperação e já se cogitava até na possibilidade da
retirada do tubo respiratório. Kim não se deixou entusiasmar muito, sabendo que tinha
sido colocado fazia menos de vinte e quatro horas.
Antes da primeira cirurgia tivera tempo de ligar uma vez mais para George e
perguntou se ele tinha algum outro palpite para ajudar Becky. Infelizmente, não, exceto
em relação à plasmaférese, o que não recomendava.


Kim tinha lido sobre plasmaférese no caso da toxemia causada por E. coli
O,57:H7 durante a pesquisa que fizera na biblioteca durante a operação de Becky.
Consistia na reposição do plasma no paciente após ser centrifugado e as proteínas
plasmáticas depletadas. Infelizmente, era um tratamento controverso, considerado
experimental e com grande risco de transmissão do HIV, visto que o novo plasma era
proveniente de centenas de doadores diferentes.
A porta do elevador se abriu e Kim não gostou de descer com um alegre grupo
de funcionários que voltava para casa após o fim do turno da manhã. Sabia que era uma
atitude irracional de sua parte, mas não pôde deixar de se sentir incomodado pelo
animado bate-papo entre eles.
Saiu do elevador e seguiu pelo corredor. Quanto mais se aproximava da UTI,
mais nervoso ficava. Era quase como uma premonição.
Deu uma parada na entrada da sala de espera para ver se Tracy estava lá. Ela
havia pensado em ir para casa tomar um banho e trocar de roupa. Kim a viu sentada
numa cadeira próxima à janela. Quase no mesmo instante, ela percebeu sua chegada e se
pôs de pé. Lágrimas corriam por seu rosto.
— O que há de errado agora? — perguntou ele, resignado. — Alguma mudança?
Por um momento, Tracy não conseguiu dizer nada. A pergunta provocara-lhe
outra ânsia de choro que lutou para conter.
— Ela piorou — disse, finalmente. — A Dra. Stevens falou sobre uma reação
em cadeia que levaria a um colapso múltiplo dos órgãos vitais e outras coisas
incompreensíveis para mim, mas disse que deveríamos nos preparar. Acho que queria
dizer que Becky pode morrer!
— Becky não vai morrer! — gritou Kim com uma veemência que beirava a
fúria. — O que aconteceu para ela sugerir um absurdo desses?!!
— Becky sofreu um ataque — disse Tracy. — Eles acham que está cega.
Kim cerrou os olhos com força. A idéia de sua filha de dez anos sofrendo um
ataque era para ele uma imagem irreal. No entanto, tinha consciência de que sua
trajetória clínica era desastrosa, e que atingir um ponto irreversível não era surpresa.
Deixando Tracy na sala de espera, Kim entrou na UTI. Como na tarde do dia
anterior, um grupo de médicos estava espremido na sala de Becky. Kim entrou e
deparou-se com um novo rosto, Dr. Sidney Hampton, neurologista.
— Dr. Reggis — chamou Claire.
Kim ignorou a pediatra. Abriu caminho até a cama e observou a filha. Era uma
sombra esquálida de sua fisionomia habitual, presa a um emaranhado de fios e tubos,
cercada por aparelhos. Telas de cristal líquido e monitores transmitiam informações em
forma de leitura digital e cursores gráficos.
Os olhos de Becky estavam fechados. Sua pele estava azulada e translúcida.
— Becky, sou eu, o papai — sussurrou-lhe ao ouvido e observou seu rosto
gelado. Ela não deu sinal de ter escutado.
— Infelizmente, ela está insensível — disse Claire.
Kim endireitou-se. Sua respiração era curta e rápida.
— Acredita que teve um ataque?
— Tudo indica que sim — disse Sidney.
Kim teve de se conter para não botar a culpa no mensageiro.
— O problema principal é que a toxina parece estar destruindo as plaquetas no
mesmo instante em que entram na corrente sanguínea — disse Walter.
— É verdade — prosseguiu Sidney. — Não há meios de saber se foi uma
hemorragia intracraniana ou uma embolia provocada pelas plaquetas.
— Ou uma combinação das duas — sugeriu Walter.


— É uma possibilidade — admitiu Sidney.
— De uma forma ou de outra — acrescentou Walter — a rápida destruição das
plaquetas deve estar formando um lodo na micro circulação. Estamos diante daquele
quadro de colapso múltiplo dos órgãos vitais que detestamos ver.
.
— As funções renais e hepáticas estão definitivamente caindo. — disse Arthur.
— A diálise peritoneal não está surtindo efeito.
Kim teve de esforçar-se para conter a raiva diante daquela dialética. Certamente,
não estava sendo de nenhum benefício para sua filha. Procurou raciocinar e manter-se
calmo.
— Se a diálise peritoneal não funciona — disse Kim, controlando a voz —
talvez fosse melhor transferi-la para o Hospital Suburbano e colocá-la numa máquina de
diálise.
— Essa hipótese está fora de questão — disse Claire. — Seu estado é
demasiadamente crítico para ser transferida.
— Bem, parece-me que temos de fazer alguma coisa — disse Kim. Já não
conseguia manter tanta calma.
— Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance — disse Claire. —
Estamos conseguindo manter suas funções renais e respiratórias e repondo as plaquetas.
— E quanto à plasmaférese? — perguntou Kim.
Claire olhou para Walter.
— O AmeriCare não autoriza — disse Walter.
— Foda-se o AmeriCare — estourou Kim. — Se houver algo que ajude, será
feito.
— Espere um pouco, Dr. Reggis — disse Walter. O homem de cabelos grisalhos
deu um passo à frente. Sentia-se obviamente constrangido em ter de tocar naquele
assunto. — O AmeriCare é proprietário deste hospital. Não podemos simplesmente
erguer o nariz diante de suas diretrizes. Plasmaférese é demasiadamente caro e
experimental. Para os leigos, não tenho sequer permissão de mencionar esse nome.
— O que é preciso para se conseguir uma autorização? Eu pago do meu bolso,
se for o caso.
— Vou ter de ligar para o Dr. Norman Shapiro — disse Walter. — É o
presidente do conselho administrativo do AmeriCare.
— Ligue logo de uma vez! — rosnou Kim. — Imediatamente!
Walter olhou para Claire. Ela sacudiu os ombros.
— Suponho que uma ligação não fará mal — disse ela.
— Por mim, tudo bem — disse Walter, deixando a sala para usar o telefone.
— Dr. Reggis, plasmaférese é como um tiro no escuro — disse Claire. — Creio
que seria correto de minha parte avisá-lo e à sua ex-esposa de que devem estar
preparados para qualquer eventualidade.
O rosto de Kim enrubesceu. Não estava com a menor disposição de "prepararse" como Claire eufemisticamente sugerira. Ao contrário, desejava investir contra os
responsáveis pela situação lastimável de Becky e naquele momento os alvos mais
próximos eram os médicos dentro daquela sala.
— O senhor me entende, não? — disse Claire, procurando ser amável.
Kim não respondeu. Num instante de lucidez, reconheceu o absurdo que era
responsabilizar os médicos pela tragédia de Becky, principalmente sabendo de quem era
a culpa.
Sem nada dizer, Kim virou as costas para Claire e deixou a UTI. Carregava com
ele toda sua raiva, frustração e uma humilhante sensação de impotência. Atravessou o
corredor com passo firme.


Tracy ainda se encontrava na sala de espera e percebeu imediatamente que ele
estava transtornado. Quando passou direto sem lhe dirigir sequer um olhar, ela se
levantou e correu atrás dele. Tinha medo do que poderia fazer.
— Kim, pare! Aonde vai? — Ela o puxou pela manga.
— Dar uma saída — disse, soltando-se dela.
— Aonde?
Tracy precisava correr para acompanhar seu passo decidido. Teve medo quando
olhou em seu rosto. Por um instante ela esqueceu-se da própria dor.
— Tenho de fazer algo — disse ele. — Não posso simplesmente ficar sentado
aqui de braços cruzados. Nesse exato momento não posso ajudar Becky, mas, por Deus,
vou descobrir como ela ficou doente.
— Como irá fazer isso? Kim, você precisa se acalmar.
— Kathleen me disse que o problema do E. coli é geralmente provocado por
carne moída.
— Todo mundo sabe disso.
— Acho que só eu não sabia. E lembra-se quando lhe disse na semana passada
que tinha levado Becky ao Onion Ring da Prairie Highway? Ela comeu um hambúrguer
que estava malpassado. Só pode ter sido lá que ela pegou a doença!
— Está me dizendo que vai agora para aquele Onion Ring? — perguntou Tracy,
incrédula.
— Isso mesmo. Se foi lá que Becky ficou doente, é para lá que eu vou
— Neste momento, não importa onde Becky ficou doente. O fato é que ela está
doente. Podemos nos preocupar sobre como ou por que noutra hora.
— Pode não ser importante para você. Mas é para mim.
— Kim, você está fora de controle. — Tracy implorou, desesperada. — Só uma
vez, não pode pensar em outra pessoa além de você?
— Que diabos está querendo dizer? — retrucou Kim, cada vez mais furioso.
— É uma coisa sua, não de Becky. Só tem a ver com você e esse seu ego de
médico.
— Pro inferno com essa baboseira — grunhiu Kim. — Não estou com a menor
disposição para ouvir esse seu lixo psicológico. Agora não!
— Não está ajudando ninguém descarregando desse jeito. É uma ameaça até
para você mesmo. Se tem mesmo de ir, espere ao menos um pouco até se acalmar.
— Estou indo na esperança que isso me acalme. E quem sabe até me
proporcione um mínimo de satisfação.
O elevador chegou, e Kim entrou.
— Você sequer tirou o jaleco — disse Tracy, ainda esperançosa de retardar sua
saída, para seu próprio benefício.
— Eu vou, e é agora — disse ele. — E ninguém vai conseguir me impedir.
Na velocidade em que chegou ao estacionamento do Onion Ring, Kim não
conseguiu evitar que uma roda subisse no meio-fio. Sentiu um baque surdo, e o carro
saiu de traseira. Sem dar a menor importância, estacionou na primeira vaga que
encontrou.
Depois de puxar o freio de mão e desligar a ignição, Kim ficou por alguns
minutos dentro do carro observando a lanchonete pelo pára-brisa. Estava tão cheia como
na semana anterior.
A viagem de carro tinha acalmado um pouco a sua raiva, mas não a
determinação. Pensou no que teria de fazer depois de entrar e só então desceu do carro.
No interior, encontrou as filas para os caixas chegando quase até a porta. Sem a menor


disposição para esperar, foi abrindo caminho, alheio às reclamações de alguns
fregueses. Chegando ao balcão, Kim atraiu a atenção de uma das caixas, em cuja
etiqueta de identificação lia-se: OI, SOU DEBBIE. Era uma adolescente de olhar
indefinível, cabelos oxigenados e com acne no rosto. Seus traços faciais pareciam
petrificados numa expressão de absoluto tédio.
— Com licença — disse Kim, esforçando-se para manter a calma, embora seu
estado de nervos fosse evidente. — Gostaria de fa1ar com o gerente.
— O senhor tem de esperar na fila para fazer o pedido — respondeu Debbie. Ela
lançou um olhar de esguelha para Kim, mas mostrou-se inteiramente insensível ao seu
estado alterado.
— Não quero pedir nada — disse Kim, pausada e vagarosamente. — Quero falar
com o gerente.
— Ele está muito ocupado agora — disse Debbie. Ela voltou a atenção
novamente para a primeira pessoa da fila e pediu que repetisse o pedido.
Kim bateu com a palma da mão sobre o balcão com toda a força que pôde,
derrubando diversos porta-guardanapos no chão. O som foi como o de um tiro de
revólver. No mesmo instante todo o local caiu em profundo silêncio, como uma imagem
congelada de cinema. O rosto de Debbie ficou branco como a neve.
— Não quero ser obrigado a perguntar mais uma vez — disse Kim. — Quero o
gerente aqui!
Um homem aproximou-se, vindo por trás da fileira de caixas registradoras.
Usava o uniforme de duas cores do Onion Ring. Em sua etiqueta de identificação estava
escrito: OI, EU SOU ROGER.
— Eu sou o gerente — disse, crispando o pescoço num cacoete nervoso. — Qual
o problema?
— É minha filha — disse Kim. — Acontece que está em coma nesse momento,
entre a vida e a morte, depois de ter comido um hambúrguer aqui na semana passada.
A voz de Kim ressoou por todo o restaurante. Os fregueses que comiam seus
hambúrgueres olharam para os seus sanduíches, apreensivos.
— Sinto muito ouvir isso sobre sua filha — disse Roger. — Mas é totalmente
impossível que ela tenha ficado doente aqui, muito menos por causa de nossos
hambúrgueres.
— Esse foi o único lugar onde ela comeu carne moída. E está infectada por E.
coli, que é transmitido pelo hambúrguer.
— Eu realmente sinto muito — disse Roger energicamente. — Mas nossos
hambúrgueres são todos feitos bem passados e seguimos regras rígidas de higiene.
Somos inspecionados regularmente pelo Departamento de Saúde.
Da mesma forma abrupta como silenciou, o restaurante retomou o alto nível de
decibéis. As conversas recomeçaram, como se ninguém tivesse nada a ver com o
problema de Kim.
— O hambúrguer dela não estava bem cozido — disse Kim. — Era malpassado.
— Impossível — retrucou Roger, revolvendo os olhos.
— Eu mesmo vi. Estava rosado no meio. O que gostaria de saber...
— Não poderia estar rosado — interrompeu Roger, abanando as mãos. — Isso é
totalmente fora de questão. Agora, se me der licença, preciso voltar ao trabalho.
Roger começou a se virar, mas Kim o puxou pela gola da camisa violentamente,
empurrou o assustado gerente sobre o balcão e ficou com o rosto a poucos centímetros
do dele. As faces de Roger foram ficando vermelhas. Kim apertava com tanta força que
estava bloqueando o fluxo sanguíneo no pescoço dele.
— Um mínimo de remorso seria mais conveniente — grunhiu Kim. — Esteja


certo de que não vou aceitar essa sua indiferença.
Roger soltou um gemido esganiçado enquanto lutava inutilmente para livrar o
pescoço dos dedos crispados de Kim.
Bruscamente, Kim o puxou e o atirou ao chão. As caixas, os funcionários da
cozinha e as pessoas que estavam nas filas emudeceram e ficaram olhando, imóveis com
o choque.
Kim contornou o balcão, na intenção de falar diretamente com o cozinheiro.
Roger ergueu-se cambaleante e, vendo Kim dirigindo-se para a cozinha, tentou
ainda confrontá-lo.
— Você não pode entrar aí — disse, em tom de animosidade. — Somente os
empregados têm permissão...
Kim não lhe deu tempo de terminar. Simplesmente afastou-o com um safanão
que o atirou outra vez sobre o balcão. Roger colidiu contra uma máquina de suco, que se
espatifou sobre o piso de cerâmica. O líquido esparramou-se pelo chão. Os que estavam
próximos pularam para trás. O silêncio fez-se novamente presente. Alguns fregueses
levantaram-se afobados, levando sua comida com eles.
— Chame a polícia! — grunhiu Roger para a caixa mais próxima enquanto
tentava estabanadamente pôr-se de pé.
Kim prosseguiu decidido por trás dos caixas para confrontar-se com o mirrado
Paul. Observou por um instante aquele rosto enrugado e a tatuagem no braço e se
perguntou se aquele homem teria capacidade de cuidar da própria higiene pessoal.
Como todos na cozinha, Paul permanecia estático desde o momento em que Kim
esmurrara o balcão. Alguns hambúrgueres a chapa à sua frente já começavam a
queimar.
— Minha filha comeu um hambúrguer malpassado há uma semana mais ou
menos, nessa mesma hora. Quero saber como isso pode ter acontecido.
Roger apareceu por trás de Kim e bateu em seu ombro.
— O senhor vai ter de sair — disse.
Kim deu meia-volta. Já não agüentava mais aquele gerente irritante.
Sabiamente, Roger recuou alguns passos, de mãos erguidas.
— Está bem, está bem — murmurou.
Kim virou-se novamente para Paul.
— Alguma idéia? — perguntou.
— Não — disse Paul. Já tinha visto pessoas enlouquecerem em plataformas de
petróleo e a expressão nos olhos de Kim o lembrou daqueles homens.
— Vamos — rosnou Kim. — Você deve ter sido o cozinheiro. Tem de ter
alguma idéia.
— Como Roger disse — reafirmou Paul — não poderia ser malpassado. Faço
todos os hambúrgueres bem passados. É norma da casa.
— Vocês estão realmente começando a me dar nos nervos. Estou dizendo que
estava malpassado. Eu vi com meus próprios olhos.
— Mas eu marco o tempo — disse Paul. Apontou com a espátula para os
hambúrgueres fumegantes na chapa.
Kim pegou um dos hambúrgueres já prontos que Paul deixou sobre uma
prateleira para que fossem entregues nas bandejas. Partiu-o ao meio e examinou seu
interior. Estava bem passado. Repetiu a operação umas quatro vezes, jogando os
hambúrgueres partidos de volta aos pratos.
— Está vendo? — disse Roger. — Estão todos bem passados. Agora, se
concordar em sair da cozinha, poderemos discutir este assunto com mais calma.
— A temperatura interna de nossos hambúrgueres é mais do que a exigida pelo


FDA — disse Paul.
— Como pode ficar sabendo a temperatura interna? — perguntou Kim
— Fazemos a medição com um termômetro especial — disse Roger. — Tiramos
a temperatura ao acaso diversas vezes por dia, e é sempre a mesma: superior a setenta e
cinco graus.
Paul largou a espátula e procurou numa gaveta por sob a chapa. Pegou o
instrumento e o ofereceu a Kim. Kim ignorou o termômetro. Pegou outro hambúrguer e
partiu-o novamente ao meio. Também estava bem passado.
— Onde guardam os hambúrgueres antes de fritá-los?
Paul virou-se para trás e abriu o refrigerador. Kim esticou o pescoço e deu uma
olhada no interior. Sabia que só estava vendo uma pequena amostra da carne que o
Onion Ring precisava ter à mão.
— Onde fica o estoque? — perguntou Kim.
— No freezer da cozinha — disse Paul.
— Mostre-me! — ordenou Kim.
Paul olhou para Roger.
— De jeito nenhum! — disse Roger. — O freezer está fora de cogitação.
Com as mãos espalmadas, Kim deu um empurrão no peito de Roger, que o
arremessou para o fundo da cozinha. Paul deu um passo para trás. Em seguida, girou
nos calcanhares e começou a andar. Kim foi atrás dele.
— Você não vai — ia dizendo Roger. Ele alcançara Kim e o puxava pelo braço.
— Somente os empregados podem entrar no freezer.
Kim tentou se livrar de Roger agarrado em seu braço, mas ele não o soltava.
Irritado, Kim reagiu, acertando uma cotovelada no rosto do gerente com mais força do
que previra. A cabeça de Roger sacudiu violentamente ante o impacto e ele desabou
novamente no chão, com o lábio superior aberto.
Sem se importar com o gerente nocauteado, Kim acompanhou Paul, que tinha
aberto a porta do freezer, e entrou.
Receoso com o tamanho e a determinação de Kim, Paul preferiu manter-se a
uma distância cautelosa dele. Deu uma olhada em seu gerente, agora sentado no
capacho de borracha da cozinha com os dedos sobre o lábio ensangüentado. Sem saber
o que fazer, decidiu entrar no freezer com Kim.
Kim observou as caixas enfileiradas à esquerda da câmara. Somente a primeira
estava aberta. No rótulo estava escrito: MERCER MEATS. REG. 0.I. CARNE
MAGRA, HAMBÚRGUER LOTE 2 REM. 1-5. PRODUZIDO: DEZ./29 VÁLIDO
ATÉ: MAR./29.
— Os hambúrgueres da sexta-feira passada saíram dessa caixa? — perguntou
Kim.
Paul sacudiu os ombros.
— Possivelmente, ou de outro igual.
Kim foi até o fundo do freezer e notou outra caixa aberta e junto às lacradas.
Abriu-a e olhou dentro dela. Verificou que uma das embalagens em seu interior também
estava rasgada.
— Por que essa caixa está aberta? — perguntou.
— Foi um erro que ocorreu — disse Paul. — Costumamos usar os hambúrgueres
mais antigos para não precisarmos nos preocupar com a data de validade.
Kim verificou o rótulo. Era semelhante ao anterior, exceto pela data de
produção. Nesta se lia JAN./12 em vez de DEZ./29.
— Saiu algum bife dessa caixa na sexta-feira? — perguntou.
— É possível — respondeu Paul. — Não me lembro do dia em que foi aberta.


Kim pegou uma caneta e um pedaço de papel de dentro da jaqueta branca e
escreveu os dados das duas caixas. Em seguida retirou uma amostra de cada e as enfiou
no bolso. Não foi uma tarefa fácil porque os hambúrgueres estavam congelados e
grudados em pilhas, separados por folhas de papel-manteiga.
Ao sair do freezer, Kim escutou vagamente o som abafado de uma sirene, mas
não deu importância.
— O que é Mercer Meats? — perguntou.
Paul fechou a porta do freezer.
— É a companhia de processamento de carne que nos abastece com
hambúrgueres. De fato, abastecem toda a cadeia de lanchonetes Onion Ring.
— Fica na região?
— Oh, sim. Logo na saída da cidade, em Bartonville.
— Isso é bom.
Ao voltar da cozinha, a porta do restaurante escancarou-se, e dois oficiais de
polícia uniformizados entraram com as mãos nos revólveres enfiados nos coldres. Roger
os acompanhava, gesticulando furiosamente e apontando para Kim com a mão direita,
enquanto a esquerda cobria a boca com um guardanapo ensangüentado.

12
Sábado, 24 de janeiro
Os raios do sol matinal atravessavam o ar repleto de poeira da sala do tribunal
projetando uma faixa iluminada sobre o chão. Kim estava bem na luz. Encontrava-se de
pé, os olhos semicerrados pelo clarão, à frente do juiz Harlowe em sua toga preta de
magistrado, equilibrando precariamente um par de óculos de leitura sobre o nariz. Para
Kim, parecia-se com um enorme pássaro preto.
— Com meus quase trinta anos de experiência — disse o juiz Harlowe fitando
Kim por cima dos óculos — não deveria mais me surpreender com o que vejo e ouço.
Mas esse é um caso bem estranho.
— Isso tudo aconteceu devido às condições de minha filha — disse Kim.
Ainda vestia o paletó branco por cima do jaleco e conservava a máscara
cirúrgica amarrada ao pescoço. O paletó, porém, estava sujo e amarrotado, depois de
uma noite atrás das grades. Sob o bolso esquerdo havia uma mancha marrom-escura.
— Dr. Reggis, o senhor tem toda a minha solidariedade e o pesar pelo infortúnio
de sua filha estar tão gravemente doente — disse o juiz Harlowe. — O que não entendo
bem é por que não está no hospital ao seu lado.
— Eu deveria — disse Kim. — Mas seu estado atingiu um ponto em que nada
posso fazer. Além disso, só pretendia ficar fora por uma ou duas horas.
— Bem, não estou aqui para fazer um julgamento das conveniências. Minha
função é a de enquadrá-lo sob os delitos de invasão, agressão ao gerente de um
restaurante e, o pior, resistência à prisão e agressão a um oficial de polícia. Doutor, esse
comportamento é inaceitável, não importam as circunstâncias.
— Mas, meritíssimo, eu... — começou Kim.
O juiz Harlowe ergueu uma das mãos para que ele se calasse.
— Não interessa que suspeite da possibilidade de sua filha ter contraído a
doença no Onion Ring da Prairie Highway. O senhor, mais que ninguém, deve saber
que temos um departamento de saúde que tem por objetivo cuidar desse tipo de


problema, e também temos tribunais. Estou sendo claro?
— Sim, meritíssimo — disse Kim, resignado.
— Espero que procure algum tipo de ajuda, doutor. Estou absolutamente
abismado com suas atitudes, sabendo que é um renomado cirurgião cardíaco. Na
verdade, o senhor operou meu sogro e ele até hoje o admira como a um deus. De
qualquer modo, vou liberá-lo sob fiança. Deverá retornar à corte dentro de quatro
semanas.
O juiz Harlowe bateu com o martelo sobre a mesa e chamou o caso seguinte.
Na saída do tribunal, Kim avistou um telefone público. Teve dúvida se ligava ou
não para o hospital. A noite tinha tentado falar com Tracy com as ligações que tinha
sido autorizado a fazer. Agora, com um telefone disponível, ele tremeu. Sentia-se
culpado por ter passado tanto tempo fora e também constrangido pelo que ocorrera.
Tinha medo também das notícias que poderia receber de Becky. Preferiu ir direto em
vez de telefonar.
Kim foi de táxi do tribunal até o Onion Ring. O restaurante deserto tinha um
aspecto completamente diferente pela manhã. O velho Mercedes de Kim era o único
carro parado no estacionamento e não se via viva alma ao redor.
Kim deu a partida e tomou o rumo do hospital. No caminho, deu uma parada no
Laboratório Sherring.
Lá dentro, dirigiu-se ao balcão de atendimento e tocou uma sineta de ferro. Uma
mulher apareceu em segundos. Usava um avental de laboratório.
Kim retirou os dois hambúrgueres descongelados que trazia no bolso esquerdo
do casaco e os entregou à mulher.
— Gostaria de confirmar a presença ou não de E. coli 0,57:H7 nesses
hambúrgueres— disse. — E também o tipo de toxina.
A laboratorista observou atentamente a carne desbotada.
— Acho que teria sido melhor se o senhor trouxesse as amostras congeladas —
disse ela. — Se a carne fica exposta à temperatura ambiente por mais de duas horas,
desenvolve grande número de bactérias.
— Eu sei. Mas não me interessam as outras bactérias. Só quero saber se o E. coli
O,57:H7 está presente.
A mulher desapareceu por alguns momentos e voltou usando luvas de borracha.
Pegou a carne e colocou cada amostra num recipiente diferente. Em seguida, tratou dos
detalhes do pagamento. Kim utilizou sua conta do consultório.
— Quanto tempo leva?
— Teremos o resultado final em quarenta e oito horas.
Kim agradeceu, foi ao toalete lavar as mãos e voltou para o carro.
À medida que se aproximava do hospital, sua ansiedade aumentava. Começou a
tremer assim que estacionou o carro; os tremores intensificaram-se durante a subida no
elevador. Achou melhor encontrar Tracy depois de ver Becky, por isso usou uma
passagem pelos fundos da UTI para evitar a sala de espera. As pessoas que andavam
pelo corredor olhavam-no curiosas. Kim podia compreendê-las, considerando sua
aparência. Além da roupa imunda, precisava de um banho, fazer a barba e pentear-se.
Dentro da UTI, Kim acenou com a cabeça para o enfermeiro de plantão, mas não
deu qualquer explicação. Aproximando-se da sala de Becky viu-se fazendo um pacto
com Deus. Se Becky escapasse.
Kim chegou até a beirada do leito. Uma enfermeira estava trocando a garrafa de
soro, de costas para ele. Kim observou sua filha. A pequena esperança que tinha de
algum sinal de melhora diluiu-se por completo. Becky ainda se encontrava obviamente
em coma. As pálpebras estavam fechadas com esparadrapo e permanecia entubada e


respirando com a ajuda do aparelho. A novidade eram umas manchas grandes e
arroxeadas no rosto, resultado de hemorragia subcutânea, dando-lhe um aspecto
cadavérico.
— Ai, santo Deus! O senhor me assustou — disse a enfermeira, levando a mão
ao peito ao reparar em Kim. — Não o ouvi entrar.
— Ela não parece bem — disse Kim, procurando manter a voz serena numa
tentativa de esconder a dor, o ódio e a humilhante impotência de que se sentia vítima.
— Receio que não — disse a enfermeira, fitando Kim com certa apreensão. — A
pobrezinha está passando por momentos terríveis.
O ouvido treinado de Kim desviou-lhe a atenção para a tela do monitor cardíaco.
O sinal sonoro era irregular, assim como as oscilações do cursor.
— Ela tem uma arritmia! Quando começou?
— É relativamente recente. Começou na noite passada. Ela sofreu uma efusão
cardíaca que rapidamente desencadeou sintomas de tamponamento. Foi necessário
drená-la.
— Quando? — perguntou Kim. Agora, sentia-se ainda mais culpado por não ter
estado disponível. Efusão cardíaca era algo que conhecia.
— Logo depois das quatro da manhã.
— Algum dos médicos ainda está por aqui?
— Acredito que sim. Acho que estão conversando com a mãe da paciente na sala
de espera.
Kim saiu da sala. Não podia suportar ver sua filha ali naquele estado. Parou no
corredor para recuperar o fôlego e tentar se recompor. Só então entrou na sala de espera.
Encontrou Tracy conversando com Claire Stevens e Kathleen Morgan. Assim que
notaram sua presença, pararam a conversa.
Durante alguns instantes ficaram todos em silêncio.
Tracy encontrava-se visivelmente perturbada. Tinha os lábios trincados, os
joelhos grudados um ao outro e as mãos entrelaçadas. Fitou Kim com a expressão triste,
confusa, refletindo preocupação e desgraça. Ao vê-lo, sacudiu a cabeça.
— Ainda está vestindo as mesmas roupas. Você está imundo. Por onde andou,
afinal?
— Minha visita ao Onion Ring demorou mais que o previsto. — Ele olhou para
Claire. — Então Becky agora desenvolveu pericardite — disse.
— Receio que sim — admitiu Claire.
— Meu Deus! — exclamou Kim. — O que virá agora?
— Nesse estágio, tudo pode acontecer — disse Kathleen. — Foi confirmado que
esta é uma forma anômala particularmente patogênica de E. coli que produz não uma
mas duas toxinas extraordinariamente potentes. Estamos diante de um caso de SUH em
plena atividade.
— E quanto à plasmaférese? — perguntou Kim.
— O Dr. Ohanesian fez um apelo dramático ao diretor do departamento
administrativo do AmeriCare — respondeu Claire. — Mas, como já o advertimos, o
comitê provavelmente não dará o aval.
— Por que não? — perguntou Kim. — Precisamos fazer alguma coisa e já disse
que estou disposto a pagar o que for necessário.
— Não é a sua disposição de pagar que conta — disse Claire. — Pela
perspectiva deles, estariam abrindo um sério precedente. Poderiam depois ser forçados a
realizá-la com famílias sem condições de pagar.
— Então vamos levar Becky para algum lugar onde seja possível — reclamou
Kim.


— Dr. Reggis — disse Claire, simpática — o estado de Becky hoje é pior que o
de ontem e ontem ela já não tinha condições de ser transferida. Mas a possibilidade de
uma plasmaférese não foi inteiramente descartada. Existe ainda uma esperança de que
eles dêem o sinal verde. Só temos de esperar.
— Esperar sem fazer nada — disse Kim, carrancudo.
— Isso não é verdade — respondeu Claire asperamente. Procurou conter-se e
suspirou; conversar com Kim era uma tarefa que detestava. — Estamos fazendo tudo o
que está ao nosso alcance.
— O que significa ficar sentada de braços cruzados e cuidar das complicações
— retrucou Kim.
Claire levantou-se e lançou um olhar para Tracy e Kathleen.
— Acho que está na hora de ver meus outros pacientes. Estarei disponível em
caso de necessidade. Basta que mandem me chamar.
Tracy concordou com a cabeça. E Kathleen disse que faria o mesmo em alguns
minutos. Claire afastou-se.
Kim desabou sobre a poltrona desocupada por Claire e afundou a cabeça entre as
mãos. Lutava contra um redemoinho de emoções que alternava ódio e tristeza. Naquele
instante, era a tristeza que predominava. Fez força para conter as lágrimas. Sabia que
tinha de ver seus pacientes, mas no momento isso era impossível.
— Por que demorou tanto para voltar do Onion Ring? — perguntou Tracy.
Apesar de sua irritação crescente com as atitudes de Kim, não podia deixar de
preocupar-se com ele. Sua aparência era de dar pena.
— Na verdade, fui parar na cadeia — admitiu Kim.
— Cadeia!
— Se você quer que eu admita, eu admito: você estava certa. Devia ter me
acalmado antes de ir.
— Por que foi preso?
— Perdi o controle. Fui até lá tentar descobrir se havia a possibilidade de
encontrar alimento contaminado. A má-vontade do gerente me fez perder a cabeça.
— Não creio que a culpa seja das lanchonetes — sugeriu Tracy. — Com esse
problema do E. coli elas são tão vítimas quanto os fregueses infectados. Os
hambúrgueres já chegam contaminados.
— Concordo com você — disse Kim, ainda com a cabeça entre as mãos. — Meu
próximo passo será a Mercer Meats.
— Com Becky nessas condições fica difícil para mim raciocinar. Mas como
poderia haver carne contaminada num lugar desses? Esses locais não são continuamente
inspecionados? O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos não faz um controle
de qualidade?
— Eles fazem — disse Kathleen. — Mas, nos dias de hoje, não se pode
descartar a possibilidade de contaminação.
— Mas como? — perguntou Tracy.
— Por uma série de motivos — disse Kathleen — dos quais o mais sério é o
conflito de interesses dentro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Kim ergueu a cabeça e olhou para Kathleen.
— Como assim?
— É por causa da estrutura do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
— explicou Kathleen. — De um lado, a agência serve como defensoria oficial da
agropecuária americana, que inclui a poderosa indústria da carne. Essa é, na verdade, a
tarefa principal do Departamento de Agricultura. De outro lado, existe a fiscalização.
Obviamente, as duas coisas não combinam. É como pedir à raposa que tome conta do


galinheiro.
— Isso é inacreditável — disse Kim. — Tem mesmo certeza disso ou é apenas
algo de que ouviu falar?
— Eu confirmei pessoalmente — prosseguiu Kathleen. — Passei mais de um
ano pesquisando sobre o problema da intoxicação alimentar. Juntei-me a dois grupos de
consumidores que travam uma árdua batalha para que providências sejam tomadas a
esse respeito.
— Como se envolveu? — perguntou Tracy.
— Teria sido difícil não me envolver. Contaminação alimentar r as doenças a ela
associadas são minha especialidade. As pessoas em geral parecem querer ignorar a
situação, mas é um problema que vem se alastrando dia-a-dia.
— Isso é inacreditável! — exclamou Kim, substituindo outra vez a raiva pela
tristeza.
— Ainda há outra coisa — prosseguiu Kathleen. — Além do conflito de
interesses, o que pude deduzir é que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
e a indústria da carne são muito próximas.
— O que está insinuando? — perguntou Kim.
— Exatamente isso que disse — prosseguiu Kathleen. — Particularmente nos
cargos de gerência intermediários existe uma espécie de rotatividade para garantir a
mínima interferência na indústria.
— Visando somente o lucro, sem dúvida — disse Kim.
— Com toda a certeza — concordou Kathleen. — A indústria da carne é um
negócio multibilionário que procura maximizar os lucros e não o bem-estar público.
— Espere um instante — disse Tracy. — Como isso pode ser verdade? No
passado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos já mostrou eficiência. Por
exemplo, não faz muito tempo, com a Hudson Foods...
— Com licença — interrompeu Kathleen. — O responsável pela descoberta da
contaminação de E. coli no Hudson não foi o Departamento de Agricultura e sim um
atento agente da saúde pública. O que ocorre normalmente é que o Departamento de
Agricultura é obrigado a mostrar serviço depois que acontece um acidente. Usam a
mídia para dar a impressão de que estão preocupados em proteger o público, mas
infelizmente nada de substancial é efetivamente realizado. Ironicamente, o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos não tem sequer a autoridade para
recolher a carne contaminada que encontra. Só pode fazer uma recomendação. Nada do
que determina é obrigatório.
— Como no caso da Hudson Foods? — perguntou Tracy. — A princípio,
recomendaram que fossem recolhidas apenas dez toneladas de carne.
— Exatamente — disse Kathleen. — Foram as associações de consumidores que
forçaram o Departamento de Agricultura a elevar para mais de quinhentas mil toneladas
a quantidade de carne recolhida. Isso não foi instigado pelo Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos.
— Não fazia a mínima idéia disso — disse Tracy. — E posso dizer que sou uma
pessoa razoavelmente bem-informada.
— Talvez a pior parte — continuou Kathleen — seja quando o Departamento de
Agricultura fala sobre contaminação e de seus serviços de inspeção, pois estão
geralmente se referindo à contaminação, a grosso modo, com fezes visíveis. A indústria
luta contra a inspeção microscópica ou bacteriológica há anos. Eles dizem que
atualmente fazem culturas, mas a porcentagem das amostras analisadas é insignificante.
— É difícil de acreditar — disse Tracy. — Sempre acreditei que comer carne era
seguro.


— É uma situação vergonhosa — disse Kathleen. — E de conseqüências
trágicas.
Por alguns momentos, ninguém disse uma palavra.
— E como a gente sabe disso!!! — disse Tracy, como se subitamente se desse
conta de que aquela não era uma conversa fútil. Sua filha não era uma abstração. Uma
lágrima desceu-lhe pelo rosto.
— Bem, isso explica tudo — disse Kim, levantando-se abruptamente.
— Explica o quê? — perguntou Tracy. — Para onde vai agora?
— Bartonville. Vou fazer uma visita à Mercer Meats.
— Acho que deveria ficar aqui — disse Tracy, angustiada. — sabe melhor do
que eu que o estado de Becky é grave. A Dra. Stevens e a Dra. Morgan já me disseram
que algumas decisões difíceis deverão ser tomadas.
— É claro que sei que o estado de Becky é grave. Por isso tenho tanta
dificuldade em ficar aqui sentado de braços cruzados. Está me deixando louco. Até
olhar para ela é difícil, sabendo que não há nada que eu possa fazer clinicamente. Ainda
por cima, escutar tudo isso sobre a indústria da carne e o Departamento de Agricultura
dos Estados Unidos me deixa ainda mais furioso. Disse que queria descobrir como ela
ficou doente. Vou seguir a pista desse E. coli não importa aonde me leve; ao menos isso
eu posso fazer por Becky.
— E se precisarmos de você? — perguntou Tracy.
— Meu celular está no carro. Pode me ligar. De qualquer forma, não devo me
demorar muito.
— Sei, assim como ontem.
— Aprendi a lição. Não vou perder a cabeça.
Tracy não pareceu convencida.
— Então, vá, se precisa tanto — disse, irritada.
Kim não pensou duas vezes. Não era só a implacável enfermidade de Becky que
lhe causava tanto peso, mas também a hostilidade de Tracy. No dia anterior tinha dito a
ele que compreendia suas frustrações. Agora, era como se tivesse esquecido tudo o que
havia dito.
Na auto-estrada, Kim usou o celular para contatar Tom. Tentou localizá-lo em
diversos lugares antes de encontrá-lo finalmente no laboratório do hospital.
— Preciso pedir-lhe mais um favor — disse Kim.
— Como vai Becky? — perguntou Tom.
— Para ser honesto, está muito mal. Tenho procurado negar sua condição, mas é
preciso encarar a realidade. Não tinha idéia que esse E. coli fosse tão patogênico e
essencialmente intratável depois que a toxina se instala no organismo. De qualquer
forma, não estou nem um pouco otimista. — Kim fez uma pausa, contendo as lágrimas.
— Fico muito triste em saber — disse Tom. — Que tragédia! Como posso
ajudar?
— Pode acompanhar meus pacientes por alguns dias? — Kim conseguiu
finalmente articular. — Estou com a cabeça muito tumultuada.
— Problema nenhum — disse Tom, amavelmente. — Vou fazer minhas visitas
em alguns minutos, assim que terminar aqui. Vou aproveitar para ver os seus pacientes
também. Vou avisar as enfermeiras para que me chamem no caso de alguma
emergência.
— Obrigado, Tom. Fico lhe devendo essa.
— Gostaria de poder fazer mais.
— Eu também — disse Kim.
Bartonville ficava a menos de quarenta minutos do centro da cidade. Kim


chegou na rua principal, seguindo as informações de um frentista na saída da autoestrada. Não teve dificuldade para encontrar a Mercer Meats.
Era uma fábrica muito maior do que imaginava. O prédio era todo branco e
moderno, mas não tinha detalhes que facilitassem sua descrição. Estava fincado no
centro de um gramado imaculadamente aparado e cortado por um caminho de pedra
para os veículos e alamedas arborizadas no estacionamento. O complexo irradiava uma
aura de alta lucratividade.
Kim estacionou relativamente próximo ao portão de entrada, em uma das poucas
vagas destinadas aos "visitantes". Desceu do carro e caminhou até o prédio, procurando
não se esquecer de que precisava manter a calma. Após a experiência no Onion Ring,
sabia que se não o fizesse, só teria a perder.
A sala de recepção, luxuosamente atapetada, com gravuras nas paredes e móveis
ricamente estofados, parecia mais de uma companhia de seguros que de uma
empacotadora de carne. Apenas o tema dos quadros sugeria a natureza do negócio: eram
gravuras de várias raças de gado.
Uma matrona, usando equipamento de escuta sem fio estava sentada numa mesa
circular no centro da sala.
— Posso ajudá-lo? — perguntou.
— Espero que sim — disse Kim. — Qual é o nome do presidente da Mercer
Meats?
— O presidente é o Sr. Everett Sorenson — respondeu a mulher.
— Poderia me chamar o Sr. Sorenson e dizer-lhe que o Dr. Kim Reggis está aqui
para vê-lo?
— Posso informar ao Sr. Sorenson o motivo da visita? — perguntou a mulher.
Ela examinou Kim com olhar cético. Sua aparência era quase como a de um sem-teto.
— Isso é necessário?
— O Sr. Sorenson é um homem muito ocupado.
— Nesse caso, diga-lhe que é a respeito da Mercer Meats vender hambúrgueres
contaminados para a cadeia de lanchonetes Orion Ring.
— Como?! — a mulher pareceu não acreditar no que ouvira.
— Ou melhor — Kim já começava a esquecer a promessa que fizera a si mesmo
de manter a compostura — diga-lhe que desejo discutir o fato de que minha filha está
entre a vida e a morte depois de ter consumido um hambúrguer da Mercer Meats.
— Talvez o senhor queira se sentar — disse a recepcionista. Ela engoliu em
seco. Kim estava agora debruçado à mesa, apoiado sobre os cotovelos. — Passarei a
mensagem ao presidente.
— Obrigado — disse Kim, forçando um sorriso para a mulher recolhendo-se a
um dos sofás.
A mulher falou ao microfone, lançando olhares nervosos na direção de Kim. Ele
sorriu outra vez. Não podia ouvir o que dizia, mas pela expressão no rosto dela sabia
que só podia ser a seu respeito.
Kim estava de pernas cruzadas. De vez em quando, balançava o pé. Cinco
minutos se passaram. Sua raiva ia aumentado à medida que esperava. Quando já estava
chegando ao limite de sua paciência, um homem apareceu vestindo um avental branco e
comprido não muito diferente do seu, porém limpo e passado. Usava um boné‚ com um
emblema da Mercer Meats e trazia uma prancheta na mão.
Dirigiu-se diretamente para Kim e estendeu-lhe a mão. Kim levantou-se e
apertou a mão do homem, embora sem a menor vontade.
— Dr. Reggis, sou Jack Cartwright. É um prazer conhecê-lo.
— Onde está o presidente? — perguntou Kim.


— Ele está muito ocupado no momento, mas me pediu que viesse falar com o
senhor. Sou um dos vice-presidentes e, em outras coisas, o responsável pelo setor de
relações públicas.
Jack era um sujeito atarracado com o rosto macilento e um nariz porcino
ligeiramente arrebitado. Sorria de forma insinuante.
— Quero falar com o presidente — disse Kim.
— Sinceramente — foi dizendo Jack sem rodeios — fiquei sensibilizado ao
saber que sua filha está doente.
— Ela está mais que doente. Está à beira da morte, lutando pela vida contra uma
bactéria chamada E. coli 0,57:H7. Imagino que já tenha ouvido falar desse bichinho.
— Infelizmente, sim — disse Jack, parando de sorrir. — Todos nós, no ramo da
carne, estamos conscientes, especialmente depois da tragédia no Hudson Meat. De fato,
a paranóia é tão grande neste aspecto que excedemos em muito todas as exigências e
recomendações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. A prova de nossa
eficiência é que jamais fomos citados por qualquer irregularidade.
— Quero conhecer a área de produção de hambúrgueres — disse Kim.
Obviamente, não tinha o menor interesse no discurso enlatado de Jack.
— Isso é impossível. Nós limitamos o acesso para reduzir ao máximo o risco de
contaminação. Mas...
— Espere aí! — interrompeu Kim à medida que seu rosto enrubescia. — Eu sou
médico e compreendo o problema da contaminação. Usarei trajes apropriados, farei o
que for necessário. E não aceito um não como resposta.
— Ei, acalme-se! — disse Jack, de bom humor. — Não me deixou terminar.
Não pode entrar na área de produção, mas pode observar todo o processo por nossa
passarela envidraçada. E com a vantagem ainda de não precisar trocar de roupa.
— Já é um começo, creio.
— Ótimo! Então, siga-me.
Jack foi na frente, levando Kim por um corredor.
— Está interessado apenas na produção de hambúrgueres? — perguntou Jack.
— Que tal algum outro produto, como a salsicha?
— Só o hambúrguer.
— Está muito bem — disse Jack, satisfeito.
Chegaram a umas escadas e começaram a subir.
— Quero deixar bem claro que somos extremamente exigentes quanto à higiene
aqui na Mercer Meats — disse Jack. — Toda a área de produção é lavada diariamente,
primeiro com jato de vapor a alta pressão e depois com um composto quaternário de
amônia. Quer dizer, você poderia comer direto do chão.
— Uh-hum — entoou Kim.
— Toda a área de produção é mantida à temperatura de dois graus centígrados
— disse Jack quando chegavam ao alto da escada. Ele pegou na maçaneta de uma porta
de incêndio. — É duro para os empregados, mas pior para a bactéria. Entende o que
digo? — Jack soltou uma risada; Kim permaneceu em silêncio.
Cruzaram a porta e entraram num corredor envidraçado, localizado sobre a área
de produção, e que ia de um lado a outro do prédio.
— É impressionante, não concorda? — disse Jack, orgulhoso.
— Onde fica a seção dos hambúrgueres? — perguntou Kim.
— Vamos chegar lá. Mas deixe-me explicar como funcionam todas essas
máquinas.
Lá embaixo, Kim podia ver os empregados trabalhando. Todos vestiam
uniforme branco e bonés que lembravam toucas de banho. Usavam também luvas e


galochas de proteção. Kim tinha de admitir que o local parecia todo novo e esterilizado.
Estava surpreso. Esperava encontrar algo bem menos imponente.
Jack teve de falar mais alto por causa do barulho das máquinas. O corredor não
era à prova de som.
— Não sei se tem conhecimento de que o hambúrguer é geralmente uma
combinação de carnes fresca e congelada — explicou Jack. — Elas são pré-moídas
separadamente ali. Evidentemente, a carne congelada precisa ser descongelada antes.
Kim balançou a cabeça.
— Após essa primeira moagem, a carne fresca e a congelada são lançadas no
misturador de formulação até completarem uma partida, que vai então para a moagem
final naqueles moedores grandes.
Jack apontou, e Kim balançou novamente a cabeça.
— Produzimos cinco partidas por hora. Estas são então reunidas em um lote.
Kim apontou para um grande tonel de borracha, ou de plástico, sobre rodas.
— A carne fresca é transportada naqueles recipientes? — perguntou.
— É. E têm a capacidade de uma tonelada. Somos muito cuidadosos com nossa
carne fresca. Ela tem de ser usada no máximo em cinco dias e precisa ser conservada
abaixo de dois graus centígrados. Como sabe, é uma temperatura abaixo da dos
refrigeradores convencionais.
— O que acontece com o lote? — perguntou Kim.
— Assim que sai da moagem fina, é transportado na esteira que está embaixo de
nós até a máquina que prensa os hambúrgueres, do outro lado.
Kim balançou a cabeça. A máquina ficava numa sala separada, isolada do resto
da área de produção. Caminharam pelo corredor de vidro até ficarem diretamente sobre
ela.
— Uma máquina impressionante, não concorda? — disse Jack.
— Por que fica numa sala isolada? — perguntou Kim.
— Para mantê-la absolutamente limpa e protegê-la. É a peça de equipamento
mais cara e mais importante de toda a produção. Ela processa os hambúrgueres normais
de cinqüenta gramas e os grandes, de cento e vinte e cinco gramas.
— O que acontece depois que os hambúrgueres saem da máquina?
— Uma esteira os transporta diretamente pelo túnel congelador de nitrogênio.
São então embalados manualmente em caixas e estas em caixotes.
— Podem descobrir a origem da carne? Já que vocês têm o numero do lote, os
números das fornadas e a data de produção.
— Claro. Fica tudo guardado em nossos livros de registro.
Kim tirou do bolso o pedaço de papel onde escrevera os dados dos rótulos no
freezer do Onion Ring. Desdobrou-o e mostrou-o a Jack.
— Gostaria de saber de onde veio a carne desses dois lotes, nessas duas datas.
Jack deu uma espiada no papel e sacudiu negativamente a cabeça.
— Sinto muito, não posso dar esse tipo de informação.
— Com mil demônios, por que não?
— Simplesmente, não posso. É confidencial, não é disponível para o público.
— Qual o segredo?
— Não há segredo. É política da companhia.
— Então, para que servem os livros de registro?
— É uma exigência do Departamento de Agricultura dos Estalos Unidos.
— Parece-me suspeito — disse Kim, lembrando-se de alguns comentários feitos
por Kathleen naquela manhã. — Um órgão público fiscalizando registros cujas


informações não podem ser acessadas pelo público.
— Não sou eu que faço as regras — disse Jack, de maneira pouco convincente.
Kim correu os olhos pela sala de processamento dos hambúrgueres. Parecia
imponente com todo aquele equipamento de aço polido e o chão lustroso e azulejado.
Havia três homens e uma mulher cuidando das máquinas.
Kim percebeu que a mulher segurava uma prancheta onde rabiscava o tempo
todo. Ao contrário dos homens, ela não tocava nas máquinas.
— Quem é aquela mulher?
— Marsha Baldwin. É uma gata, não acha?
— O que ela está fazendo?
— Inspecionando — disse Jack. — É a inspetora do Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos. Ela aparece por aqui três, quatro, às vezes cinco vezes
na semana. É um osso duro de roer. Mete o nariz em tudo.
— Suponho que ela possa rastrear a origem da carne.
— Sem dúvida. Ela confere os livros de registro todas as vezes que vem aqui.
— O que está fazendo agora? — perguntou Kim.
Marsha estava debruçada, examinando a boca da máquina de prensar
hambúrgueres.
— Não faço a menor idéia. Provavelmente verificando se foi lavada
corretamente. Ela é rigorosíssima nos detalhes, é tudo o que sei. Pelo menos, somos
obrigados a ficar alertas.
— De três a cinco vezes por semana — repetiu Kim. — É de impressionar.
— Venha — disse Jack, fazendo um sinal com a mão. — Ainda não vimos o
empacotamento dos caixotes e a estocagem nas câmaras de congelamento.
Kim sabia que tinha visto tudo o que tinham para mostrar. Estava convencido de
que não conseguiria falar com Everett Sorenson.
— Se quiser saber sobre mais alguma coisa — disse Jack depois que voltaram
para a recepção — é só entrar em contato.
Entregou um cartão a Kim e abriu um sorriso confiante. Apertou sua mão, Deulhe um tapinha no ombro e agradeceu-lhe a visita
Kim saiu do prédio da Mercer Meats e entrou no carro. Em vez de dar a partida,
ligou o rádio. Depois de certificar-se de que o celular estava ligado, recostou-se e
procurou relaxar. Passado alguns minutos, abaixou um pouco o vidro da janela. Não
queria cair no sono.
O tempo passou vagarosamente. Por diversas vezes quase desistiu e foi embora.
Sentia-se cada vez mais culpado por ter abandonado Tracy na sala de espera da UTI.
Em pouco mais de uma hora, no entanto, sua paciência foi recompensada: Marsha
Baldwin saiu pela porta da Mercer Meats. Vestia um casaco bege e carregava o que
parecia uma pasta de assuntos do governo.
Com medo de não alcançá-la antes que entrasse em seu carro, Kim forçou a
porta com o ombro. Ela agarrava de vez em quando, seqüela de uma batida que dera no
estacionamento do hospital. Conseguiu abri-la depois de algumas pancadas com a mão
espalmada e correu na direção da mulher. Quando a alcançou, ela estava fechando a
porta traseira de seu Ford sedan amarelo, depois de atirar a maleta sobre o banco. Kim
surpreendeu-se com sua altura. Calculou que devia ter pelo menos um metro e setenta e
cinco.
— Marsha Baldwin? — perguntou Kim.
Demonstrando uma ligeira surpresa em ser chamada pelo nome em pleno
estacionamento, Marsha virou-se para Kim e percorreu-o com seus olhos verdeesmeralda de cima a baixo. Num reflexo, passou a mão pelos cabelos e prendeu-os por


trás da orelha. Ficou receosa pela aparência de Kim e pôs-se imediatamente em guarda
ante o tom quase hostil de sua voz.
— Sim, sou Marsha Baldwin — respondeu, hesitante.
Kim reparou no adesivo do vidro onde se lia "Preserve o peixe-boi", num
veículo obviamente de uso oficial. Voltou a atenção para a mulher, que era, nas palavras
de Jack Cartwright, "uma gata". Kim calculou que não devia passar muito dos vinte e
cinco anos. Tinha a pele morena, feições finas e nariz proeminente porém aristocrático.
Os lábios finos eram bem definidos.
— Precisamos conversar — disse Kim, firme.
— É mesmo? — questionou Marsha. — E quem é você, um cirurgião
desempregado ou está vindo de algum baile à fantasia?
— Em circunstâncias diferentes, até acharia graça. Disseram-me que é inspetora
do Departamento de Agricultura.
— E quem lhe deu essa informação? — perguntou Marsha, desconfiada. Fora
avisada em seu treinamento que poderia ocasionalmente ter de lidar com picaretas.
Kim apontou para a entrada da Mercer Meats.
— Um relações-públicas de fala mansa chamado Jack Cartwright.
— E daí se eu for inspetora do Departamento de Agricultura dos Estados
Unidos? — perguntou Marsha. Ela fechou a mala do carro e abriu a porta do motorista.
Não estava disposta a dedicar muito tempo àquele estranho.
Kim tirou do bolso o papel com as informações dos caixotes do Onion Ring.
— Quero que descubra de onde veio a carne desses dois lotes.
Marsha deu uma espiada no papel.
— Com que finalidade? — perguntou.
— Porque acredito que um desses lotes deixou minha filha mortalmente doente,
contaminada por um tipo anômalo de E. coli. Quero saber a origem desses lotes e
também para onde foram enviados.
— Como pode saber que foi um desses lotes?
— Não posso ter essa certeza, ao menos por enquanto.
— Ah, é mesmo? — questionou Marsha, com desdém.
— É! Por enquanto — respondeu Kim, irritado com a entonação dela.
— Sinto muito, não posso lhe dar esse tipo de informação.
— E por que não?
— Não é minha função passar essas informações para o público. Estou certa de
que é contra as normas.
Marsha fez menção de entrar no carro. Pensando em sua filha mortalmente
doente numa cama de hospital, Kim agarrou o braço de Marsha com certa brutalidade,
impedindo-a.
— Que se danem as normas, sua maldita burocrata! — explodiu Kim. — Isso é
importante. Sua função é a de proteger o público. Agora tem uma oportunidade para
fazer exatamente isso.
Marsha não se intimidou. Olhou para a mão agarrada em seu braço e a seguir
para o rosto colérico de Kim.
— Solte meu braço ou eu grito, seu vagabundo!
Convencido de que ela estava falando sério, Kim soltou seu braço. Ficou
surpreso pela reação decidida e inesperada de Marsha.
— Agora, fique bonzinho — disse Marsha, como se estivesse falando com um
pré-adolescente. — Eu não lhe fiz nada.
— Não fez uma ova! Se vocês do Departamento de Agricultura não estivessem
representando uma farsa e inspecionassem realmente a indústria da carne, minha filha


não estaria doente e nem morreriam quinhentas crianças a cada ano.
— Espere aí um instante — retrucou Marsha. — Eu trabalho duro e levo meu
serviço muito a sério.
— Conversa fiada! — vociferou Kim. — Vocês são bons mesmo é em
dissimular. Ouço dizer até que estão de conluio com a indústria que deveriam estar
inspecionando.
O queixo de Marsha caiu. Estava pasma e furiosa.
— Não vou valorizar esse seu comentário, respondendo.
Marsha entrou no carro e sentou-se ao volante. Bateu a porta e enfiou a chave na
ignição.
Kim bateu diversas vezes no vidro da janela, berrando:
— Espere um segundo. Por favor, me desculpe! — Correu a mão nervosamente
pelo cabelo desalinhado. — Estou desesperado para obter sua ajuda. Não foi nada
pessoal, não tenho a intenção de ofendê-la. Obviamente, nem a conheço.
Depois de alguns segundos deliberando, Marsha baixou o vidro da janela e olhou
para Kim. O que lhe parecera no momento anterior o rosto de um sujeito excêntrico e
esquisitão era agora o um homem torturado.
— Você é mesmo médico? — perguntou ela.
— Sou. Cirurgião cardíaco para ser exato.
— E sua filha está mesmo doente?
— Muito, muito doente — respondeu Kim com a voz entrecortada. — Ela tem
um
tipo extremamente nocivo de E. coli. Tenho quase certeza de que o contraiu depois de
comer um hambúrguer malpassado.
— Eu realmente sinto muito em saber disso. Mas não sou a pessoa com quem
deveria estar falando. Trabalho no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos há
pouco tempo e ocupo um cargo de baixo escalão.
— E a quem me aconselharia procurar? — perguntou Kim.
— O gerente distrital. Seu nome é Sterling Henderson. Posso lhe dar o número
dele.
— Ele não ocupa o que se poderia chamar de cargo de gerência intermediário?
— perguntou Kim. Podia ouvir a voz de Kathleen no fundo de sua mente.
— Suponho que sim.
— Não estou interessado. Fui informado de que existem sérias irregularidades
nos serviços de inspeção do Departamento de Agricultura. Há um conflito de interesse,
especialmente nos cargos de gerência intermediária. Já ouviu algo a esse respeito?
— Bem, sei que existem problemas — admitiu Marsha. — É tudo muito
político.
— Do tipo de que uma indústria multibilionária como a da carne pode interferir
em muitas coisas.
— Algo nesse sentido — disse Marsha.
— Você pode me ajudar, pela minha filha? Não tenho condições de auxiliá-la
como médico, mas irei nem que seja ao fundo do inferno para descobrir como e por que
ela ficou doente e talvez, no decorrer do processo, possa fazer alguma coisa a esse
respeito. Quero evitar que outras crianças sofram o mesmo destino. Acredito que um
desses dois lotes esteja contaminado com um tipo particularmente perigoso de E. coli.
— Deus meu, não sei o que dizer! — respondeu Marsha.
Tamborilou com os dedos no volante enquanto se decidia. A idéia de salvar
crianças de uma grave doença era um forte apelo. Mas havia riscos.
— Não vejo outra forma de conseguir essas informações sem a sua colaboração


— disse Kim. — Pelo menos não em tempo hábil.
— Por que não procura o Departamento de Saúde Pública? — sugeriu Marsha.
— É uma idéia. Vou tentar com eles também, na segunda-feira. Mas, para dizer
a verdade, não estou otimista. Acabaria caindo nas malhas de outra burocracia, ou seja,
mais demora. Além do mais, quero resolver isso pessoalmente. É uma forma de
compensação por não poder ajudar minha filha clinicamente.
— Posso estar colocando em risco o meu emprego, embora talvez pudesse
contar com o auxílio de meu chefe direto. O problema é que nunca tivemos o que se
poderia chamar de um bom relacionamento profissional.
— Seria o gerente distrital que você mencionou antes? — perguntou Kim.
— Isso mesmo. Sterling Henderson.
— Preferiria manter esse assunto somente entre nós dois — disse Kim.
— Para você é fácil falar. O problema é que se trata do meu emprego, não do
seu.
— Diga-me, já viu uma criança vítima desse E. coli? Só estou perguntando
porque antes de minha filha ficar doente eu jamais tinha visto, mesmo sendo médico. Já
tinha lido sobre isso, mas para mim nunca passou de uma abstração, uma estatística.
— Não, nunca vi uma criança vítima de E. coli — admitiu Marsha.
— Então venha comigo até o hospital ver minha filha. Depois de vê-la poderá
decidir o que fazer. Aceitarei qualquer decisão que tomar. No mínimo, dará maior
sentido ao seu trabalho.
— Onde ela está?
— No Centro Médico Universitário, o mesmo local onde trabalho. — Kim fez
um sinal para o celular de Marsha, que podia ver no console entre os bancos. — Ligue
para o hospital se estiver duvidando de mim. Meu nome é Dr. Kim Reggis e o de minha
filha Becky Reggis.
— Acredito em você — disse ela, sentindo um frio no estômago. — Quando?
— Agora mesmo. Vamos, venha. Meu carro está logo ali — Kim apontou para o
local. — Pode vir comigo. Depois eu a trago de volta para pegar seu carro.
— Não vou fazer isso. Não conheço você.
— Está bem — disse Kim, mais tranqüilo depois que ela concordou em ir ao
hospital. — Então, venha atrás de mim. Só estava preocupado por causa do
estacionamento, mas isso não faz diferença. Você entra comigo na área privativa dos
médicos. O que me diz?
— Digo que é um homem persistente e muito persuasivo.
— Muito bem! — exclamou Kim, erguendo um punho fechado em sinal de
vitória. — Vou dar a volta por aqui e você me segue.
— Está bem — disse Marsha, ainda sem saber no que estava se metendo.
Jack Cartwright não desgrudara o nariz da janela. Ficara de olho em Kim e tinha
visto toda a conversa entre ele e Marsha Baldwin. Evidentemente não escutou o que
conversaram, mas viu Marsha partindo em seu carro atrás do dele depois que os dois
haviam aparentemente chegado a algum tipo de acordo.
Deixando a área da recepção, Jack percorreu apressado o corredor central e
passou pela escada que dava acesso ao túnel de observação. No fundo ficavam as salas
administrativas.
— O chefe está? — perguntou Jack a uma das secretárias.
— Com certeza — respondeu a moça, sem parar de digitar no teclado de seu
computador.
Jack bateu à porta da sala do presidente. Uma voz vigorosa ordenou:


— Entre, com os diabos!
Everett Sorenson presidia com sucesso a Mercer Meats havia quase vinte anos.
Sob sua liderança a companhia fora comprada pela Foodsmart e o novo complexo
construído. Sorenson era um homem corpulento, mais ainda que Jack, de aparência
ostentosa, orelhas pequenas para o seu tamanho e cabeça calva e reluzente.
— O que o deixou tão preocupado? — perguntou Everett no instante em que
Jack pôs os pés no interior da sala.
Ele tinha um sexto sentido em relação a seu lacaio, a quem pessoalmente elevara
de simples empregado para uma posição hierarquicamente influente.
— Temos um problema — disse Jack.
— Oh! — balbuciou Everett, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — E o que é?
Jack sentou-se numa das cadeiras diante da mesa.
— Sabe aquele artigo que saiu no jornal esta manhã? Sobre o médico maluco
falando de E. coli e que foi preso no Onion Ring?
— É claro. E daí?
— Ele acaba de sair daqui.
— O médico? — perguntou Everett, incrédulo.
— Ele mesmo, em pessoa. Chama-se Dr. Reggis e digo-lhe mais: o sujeito é
doido. Está descontrolado e convencido que sua filha foi contaminada por um de nossos
hambúrgueres.
— Droga! — entoou Everett. — Não é disso que precisamos.
— E a coisa está piorando. Ficou conversando com Marsha Baldwin no
estacionamento. Depois saíram um atrás do outro.
— Acha que foram juntos a algum lugar? — perguntou Everett.
Jack balançou a cabeça afirmativamente.
— Foi o que me pareceu. Antes de saírem, eles conversaram por um bom tempo
no estacionamento.
— Jesus Cristo! — exclamou Everett, batendo com força sobre a mesa com uma
das mãos enormes. Ergueu-se de sua cadeira e andou de um lado para o outro da sala.
— Não é disso que precisamos! De jeito nenhum! Aquela maldita piranha da Baldwin
tem sido uma pedra em meu caminho desde o dia em que foi contratada. Está sempre
registrando esses malditos relatórios de ocorrência. Graças a Deus Sterling Henderson
tem conseguido arquivá-los.
— Sterling não pode fazer nada contra ela? — perguntou Jack. — Como
despedi-la, por exemplo?
— Quem dera! Tenho reclamado até ficar verde de raiva.
— Com o dinheiro que lhe damos como se ainda trabalhasse aqui, não acha que
ele poderia conseguir ao menos transferi-la?
— Na verdade é uma situação difícil para ele — disse Everett. —
Aparentemente o pai dela tem ligações com Washington.
— O que nos deixa em apuros. Agora temos uma inspetora incorruptível aliada a
um médico maluco que apronta um escândalo num restaurante só para ser preso e
aparecer. Receio que esse sujeito seja um camicase. Não se importa em sacrificar-se,
contanto que nos leve junto.
— Não estou gostando disso — comentou Everett, nervoso. — Outro caso de E.
coli seria arrasador. A direção do Hudson Meat não agüentou a pressão. E agora, o que
faremos?
— Precisamos limpar a sujeira — disse Jack — e rápido. Parece-me que chegou
a hora do recém-formado Comitê de Prevenção começar a agir. Ele foi criado
exatamente visando esse tipo de situação.


— Sabe de uma coisa? Você tem razão. Seria perfeito, nem sequer nos
envolveríamos.
— Então vamos dar uma ligada para o Bobby Bo Mason — sugeriu Jack.
Aquela forma de raciocínio tático e de tomada de decisão fora o motivo porque
Everett promovera Jack à vice-presidência.
— Farei isso — respondeu Everett, animado com a idéia.
— O tempo é fundamental — disse Jack.
— Vou ligar agora mesmo.
— Talvez possamos aproveitar a festa na casa de Bo hoje à noite. Estarão todos
lá, poderíamos apressar as coisas.
— Boa idéia! — disse Everett, pegando no telefone.
Kim estacionou rapidamente. Saltou do carro ainda a tempo de sinalizar para
Marsha entrar numa vaga reservada para os médicos que provavelmente não seria
utilizada num sábado. Abriu a porta do carro dela no instante em que parou.
— Tem certeza de que é mesmo uma boa idéia? — perguntou Marsha ao saltar
do carro. Ela observou a imponente fachada do hospital. Depois de ter tido algum tempo
para pensar enquanto dirigia até a cidade, indagava-se agora se teria tomado a decisão
correta.
— Estou certo que sim — disse Kim. — Não sei por que não pensei nisso antes.
Venha!
Kim pegou Marsha pelo braço e a levou na direção da entrada. Ela esboçou uma
ligeira resistência a princípio, mas acabou resignada com a situação. Estivera
pouquíssimas vezes num hospital e não sabia como reagiria. Estava com medo de ficar
mais perturbada do que tinha imaginado no estacionamento da Mercer Meats. Para
surpresa sua, enquanto aguardavam pelo elevador no saguão, verificou que era Kim
quem tremia e não ela.
— Você está bem? — perguntou Marsha.
— Para ser sincero, não — admitiu Kim. — Obviamente, entro e saio de
hospitais desde os tempos de faculdade, e isso nunca me incomodou, nem no início.
Agora, porém, com a situação de Becky, sinto essa angústia horrível toda vez que cruzo
a porta. Creio que o principal motivo que me impede de ficar aqui o tempo todo. Seria
diferente se houvesse algo que eu pudesse fazer, mas não há.
— Deve ser torturante.
— Você não faz idéia.
Entraram no elevador lotado e permaneceram em silêncio até saltarem no
corredor para a UTI.
— Não estou querendo ser intrometida — disse Marsha — mas como sua
mulher está reagindo a essa situação?
— Somos divorciados, mas dividimos o mesmo sentimento em relação a Becky.
Tracy, minha ex-mulher, está muito abalada, embora pareça estar suportando melhor do
que eu. Irá conhecê-la, vou apresentá-la a você.
Marsha sentiu um tremor. Dividir a angústia de uma mãe tornaria a visita ainda
mais desagradável. Começou a questionar-se por que concordara em acompanhar aquele
homem.
Para piorar ainda mais as coisas, Marsha notou as setas ao longo do corredor
mostrando a direção da UTI.
— Sua filha está sob tratamento intensivo? — perguntou, na esperança de uma
resposta negativa.
— Infelizmente, sim — respondeu Kim.


Marsha soltou um suspiro. Seria ainda pior do que temia.
Kim parou na entrada da sala de espera da UTI. Localizou Tracy sentada num
banco e fez um sinal para que Marsha o seguisse. Tracy ficou de pé.
— Tracy, gostaria que conhecesse Marsha Baldwin. Marsha é inspetora do
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e talvez possa me ajudar a descobrir a
origem da carne que Becky comeu.
Tracy não respondeu de imediato, e diante de sua fisionomia, Kim percebeu
instantaneamente que alguma outra coisa tinha acontecido. Parecia que toda vez que
voltava ao hospital, Becky piorava. Era como um filme ruim que se repetia
ininterruptamente.
— O que foi agora? — perguntou Kim, soturno.
— Por que não atendeu ao telefone? — perguntou Tracy, com uma expressão
transtornada.
— Ele não tocou.
— Tentei ligar diversas vezes.
Kim lembrou-se que tinha deixado o aparelho no carro enquanto estava na
Mercer Meats e durante o tempo em que falara com Marsha.
— Bem, estou aqui agora — disse, desconsoladamente. — O que aconteceu?
— O coração dela parou, mas conseguiram reanimá-lo. Eu estava na sala quando
aconteceu.
— Talvez fosse melhor eu ir embora — disse Marsha.
— Não! — Kim foi enfático. — Fique, por favor! Vou entrar e ver o que está
acontecendo.
Girando sobre os calcanhares, Kim desapareceu da sala.
Tracy e Marsha entreolharam-se apreensivas.
— Sinto muito pela sua filha — disse Marsha.
— Obrigada. — Tracy enxugou o canto dos olhos com um lenço. Tinha chorado
tanto nas últimas quarenta e oito horas, que suas lágrimas tinham praticamente secado.
— E uma menina tão maravilhosa.
— Não tinha noção que sua filha estivesse tão mal. Deve ser um peso horrível.
— Inimaginável.
— Estou me sentindo mal por ter aparecido num momento como este — disse
Marsha. — Sinto muito, talvez seja melhor eu ir embora.
— Não precisa ir embora por minha causa. Kim parece querer que você fique.
Não sei como consegue pensar em investigar sobre essa carne nessa altura dos
acontecimentos. Para mim está sendo difícil até respirar.
— Talvez por ser médico. Foi bastante explícito em mostrar interesse de evitar
que outras crianças sofram o mesmo.
— Creio que ainda não tinha visto por esse ângulo — disse Tracy. — Talvez não
devesse ser tão prematura ao julgar.
— Ele receia que haja um lote de carne contaminada nas ruas.
— É bem provável. Mas o que não compreendo é por que a trouxe aqui. Por
favor, não me entenda mal, não estou querendo ser rude.
— Eu compreendo— disse Marsha. — Ele me pediu que o ajudasse a descobrir
a origem da carne de alguns lotes específicos. Fiquei em dúvida; isso não faz parte de
minha função. Na verdade, posso ser até despedida se meu chefe descobrir que passei
essa informação. Ele achou que depois que visse sua filha e o que esse E coli é capaz de
fazer, eu mudaria de idéia. Disse que eu iria, no mínimo, adquirir maior consciência em
meu trabalho de inspeção.
— Presenciar o sofrimento de Becky poderá torná-la a inspetora mais consciente


do mundo. Ainda está interessada em vê-la? É preciso ser forte.
— Eu não sei — disse Marsha, com sinceridade. — E como já disse, não quero
me intrometer.
— Não está se intrometendo — disse Tracy, subitamente decidida. — Venha,
vou levá-la até ela.
Tracy saiu com Marsha da sala de espera e as duas seguiram pelo corredor.
Pararam diante da porta da UTI.
— Fique perto de mim — disse Tracy. — Não devíamos estar andando por aqui
desacompanhadas.
Marsha assentiu em silêncio. Seu coração batia com força e estava transpirando.
Tracy abriu a porta e as duas entraram. Tracy atravessou a sala rapidamente na
direção do cubículo de Becky, com Marsha seguindo-a de perto. Diversas enfermeiras
notaram sua presença, mas não disseram nada. Tracy tinha se tornado familiar nas
últimas quarenta e oito horas.
— Receio que será difícil ver alguma coisa — disse Tracy, quando chegaram à
entrada da sala. Além de Kim havia outros seis médicos e mais duas enfermeiras
amontoados no minúsculo espaço. Mas era a voz de Kim que se fazia ouvir.
— Já entendi que ela teve diversas paradas cardíacas! — berrava Kim.
Estava furioso, dominado pelo medo e pelo desespero. Com toda sua vasta
experiência clínica, sabia que sua filha estava às portas da morte, mas ninguém lhe
fornecia uma resposta direta. Ninguém fazia nada além de permanecer ali de pé,
simbolicamente coçando o queixo.
— O que estou perguntando é por que isso está acontecendo?
Kim grudou os olhos em Jason Zimmerman, o cardiologista pediátrico a quem
tinha acabado de ser apresentado. O homem desviou o olhar, fingindo estar absorto em
observar o monitor cardíaco que pulsava num ritmo irregular. Algo estava totalmente
fora de ordem
Kim virou-se para Claire Stevens. Por cima do ombro percebeu a presença de
Tracy e Marsha.
— Não sabemos o que está acontecendo — admitiu Claire. — Não há fluido
pericardial, portanto não está tamponado.
— Está me parecendo algo inerente no próprio miocárdio — disse Jason. —
Precisamos de um eletrocardiograma.
Naquele exato momento soou o alarme do monitor. O cursor varreu a tela
desenhando uma linha reta. Becky sofrera nova parada cardíaca.
— Código azul! — Gritou uma das enfermeiras para alertar os demais
companheiros na unidade de tratamento intensivo.
Jason reagiu empurrando Kim para o lado e dando início imediatamente a uma
massagem cardíaca, pressionando com as duas mãos o peito debilitado de Becky. Jane
Flanagan, a anestesista, certificou-se de que o tubo endotraqueal continuava em posição
correta. Aumentou também o percentual de oxigênio liberado pelo respirador.
Outras enfermeiras da UTI apareceram correndo, empurrando o carrinho de
parada. Quase colidiram com Tracy e Marsha, que tiveram de abrir passagem.
No interior da sala o trabalho era intenso, já que todos os médicos presentes
queriam ajudar. Era evidente para todos que não só o coração tinha parado de bater,
como toda a atividade elétrica cessara.
Tracy tampou o rosto com as mãos. Teve vontade de fugir, mas não pôde. Era
como se estivesse congelada naquele lugar, destinada a assistir cada detalhe da agonia
de Becky.
Tudo o que Marsha conseguiu fazer foi se encolher por trás de Tracy, temerosa


de obstruir o caminho.
Kim recuou, horrorizado. Ainda incrédulo, olhava alternadamente para a tela do
monitor e o corpo esquálido de sua filha sendo sacudido pelas mãos do cardiologista
pediátrico.
— Epinefrina! — berrou Jason sem parar de massagear o peito.
As enfermeiras do carrinho de parada encheram rapidamente uma seringa com o
medicamento e a passaram para Jason, que interrompeu a massagem para aplicar a
injeção diretamente no coração de Becky.
Tracy cobriu os olhos e soluçou. Instintivamente, Marsha passou os braços ao
redor dos ombros dela, mas não conseguia tirar os olhos do espantoso drama que se
desenrolava à sua frente.
Jason retomou a massagem sem tirar os olhos do monitor. Nenhuma mudança
ocorreu no sinal retilíneo que atravessava a tela.
— Eletrochoque! — gritou Jason. — Se não funcionar, teremos de regular a
voltagem manualmente, portanto, fiquem preparadas.
As experientes enfermeiras já tinham carregado o desfibrilador. Passaram as pás
de mão em mão. Jason interrompeu a massagem para pegá-las.
— Todos para trás! — gritou Jason, enquanto as posicionava corretamente.
Assim que todos se afastaram, apertou o botão de descarga.
O corpo lívido de Becky sacudiu e seus braços saltaram. Todos olharam para o
monitor na esperança de alguma mudança. O cursor, porém, não queria colaborar.
Persistia naquela linha reta e contínua.
Kim adiantou-se. Não gostou do jeito como Jason aplicou a massagem.
— Você não está conseguindo excursão suficiente. Deixe-me assumir.
— Não— disse Claire, surgindo por trás de Kim para puxá-lo. — Dr. Reggis,
isso não está certo. Nós cuidamos disso. Creio que deve esperar lá fora.
Kim livrou-se da pediatra com um empurrão. Suas pupilas estavam dilatadas e o
rosto retesado. Não iria a lugar nenhum. Jason atendeu ao apelo de Kim. Com sua
pequena estatura era difícil para ele fazer força suficiente estando de pé. Para tornar
mais fácil o trabalho subira no leito e posicionara-se de joelhos por sobre o corpo dela.
Assim estava conseguindo uma compressão torácica melhor. Ao que todos ali presentes
puderam ouvir uma série de estalos nas costelas de Becky.
— Mais epinefrina! — vociferou Kim.
— Não! — conseguiu Jason articular. — Quero cálcio!
— Epinefrina! — repetiu Kim. Seus olhos estavam grudados no cursor do
monitor quando percebeu que nenhuma seringa lhe seria entregue, virou-se na direção
do carrinho.
— Onde está a epinefrina?
— Cálcio! — Repetiu Jason. — Precisamos ver alguma atividade elétrica. Deve
haver um desequilíbrio iônico.
— Passando cálcio — disse Claire.
— Não! — berrou Kim, abrindo caminho por entre o grupo até o carrinho. Ele
encarou a enfermeira.
A mulher alternou o olhar entre o rosto lívido de Kim e o de Claire, sem saber
como agir.
Habituado sempre a mandar, Kim agarrou um pacote com uma seringa o abriu.
Pegou um frasco de epinefrina e quebrou a ponta da agulha. Seus dedos trêmulos
deixaram a agulha cair. Precisou pegar outra.
— Dr. Reggis, não! — disse Claire, agarrando-lhe o braço. Walter Ohanesianl o
hematologista, tentou ajudá-la agarrando o outro.


Kim livrou-se facilmente de ambos e encheu a seringa sem interferências.
Armou-se um verdadeiro pandemônio quando tentou voltar para o leito. Kathleen e
Arthur, o nefrologista, vieram em auxílio de Claire e Walter. A cena foi crescendo de
intensidade entre gritos, empurrões e ameaças.
— Oh, Deus! — desabafou Tracy. — Só pode ser um pesadelo!
— Parem, todos! — gritou Jane a plenos pulmões, tentando impor-se.
A luta parou. Jane então prosseguiu num tom de voz mais sereno:
— Algo muito estranho está acontecendo. Jason está conseguindo uma boa
excursão
torácica, eu tenho o oxigênio em cem por cento, e mesmo assim suas pupilas continuam
dilatando! Alguma coisa está impedindo a circulação.
Kim livrou-se das mãos que o seguravam. Ninguém se mexeu ou disse uma
palavra, exceto Jason, que levava adiante a massagem. Os médicos estavam paralisados,
indecisos quanto ao que fazer.
Kim foi o primeiro a reagir. Com sua experiência de cirurgião, não ficaria ali
parado nem mais um segundo sequer. Sabia o que tinha de fazer. Sem circulação
alguma, apesar da excursão torácica, só restava uma alternativa. Virou-se para as
enfermeiras do carrinho.
— Bisturi! — rosnou.
— Não! — gritou Claire.
— Bisturi! — repetiu Kim com maior insistência.
— Você não pode — berrou Claire.
— Bisturi! — gritou Kim. Atirando a seringa de epinefrina para o lado, abriu o
caminho entre os outros médicos até o carrinho.
Kim agarrou o tubo de vidro contendo o bisturi. Desatarraxou a tampa com os
dedos trêmulos e retirou o instrumento esterilizado. Jogou o tubo para o lado, que se
espatifou no chão. Pegou um pacote de compressas embebidas em álcool e rasgou-o
com os dentes.
Nesse ponto, somente Claire esboçou alguma reação para detê-lo. Sua tentativa,
porém, foi inútil. Ele a afastou para o lado com firmeza, embora delicadamente.
— Não! — gritou Tracy. Ela não era médica, mas sua intuição lhe dizia o que
seu ex-marido iria fazer. Deu um passo à frente e Marsha a soltou.
Kim debruçou-se sobre o leito e literalmente arremessou Jason para fora dele.
Esfregou o algodão com álcool no peito de Becky. Então, antes que Tracy o impedisse,
abriu o tórax de sua filha com uma precisa incisão, sem derramar uma gota de sangue.
Um suspiro coletivo foi emitido por todos, à exceção de Tracy. Ela retrocedeu diante
daquela cena aterradora e foi amparada por Arthur, o nefrologista, no instante em que ia
desmaiar.
Do outro lado da cama, Jason erguia-se do chão com dificuldade. Quando viu o
que estava acontecendo, também recuou horrorizado.
Kim não perdeu tempo. Alheio aos demais, o exímio cirurgião utilizou ambas as
mãos para separar as costelas de Becky, produzindo um estalo. Em seguida introduziu a
mão nua na cavidade torácica e começou a comprimir seu coração ritmicamente.
O esforço hercúleo de Kim teve curta duração. Depois de algumas poucas
compressões, Kim sentiu que o coração de Becky estava perfurado e tinha a textura
bastante anormal. Era como se não fosse músculo, mas algo esponjoso, que parecia
desmantelar-se entre seus dedos. Sem compreender o motivo daquilo, retirou a mão.
Nela veio junto uma massa de tecido orgânico. Sem saber do que se tratava, aproximou
o material ensangüentado até bem perto do rosto para examiná-lo.
Um gemido arrastado de agonia escapou-lhe dos lábios quando percebeu que


tinha em suas mãos fragmentos necrosados do coração e pericárdio de Becky. A toxina
foi implacável. Era como se sua filha tivesse sido comida por dentro.
A porta da UTI abriu-se violentamente. Dois guardas de segurança entraram na
sala. Tinham sido chamados pela enfermeira-chefe depois do tumulto por causa da
epinefrina.
Assim que os dois homens chegaram ao local da cena, pararam estupefatos.
Becky ainda estava sendo bombeada pelo aparelho de respirar; seus pulmões rosados
pulsavam intermitentemente na cavidade do tórax. Kim permanecia de pé ao lado dela,
as mãos ensangüentadas, os olhos transtornados pela dor. Tentou delicadamente repor o
tecido necrosado na cavidade torácica de Becky. Ao terminar aquela cena fútil, deixou
cair a cabeça para trás e soltou um grito dilacerado de agonia como nunca se ouvira na
UTI.
Tracy recuperara-se o suficiente para dar um passo à frente. O grito visceral de
Kim atingira-lhe o âmago. Quis confortá-lo e ser também consolada.
Kim, porém, estava cego para tudo e para todos. Deixou a sala por entre
safanões e atravessou a sala da UTI. Antes que alguém esboçasse alguma reação, tinha
cruzado a porta.
Kim passou voando pelo corredor. As pessoas que vinham em sentido contrário
afastaram-se para o lado. Um servente não foi ágil o suficiente; Kim o atropelou,
despachando o homem junto com seu carrinho de água.
Do lado de fora do hospital, Kim correu diretamente para o carro, no
estacionamento privativo. Girou a chave na ignição e arrancou em alta velocidade,
deixando para trás um rastro preto de borracha.
Kim dirigiu alucinadamente até a Prairie Highway. Teve sorte de não cruzar com
nenhuma viatura policial. Entrou desesperado no estacionamento do Onion Ring
subindo no meio-fio do mesmo jeito que da outra vez. O carro sacudiu com violência e
brecou bem em frente da movimentada lanchonete com uma cantada dos pneus. Kim
puxou o freio de mão e se preparou para descer, mas hesitou durante uma fração de
segundo. Uma ponta de lucidez acendeu-se nas profundezas de seu cérebro,
emocionalmente sobrecarregado. A multidão da tarde de sábado, saboreando seus
hambúrgueres, milk shakes e batatas fritas, alheia à sua tortura psíquica, trouxe-o de
volta à realidade.
Kim tinha disparado até o Onion Ring em busca de um bode expiatório, mas
agora que lá estava, não desceu do carro. Em vez disso, ergueu a mão direita e olhou
para ela. O sangue escuro e seco de sua filha era a confirmação da terrível realidade:
Becky estava morta. E ele não pôde fazer nada para salvá-la. Começou a soluçar. Tudo
o que conseguiu fazer foi dobrar-se impotente, sobre o volante do automóvel.
Tracy sacudia a cabeça sem querer admitir o que acabara de presenciar. Correu
os dedos pelos cabelos embaraçados, enquanto Marsha Baldwin procurava consolá-la.
Depois de tudo, era difícil de acreditar que estava sendo consolada por uma pessoa
estranha.
Tracy reagira de maneira inteiramente oposta à de Kim. Em vez de sair cega e
desabaladamente, ficou paralisada, incapaz até mesmo de chorar.
Logo após a esbaforida partida de Kim, Claire e Kathleen acompanharam Tracy
até a sala de espera da UTI. Marsha também foi, embora Tracy não notasse sua
presença. Claire e Kathleen ficaram algum tempo com Tracy para compartilhar de seu
sentimento e explicar o que tinha acontecido. Não omitiram nenhum detalhe em
resposta às perguntas de Tracy, incluindo como a toxina do E. coli havia obviamente
atacado o músculo cardíaco de


Becky e o pericárdio, o tecido que reveste o coração.
Claire e Kathleen ofereceram-se para ajudá-la a voltar para casa, mas Tracy lhes
disse que estava de carro e sentia-se em condições de dirigir. Somente depois que as
duas médicas foram embora percebeu a presença de Marsha, e as duas mulheres deram
início a uma longa conversa.
— Quero agradecer-lhe o seu apoio aqui esse tempo todo — disse Tracy. — Foi
um grande amparo. Espero não tê-la aborrecido com todas aquelas histórias de Becky.
— Parece que era uma criança maravilhosa.
— A melhor — disse Tracy, melancolicamente.
Em seguida, respirou fundo e endireitou a postura. As duas estavam sentadas
num canto da sala sob uma janela, onde puxaram as cadeiras uma para perto da outra.
Do lado de fora, as sombras longas de um final de tarde de inverno moviam-se
lentamente rumo ao leste.
— Sabe — disse Tracy — estivemos conversando todo esse tempo e não lhe
falei nada sobre meu ex-marido, o homem que a trouxe pra cá.
Marsha balançou a cabeça.
— A vida é cheia de surpresas — disse Tracy, suspirando. — Acabo de perder
minha adorada filha, que era o centro de minha vida, e me surpreendo por estar me
preocupando com ele. Só espero que a passagem de Becky não o faça perder a razão.
— O que quer dizer? — perguntou Marsha.
— Não sei explicar ao certo — admitiu Tracy. — Acho que fico apavorada com
o que ele é capaz de fazer. Já foi preso por agredir o gerente da lanchonete onde suspeita
que Becky tenha ficado doente. Só espero que não faça algo realmente insano e termine
ferindo alguém ou a si próprio.
— Ele parece que está furioso.
— Você está sendo gentil. Ele foi sempre do tipo perfeccionista. Acontece que a
raiva que sente era dirigida em sua maior parte para si mesmo. Servia como estímulo
para atingir seus objetivos, mas isso foi mudando no decorrer dos anos. Acabou sendo
um dos principais motivos de nosso divórcio.
— Sinto muito por isso — disse Marsha.
— Ele é basicamente um bom homem. Egoísta e egocêntrico, mas mesmo assim,
um excelente médico. Certamente um dos melhores cirurgiões em sua área.
— Não estou surpresa. Um fato que me deixou impressionada a seu respeito foi
que em meio a tudo isso ele ainda consegue pensar em outras crianças.
— Como se sente no que diz respeito a ajudá-lo depois do que viu aqui esta
tarde? — perguntou Tracy. — Seria bom se ele pudesse canalizar sua fúria em alguma
direção positiva.
— Eu gostaria muito de ajudar — respondeu Marsha. — Mas acho que ele me
deixou amedrontada. Não o conheço da maneira como você, é difícil para mim julgar
suas ações.
— Compreendo — disse Tracy. — Mas espero que considere o assunto. Vou lhe
dar o endereço dele. Conhecendo-o tão bem, estou certa de que ficará entocado por lá
até que sua raiva e senso de justiça o façam agir. Tudo o que espero é que, com sua
ajuda, as energias dele sejam canalizadas numa direção em que possam fazer alguma
diferença.
Marsha entrou em seu carro. Antes de dar a partida, ficou meditando sobre os
acontecimentos daquele dia incomum. Tudo começara quando decidira impulsivamente
trabalhar algumas horas extras na Mercer Meats.
Ficou pensando no que poderia fazer para conseguir a informação que Kim
desejava. Os locais de onde vinha a carne eram anotados nos livros de registro, porém


não era sua função especificar as fontes de origem. Seu trabalho era apenas o de
confirmar que os registros eram mantidos. Sabendo que sempre havia alguém de olho
nela, procurou pensar numa forma de agir sem levantar suspeitas. O maior problema
seria esconder de seu chefe, uma missão difícil, já que a Mercer Meats mantinha estreita
comunicação com seus superiores sobre tudo o que ela fazia.
A solução era óbvia. Teria de voltar depois do expediente, quando somente o
pessoal da faxina estivesse de serviço. Na verdade, o sábado era um dia ideal; o local
estaria mais calmo que de costume.
Marsha tirou do bolso o papel com o endereço, que Tracy lhe dera e consultou o
guia de ruas que tinha no carro. A casa de Kim ficava relativamente perto; resolveu
fazer-lhe uma visita para ver se continuava interessado em sua ajuda.
Não demorou muito para chegar ao endereço, mas ficou desanimada por não
encontrar nenhuma luz acesa. A casa era uma enorme silhueta negra cercada por um
denso arvoredo.
Marsha já ia embora quando notou o carro de Kim estacionado nas sombras
escuras, em frente à garagem. Decidiu então saltar e foi até a porta da frente, apesar de
ter pouca esperança de encontrá-lo.
Marsha tocou a campainha. Surpreendeu-se com a altura e a clareza do som e foi
quando percebeu que a porta só estava encostada. Como Kim não atendia, tocou de
novo. Continuou sem resposta.
Desorientada e preocupada pela porta entreaberta em pleno inverno, Marsha
aventurou-se e a empurrou para dentro. Enfiou a cabeça no hall e chamou pelo nome de
Kim. Não obteve resposta.
A vista de Marsha acostumou-se à escuridão e do lugar onde estava podia divisar
a escada, a sala de jantar e o corredor que dava para a cozinha. Chamou novamente por
Kim, mas sem resultado.
Indecisa, Marsha pensou em ir embora. Lembrou-se então de que Tracy lhe
dissera sobre a possibilidade dele procurar ferir a si próprio. Pensou por um instante se
seria melhor chamar a polícia, mas pareceu-lhe uma atitude precipitada diante de tão
pouca evidência. Decidiu sondar um pouco mais antes de tomar alguma decisão.
Tomou coragem e entrou no hall com a intenção de ir até a escada, mas não
chegou tão longe. Depois de dar alguns passos estancou, imobilizada de medo. Kim
estava sentado na única poltrona da sala, a menos de três metros dela. Parecia um
espectro na penumbra. A jaqueta branca brilhava como a leve fosforescência de um
antigo relógio de pulso.
— Meu Deus! — exclamou Marsha. — Você me assustou!
Kim não respondeu. Nem sequer se moveu.
— Dr. Reggis? — chamou Marsha. Numa fração de segundo passou-lhe pela
cabeça a idéia de que poderia estar morto.
— O que você quer? — perguntou com a voz arrastada.
— Talvez fosse melhor não ter vindo. Só queria oferecer minha ajuda.
— De que jeito?
— Fazendo o que me pediu antes. Sei que não trará sua filha de volta, mas
gostaria de ajudá-lo a descobrir a origem da carne daqueles lotes que julga poderem
estar contaminados. Talvez não dê em nada. Precisa entender que hoje em dia a carne
com que é feito um único hambúrguer pode vir de uma centena de reses espalhadas por
dezenas de países diferentes. Seja como for, estou disposta a tentar, se ainda precisar de
mim.
— Por que essa mudança de atitude?
— Principalmente porque tinha razão sobre o efeito de se ver uma criança


doente. E também porque está certo sobre o que disse a respeito do Departamento de
Agricultura. Antes eu era relutante em admitir, mas sei que existe má vontade por parte
de meus superiores quando são obrigados a tomar algum tipo de providência que há um
grande conluio entre o departamento e a indústria da carne. Todos os relatórios de
ocorrência em que assinalei violações e irregularidades foram ignorados por meu
gerente distrital, que só faltou dizer na minha cara para eu fechar os olhos quando surgir
alguma anormalidade.
— Por que não me contou isso antes? — perguntou Kim.
— Não sei. Lealdade ao patrão, suponho. Veja bem, eu acredito no sistema.
Acho que só precisa de mais gente como eu, que deseja vê-lo funcionando.
— E enquanto isso, a carne é contaminada e pessoas adoecem; crianças como
Becky morrem.
— Infelizmente, é verdade. Mas nós que estamos no negócio, sabemos onde
reside o problema: nos abatedouros. A lucratividade pesa mais que a segurança.
— Quando quer começar? — perguntou Kim.
— A qualquer hora. Agora mesmo, se estiver disposto. Para dizer a verdade,
agora à noite é um excelente momento. As únicas pessoas na Mercer Meats são as da
turma de limpeza. Não acredito que alguém vá reparar se eu vasculhar os livros de
registro.
— Está bem, você está dentro. Vamos lá.

13
Sábado, 24 de janeiro - Noite
Tracy encontrava-se em estado de choque. O divórcio tinha sido difícil,
especialmente a batalha pela custódia de Becky, mas aquilo mão era, nada comparado
ao que sentia agora. Graças à sua experiência como terapeuta, podia interpretar os
sintomas com clareza; encontrava-se à beira de entrar em uma depressão profunda. Pelo
que tinha observado, atendendo outras pessoas que passaram por circunstâncias
semelhantes, sabia que não seria fácil, mas estava decidida a não se deixar dominar,
embora soubesse que seria impossível escapar ao sofrimento.
Dobrou na última curva e ao aproximar-se de sua casa avistou o Lamborghini
amarelo de Carl, estacionado em frente ao portão. Não sabia se ficaria contente ou não
com sua presença.
Tracy parou do lado de fora da garagem e desligou o carro. Carl vinha descendo
os degraus da varanda para recebê-la com um buquê de flores.
Tracy saltou do carro e atirou-se em seus braços. Ficaram em silêncio durante
alguns minutos; ele apenas a manteve abraçada na luz difusa do fim de tarde.
— Como soube? — perguntou Tracy, com o rosto ainda colado ao peito dele.
— Como membro do conselho administrativo do hospital, sei de tudo o que
acontece. Eu sinto muito.
— Obrigada. Meu Deus, eu estou arrasada.
— Posso imaginar. Venha, vamos entrar.
Começaram a andar pelo passeio de pedra.
— Soube do escândalo de Kim — disse Carl. — Deve ter pesado ainda mais
sobre você.
Tracy apenas balançou a cabeça.
— O homem está nitidamente fora de controle. Quem ele pensa que é? Deus? O
hospital inteiro está de pernas para o ar.


Tracy abriu a porta sem responder. Os dois entraram.
— Kim está passando por um momento difícil — disse Tracy
— Ah! — comentou Carl, pegando o casaco dela e pendurando-o junto com o
seu no cabideiro do hall. — Isso é mera suposição. Você, como sempre, está sendo
generosa. Eu não sou assim tão caridoso. Na verdade, devia dar-lhe umas porradas pela
baderna que provocou ontem à noite no Onion Ring, insinuando que Becky foi
contaminada lá. Você leu o artigo no jornal? Provocou uma forte queda nas ações da
empresa. Não sei quanto dinheiro perdi por causa de sua insanidade.
Tracy foi para a sala de estar e se jogou sobre o sofá. Estava exausta, mas ao
mesmo tempo ligada e ansiosa. Carl foi atrás dela.
— Posso lhe trazer alguma coisa? — perguntou Carl. — Uma bebida ou alguma
coisa para comer?
Tracy sacudiu a cabeça. Carl sentou-se numa ponta do sofá.
— Conversei com alguns diretores da Foodsmart — prosseguiu ele. — Estamos
pensando seriamente em processá-lo se as ações continuarem caindo.
— Não foi uma acusação infundada — disse Tracy. — Becky comeu um
hambúrguer malpassado no Onion Ring, na véspera do dia em que ficou doente.
— Ora, francamente — disse Carl, negando com um gesto de mão. — Becky
não
pode ter ficado doente lá. O Onion Ring vende centenas de milhares de hambúrgueres, e
ninguém fica doente. Eles são fritos até a morte.
Tracy permaneceu em silêncio. Carl percebeu rapidamente a gafe.
— Desculpe. Não foi uma expressão apropriada para o momento.
— Não tem importância, Carl — respondeu Tracy, enfastiada.
— Vou lhe dizer o que me aborrece nisso tudo — prosseguiu Carl. — O
hambúrguer ficou desacreditado por causa dessa história de E. coli. E uma reação de
causa e efeito: E. coli e hambúrguer. Diabos, as pessoas têm contraído esse mesmo E.
coli em suco de maçã, alface, leite, e até nadando em água suja! Não acha injusto que a
culpa tenha de cair toda em cima do hambúrguer?
— Eu não sei — respondeu Tracy. — Desculpe-me se não consigo ser mais
compreensiva. Estou meio entorpecida. Não consigo nem pensar.
— É claro, querida. Sou eu quem deveria pedir desculpas por agir assim. Acho
que está precisando comer alguma coisa. Quando foi sua última refeição?
— Não me lembro.
— Ah, você não toma jeito. Que acha de sairmos para jantar num lugar calmo?
Tracy encarou Carl, sem poder acreditar no que ouvia.
— Minha filha acaba de morrer — disse. — Não vou a lugar nenhum. Como
pode sequer fazer uma pergunta dessas?
— Está bem — disse Carl, erguendo as mãos defensivamente. — Foi só uma
idéia. Eu acho que você devia comer alguma coisa. Posso sair para comprar. O que
acha?
Tracy cobriu o rosto com as mãos. Carl não ajudava em nada.
— Não tenho fome — disse ela. — Talvez seja melhor ficar sozinha em casa
esta noite. Não creio que serei boa companhia.
— Sério? — questionou Carl, parecendo magoado.
— Sério — respondeu Tracy, erguendo o rosto. — Estou certa de que deve
haver algo que precisa fazer.
— Bem, há o jantar na casa de Bobby Bo Mason. Lembra-se quando lhe disse?
— Acho que não. Quem é Bobby Bo?


— E um dos barões do gado da região. Esta noite será a celebração de sua posse
na presidência da Associação Americana da Carne.
— Parece muito importante — disse Tracy, o extremo oposto do que estava
sentindo.
— E é — assegurou Carl. — Trata-se da organização nacional mais poderosa do
mercado.
— Então vá. Não quero atrapalhá-lo.
— Você não se incomodaria? Vou estar com meu celular. Pode me ligar, se
precisar, que eu estarei aqui em menos de vinte minutos.
— Não me incomodo em absoluto. Na verdade, me sentiria mal se você deixasse
de ir por minha causa.
A luz do painel do automóvel iluminava o rosto de Kim. Marsha lançou-lhe
olhares furtivos enquanto guiava. Depois de observá-lo com mais calma, tinha de
admitir para si mesma que era um homem atraente, apesar da barba de dois dias.
Rodaram em silêncio por um longo trecho. Finalmente, Marsha conseguiu que
ele falasse um pouco de Becky. Estava com um pressentimento de que ele iria se sentir
melhor conversando sobre a filha, e tinha razão. Kim pareceu mais aliviado e a
surpreendeu contando histórias da destreza de Becky nos patins, algo que Tracy não
havia mencionado.
Quando a conversa sobre Becky esmoreceu, Marsha também lhe contou um
pouco de si mesma e que era formada em veterinária. Falou de como ela e uma amiga
quiseram entrar no Departamento de Agricultura, determinadas a mudar a situação.
Contou como descobriram, já depois de formadas, sobre os entraves para a admissão na
área de veterinária do Departamento. As únicas vagas disponíveis eram para o serviço
de inspeção. No final, apenas Marsha entrou. A amiga entendeu que o tempo de um ano
ou mais que demoraria para uma transferência não valia o sacrifício e optou pela prática
veterinária particular.
— Faculdade de veterinária? — comentou Kim. — Quem diria!
— Por que o espanto?
— Não sei bem como definir. Talvez você seja muito... — Kim não encontrava
uma palavra adequada. Finalmente, pronunciou: — muito elegante, eu acho. Sei que
posso parecer rude, mas eu esperaria alguém mais...
— Mais o quê? — perguntou Marsha, enquanto Kim procurava outra vez as
palavras. Ela estava se divertindo com a falta de jeito dele.
— Acho que masculinizada — disse, finalmente, deixando escapar um risinho
sem graça. — Creio que é uma coisa idiota para dizer.
Marsha riu também. Ao menos ele percebia o quanto podia ser ridículo.
— Se não se importa que eu lhe pergunte, quantos anos tem? Sei que não é uma
pergunta apropriada, mas, ao menos que tenha sido uma criança prodígio, não tem só
uns vinte e poucos anos, como pensei.
— Certamente não. Estou com vinte e nove, quase trinta.
Marsha esticou o braço e ligou os limpadores do pára-brisa. Estava começando a
chover e a escuridão era total, apesar de não passar muito das seis da tarde.
— Como farei para entrar na Mercer Meats? — perguntou Kim.
— Já lhe disse, isso não será problema. O turno do dia já foi embora há muito
tempo, junto com os supervisores. Somente o pessoal da faxina vai estar lá, além do
guarda de segurança.
— Bem, o guarda não vai ficar muito contente de me ver entrando — disse Kim.
— Talvez fosse melhor eu esperar no carro.


— O segurança não será problema. Trouxe meus dois cartões de identificação, o
do Departamento de Agricultura e o da Mercer Meats.
— Isso está bem para você. E eu?
— Não se preocupe — reafirmou Marcha. — Eles me conhecem; jamais me
pediram o cartão de identificação. Se perguntarem, direi que é meu supervisor. Ou que
estou treinando você. — Ela soltou uma risada.
— Não estou vestido como alguém do Departamento de Agricultura.
Marsha deu outra espiada em Kim e sorriu.
— O que sabe um vigia noturno? Acho que está com uma aparência esquisita o
suficiente para se passar por qualquer coisa.
— É muito cortês de sua parte — comentou Kim.
— E o que de pior poderia nos acontecer? Não deixarem a gente entrar.
— E você se meter numa encrenca.
— Já pensei nisso — disse Marsha — O que tiver de ser, será.
Marsha saiu da via expressa e pegou a estradinha para Bartoville. Tiveram de
parar no único sinal de trânsito da cidade, no cruzamento da rua Mercer com a principal.
— Quando penso em hambúrguer — disse Marsha — fico pasma que as pessoas
comam isso. Eu já era meio vegetariana antes desse trabalho. Agora, sou radical.
— Dito por uma inspetora do Departamento de Agricultura não é nada
animador.
— Fico com o estômago embrulhado só de pensar no que o hambúrguer contém.
— O que quer dizer? É carne de músculo.
— Músculo e mais um monte de outras coisas. Já ouviu falar no Sistema
Avançado de Recomposição de Carne?
— Não, nunca.
— É um aparato de alta pressão que usam para retirar todo e qualquer resíduo de
carne dos ossos bovinos. O resultado é uma pasta cinzenta que tingem de vermelho para
acrescentar ao hambúrguer.
— Isso é nojento.
— Além do tecido nervoso do animal, como a medula espinhal. Isso está
presente em qualquer hambúrguer.
— Tem certeza?
— Absoluta. É bem pior do que se pensa. Ouviu falar na doença da vaca louca?
— E quem não ouviu? Isso me deixa apavorado. Uma proteína com resistência
às altas temperaturas que você ingere através da comida e é fatal. É aterrador. Graças a
Deus não a temos neste país!
— Não a temos por enquanto. Pelo menos ainda não foi relatada até agora. Mas
se quer minha opinião, é só uma questão de tempo. Sabe qual o motivo que
aparentemente provocou a doença da vaca louca na Inglaterra?
— Creio que foi através de uma ração produzida através da farinha de carne de
ovelhas — respondeu Kim. — Ovelhas contaminadas com vírus.
— Exatamente. E neste país existe oficialmente uma proibição no que se refere a
alimentar o gado com farinha de carne de ovelha. Mas, sabe de uma coisa? Não existe
fiscalização, e já me foi revelado até que a quarta parte das fábricas de ração admitem
extra-oficialmente, que ignoram a proibição.
— Em outras palavras, as mesmas condições que provocaram a doença da vaca
louca na Inglaterra estão presentes aqui?
— Estão. E com medula espinhal e coisas do gênero entrando rotineiramente na
composição do hambúrguer, fica instaurado o elo com os seres humanos. É por isso que
digo que é só uma questão de tempo antes que ocorram os primeiros casos.


— Deus do céu! — exclamou Kim. — Quanto mais ouço sobre esse negócio
sujo, mais horrorizado eu fico. Não fazia a menor idéia sobre nada disso.
— Nem o grande público.
O enorme prédio branco da Mercer Meats surgiu à frente deles e Marsha entrou
na área de estacionamento. Ao contrário daquela manhã, havia poucos carros. Ela parou
perto do portão principal na mesma vaga da manhã, e desligou o carro.
— Está pronto? — perguntou.
— Tem certeza de que não vou levantar suspeitas? — perguntou.
— Vamos! — disse Marsha. Abriu a porta do carro e saltou
O portão principal estava fechado. Marsha bateu com o nó dos dedos. No
interior, o guarda lia uma revista, sentado à mesa circular da recepção. Ele se levantou e
veio até a porta. Era um senhor magro, de meia-idade e com bigode fino. O uniforme
parecia de um número bem maior que o seu.
— A Mercer Meats está fechada — disse, por trás do vidro.
Marsha mostrou seu cartão de identificação. O guarda apertou os olhos para
poder enxergar. Em seguida destrancou a porta e abriu. Marsha entrou imediatamente.
— Obrigada — disse, simplesmente.
Kim entrou logo atrás dela. Sentiu que o guarda o olhava desconfiado, mas o
homem não disse nada. Apenas trancou a porta.
Kim precisou correr para alcançar Marsha, que já tinha passado pela recepção e
seguia a passo rápido pelo corredor.
— Não lhe disse? Sem problemas.
O guarda de segurança foi até o fundo da sala de recepção e os ficou observando
até desaparecerem pela ante-sala que dava acesso à área de produção. Voltou para a
mesa e pegou o telefone. O número de que precisava estava escrito numa fita crepe,
colada num canto do balcão.
— Sr. Cartwright — disse o guarda assim que atenderam a ligação. — Aquela
mulher do Departamento de Agricultura, Srta. Baldwin, acaba de entrar acompanhada
de outro sujeito.
— Ele está usando um avental branco, como de um médico? — perguntou Jack.
— Sim — respondeu o guarda.
— Quando saírem faça-os assinar o livro. Quero uma prova de que estiveram aí.
— Farei isso, senhor.
Jack sequer repôs o aparelho no gancho. Apertou o botão de discagem rápida e
esperou. No instante seguinte, a poderosa voz de Everett reverberou do outro lado da
linha.
— Marsha Baldwin e o médico estão na fábrica — disse Jack.
— Droga! — gaguejou Everett. — Não era isso o que eu queria ouvir. Como,
diabos, ficou sabendo?
— Pedi à segurança que me avisasse caso eles dessem as caras.
— Bem pensado. Só queria saber o que procuram.
— Acho que pretendem rastrear a origem de um lote. Foi o que ele me pediu
para fazer esta manhã.
— Não vamos ficar tentando adivinhar — disse Everett. — Corra para lá e
descubra o que estão fazendo. Depois me ligue o mais rápido possível. Não quero que
isso estrague minha noite.
Jack desligou o telefone. Não queria arruinar sua noite também. Estivera
aguardando ansiosamente pelo jantar na casa de Bobby Bo há um mês, e certamente não
estava em seus planos aquele retorno à fábrica. Com extremo mau humor, vestiu o
casaco e saiu para pegar o carro na garagem.


Kim saltitava e abanava os braços. Não sabia o motivo, mas a temperatura de um
grau centígrado da sala de processamento dava a impressão de uns dez graus abaixo de
zero. Antes de entrar, na ante-sala, vestira um avental da Mercer Meats por cima do que
usava no hospital, eles eram de algodão e, por baixo, ele vestia apenas um jaleco. As
três camadas não eram suficientes para isolar do frio, ainda mais porque ele estava
basicamente parado. A touca branca que enfiou na cabeça não ajudava muito.
Marsha já estava folheando os livros de registro há mais de quinze minutos.
Localizar datas, lotes e fornadas estava tomando mais tempo que o esperado.
Inicialmente, Kim acompanhou o trabalho dela, mas quanto mais frio sentia menos
interesse demonstrava.
Dois outros homens encontravam-se no recinto, limpando a máquina de prensar
hambúrgueres com jatos de vapor a alta pressão. Quando Kim e Marsha entraram, eles
não lhes deram a menor atenção.
— Ah, achei — disse Marsha, triunfante. — Aqui está: 29 de dezembro. Correu
o dedo pela coluna até chegar ao Lote 2. Em seguida moveu-o na horizontal até as
partidas correspondentes: de um a cinco. — Opa! Essa não!
— Qual o problema? — perguntou Kim. Ele aproximou-se para verificar.
— Exatamente o que eu temia. As partidas de um a cinco foram produzidas com
uma mistura de carne fresca desossada da Higgins Hancock e carne moída congelada
importada. O material importado é impossível de ser identificado além, talvez, do país
de origem. Isso é claro, não serve para o que você quer.
— O que é essa Higgins e Hancock?
— E um matadouro local. Um dos maiores.
— E quanto ao outro lote?
— Vamos verificar — disse Marsha, virando a página. — Aqui está a data.
Quais são mesmo os números do lote e da partida?
— Lote seis, partidas nove a quatorze — disse Kim, consultando o papel.
— Muito bem, aqui está. Estaremos com sorte se a produção de 12 de janeiro for
a que procuramos. Essas fornadas vieram todas da Higgins e Hancock. Dê uma olhada.
O registro indicava que o lote completo fora produzido com carne fresca da
Higgins e Hancock, no dia 9 de janeiro.
— Haveria alguma forma de nos restringirmos a apenas um?
— Segundo o cozinheiro do Onion Ring, não. Mas deixei as amostras de ambos
no laboratório. Devem entregar o resultado na segunda-feira.
— Então até lá vamos assumir que seja a data de janeiro porque é a única
que temos condições de rastrear. Com sorte poderemos chegar ao fornecedor da Higgins
e Hancock.
— É sério? — perguntou Kim. — Acha que podemos descobrir de onde veio a
carne adquirida pelo matadouro?
— É como funciona o sistema — respondeu Marsha. — Ao menos em teoria. O
problema é que cabem muitas vacas em cada um daqueles tonéis de uma tonelada de
carne desossada. Minha idéia é rastrear os animais pelas faturas de compra até os
ranchos ou fazendas de onde vieram. De qualquer forma, o próximo passo é ir até a
Higgins e Hancock.
— Passe para cá esse maldito livro — berrou Jack Cartwright
Marsha e Kim pularam com o susto no momento em que Jack investia sobre
Marsha para arrancar-lhe o pesado volume das mãos. O barulho da máquina de alta
pressão os impediu de ouvir o homem entrar na sala e se aproximar deles.
— Dessa vez ultrapassou seus limites, Srta. Baldwin! — Jack estampava um
sorriso cínico e triunfante, apontando um dedo acusatório para o rosto de Marsha.


Ela procurou recompor-se do susto.
— Do que está falando? — perguntou, buscando um tom autoritário. — Eu
tenho o direito de examinar os livros.
— Tem coisa nenhuma — prosseguiu Jack, com o dedo ainda apontado para o
seu rosto. — Tem o direito de conferir se os registros são mantidos; mas eles são
propriedade privada de uma empresa privada. E o mais grave, o Departamento de
Agricultura não lhe concede a autoridade de trazer o público para ver esses livros.
— Já chega — disse Kim, enfiando-se entre os dois. — Se existe algum culpado
aqui, esse alguém sou eu.
Jack ignorou Kim.
— Uma coisa de que posso assegurá-la, Srta. Baldwin, é que Sterling
Henderson, seu gerente distrital no Departamento, será informado dessa sua violação
tão logo seja possível.
Kim deu um tapa no dedo apontado de Jack e agarrou-o pela gola do casaco.
— Escute aqui, seu miserável asqueroso!
Marsha o agarrou pelo braço.
— Não! — gritou. — Solte-o. Não vamos complicar ainda mais as coisas.
Relutante, Kim o soltou. Jack desamarrotou a gola.
— Quero os dois fora daqui — vociferou — antes que eu chame a polícia.
Kim encarou o vice-presidente da Mercer Meats. Por um instante de cega
irracionalidade, o homem incorporou todo o ódio de Kim. Marsha teve de puxá-lo com
força pelo braço para que pudessem deixar o local.
Jack esperou que saíssem. Assim que a porta bateu, pegou os livros e colocou-os
na prateleira correspondente. Foi atrás de Marsha e Kim, mas não os viu no vestiário.
Quando chegou à recepção, eles já tinham deixado o prédio. Ainda conseguiu ver o
carro dela atravessando o portão do estacionamento e ganhando a rua.
— Não me deram a menor atenção — disse o guarda. — Tentei dizer a eles que
tinham de assinar o livro.
— Não faz diferença agora — disse Jack, a caminho de seu escritório. Sem
perda de tempo, discou o número de Everett.
— O que descobriu? — perguntou Everett.
— Exatamente o que suspeitava — respondeu Jack. — Estavam na sala de
processamento, bisbilhotando os livros de registro.
— Chegaram a ver os relatórios de formulação?
— O guarda disse que só entraram na sala de processamento. Não podem tê-los
visto.
— Já é uma bênção. A última coisa que desejo é que alguém descubra que
estamos reciclando hambúrgueres congelados com o prazo de validade vencido. E isso
pode acontecer se alguém meter o nariz nos relatórios de formulação.
— Essa questão não preocupa agora — disse Jack. — O problema é que esses
dois podem acabar chegando na Higgins e Hancock. Pude ouvi-los mencionando o
nome antes de surpreendê-los. Acho que Daryl Webster precisa ser avisado.
— Excelente idéia! Podemos conversar sobre esse assunto com Daryl quando
nos encontrarmos logo mais à noite. Melhor ainda, vamos ligar para ele agora mesmo.
— Quanto mais cedo, melhor — concordou Jack. — Quem sabe o que aqueles
dois podem fazer, com aquele médico ensandecido da forma como está.
— Eu te encontro na casa de Bobby Bo — disse Everett.
— Devo chegar um pouco atrasado. Ainda tenho de passar em casa para trocar
de roupa.
— Bem, então mexa-se! Quero você lá para a reunião do Comitê de Prevenção.


— Vou fazer o possível — disse Jack.
Everett desligou o aparelho e procurou pelo número de Daryl Webster. Estava
vestindo seu smoking no closet ao lado do quarto de vestir, no andar superior de sua
residência. No momento em que o telefone tocou, lutava para colocar as abotoaduras.
Trajes formais não eram uma constante na vida de Everett.
— Everett! — Gladys Sorenson chamou de dentro da suíte do casal. Gladys e
Everett estavam casados a mais tempo do que ele queria admitir. — É bom apressar-se,
querido. Só temos meia hora para chegarmos à casa dos Masons.
— Preciso fazer uma ligação rápida — gritou ele em resposta. Achou o número
e discou apressadamente.
— Daryl, aqui é Everett Sorenson.
— Mas que surpresa! — respondeu Daryl.
Os dois não tinham apenas trilhado carreiras semelhantes; chegavam mesmo a
ser fisionomicamente parecidos. Daryl era igualmente troncudo, de pescoço grosso,
mãos abrutalhadas e o rosto vermelho e inchado. A diferença era que Daryl tinha
cabelos na parte superior da cabeça e orelhas de tamanho normal.
— Minha esposa e eu já estávamos de saída para a casa dos Masons.
— Gladys e eu também estamos — disse Everett. — Mas aconteceu um
imprevisto. Lembra-se daquela jovem inspetora pé-no-saco, Marsha Baldwin, que vem
me trazendo aborrecimentos?
— Sim, Henderson me falou dela. Uma verdadeira encrenqueira, pelo que
entendi.
— Pois bem, ela se juntou àquele médico maníaco que foi preso ontem à noite
numa das lanchonetes Onion Ring. Você leu no jornal?
— E quem não leu? — disse Daryl. — Fiquei suando frio com essa história de
E. coli.
— Eu também. E a situação está piorando. Há poucos minutos ela invadiu minha
fábrica com o médico. Ele conseguiu, de alguma forma, que ela o ajudasse a rastrear
carne.
— Provavelmente à procura de E. coli.
— Sem sombra de dúvidas — disse Everett.
— Isso é muito perigoso.
— Concordo com você. Especialmente depois que Jack Cartwight os ouviu
mencionando o nome da Higgins e Hancock. Estamos achando que eles podem aparecer
no seu abatedouro com a mesma finalidade.
— Eu não preciso disso — disse Daryl.
— Discutiremos uma solução definitiva hoje à noite. Você recebeu o recado?
— Recebi. Bobby Bo me ligou.
— Nesse meio tempo é bom tomar precauções — aconselhou Everett.
— Obrigado pela dica. Vou telefonar para alertar meus seguranças.
— Exatamente o que eu ia sugerir. Até logo mais.
Daryl desligou o aparelho. Ergueu um dedo para avisar sua esposa, Hazel, que
precisava ainda fazer uma ligação rápida. Hazel, num vestido de gala, estava impaciente
aguardando ao lado da porta.
Enquanto ela batia com o pé no chão, Daryl discou o número do matadouro.
Marsha entrou no passeio da casa de Kim e parou o carro bem atrás do dele.
Manteve o motor ligado e os faróis acesos.
— Muito obrigado pelo que fez — disse Kim. Estava com a mão na maçaneta,
mas ainda não tinha aberto a porta. — Só sinto não ter me comportado com mais


tranqüilidade.
— Poderia ter sido pior — respondeu Marsha. — E quem sabe o que ainda está
por acontecer? Temos de esperar para ver.
— Gostaria de entrar um pouco? Minha casa está uma bagunça, mas posso lhe
oferecer uma bebida.
— Obrigada, mas vou deixar para a próxima. Você me fez começar algo que
pretendo terminar. Quando obtiver os resultados da análise na segunda-feira, quero estar
com todos os dados possíveis sobre a origem da carne. Assim teremos maiores
possibilidades para requerer a ação de recolhimento do material.
— Está planejando fazer alguma coisa agora?
— Sim — respondeu Marsha, consultando o relógio. — Vou daqui direto para a
Higgins e Hancock. Essa pode ser minha única chance. Como já lhe disse, o gerente
distrital do Departamento de Agricultura e eu nunca nos demos bem. Na segunda-feira,
quando souber de nossa escapada por Jack Cartwright, eu já deverei ter perdido meu
emprego. Isso significa que perderei meu crachá de identificação.
— Meu Deus! — comentou Kim. — Se você for despedida, vou me sentir
péssimo. Certamente não era o que pretendia.
— Não há por que sentir-se responsável. Eu sabia do risco que corria e não me
arrependo. Como você disse, eu deveria estar protegendo o público.
— Se vai para o matadouro agora, irei com você. Não a deixarei só.
— Sinto muito, mas isso está fora de questão. Achei que não teríamos problemas
na Mercer Meats e você viu no que deu. Com a Higgins e Hancock a história é outra.
Lá, eu sei que teremos problemas. Droga, já será difícil eu conseguir entrar mesmo com
a identificação do Departamento de Agricultura!
— Por quê? Na qualidade de inspetora do Departamento de Agricultura, não tem
o direito de visitar qualquer estabelecimento do ramo?
— Só quando sou designada. Especialmente num abatedouro. Eles têm seus
próprios grupos de inspeção no Departamento de Agricultura. Os abatedouros têm
métodos parecidos com os de uma instalação nuclear no que se refere à segurança. Não
precisam de visitantes e não os querem. Visitantes só trazem problemas.
— O que os abatedouros estão escondendo? — perguntou Kim.
— Principalmente seus métodos. Em primeiro lugar, não é um cenário
agradável, na melhor das hipóteses. Especialmente após a desregulamentação na década
de oitenta, os abatedouros aceleraram suas linhas de produção, ou seja, passaram a
processar um maior número de animais por hora. Alguns deles conseguem chegar à
impressionante cifra de trezentos animais por hora. Nessa velocidade, a contaminação é
inevitável. Na verdade, tão inevitável, que a indústria entrou com um processo contra o
Departamento de Agricultura quando considerou oficialmente chamar de contaminada a
carne com E. coli.
— Não pode estar falando sério!
— Acredite em mim — disse Marsha. — É verdade.
— Está me dizendo que a indústria tem conhecimento de que o E. coli está
presente na carne? E afirmam que nada pode ser feito?
— Exatamente — disse Marsha. — Não toda a carne, apenas uma parte.
— Isso é chocante! O público precisa ficar sabendo disso. Não é possível! Você
me convenceu de que tenho de ver um abatedouro em operação.
— Por isso os abatedouros não querem saber de visitantes e esse é exatamente o
motivo por que você jamais entraria. Mas poderia encontrar um jeito. O trabalho é
muito puxado e o maior problema é a falta de empregados. Por isso, se um dia se cansar
de ser cirurgião cardíaco, talvez consiga arrumar emprego. É claro que ajudaria se fosse


um imigrante ilegal, assim poderiam lhe pagar abaixo do salário mínimo.
— Você não está pintando um quadro muito bonito.
— É a realidade. É um trabalho pesado e indesejado. A indústria sempre contou
com a mão-de-obra dos imigrantes. A diferença é que hoje os trabalhadores são latinos,
principalmente mexicanos, ao contrário dos europeus do leste que vinham antigamente.
— Me parece cada vez pior. Não entendo como até hoje nunca pensei nisso. Eu
como carne, portanto também sou responsável de certa forma.
— É o lado podre do capitalismo — disse Marsha. — Não quero parecer uma
socialista radical, mas esse é um típico exemplo vivo da lucratividade sobre a ética:
ganância com absoluto descasa pelas conseqüências. Foi isso o que me motivou a entrar
para o Departamento de Agricultura, porque o departamento tem o poder de interferir.
— Quando essa interferência é adequada aos que estão no poder — acrescentou
Kim.
— É verdade — concordou Marsha.
— Em suma, estamos falando de uma indústria que explora sua força de trabalho
e não sente o menor remorso em matar centenas de crianças por ano — Kim sacudiu a
cabeça, incrédulo. — Sabe de uma coisa? Essa ausência total de ética me faz ficar ainda
mais preocupado por você.
— Como assim?
— Essa ida à Higgins e Hancock agora à noite, principalmente sob falsos
pretextos. Usando seu cartão do Departamento de Agricultura, estará deixando
subentendido que é uma visita oficial.
— É óbvio. É a única maneira que tenho de entrar.
— Bem, com todos esses cuidados que tomam, você não vai estar correndo
riscos? Não estou me referindo à sua estabilidade no trabalho.
— Entendo o que quer dizer. Agradeço a preocupação, mas não estou mais
ligando para o meu bem-estar. O pior que pode acontecer será reclamarem com meu
chefe, como ameaçou Jack Cartwight.
— Tem certeza? — perguntou Kim. — Se houver algum perigo, não vou querer
que se arrisque. Para dizer a verdade, depois do incidente na Mercer Meats, sinto-me
culpado por tê-la envolvido nisso — Talvez seja melhor deixar que eu cuide de tudo
sozinho. Se você for até lá hoje à noite, vou ficar uma pilha de nervos.
— Obrigada pela consideração, mas acho que devo ir e ver o que posso fazer.
Não vou me machucar ou acabar em situação pior do que a que já estou. Talvez não
consiga nem entrar. E como já disse, você não vai poder fazer nada porque certamente
não terá permissão de entrar.
— Talvez eu possa arranjar um emprego, como sugeriu.
— Ei, só estava brincando! Só quis lhe mostrar como é.
— Estou decidido a levar isso às últimas conseqüências.
— Escute — disse Marsha. — Posso ligar para você do meu celular a cada
quinze ou vinte minutos. Assim você não fica preocupado e eu posso deixá-lo a par do
que for descobrindo. O que acha?
— Já é alguma coisa, creio — disse Kim, sem mostrar muito entusiasmo.
Porém quanto mais pensava, melhor ia aceitando a idéia. A desculpa de procurar
um emprego num abatedouro não era a mais atraentes, e Marsha era categoricamente
confiante quanto a ausência de riscos.
— Digo mais — acrescentou Marsha. — A visita não irá me tomar muito tempo,
e, depois que terminar, volto para tomarmos aquele drinque que me ofereceu. Isto é, se
o convite ainda estiver de pé.
— É claro — disse Kim, mentalizando o plano uma vez mais. No instante


seguinte, apertou ligeiramente o braço dela antes de saltar do carro. Com a porta ainda
aberta, inclinou-se e disse: — É melhor anotar meu telefone.
— Bem pensado. — Marsha abriu o porta-luvas e tateou à procura de caneta e
papel.
— Vou ficar grudado no aparelho — disse, depois de lhe dar o número — por
isso é melhor ligar.
— Não se preocupe.
— Boa sorte.
Kim bateu a porta do carro e a observou dar marcha à ré, manobrar e acelerar rua
abaixo. Ficou ali de pé até que a luz vermelha da lanterna e seu reflexo no asfalto
molhado fossem engolidos pela noite.
Kim deu meia-volta e ficou olhando a casa escura e vazia. Nem uma única luz
delineava sua forma sombria. Sentiu um calafrio. Subitamente só, a crua realidade da
ausência de Becky se abateu sobre ele. A trágica melancolia que sentira antes voltou a
dominá-lo. Kim sacudiu a cabeça, no desespero frente à fragilidade de seu mundo. Sua
família e sua carreira pareciam muito sólidas, mas tinham-se desintegrado praticamente
num piscar de olhos.
A casa de Bobby Bo Mason estava iluminada como um cassino de Las Vegas. A
fim de proporcionar a atmosfera de gala adequada para o jantar de inauguração, ele
tinha contratado um iluminador teatral para cuidar do serviço. E para tornar a cena ainda
mais festiva, uma banda tocava debaixo de uma tenda armada no gramado da frente. Se
chovesse um pouco, seus convidados certamente não seriam incomodados.
Bobby Bo era um dos maiores barões de gado do país. Para fazer jus à sua
imagem e sua posição no cenário da indústria, tinha construído uma casa cujo estilo
extravagante era um monumento à cafonice do Império Romano. Pórticos sobre colunas
estendiam-se em ousadas direções. Réplicas de estátuas gregas e romanas em gesso e de
tamanho natural espalhavam-se por todo o terreno. Algumas estavam até pintadas em
tons de pele.
Os manobristas, uniformizados e enfileirados no passeio circular, aguardavam a
chegada dos convidados. Tochas com dois metros de altura, bordejando a entrada
principal, faziam cintilar os minúsculos pingos da chuva fina.
A Mercedes de Everett Sorenson chegou menos de um minuto antes do Lexus de
Daryl Webster. Foi quase como se tivessem combinado. Ao saltarem dos automóveis,
confraternizaram com abraços, junto a suas esposas.
Os carros foram levados pelos manobristas, enquanto outros empregados
protegiam os convidados com amplos guarda-chuvas de golfe. Os quatro subiram a
escadaria que levava ao grande portão duplo da entrada da casa.
— Espero que tenha avisado a sua segurança — disse Everett, num cochicho.
— Assim que terminamos nossa conversa — disse Daryl.
— Ótimo. Todo cuidado é pouco, principalmente agora que o negócio da carne
voltou a prosperar.
Chegaram à porta da frente e tocaram a campainha. Enquanto esperavam,
Gladys endireitou a gravata-borboleta de laço pronto de Everett.
A imensa porta dupla subitamente escancarou-se, obrigando os recém-chegados
a apertar os olhos, tal a claridade refletida no chão de mármore do hall. À frente deles
estava Bobby Bo, sob os imponentes dintéis e umbrais de granito.
Bobby Bo também era um tipo atarracado, assim como Everett e Daryl, e como
seus colegas, mostrava que acreditava em seu produto, consumindo filés
exageradamente grandes e suculentos. Tinha o queixo proeminente e uma barriga


esférica. Estava impecavelmente vestido num smoking feito sob medida, com uma
gravata-borboleta de dar laço com as bordas de ouro e abotoaduras de diamante. Seu
maior ídolo tinha sido o "Garboso Don" antes de sua condenação e prisão por extorsão e
assassinato.
— Bem-vindos, amigos. — Seu sorriso revelava diversos molares de ouro. —
Deixem os casacos com a menina e sirvam-se de champanhe.
Música e risadas alegres vinham da sala de estar; os Sorensons e os Websters
não tinham sido os primeiros a chegar. Contrastando com a banda do lado de fora, a
música do interior era mais calma tocada por um quarteto de cordas.
Depois de guardar os casacos, Gladys e Hazel deram-se os braços e foram dar
uma volta pelo salão. Bobby Bo reteve Everett e Daryl.
— Sterling Henderson é o único que ainda não chegou — disse Bobby Bo. —
Assim que aparecer, teremos uma breve reunião em minha biblioteca. Todos os demais
já foram avisados.
— Jack Cartwright também está um pouco atrasado — disse Everett. — Gostaria
que ele participasse.
— Tudo bem de minha parte — concordou Bobby Bo. — Sabem quem mais está
aqui?
Everett lançou um olhar para Daryl. Nenhum dos dois quis arriscar.
— Carl Stahl — disse Bobby Bo, triunfante.
Uma sombra de temor abateu-se sobre Everett e Daryl. Everett quebrou o
silêncio:
— Isso me incomoda.
— A mim também — disse Daryl.
— Ora, vamos, rapazes — gracejou Bobby Bo. — O máximo que ele pode fazer
é despedir vocês. — E riu.
— Não acho que demissão seja motivo de piada — comentou Daryl.
— Nem eu — disse Everett. — Entretanto, é mais um motivo para cortarmos
esse novo problema pela raiz.

14
Noite de sábado, 24 de janeiro
Os limpadores do pára-brisa marcavam um ritmo monótono quando Marsha
dobrou a última curva e vislumbrou a Higgins e Hancock. Era um prédio comprido, com
um imenso curral nos fundos. Parecia sinistro sob a chuva fria.
Marsha entrou no grande estacionamento deserto. Os poucos carros ali estavam
muito espalhados. Quando a turma da limpeza do turno das três às onze tinha chegado,
o local estava cheio, com os automóveis dos funcionários que pegavam de manhã.
Tendo visitado a instalação uma vez, durante seu período de treinamento,
Marsha conhecia o lugar o suficiente para dar a volta e escolher uma vaga próxima à
entrada de serviço. Uma lâmpada acesa sobre a porta sem identificação iluminava
debilmente a área. Marsha estacionou, puxou o freio de mão e desligou o motor,
permaneceu ainda no carro por alguns minutos, procurando ganhar confiança. Depois da
conversa com Kim, tinha ficado nervosa com o que poderia acontecer.
Marsha não tinha pensado no perigo físico antes da observação de Kim. Agora,
sua certeza já não era tão grande. Ouvira diversas histórias sobre o uso de violência por
parte da indústria contra empregados imigrantes e membros sindicais.
Conseqüentemente, era natural que ela ficasse alerta contra a reação que suas


investigações não autorizadas iriam certamente provocar.
— Você está sendo muito melodramática — disse para si mesma, em voz alta.
Num movimento súbito, Marsha tirou o celular do encaixe do console e checou a
bateria.
— Bem, está na hora — disse, e saltou do carro.
Chovia mais forte do que ela esperava, e por isso teve de correr até a entrada dos
empregados. Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Na parede havia um botão sobre
uma plaqueta onde se lia: APÓS O EXPEDIENTE. Ela o apertou.
Passados uns trinta segundos sem resposta, Marsha tocou novamente a
campainha e bateu à porta com o punho fechado. Já estava desistido e voltava para o
carro, pensando em ligar para o abatedouro pelo celular, quando a porta se abriu. Um
homem de uniforme marrom e preto observou-a com uma expressão confusa. Visitantes
eram, obviamente, uma raridade.
Marsha apresentou sua identificação do Departamento de Agricultura e fez
menção de entrar no estabelecimento. O homem, porém, bloqueava a passagem,
forçando-a a permanecer do lado de fora, na chuva.
— Deixe-me ver isso — disse o guarda.
Marsha entregou-lhe o cartão. Ele o examinou com atenção frente e verso.
— Sou inspetora do Departamento de Agricultura — disse Marsha,
dissimulando irritação. — Acha que está certo me deixar aqui de pé, debaixo de chuva?
— O que faz aqui?
— O que nós, inspetores, fazemos sempre. Estou verificando se as leis federais
estão sendo cumpridas.
O homem finalmente recuou o suficiente para que Marsha pudesse entrar. Ela
enxugou o rosto molhado com as costas da mão.
— Só o pessoal da faxina é que está de serviço agora — disse o homem.
— Compreendo. Pode me devolver a identificação, por favor.
— Onde está indo? — perguntou o guarda, depois que devolveu o cartão.
— Estarei na sala do Departamento de Agricultura — disse Marsha, por sobre o
ombro. Caminhou com passo firme e sem virar para trás, apesar da atitude do guarda têla surpreendido, deixando-a ainda mais nervosa
No interior da biblioteca, Bobby Bo fechou a porta de mogno com painéis
forrados de couro. O som de diversão que vinha do resto da casa foi cortado
abruptamente, e ele então se virou para seus colegas todos de smoking, que se
espalhavam pelo ambiente. Estavam presentes as mais importantes personalidades
ligadas à indústria da carne e da cidade: criadores de gado, diretores de abatedouros,
presidentes de fábricas processadoras e representantes das grandes distribuidoras.
Alguns estavam sentados nas poltronas de veludo verde-garrafa; outros permaneciam de
pé com seus copos de champanhe próximos ao peito.
A biblioteca era um dos aposentos prediletos de Bobby Bo. Em circunstâncias
normais, todos eram convidados para entrar e admirar suas proporções. Era inteiramente
revestida de mogno do Brasil. O tapete, um Tabriz secular de três centímetros de
espessura. Estranhamente, naquela "biblioteca" não havia um livro sequer.
— Vamos tornar breve esta reunião para voltarmos a coisas mais importantes
como comer e beber — disse Bobby Bo.
Seu comentário causou algumas risadas. Ele gostava de ser o centro das
atenções e estava ansioso para iniciar seu primeiro ano de mandato como presidente da
Associação Americana da Carne.
— O assunto em questão é a Srta. Marsha Baldwin — prosseguiu Bobby Bo,
assim que obteve a atenção de todos.


— Com licença — disse uma voz. — Gostaria de dizer algo.
Bobby Bo esperou Sterling Henderson levantar-se. Era um homem grande, de
feições grosseiras e uma mecha de cabelos grisalhos.
— Antes de mais nada, gostaria de apresentar minhas desculpas — disse
Sterling, num tom melancólico. — Desde o primeiro dia tenho feito tudo o que está ao
meu alcance para controlar essa mulher, mas nada tem dado certo.
— Todos nós compreendemos que está de mãos atadas — disse Bobby Bo. —
Posso assegurá-lo de que essa reunião de emergência não tem por finalidade culpar
ninguém e sim solucionar um problema. Todos concordamos inteiramente com seus
métodos até hoje. O que transformou o caso da Srta. Baldwin numa crise foi sua súbita
associação a esse médico maníaco que está chamando a atenção da mídia com toda essa
balbúrdia sobre E. coli.
— É uma associação que cheira a encrenca — disse Everett — Há menos de
uma hora a flagramos com o médico remexendo em nossos registros.
— Ela levou o médico até sua fábrica? — perguntou Sterling, surpreso e
horrorizado.
— Foi isso mesmo — respondeu Everett. — Podemos, por aí, ter uma idéia do
que estamos enfrentando. A situação é crítica. Acabaremos diante de outro fiasco por
causa desse E. coli se não tomarmos alguma atitude.
— Essa besteira de E. coli é uma aporrinhação — resmungou Bobby Bo. —
Sabem o que mais me aborrece nisso tudo? A maldita avicultura joga no mercado um
produto que está quase cem por cento mergulhado em salmonela e campilótropos, e
ninguém diz uma palavra. Nós, por outro lado, temos um probleminha insignificante
com E. coli, em termos do quê? Na ordem de dois a três por cento da nossa produção, e
todo mundo fica de cabelo em pé. Isso é justo? Afinal, o que existe por trás disso? Será
que eles têm um lobby mais forte?
O tilintar abafado de um telefone celular ressoou no silêncio que se seguiu ao
violento discurso de Bobby Bo. Metade dos presentes enfiou as mãos em seus smokings.
Apenas o aparelho de Daryl vibrava em sincronia com o som. Ele se levantou e foi até o
fundo da sala para responder ao chamado.
— Não sei como os avicultores conseguem se safar — disse Everett. — Mas isso
não deve distrair nossa atenção no momento. O que sei é que a diretoria do Hudson
Meat não conseguiu evitar a falência depois do surto de E. coli. Precisamos agir, e
rápido. Esse é meu voto. Afinal, diabos, não foi para isso que formamos a Comitê de
Prevenção?
Daryl guardou o telefone no bolso e juntou-se novamente ao grupo. Seu rosto
estava mais vermelho que o habitual.
— Más notícias? — perguntou Bobby Bo.
— Péssimas. Meu segurança na Higgins e Hancock disse que Marsha Baldwin
encontra-se lá neste exato momento, fuçando os registros do Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos. Apareceu mostrando a identificação e dizendo que
tinha ido para conferir se as leis federais estavam sendo cumpridas.
— Ela não tem autorização sequer para entrar lá!— afirmou Sterling indignado.
— Muito menos de examinar qualquer registro.
— Bem — disse Everett —, creio que não há mais nada sobre o que conversar.
E preciso agir.
— Concordo — disse Bobby Bo. Ele perscrutou a sala com o olhar. — Todos
concordam?
Ouviu-se um murmúrio de consenso.
— Ótimo — prosseguiu Bobby Bo. — Então fica acertado.


Os que estavam sentados ficaram de pé. Todos se dirigiram para a porta aberta
por Bobby Bo. Risos, música e cheiro de alho invadiram a sala.
Os homens saíram em fila e foram juntar-se a suas esposas, exceto Bobby Bo.
Ele pegou o telefone e fez uma rápida ligação externa. Mal acabara de repor o fone no
gancho e Shanahan O'Brian entrava pela porta da biblioteca.
Shanahan trajava um terno escuro e gravata mais clara. Usava o mesmo tipo de
fone de ouvido que usam os agentes do serviço secreto. Era um irlandês alto, refugiado
dos conflitos na Irlanda do Norte. Bobby Bo contratara-o a dedo, e nos últimos cinco
anos Shanahan era o chefe de sua equipe de segurança. Ele e Bobby Bo entendiam-se
admiravelmente bem.
— O senhor chamou? — perguntou Shanahan.
— Entre e feche a porta — disse Bobby Bo.
Shanahan obedeceu.
— O Comitê de Prevenção tem sua primeira missão.
— Excelente — disse Shanahan, com seu suave sotaque galês.
— Sente-se. Vou lhe explicar tudo — disse Bobby Bo.
Em cinco minutos os dois deixavam a biblioteca. No vestíbulo, seguiram
caminhos diferentes. Bobby Bo foi até a sacada do salão, agora repleto, e admirou a
multidão de convidados.
— Por que estão todos tão quietos? — berrou. — O que é isso, um funeral?
Alegria, vamos festejar!
Do vestíbulo, Shanahan desceu para a garagem subterrânea. Entrou em seu
Cherokee negro e desapareceu na noite. Tomou a avenida marginal que contornava a
cidade e a certa altura deixou a auto-estrada, seguindo na direção oeste. Vinte minutos
depois, estacionou no estacionamento esburacado de cascalho de uma boate de terceira
chamada El Toro. No alto do prédio podia-se ver o contorno, em néon vermelho, de um
touro em tamanho natural. Shanahan estacionou ao largo, deixando uma distância
prudente entre seu carro e os outros veículos, na maioria furgões em estado lamentável.
Não gostaria de ver seu carro arranhado pela porta de algum motorista distraído. De
longe já se podia distinguir claramente o pulsar frenético da música latina. No interior, o
barulho era ensurdecedor. O lugar estava repleto e enfumaçado. A freguesia era formada
em sua grande maioria de homens, embora houvesse algumas mulheres com roupas
colantes e cabelos espetados. De um lado ficava o longo balcão do bar e do outro uma
série de reservados com mesinhas. No centro, uma pequena pista de dança rodeada por
mesas e cadeiras. Num canto da parede havia uma antiga jukebox, com luzes berrantes.
Nos fundos, depois de uma arcada, via-se salão de sinuca, com várias mesas.
Shanahan analisou o local com atenção. Não encontrou quem procurava. Olhou
em cada um dos reservados, sem sucesso. Desistiu e foi até o movimentado balcão do
bar. Precisou espremer-se para conseguir passar. Depois o problema foi atrair a atenção
do garçom.
Acenando com uma nota de dez dólares, conseguiu rapidamente o que os gritos
não seriam capazes. Shanahan entregou a nota ao homem.
— Procuro por Carlos Mateo — berrou Shanahan.
O dinheiro desapareceu como num truque de mágica. O garçom não esboçou
nem uma palavra. Simplesmente apontou para os fundos do salão e fez um gesto com as
mãos como quem dá uma tacada.
Shanahan foi abrindo caminho pela pequena pista de dança. O salão dos fundos
não estava tão cheio como o da frente. Encontrou o homem que procurava logo na
segunda mesa.
Não fora uma tarefa fácil para Shanahan, que teve muito trabalho recrutando


pessoal para o recém-formado Comitê de Prevenção. Depois de diversas indicações e de
entrevistar uma série de candidatos, finalmente decidira-se por Carlos. Ele tinha
escapado da prisão no México e desde então vivia fugindo de um lado para o outro.
Conseguira entrar ilegalmente nos Estados Unidos na primeira tentativa, seis meses
atrás. Apareceu na Higgins e Hancock desesperado atrás de trabalho.
O que mais tinha impressionado Shanahan foi a atitude despótica do homem em
relação à morte. Embora reservado nos detalhes, Shanahan soubera que o motivo de sua
condenação no México foi por ter esfaqueado até a morte um conhecido. Seu trabalho
na Higgins e Hancock resumia-se em matar mais de dois mil animais diariamente.
Emocionalmente, parecia considerar a atividade de matar tão natural quanto a de limpar
seu furgão.
Shanahan postou-se sob o cone de luz que iluminava a segunda mesa de sinuca.
Carlos estava em posição de mira para dar a tacada e não prestou a menor atenção ao
cumprimento de Shanahan, que foi obrigado a esperar.
— Mierda! — blasfemou Carlos quando a bola não caiu na caçapa.
Estalou a palma da mão sobre a beirada da mesa e endireitou-se. Somente então
fitou Shanahan.
Carlos tinha a tez morena e cabelos escuros, era esguio e musculoso, e exibia
tatuagens floreadas nos braços. Tinha um rosto cavado, delineado por grossas
sobrancelhas e um bigode fino. Os olhos eram como duas bolas de gude negras. Vestia
um casaco de couro preto sobre o peito nu, ressaltando a musculatura e as tatuagens.
— Tenho um serviço para você — disse Shanahan. — Do tipo que já
conversamos a respeito. Está interessado? Tem de ser agora.
— Você paga, eu me interesso — respondeu Carlos. O sotaque espanhol era
extremamente carregado.
— Venha comigo — orientou Shanahan.
Shanahan apontou o dedo para a porta do bar. Carlos encostou o taco, entregou
um par de notas amassadas ao adversário, que reclamava, e seguiu Shanahan.
Os dois não trocaram uma palavra até pisarem na rua.
— Não sei como consegue agüentar o barulho lá dentro por mais de cinco
minutos — comentou Shanahan.
— Por quê, cara? É boa música.
Com a chuva aumentando, Shanahan conduziu Carlos até seu Cherokee e os dois
entraram no carro.
— Vamos ser rápidos — foi dizendo Shanahan. — O nome é Marsha Baldwin.
É uma garota atraente, alta e loura, cerca de vinte e cinco anos.
Um leve sorriso de satisfação brotou no rosto de Carlos, transformando seu
bigode em dois traços embaixo do nariz.
— O motivo da pressa — explicou Shanahan — é porque neste exato momento
ela está no local onde você trabalha.
— Na Higgins e Hancock? — perguntou Carlos.
— Isso mesmo. Na seção administrativa, fuçando arquivos que não devia. Não
terá como perdê-la. Se tiver alguma dificuldade para encontrá-la, pergunte ao guarda da
segurança. Ele vai estar de olho nela.
— Quanto vai pagar?
— Mais que o combinado, desde que complete o serviço hoje mesmo. Quero que
vá já para lá.
— Quanto? — Insistiu Carlos.
— Cem agora e duzentos depois, se ela desaparecer sem deixar rastro —
concluiu Shanahan, enfiando a mão no bolso do casaco e retirando uma nota amassada


de cem dólares. Segurou-a no alto para que Carlos pudesse vê-la, sob a rubra
luminosidade do touro de néon.
— E quanto ao meu emprego?
— Conforme o prometido — disse Shanahan. — Vou tirá-lo da área de abate
antes do fim do mês. Para onde prefere ir? Área de desossa ou das carcaças?
— A área de desossa.
— Então, estamos de acordo?
— Com certeza — disse Carlos. Pegou a nota, dobrou-a e enfiou-a no bolso da
calça. Abriu a porta e saltou do carro, como se lhe tivessem pedido que cortasse grama
ou limpar um jardim.
— Não vai estragar tudo — disse Shanahan.
— Será fácil com ela na Higgins e Hancock.
— Foi o que calculamos — disse Shanahan.
Marsha ergueu os braços acima da cabeça e espreguiçou-se. Tinha ficado
debruçada sobre as gavetas do fichário o suficiente para sentir as costas tensas. Com um
golpe de quadril fechou a gaveta, que fez um clique ao se encaixar no lugar. Pegou o
celular e encaminhou-se para a porta da sala do Departamento de Agricultura, e ligou
para Kim.
Enquanto o telefone chamava, abriu a porta do escritório e verificou o corredor
mergulhado em silêncio. Ficou satisfeita ao não ver ninguém. Enquanto examinava os
arquivos, escutou diversas vezes o guarda andando pelo corredor, hesitando por várias
vezes em frente à porta. Ele não a incomodara, mas suas paradas a deixaram ainda mais
ansiosa. Tinha receio de cruzar com ele no prédio, aparentemente deserto, e sentir-se
presa em uma armadilha. Não vira um empregado sequer da turma da faxina, que
deveria estar de serviço àquela hora.
— E melhor que seja você — disse Kim, assim que atendeu.
— Que jeito estranho esse de atender ao telefone — respondeu Marsha,
deixando escapar um riso nervoso. Ela fechou a porta do escritório e começou a andar
pelo corredor deserto.
— Já não era sem tempo.
— Por enquanto não tive sorte — disse Marsha, ignorando a deixa de Kim.
— Por que demorou tanto a ligar?
— Fique calmo, estava ocupada. Não faz idéia da papelada que o Departamento
de Agricultura exige. Existem relatórios diários de saneamento, registros de
distribuição, da quantidade de reses abatidas, relatórios de ocorrências e faturas de
compras. Foi preciso verificar todos eles referentes ao dia 9 de janeiro.
— O que encontrou?
— Nada de extraordinário — respondeu Marsha.
Ela parou diante de uma porta com uma janela de vidro fosco. Gravado nela, liase: REGISTROS. Girou a maçaneta. Estava destrancada. Entrou na sala, fechou a porta
e trancou-a por dentro.
— Ao menos você tentou — disse Kim. — Agora, saia já daí.
— Não antes de dar uma olhada nos registros da companhia.
— São oito e quinze. Disse que seria uma incursão rápida.
— Não devo demorar tanto. Acabo de entrar na sala de registros. Ligo para você
em cerca de meia hora.
Marsha desligou antes que Kim tivesse uma chance de contestar. Deixou o
aparelho sobre uma mesa de leitura e observou a gavetas dos arquivos dispostos ao
longo da parede. A chuva produzia um ruído como o de grãos de arroz jogados sobre a
janela que ficava na parede oposta. No fundo havia uma segunda porta. Marsha foi até


ela e certificou-se de estar trancada.
Sentindo-se relativamente segura, voltou ao arquivo e abriu a primeira gaveta.
Passados alguns minutos, Kim finalmente soltou o aparelho. Achava que Marsha
ligaria logo em seguida. A conversa tinha terminado de forma tão abrupta que achou
que a ligação podia ter caído. No fim, teve de aceitar o fato de que ela havia desligado.
Kim estava sentado na mesma poltrona em que Marsha o encontrara. O abajur
ao seu lado era a única luz acesa na casa. Na mesinha de canto havia um copo com uma
dose de uísque puro que ele mesmo havia servido, mas deixado intacto.
Kim nunca havia se sentido tão mal em toda a vida. Imagens de Becky não
paravam de brotar em sua mente, provocando novas lágrimas. No instante seguinte
surpreendia-se negando toda aquela horrível experiência e atribuindo tudo a uma
extensão do pesadelo com Becky caindo no mar.
O ruído do motor da geladeira na cozinha lembrou-o de que precisava comer
alguma coisa. Não se recordava da última vez que tinha enchido o estômago com algo
nutritivo. O problema é que não sentia a menor fome. Pensou então em subir para tomar
um banho e mudar de roupa, mas a idéia parecia exigir esforço demais. Decidiu-se,
finalmente, por permanecer ali sentado, aguardando o telefone tocar.
A velha picape Toyota não tinha aquecimento e Carlos tremia de frio quando
entrou pela pista de cascalho que contornava o curral da Higgins e Hancock. Desligou o
único farol que funcionava e prosseguiu vagarosamente, orientado pela memória e pelas
sombras dos moirões da cerca que entrevia à direita. Ele foi até o ponto em que o curral
afunilava para a rampa de acesso ao interior do abatedouro. Durante o dia, aquele era o
lugar por onde passavam todos os desafortunados animais. Deixou o carro estacionado
sob a sombra do prédio. Substituiu as luvas grossas que tinha usado para dirigir por
outras de couro preto e bem justas. Enfiou a mão por debaixo do banco e puxou uma
faca de matar, longa e encurvada, do mesmo tipo que usava durante o dia. Por reflexo,
testou o fio da lâmina com o polegar. Mesmo sob o couro da luva podia sentir que
estava bem afiada.
Ele saltou da cabine. Piscando, por causa da chuva, pulou a cerca rapidamente,
caindo na lama pisoteada do curral. Sem se importar com a bosta do gado, esgueirou-se
pela rampa e desapareceu na escuridão.
Com um garfo de ostras numa das mãos e um copo de bourbon de cristal
lapidado na outra, Bobby Bo subiu em sua mesinha de centro equilibrou-se o mais alto
que pôde na ponta dos pés. Esbarrou sem querer numa bandeja de camarões marinados
derrubando-a no chão para satisfação de seus dois poodles de pêlos profissionalmente
tosados.
Bobby Bo bateu o garfo com força no copo. Ninguém ouviu nada até que o
quarteto parou de tocar.
— Muito bem, pessoal — berrou Bobby Bo por cima das cabeças de seus
convidados. — O jantar está servido na sala de jantar. Lembrem-se de levar a senha
com o número que vocês receberam na entrada. É o número de suas mesas. Quem não
tem, pode pegar uma na cesta que está no vestíbulo.
A multidão começou a esvaziar o salão em massa. Bobby Bo conseguiu descer
da mesa sem causar nenhum outro acidente além de amedrontar um dos cães, que saiu
ganindo, com o rabo entre as pernas, para a cozinha.
Bobby Bo já se encaminhava para a sala de jantar quando avistou Shanahan
O'Brian. Pedindo permissão, dirigiu-se até onde estava seu chefe da segurança.
— E então? — disse Bobby Bo quase num sussurro. — Como foi?
— Sem problemas — respondeu Shanahan.


— Vai ser esta noite mesmo? — perguntou Bobby Bo.
— Conforme o combinado. Acho que Daryl Webster deve ser avisado. Assim,
pode ordenar que a segurança não interfira.
— Bem pensado.
Bobby Bo sorriu satisfeito, deu um tapinha no ombro de Shanahan e voltou
apressado aos seus convidados.
O som da campainha arrancou Kim de sua melancólica letargia. Por um instante
ficou desorientado quanto à origem do ruído. Chegou a mover o braço para pegar o
telefone. Aguardava uma ligação e não esperava nenhuma visita. Ao perceber que era a
porta, consultou o relógio. Eram quinze para as nove. Não podia acreditar que alguém
estivesse tocando a campainha àquela hora de uma noite de sábado.
A única pessoa que lhe veio à mente foi Ginger, mas ela nunca dava as caras
sem antes ligar. Lembrou-se então que tinha esquecido de checar as mensagens na
secretária eletrônica. Ela podia ter ligado e deixado um aviso. Enquanto considerava as
probabilidades, a campainha tocou mais uma vez.
Não estava com a menor disposição para ver Ginger, mas quando a campainha
soou pela terceira vez, acompanhada de batidas à porta, Kim ergueu-se da poltrona.
Estava exatamente pensando no que dizer quando, para surpresa sua, se deparou com o
rosto de Tracy e não de Ginger.
— Você está bem? — perguntou, calmamente.
— Creio que sim — disse Kim, espantado.
— Posso entrar?
— É claro. — Kim recuou para dar passagem. — Desculpe! Eu devia tê-la
convidado para entrar. É que não esperava vê-la.
Tracy entrou no hall parcamente iluminado. Notou que a única lâmpada acesa
era a do abajur na sala, perto de uma poltrona. Tirou a capa de chuva e o casaco. Kim
pegou os dois.
— Espero que não se incomode por eu ter aparecido desta maneira — disse
Tracy. — Sei que foi um pouco impulsivo da minha parte.
— Está tudo bem — disse Kim, pendurando os casacos.
— Eu queria ficar só — explicou Tracy, soltando um suspiro — mas aí comecei
a pensar em você e fui ficando preocupada, principalmente pelo estado em que saiu do
hospital. Pensei que por termos perdido a mesma filha, somente nós dois poderíamos
entender o que o outro está sentindo. Acho que o que quero dizer é que preciso de ajuda
e imagino que você também.
As palavras de Tracy desfizeram os últimos resquícios da negação que Kim
ainda se esforçava em nutrir. Sentiu-se tomado pela tristeza aguda e profunda que
tentara de todas as formas evitar. Respirou lenta e profundamente, engolindo em seco as
lágrimas reprimidas. Por um instante, foi incapaz de emitir uma palavra.
— Estava sentado aqui na sala? — perguntou Tracy.
Kim assentiu com a cabeça.
— Vou pegar uma cadeira na sala de jantar — disse Tracy.
— Deixe que eu pego — adiantou-se Kim. Precisava de alguma atividade física.
Trouxe uma cadeira até a sala de estar e colocou-a sob o raio luminoso do abajur.
— Gostaria de beber alguma coisa? — conseguiu dizer. — Estou tomando um
uísque.
— Não, obrigada. — Tracy sentou-se pesadamente, inclinou-se para a frente,
apoiou os cotovelos nos joelhos e botou as mãos sob o queixo.
Kim afundou na poltrona e fitou sua ex-mulher. Os cabelos escuros dela, sempre


cheios e ondulados, estavam agora achatados sobre o topo de sua cabeça. O rosto
borrado pela pouca maquiagem realçava a expressão de dor, apesar dos olhos
continuarem brilhantes e vivos, como sempre foram na lembrança de Kim.
— Há uma outra coisa que queria lhe falar — disse Tracy. — Depois que
consegui raciocinar um pouco, percebi que o que você fez hoje por Becky exigiu grande
dose de coragem. — Fez uma grande pausa e mordeu o lábio. — Eu sei que não seria
capaz de uma coisa assim mesmo se fosse uma cirurgiã — acrescentou.
— E bom ouvir isso. Obrigado.
— Fiquei chocada a princípio — admitiu ela.
— A massagem interna no coração é um ato desesperado em qualquer
circunstância— disse Kim. — Executá-la na própria filha é... bem, estou certo de que o
pessoal do hospital não deve ter interpretado do mesmo modo.
— Você agiu por amor. Não foi vaidade ou excesso de confiança como imaginei
na hora.
— Fiz porque me pareceu claro que a massagem externa não estava surtindo
efeito. Não podia deixar que Becky simplesmente se fosse, como estava acontecendo.
Ninguém sabia o motivo daquela parada cardíaca. Agora, é claro, sabemos o que
aconteceu e por que a massagem externa não deu resultado.
— Nunca imaginei que esse E. coli pudesse ser uma doença tão terrível —
comentou Tracy.
— Nem eu — disse Kim.
A campainha do telefone assustou os dois. Kim agarrou o aparelho.
— Alô — disse, num grunhido.
Tracy ficou observando o rosto de Kim. No primeiro instante pareceu confuso,
mas logo passou a demonstrar franca irritação.
— Pode parar o discurso! — gritou ao telefone. — Cale essa boca que não estou
interessado nesse cartão Visa de sua maldita companhia e quero que desligue
imediatamente — completou, batendo o gancho com força.
— Parece estar aguardando um chamado — disse Tracy capciosamente, pondose de pé. — Estou atrapalhando. Talvez seja melhor ir embora.
— Não — bradou Kim, mas logo em seguida procurou corrigir-se. — Isto é,
sim, estou esperando uma ligação, mas você não deve ir.
Tracy virou a cabeça para o lado.
— Está agindo de forma estranha — disse ela. — O que está acontecendo?
— Sou meio esquisito mesmo — admitiu Kim. — Porém...
O telefone interrompeu a explicação de Kim. Novamente, ele agarrou o aparelho
num movimento impulsivo:
— Alô!
— Sou eu de novo — disse Marsha. — E dessa vez encontrei algo.
— O quê? — perguntou Kim, gesticulando para Tracy se sentar.
— Uma coisa potencialmente interessante — prosseguiu Marsha. — Há uma
divergência entre os relatórios do Departamento de Agricultura e os da Higgins e
Hancock redigidos no dia 9 de janeiro.
— Como assim?
— Um animal a mais foi abatido no fim do dia. Nos registros da companhia está
designado como cabeça cinqüenta e sete, do lote trinta e seis.
— Sim? E esse animal extra é de alguma importância?
— Eu diria que sim. Significa que o animal não foi examinado pelo veterinário
do Departamento de Agricultura.
— Você diz que ele poderia estar doente? — perguntou Kim.


— É uma possibilidade. Isso pode ser comprovado pela fatura de compra. O
último animal não era gado de corte e sim uma vaca leiteira comprada de um homem
chamado Bart Winslow.
— Você vai ter de me explicar melhor — disse Kim.
— Vacas leiteiras não são geralmente aproveitadas para o hambúrguer. Isso já é
um sinal. O segundo é que reconheço esse nome, Bart Winslow. É um sujeito da região
que é o que eles chamam de quarta dimensão. Isso significa que ele ganha a vida
recolhendo animais mortos, doentes ou incapacitados nas fazendas locais e depois os
transporta para a fábrica de ração, que os transforma em fertilizante ou ração animal.
— Tenho medo de ouvir o resto — disse Kim. — Não me diga que às vezes
vendem para o abatedouro em vez da fábrica de ração.
— Aparentemente, foi o que aconteceu com esse último animal — disse Marsha.
— A rês de número cinqüenta e sete, do lote trinta e seis, deve ter sido um animal
rejeitado, possivelmente doente.
— Isso é nojento — comentou Kim.
— Mas a coisa piora ainda mais. Encontrei um relatório de ocorrência referente
ao mesmo animal que nada tem a ver com uma suposta doença ou inspeção veterinária.
Está pronto para sair? E revoltante.
— Fale logo!
— Opa! Espere tem alguém do outro lado da porta. Preciso recolocar esses
papéis na gaveta!
Kim escutou o som de uma forte pancada. Pôde ouvir ao fundo o embaralhar de
papéis seguido do ruído característico de uma gaveta de arquivo se fechando.
— Marsha! — gritou Kim.
Ela não retornou ao aparelho. Em vez disso ele ouviu o vidro de uma janela se
estilhaçando. O ruído foi alto o suficiente para fazê-lo saltar da poltrona. Por uma fração
de segundo afastou o fone do ouvido, num reflexo.
— Marsha! — Gritou novamente, mas não obteve resposta. Do outro lado do
aparelho podia ouvir o barulho inconfundível de móveis sendo derrubados no chão.
Seguiu-se um absoluto silêncio.
Kim afastou o fone do ouvido e olhou fixamente para Tracy. Seus olhos
refletiam todo o pavor que sentia.
— O que está acontecendo? — perguntou Tracy, alarmada. — Era Marsha
Baldwin?
— Acho que ela está em perigo! — balbuciou Kim. — Meu Deus!
— Perigo de quê? — perguntou Tracy, percebendo a aflição de Kim.
— Preciso ir! — gritou ele. — É culpa minha!
— O que é culpa sua? — gritou Tracy. — Por favor, o que está acontecendo?
Sem responder, Kim girou nos calcanhares e saiu esbaforido pelo jardim. Na
pressa, deixou a porta da casa escancarada. Tracy correu atrás dele querendo saber para
onde estava indo.
— Não saia daqui — berrou Kim, antes de pular para dentro de seu carro. —
Voltarei logo.
Ele bateu a porta do carro com violência e girou a chave de ignição. Em
instantes o motor pegou Kim engatou a ré, manobrou e acelerou fundo na noite.
Tracy passou a mão pelos cabelos embaraçados. Não tinha a menor idéia do que
estava ocorrendo e nem o que deveria fazer. Em princípio pensou em entrar no seu carro
e voltar para casa. O estado de nervos de Kim, no entanto, a preocupava e queria saber o
que estava acontecendo. Além disso, a idéia de voltar para casa não era nada animadora;
acabara de vir de lá.


A chuva fria convenceu-a finalmente a entrar. Como Kim tinha sugerido, ficaria
ali esperando.
A perseguição tinha começado depois que o vidro da porta se partiu em
estilhaços e uma enluvada mão surgiu entre os cacos pontiagudos, destrancando a porta
pelo lado de dentro. Logo em seguida ela se abriu com um estrondo, batendo contra a
parede.
Marsha deixou escapar um grito abafado. Viu-se diante de um homem moreno,
macilento, empunhando uma longa faca de matar. Ele já avançava em sua direção
quando ela se virou e correu, derrubando cadeiras atrás de si na esperança de atrapalhar
o trajeto do homem. Seu instinto lhe dizia que ele tinha vindo para matá-la.
Desesperadamente, destrancou a porta do fundo. Podia ouvir, às suas costas,
imprecações em espanhol e o barulho de cadeiras se quebrando. Não ousou olhar para
trás. Livre, no corredor, correu mais que pôde à procura de alguém, nem que fosse o
atemorizante guarda da segurança. Quis gritar por socorro, mas faltou-lhe o fôlego.
Passou correndo pelos escritórios vazios. No final do corredor encontrou aberto
um refeitório. Sobre uma das mesas havia diversas lancheiras e garrafas térmicas, mas
nenhum sinal de seus donos. Logo atrás podia ouvir as passadas do homem correndo e
chegando cada vez mais perto.
No fundo do refeitório outra porta encontrava-se aberta. Por trás dela, um lanço
de escada conduzia a uma sólida porta de incêndio. Sem muita opção, Marsha
atravessou a sala correndo, procurando obstruir o caminho com o maior número de
cadeiras que conseguiu derrubar. Pulou os degraus de dois em dois e alcançou a porta de
incêndio com a respiração ofegante. Na retaguarda, podia ouvir seu perseguidor
desembaraçando-se das cadeiras reviradas.
Forçando a porta com o ombro, Marsha penetrou num enorme salão, escuro e
frio. Era a área de abate, que com a iluminação noturna adquiria um aspecto irreal,
fantasmagórico, especialmente devido à recente lavagem com vapor pressurizado. Uma
névoa fria e acinzentada deixava entrever as passarelas de ferro, os sinistros ganchos
pendurados aos trilhos e os demais equipamentos de aço inoxidável do matadouro.
O labirinto de maquinaria forçou Marsha a diminuir o passo. Gritou
instintivamente por socorro, num reflexo desesperado, mas só escutou o eco da própria
voz reverberando nas paredes geladas de concreto.
Ouviu a porta de incêndio se abrir. A distância que a separava de seu
perseguidor já era tão curta que podia escutar a respiração do homem. Marsha refugiouse por trás de uma monstruosa máquina, se espremeu sob a sombra produzida pela
chapa de um degrau de ferro, tentando inutilmente controlar a respiração. O silêncio só
era quebrado por uma água que gotejava em algum local próximo. O pessoal da faxina
não podia estar longe. Teria apenas que encontrá-los.
Marsha arriscou uma espiada na porta de incêndio. Estava fechada e não viu
sinal do homem.
Um estalido alto e seco deixou-a sobressaltada. Um segundo depois a área ficou
inteiramente iluminada por luzes fluorescentes. O coração de Marsha disparou em seu
peito. Com as luzes acesas, era certo ser encontrada.
Outra espiada na porta fez com que se decidisse. Sua única chance era tentar
voltar pelo mesmo caminho.
Abandonando o esconderijo, Marsha correu o mais rápido que pôde até a porta.
Agarrou a maçaneta e puxou-a.
A sólida porta começou a se abrir, mas foi travada quase no mesmo instante.
Marsha olhou pôr sobre o ombro a tempo de perceber um braço tatuado impedindo seu


movimento.
Marsha girou sobre si mesma e recostou-se contra a parede. Apavorada, fitou os
olhos frios e negros do homem. A faca monstruosa estava agora em sua mão esquerda.
— O que quer de mim? — gritou Marsha.
Carlos não respondeu. Em vez disso, sorriu friamente. E passando a faca de uma
mão para a outra.
Marsha tentou escapar novamente, mas em sua desesperada precipitação
escorregou no cimento liso e molhado, perdeu o equilíbrio e caiu. No instante seguinte,
Carlos estava sobre ela.
Rolando pelo chão, Marsha ainda tentou reagir agarrando o cabo da faca com as
mãos, mas ela escapuliu rasgando-lhe a palma até o osso. Começou a gritar, mas Carlos
tampou-lhe a boca com a mão esquerda.
Quando tentava arrancar a mão de Carlos, ele ergueu rapidamente a arma e com
o cabo desferiu um poderoso golpe na cabeça de Marsha, que perdeu os sentidos
instantaneamente
Carlos pôs-se de pé e respirou fundo por alguns momentos. Em seguida cruzou
os braços dela de forma que as mãos ensangüentadas ficaram pousadas sobre o
estômago. Arrastou-a pelos pés por toda a extensão do matadouro até o ralo que ficava
no terminal da tampa de acesso dos animais. Abriu uma caixa de disjuntores elétricos e
ativou a maquinaria do galpão.
Kim dirigiu como um louco, alheio ao perigo do asfalto derrapante. Estava
agoniado com o que podia ter acontecido a Marsha na sala dos registros da Higgins e
Hancock. Tinha esperanças de que ela tivesse sido apenas surpreendida por algum
guarda da segurança, mesmo que isso implicasse sua prisão. Não queria sequer imaginar
qualquer destino pior.
Chegando ao estacionamento defronte ao imenso prédio, Kim notou que eram
poucos os carros estacionados no local. Enxergou o de Marsha num ponto mais afastado
da entrada.
Kim parou bem diante da entrada principal e saltou do carro. A porta estava
trancada. Bateu forte com o punho fechado. Com as mãos em concha entre o rosto e o
vidro, observou o interior. Tudo o que conseguiu ver foi um corredor vazio e mal
iluminado. Nenhum segurança à vista.
Kim grudou o ouvido na porta. O silêncio era total. Sua ansiedade aumentou.
Recuou alguns passos e examinou a frente do prédio. Várias janelas davam para o
estacionamento.
Kim desistiu da porta e começou a rodear o prédio, examinando o interior de
cada sala através das janelas, que ia tentando abrir. Todas estavam trancadas.
Quando espiou pela terceira, viu alguns arquivos de gavetas, cadeiras viradas e o
que lhe pareceu o celular de Marsha sobre uma mesa. Assim como as anteriores, a
janela estava trancada por dentro. Sem a menor hesitação, apanhou um dos
paralelepípedos que compunham o meio-fio do estacionamento, ergueu-o sobre o ombro
e atirou-o contra o vidro. O bloco de pedra estraçalhou o vidro da janela e provocou um
enorme estrondo ao chocar-se contra o piso de madeira e colidir com as cadeiras
reviradas.
Carlos ficou imóvel e apurou o ouvido. Do local onde estava, na área da desossa
de cabeças, onde eram extraídas as maxilas e línguas das reses, o ruído provocado pela
pedra de Kim chegou apenas como uma pancada surda e distante. Ainda assim, como
assaltante experiente, sabia que qualquer ruído inesperado significava, invariavelmente,
encrenca.
Carlos tampou o contêiner e em seguida apagou a luz. Tirou o avental branco


ensangüentado e arrancou as grossas luvas amarelas de borracha que estava usando.
Enfiou tudo sob uma pia. Empunhando novamente sua faca, partiu ágil e
silenciosamente do galpão de desossa para a área de abate. Ali também apagou as luzes.
Parou uma segunda vez para escutar. Dali, teria retornado até a rampa das reses para ir
embora, mas seu trabalho ainda não estava encerrado.
Kim enfiou a cabeça pela janela e entrou, tomando todo o cuidado para não se
cortar, mas não foi de todo bem-sucedido. Ao ficar de pé, teve que limpar alguns cacos
das palmas das mãos. Quando terminou, examinou a sala e viu a luz vermelha de um
detector de movimentos num canto do teto, mas não deu importância.
O celular abandonado, as cadeiras de pernas para o ar e o vidro quebrado da
porta convenceram-no imediatamente de que se achava no local onde Marsha estava
quando falou com ele. Notou também a porta aberta no fundo da sala e deduziu que
depois de surpreendida, ela teria tentado escapar por ali.
Passando correndo por essa segunda porta, Kim se viu no meio de um corredor
deserto. Ficou imóvel para ver se detectava algum ruído Não havia um som sequer, o
que contribuiu ainda mais para alimentar sua crescente ansiedade.
Kim seguiu em frente, abrindo e fechando rapidamente cada porta por onde
passava. Eram almoxarifados, despensas, um vestiário e diversos banheiros. Chegou ao
refeitório no final do corredor. O que lhe chamou a atenção foram as cadeiras
derrubadas e atiradas para o lado, parecendo abrir uma trilha até a porta dos fundos.
Kim seguiu por entre elas até o lanço de escada que dava para a saída de incêndio e
abriu a porta.
Parou novamente, sem saber o que fazer. Viu-se diante de um labirinto de
máquinas e plataformas suspensas que projetavam sombras das mais grotescas.
Kim sentiu um odor fétido e enjoativo, mas levemente familiar. Não demorou
muito para fazer a associação. O cheiro lembrou-lhe uma autópsia que presenciara
quando ainda cursava o segundo ano de faculdade. Sentiu um arrepio com aquela
lembrança desagradável, quase apagada da memória.
— Marsha! — gritou, angustiado. — Marsha!
Não obteve resposta. O único som que ouviu foram os inúmeros ecos de sua
própria voz agoniada.
Logo à sua direita, pendurado na parede, havia um extintor de incêndio, uma
lanterna e um armário com porta de vidro contendo uma mangueira de incêndio e um
machado de bombeiro. Kim arrancou a lanterna das presilhas e a acendeu. O foco
concentrado iluminava seções cônicas do pátio, projetando sombras ainda mais
fantasmagóricas nas paredes.
Kim seguiu em frente no ambiente estranho, girando a lanterna em movimentos
circulares rápidos. Escolheu o sentido anti-horário, contornando as máquinas para
explorar melhor o local.
Passados alguns minutos, fez nova pausa e chamou outra vez pelo nome de
Marsha. Além do próprio eco, tudo o que ouviu foram pingos d'água.
O foco de luz incidiu subitamente sobre um ralo. No centro da grade havia uma
mancha escura. Chegando mais perto, Kim agarrou-se e direcionou o foco da lanterna
diretamente sobre a mancha. Hesitante, esticou o dedo e tocou nela. Sentiu um calafrio
percorrer-lhe a espinha. Era sangue!
Carlos estava espremido de costas contra a parede, bem no limite entre a área do
pátio de abate e o galpão de desossa. Vinha recuando frente ao constante avanço de
Kim. Vira-o inicialmente subindo o corredor, em clara missão de busca.
Carlos não tinha a menor idéia de quem se tratava e teve esperanças, a princípio,
de que o homem se limitasse ao setor de escritórios do prédio. Mas, visto que chegara


ao pátio de abate e gritara pelo nome de Marsha, Carlos sabia que também teria de
matá-lo.
Carlos permaneceu imperturbável. Imprevistos podiam ocorrer naquele tipo de
trabalho. Além disso, imaginou que o pagamento seria maior, talvez o dobro. Também
não estava preocupado com o tamanho ou a força do estranho. Carlos tinha experiência,
a vantagem da surpresa e, o mais importante, sua faca favorita que no momento
segurava, suspensa sobre a cabeça, com a mão direita.
Cautelosamente, Carlos arriscou colocar a cabeça para fora do galpão e espiou o
pátio. Era fácil determinar a localização do estranho graças à luz da lanterna. Viu o
homem erguer-se de perto do ralo.
Subitamente, o facho de luz incidiu em sua direção. Desviou-se do foco, tendo o
cuidado de ocultar o brilho da lâmina. Prendeu a respiração à medida que o estranho se
aproximava cada vez mais, varrendo o pátio com o facho de luz.
Carlos espremeu-se novamente contra a parede e retesou os músculos. Conforme
previra, o estranho já estava quase na entrada do galpão de desossa. A luz da lanterna
iluminava o galpão com intensidade cada vez maior. Carlos sentiu o pulso se acelerar
conforme a adrenalina circulava por seu corpo pelo sangue. Era uma sensação que
adorava. Era como uma droga.
Kim tinha consciência de estar nas dependências de um matadouro que estivera
em atividade durante o dia, portanto uma mancha de sangue não representava
necessariamente um sinal de alarme. Entretanto, o sangue que examinara parecia
recente e ainda não estava coagulado. Repudiou a idéia de que pudesse ser de Marsha;
aquela hipótese reativou nele sua fúria habitual. Agora, estava mais do que nunca
decidido a encontrá-la com mais urgência ainda, e no caso de ela realmente ter sofrido
algo, não descansaria até encontrar o responsável.
Depois de vasculhar toda a área de abate, Kim decidiu estender sua busca por
outras áreas do vasto complexo. Dirigiu-se para a única passagem aberta que viu, atento
contra alguém que já tinha derramado sangue.
Quase no mesmo instante, foi salvo graças à sua prudência. Com o canto do olho
conseguiu detectar o movimento de alguma coisa que surgia de um lado, projetando-se
sobre ele. Reagindo por reflexo, jogou-se para a frente e procurou defender-se com a
lanterna contra o que lhe pareceu uma ameaça.
Carlos investira das sombras, na intenção de espetá-lo lateralmente com uma
estocada rápida. Tinha planejado acabar com ele assim que ficasse mais fraco. Mas a
faca não acertou o alvo fazendo apenas um corte leve na mão de Kim.
Enquanto Carlos tentava recuperar o equilíbrio, Kim o atingiu no ombro com a
lanterna. A pancada o acertou no ombro, mas não o machucou. Entretanto, como estava
desequilibrado, Carlos foi ao chão, e antes que tivesse tempo de erguer-se, Kim
atravessou em disparada a sala da desossa de cabeças e entrou na área de
esquartejamento. Esta era quase do tamanho da área de abate; e a escuridão, ainda mais
intensa. Compunha-se de um labirinto de mesas de aço inoxidável e esteiras rolantes
suspensas. No alto, circundando toda a área, passarelas de ferro de onde os supervisores
podiam examinar o corte das carcaças em peças para distribuição nas mesas em baixo.
Kim procurou desesperadamente por algo que lhe servisse de arma para
enfrentar a faca de matar. Tendo desligado a lanterna e um medo de acendê-la, só
conseguia apalpar a superfície das mesas. Não encontrou nada adequado.
Esbarrou num latão de lixo, mas conseguiu agarrá-lo antes que rolasse pelo
chão, denunciando sua posição. Na direção da entrada da sala, avistou a silhueta do
homem com a faca, que desapareceu novamente na escuridão.
Kim tremeu de medo. Estava sendo caçado por um matador profissional com


uma faca, num lugar escuro, inteiramente desprotegido e num ambiente totalmente
estranho. Sabia que tinha de ficar escondido. Não podia deixar aquele homem se
aproximar. Apesar do êxito em evitar o primeiro golpe, sabia que provavelmente não
teria a mesma sorte na segunda vez.
Um apito agudo e inesperado, anunciando o início do funcionamento de algum
equipamento eletrônico, fez Kim dar um pulo. Ao seu redor, todo o emaranhado de
esteiras rolantes começou a entrar em barulhenta operação. No mesmo instante, o
galpão ficou vivamente iluminado por uma luz fluorescente clara e brilhante. O coração
de Kim parecia saltar-lhe na garganta. Qualquer chance de permanecer escondido
naquele labirinto tinha se evaporado.
Kim encolheu-se o melhor que pôde por trás do latão de lixo. Observando por
entre as mesas de esquartejamento, conseguiu localizar o homem tatuado procurando
por ele. O estranho avançava vagarosamente, mantendo as mãos erguidas no ar. Com a
mão direita segurava a faca, que aos olhos de Kim pareceu do tamanho de um machete.
Kim entrou em pânico. Carlos já estava bastante próximo. Sabia que o homem o
veria assim que olhasse o corredor onde estava agachado. Era só uma questão de
segundos.
Impulsivamente, Kim ergueu-se segurando o latão de lixo por sobre a cabeça e,
berrando como um viking antes da batalha, investiu diretamente contra seu perseguidor.
Usando o latão como escudo, Kim colidiu com o mexicano empunhando a faca.
Carlos foi novamente derrubado. Apesar do susto provocado pela carga e o
impacto inesperado, Carlos ainda teve a presença de espírito de não soltar a faca.
O momento proporcionou a Kim uma boa vantagem. Atirou para o lado o latão e
cruzou em disparada toda a extensão da área de esquartejamento. Sabia que só tinha
conseguido derrubar seu perseguidor e que ele logo estaria outra vez em seu encalço.
Sentindo que sua única chance seria novamente correr para outro lugar, penetrou por
uma passagem sem porta, numa outra sala fria, úmida e escura, onde se viu em meio a
uma floresta de carcaças bovina. Cada uma delas estava serrada ao meio e pendurada
por gancho e presos a um sistema de rolamento no teto. Apenas algumas poucas
lâmpadas espaçadas iluminavam um corredor central que separava as fileiras de
carcaças resfriadas.
Kim seguiu pelo corredor central, procurando desesperadamente algum lugar
para se esconder. A atmosfera da sala estava fria o suficiente para condensar sua
respiração. Não tinha andado muito quando passou por um corredor transversal onde
viu um bem-vindo sinal verde de saída. Ziguezagueou até ele apenas para descobrir que
a porta estava trancada com corrente e cadeado.
Ouviu o ruído distante, porém inconfundível, dos saltos das botas de seu
perseguidor no piso de concreto. Sabia que ele estava se aproximando.
Kim entrou novamente em pânico. Movendo-se o mais rápido possível ao longo
da estreita periferia da sala de resfriamento, Kim continuou procurando por outra saída.
Infelizmente, ao encontrá-la, também estava trancada.
Desesperançado, Kim continuou andando. O recinto era imenso. Espremido
entre a parede e as carcaças penduradas, levou alguns minutos para chegar a um dos
cantos, onde fez um angulo de noventa graus. Dali para a frente conseguiu andar com
maior rapidez. A poucos metros do vão central que cortava todo o espaço interno,
deparou com uma terceira porta. Girou a maçaneta e para alívio seu, ela se abriu.
Atravessou-a sem titubear. Na parede bem junto à porta, havia um interruptor. Kim
acendeu a luz. Era um amplo almoxarifado com inúmeras prateleiras de aço.
Kim fechou a porta e procurou desesperadamente por algo que lhe servisse de
arma. Outra vez, não teve sorte. Tudo o que encontrou foram pequenas peças de


reposição dos equipamentos e um caixote com carimbos usados pelos inspetores do
Departamento de Agricultura para classificar a carne de acordo com a qualidade. O
único objeto um pouco maior era uma vassoura.
Tendo em vista que uma vassoura era melhor que nada, Kim passou a mão nela.
Quando abria a porta para sair, escutou novamente os passos de seu perseguidor. O
homem estava próximo, a menos de dez metros de distancia, chegando pelo vão central.
Novamente em estado de pânico, Kim fechou a porta do depósito rápida e
furtivamente. Segurando a vassoura pela ponta com as mãos, encostou-se à parede, bem
junto à porta.
O ruído das passadas parou. Kim ouviu o homem blasfemar. Em seguida os
passos recomeçaram e foram aumentando de intensidade até pararem novamente, do
lado de fora.
Kim prendeu a respiração. Apertou com mais força o cabo da vassoura. Por um
momento aparentemente interminável, nada aconteceu. Então, a maçaneta da porta
começou a girar. O homem estava entrando!
O coração de Kim disparou. A porta estava escancarada. Assim que sentiu a
presença do homem entrando, cerrou os dentes e girou com a vassoura na altura do
peito, usando toda a força que pôde reunir. Por sorte, acertou em cheio o rosto do
homem, que foi projetado porta afora. Com a surpresa e a força do impacto, ele soltou a
faca, que rolou pelo chão.
Ainda segurando a vassoura com a mão esquerda, Kim agachou-se para apanhar
a arma. Assim que a pegou, percebeu que era apenas uma lanterna e não uma faca.
— Parado aí! — ordenou uma voz.
Kim endireitou-se e olhou diretamente para o brilho ofuscante de outra lanterna.
Instintivamente, levantou a mão para proteger os olhos. Podia agora distinguir o homem
estatelado no chão. Não era o mexicano e sim um sujeito de uniforme marrom da
Higgins Hancock. Era o guarda da segurança, tampando o rosto com ambas as mãos. O
sangue escorria de seu nariz.
— Largue essa vassoura — ordenou a voz por trás da lanterna.
Kim soltou a vassoura e a lanterna.
O foco de luz clareou o chão e, para alívio de Kim, viu que estava diante de dois
policiais uniformizados. O segundo, sem lanterna, segurava um revólver com as mãos,
apontando-o para sua cabeça.
— Graças a Deus! — balbuciou Kim, apesar de ter uma arma apontada a menos
de três metros de distância.
— Calado! — ordenou o policial armado. — Vire-se e encoste contra a parede!
Kim sentiu um enorme prazer em obedecer. Saiu de dentro do armazém e
apoiou-se na parede, como costumava ver no cinema.
— Reviste-o — disse o policial.
Kim sentiu as mãos do outro policial apalpando-lhe os braços, pernas e tronco.
— Ele está limpo.
— Vire-se!
Kim obedeceu, mantendo os braços erguidos para evitar qualquer mal-entendido
quanto a suas intenções. Daquela distância podia ler os nomes dos policiais sob seus
distintivos. O homem com o revólver era Douglas Foster. O outro Leroy McHalverson.
O guarda de segurança tinha se levantado e limpava, com um lenço, o sangue do nariz
entortado. A força da vassourada o tinha fraturado.
— Algeme-o — disse Douglas.
— Ei, esperem um pouco! — reagiu Kim.— Não sou eu quem devia estar
algemando.


— É mesmo? — respondeu Douglas, cinicamente. — E a quem sugere?
— Há mais alguém aqui. Um sujeito moreno, esguio, tatuado nos braços e com
uma faca enorme.
— E estava, sem dúvida, usando uma máscara de hóquei — completou Douglas,
ridicularizando-o. — E seu nome é Jason.
— Falo sério — disse Kim. — O motivo de minha presença aqui é uma mulher
chamada Marsha Baldwin.
Os dois policiais entreolharam-se.
— Sério! — prosseguiu Kim. — É uma inspetora do Departamento de
Agricultura. Ela veio para cá a trabalho. Falava comigo no telefone quando foi
surpreendida por alguém. Ouvi o som de vidro partido seguido de luta. Quando cheguei
aqui à sua procura, fui atacado por um homem com uma faca, provavelmente o mesmo
que atacou a Srta. Baldwin.
Os policiais continuavam céticos.
— Escutem, sou um cirurgião do Centro Médico Universitário — disse Kim,
enfiando a mão no bolso de seu imundo paletó médico.
Douglas segurou no cabo da arma com mais firmeza. Kim tirou seu cartão de
identificação e apresentou-o a Douglas, que pediu a Leroy que o pegasse.
— Parece autêntico — disse Leroy, depois de conferir rapidamente.
— É claro que é autêntico! — disse Kim.
— Vocês, médicos, abandonaram a higiene pessoal? — perguntou Douglas.
Kim passou a mão pelo rosto barbado e reparou em sua roupa suja e amarrotada.
Não tinha se barbeado, tomado banho e trocado de roupa desde a manhã de sexta-feira.
— Sei que não podia estar com pior aparência — disse ele. — Mas posso
explicar. Nesse momento, porém, estou mais preocupado com a Srta. Baldwin e o
paradeiro daquele homem com a faca.
— O que acha disso tudo, Curt? — perguntou Douglas ao segurança. — Esteve
aqui alguma inspetora do Departamento de Agricultura ou algum estranho moreno e
tatuado?
— Não que seja do meu conhecimento — disse Curt. — Pelo menos durante
meu turno. Estou aqui desde as três da tarde.
— Sinto muito, amigo — disse Douglas para Kim. — Boa tentativa. — E,
dirigindo-se para Leroy: — Algeme-o de uma vez.
— Espere um pouco! — disse Kim.— Encontrei vestígios de sangue que
suspeito ser da Srta. Baldwin.
— Onde? — perguntou Douglas.
— Num ralo. Posso levá-lo até lá.
— Isso aqui é um matadouro — disse Curt. — Sempre há sangue.
— Aquele sangue é recente.
— Algeme-o e vamos lá verificar — disse Douglas.
Kim não ofereceu resistência e deixou-se algemar de mãos nas costas. Em
seguida ordenaram-lhe que mostrasse o caminho e todos seguiram pela câmara de
resfriamento. Na área de esquartejamento, Curt pediu aos policiais que esperassem,
enquanto ele desligava as luzes e as engrenagens das máquinas.
— Foi o homem com a faca que ligou a maquinaria — disse Kim.
— Sim, é claro que foi — respondeu Douglas.
Kim preferiu não argumentar e tampouco se importou em mostrar o latão de lixo
que tinha rolado por cima de uma das mesas do esquartejamento. Estava certo de que o
sangue seria suficiente para convencer aqueles dois policiais de que estava dizendo a
verdade.


Kim os levou até o ralo. Quando Curt iluminou o local com o facho da lanterna,
Kim sentiu um frio no estômago. A mancha de sangue desaparecera.
— Estava aqui! — sustentou Kim, sacudindo a cabeça. — Alguém a removeu.
— Sem dúvida, o homem com a faca — disse Leroy, com um risinho.
— E quem mais? — questionou Douglas, em tom de piada.
— Esperem um segundo — prosseguiu Kim, desesperado. Precisava convencêlos de alguma forma. — O telefone! Ela conversava comigo em seu celular. Está na sala
de registros.
— Bastante criativo — comentou Douglas. — Merece crédito por essa. — E
dirigindo-se para Curt: — Acha que podemos dar uma espiada? Está mesmo no
caminho da saída.
— É claro.
Enquanto Curt levava Douglas e Kim até a sala de registros, Leroy foi até a
viatura policial fazer a ocorrência.
Curt abriu a porta da sala e recuou um passo para dar passagem. Uma vez no
interior, Kim sentiu o chão fugir-lhe dos pés. As cadeiras tinham sido recolocadas nos
lugares e o pior: o telefone desaparecera.
— Estava aqui, eu juro — murmurou. — E a maioria das cadeiras estava de
pernas para o ar.
— Não vi nenhum celular quando entrei aqui para investigar o arrombamento —
disse Curt. — E as cadeiras estavam do mesmo jeito que agora.
— E aquele vidro quebrado? — argumentou, excitado, apontando para a porta
de entrada. — Estou certo de que foi esse o barulho que ouvi enquanto falava com ela
ao telefone.
— Concluí que o vidro foi só parte do arrombamento — disse Curt — além da
janela.
— Não é possível!— rebateu Kim. — Eu quebrei a janela, mas o vidro da porta
já estava quebrado quando entrei aqui. Vejam, o vidro da porta está todo dentro da sala.
Quem o quebrou só podia estar no corredor.
— Humm — balbuciou Douglas, olhando para os cacos. — Isso faz sentido.
— O carro dela! — disse Kim, tendo outra idéia. — Ainda tem de estar lá fora.
É um Ford sedã amarelo. Está estacionado nos fundos do prédio.
Antes que Douglas respondesse a essa nova sugestão, Leroy retornou da viatura
policial, com um sorriso matreiro no canto da boca.
— Adivinhe só o que temos sobre nosso distinto doutor: já identificado. Foi
preso ontem à noite por invasão, resistência à prisão e agressão a um oficial de polícia,
além de espancar o gerente de uma lanchonete. Está, no momento, solto sob fiança.
— Ah, pobrezinho! — disse Douglas. — Então, é reincidente. Muito bem,
doutor, chega dessa palhaçada. Vai nos acompanhar até a delegacia.

15
Domingo, 25 de janeiro - Manhã
Numa repetição da manhã anterior. De volta ao mesmo tribunal diante do
mesmo juiz. Somente o tempo lá fora tinha mudado. Desta vez não fazia sol. Ventava
muito, o céu estava nublado e o humor do juiz Harlowe combinava com o dia cinzento.
Kim estava sentado a uma mesa de biblioteca arranhada ao lado de Tracy. De pé,
logo à sua frente, Justin Devereau, advogado e velho amigo de Kim. De aparência
aristocrática, formado em Harvard, Justin era um advogado adepto do velho ditado:


"Jovem, vá para o Oeste!" Ele fora o mentor daquela que se tornara uma das maiores e
bem-sucedidas firmas de advocacia da cidade. Seu índice de sucesso era imbatível.
Entretanto, naquela manhã Justin estava preocupado. Travava uma batalha desigual
contra a ira do juiz Harlowe.
A aparência de Kim não podia estar pior, depois de passar mais uma noite na
prisão vestido com as mesmas roupas. Ainda não tinha tomado banho nem feito a barba.
Encontrava-se também visivelmente ansioso com o desfecho dos últimos
acontecimentos. A última coisa que desejava era voltar para a prisão.
Justin pigarreou:
— Permita-me reiterar que o Dr. Kim Reggis sempre atuou como um pilar da
nossa sociedade até o desfecho dessa tragédia que vitimou sua única filha.
— A doença de sua filha foi a desculpa apresentada como motivo de seu
comparecimento a esta corte ontem — disse o juiz Harlowe, irritado. — Não me agrada
ver o mesmo rosto duas vezes num mesmo fim-de-semana. É um insulto à minha
decisão de ter permitido sua liberdade após a primeira infração.
— A morte recente da filha do Dr. Reggis provocou nele um estresse
demasiadamente forte, meritíssimo — insistiu Justin.
— Isso é evidente — disse o juiz Harlowe. — O que está sendo julgado é se ele
representa uma ameaça à sociedade no seu estado mental atual.
— O que aconteceu foram episódios anômalos que não se repetirão — afirmou
Justin. — Como sabe, o Dr. Reggis ficou sinceramente arrependido por suas atitudes
precipitadas.
O juiz Harlowe brincou com os óculos sobre o nariz e olhou diretamente para
Kim. Tinha de admitir que o homem parecia arrependido. Naquele estado deplorável,
chegava a inspirar piedade. O juiz observou Tracy. Sua presença e o testemunho que
dera tinham-no impressionado.
— Está bem — concluiu o juiz Harlowe. — Vou consentir na fiança, mas o que
me convenceu não foi seu discurso bombástico, senhor advogado, e sim o fato da exesposa do Dr. Reggis ter graciosamente concordado em comparecer a esta corte para
atestar em favor de seu caráter. Com minha experiência, sei o que é uma testemunha
convincente. Fiança de cinco mil dólares e julgamento em quatro semanas. Caso
seguinte, por favor!
O juiz Harlowe bateu com o martelo e pegou em uma outra pilha de papéis.
— Com todo o respeito, meritíssimo — disse Justin. — Não há o risco de evasão
neste caso, portanto cinco mil dólares me parece um tanto excessivo.
O juiz olhou Justin por cima dos óculos e levantou as sobrancelhas.
— Vou fazer de conta que não ouvi nada — disse ele. — sugiro que não abuse
da sorte de seu cliente, senhor advogado. Próximo caso, Por favor!
Justin encolheu os ombros e retornou para o lado de Kim e Tracy. Depois de
juntar seu material, fez um sinal com o dedo para que o casal o acompanhasse.
Com o auxílio de Justin, os procedimentos da fiança transcorram rapidamente.
Em menos de meia hora os três desceram a escadaria do prédio e saíram para a fria e
nublada manhã de inverno. Pararam logo embaixo das escadarias do fórum. Alguns
tímidos flocos de neve desfaziam-se sobre a calçada.
— No início, pensei que Harlowe não fosse conceder a fiança — disse Justin. —
Como disse o juiz, considere-se com sorte.
— Nas circunstâncias atuais seria difícil considerar-me um homem de sorte —
comentou Kim, sem nenhuma emoção. — Mas agradeço a ajuda. Sinto muito obrigá-lo
a sair de casa na manhã de um domingo como esse.
— E sempre um prazer ser útil a um amigo — respondeu Justin — Saiba que


fiquei muito sentido por Becky. Podem contar comigo para o que for preciso.
Kim e Tracy agradeceram.
— Bem, é melhor eu ir andando — disse Justin, tocando na aba de seu chapéu.
— Nos vemos depois.
Justin deu um beijo no rosto de Tracy e apertou a mão de Kim, antes de partir.
Deu alguns passos e parou.
— Um conselho de amigo para você, Kim. Não deixe que o prendam
novamente. Posso garantir-lhe que não haverá fiança da próxima vez. A reincidência
obviamente o deixa numa situação delicada.
— Compreendo — disse Kim. — Serei cuidadoso.
Kim e Tracy ficaram observando Justin afastar-se. Olharam-se então, frente a
frente.
— Agora, quero que me conte exatamente tudo o que aconteceu — disse Tracy.
— Vou lhe contar o que sei até agora. Mas preciso pegar meu carro. Se importa
de me dar uma carona até a Higgins e Hancock?
— Claro que não. Já tinha pensado nisso.
— Conversaremos no carro.
Entraram no carro de Tracy e tomaram o rumo do abatedouro.
— Estou vivendo um pesadelo — confessou Kim
— Como disse ontem à noite — respondeu Tracy — precisamos de ajuda e acho
que só nós podemos nos ajudar.
Kim soltou um suspiro.
— Deve lhe parecer maluquice minha levar tão adiante esta cruzada contra o E.
coli. Nossa filha está morta e eu mais pareço um detetive de histórias em quadrinhos —
disse Kim, sacudindo a cabeça. — Todos esses anos me considerei o sustentáculo da
família, mas agora reconheço que na verdade é você quem tem a força interior. Sei que
não posso negar a morte de Becky para sempre, mas por enquanto não consigo aceitar.
Espero que compreenda que ainda não estou pronto para isso.
Tracy permaneceu em silêncio por algum tempo. Então, num gesto de afeto,
pousou a mão sobre o braço de Kim.
— Eu compreendo — disse. — Não tentarei apressá-lo. Pode inclusive, contar
com o meu apoio em sua investigação Mas não poderá rejeitar a morte de Becky
eternamente.
Kim concordou, balançando a cabeça.
— Eu sei — murmurou. — E obrigado.
A viagem transcorreu rapidamente. Kim contou tudo o que tinha acontecido
desde a hora em que Marsha apareceu em sua vida até ser preso pela polícia. Tracy
ficou horrorizada quando soube que ele fora atacado por um homem com uma faca.
Kim lhe mostrou o corte nas costas da mão.
— Você poderia reconhecer o homem? — perguntou ela, sentindo um arrepio.
Não podia conceber o horror de ser atacada num matadouro às escuras.
— Aconteceu tão rápido. Não seria capaz de descrevê-lo muito bem.
— Jovem, velho? Alto, baixo.
Por alguma razão inimaginável, ela queria uma imagem daquele indivíduo.
— Moreno — disse Kim. — Pele escura, cabelos escuros. Acho que era
mexicano, ou pelo menos latino. Magro, porém musculoso. Tinha muitas tatuagens pelo
corpo.
— Por que não contou tudo isso a Justin?
— E que diferença faria?
— Ele poderia ter dito alguma coisa ao juiz — persistiu Tracy.


— Mas de nada adiantaria. Poderia piorar ainda mais as coisas. Tudo isso parece
tão fantasioso, e eu só queria dar o fora daquele tribunal para então pensar no que fazer.
— Acredita que Marsha Baldwin ainda possa estar na Higgins e Hancock?
Provavelmente retida contra a vontade?
— Ou talvez pior. Se aquele sangue que encontrei era de origem humana, ela
pode ter sido morta.
— Não sei o que dizer — admitiu Tracy.
— Nem eu. Minha esperança é que tenha conseguido escapar. Talvez seja
melhor verificar minha secretária eletrônica. Ela pode ter me ligado.
Tracy pegou seu aparelho no porta-luvas do carro e passou-o para Kim. Ele
discou e ficou na escuta. Depois de dois minutos desligou o aparelho.
— E então? — perguntou Tracy.
Kim sacudiu negativamente a cabeça.
— Nada. Só a Ginger.
— Conte-me outra vez o que ouviu exatamente durante a última conversa que
teve com ela.
— Ouvi o som do vidro se partindo — repetiu Kim. — Foi logo depois de ela
dizer que havia alguém forçando a porta. Em seguida, um estrondo que acredito ter sido
provocado pelas cadeiras jogadas no chão. Acho que a pessoa que entrou na sala saiu
em perseguição dela pelo corredor.
— E contou tudo isso à polícia? — perguntou Tracy.
— É claro que sim. Só que não adiantou absolutamente nada, o que é
inteiramente compreensível. Eles acham que eu sou algum doido varrido. Quando fui
mostrar o sangue, a mancha tinha sido lavada. Quando os levei para mostrar o celular, o
aparelho não estava lá. Nem o carro dela estava mais no estacionamento como na hora
em que cheguei.
— Ela poderia ter pegado o telefone? E ido embora no carro?
— Estou rezando a Deus que sim — disse Kim. — Odeio ter de pensar noutra
alternativa e estou me sentindo responsável. Ela só foi até lá por minha causa.
— Você não a forçou a fazer nada que ela não quisesse — disse Tracy. — No
pouco tempo em que conversamos, pude perceber que ela não é do tipo de pessoa que se
deixa levar pelas idéias dos outros. Sem dúvida, ela possui uma forte vontade própria.
— Gostaria de pôr as mãos naquele guarda — disse Kim. — Ele tinha de saber
que Marsha estava lá dentro. Então, por que negou?
— Se mentiu para a polícia, certamente não vai lhe dizer nada.
— Bem, algo tem de ser feito.
— Sabe alguma coisa a respeito dela? Onde mora, por exemplo, ou de onde ela
é, ou se tem família na área.
— Não sei quase nada sobre ela — admitiu Kim. — Exceto que tem vinte e nove
anos e se formou em veterinária.
— Isso é mau — comentou Tracy. — Seria útil se pudesse determinar com
certeza se ela está ou não desaparecida. Se estiver, a polícia teria forçosamente que
ouvi-lo.
— Acaba de me dar uma idéia — disse Kim, endireitando a coluna. — O que
acha de tentarmos obter ajuda de Kelly Anderson?
— Não é má idéia. A questão é: será que ela iria aceitar?
— Só há um jeito de saber: perguntando a ela.
— Kelly Anderson já lhe causou tantos aborrecimentos. Acho que lhe deve algo
em troca.
— Por Deus, a mídia poderia ser de grande ajuda, não só em relação ao caso de


Marsha como a todo o problema da contaminação de carne!
— Quanto mais penso nisso, mais gosto — disse Tracy. — Talvez possa ajudálo a convencê-la.
Kim fitou sua ex-mulher com um olhar de admiração. Sob a amargura do
divórcio e o rancor provocado pelos entraves da custódia, tinha se esquecido do quanto
era atraente e afetiva.
— Sabe de uma coisa, Trace — disse ele — estou sinceramente grato que tenha
ido à corte esta manhã, não só por ter sido a responsável pela minha fiança. Só quero
dizer que estou verdadeiramente agradecido por ter ficado do meu lado depois de tudo o
que aconteceu.
Tracy o observou em silêncio. O elogio era algo inteiramente incomum nele,
mas podia ver em seus olhos que estava sendo sincero.
— Isso é muito gentil de sua parte — disse a ele.
— Estou falando de coração.
— Bem, é muito bom ouvir você dizer isso. Não me recordo da última vez que
me agradeceu alguma coisa. Talvez algum dia antes de nos casarmos.
— Eu sei — admitiu Kim. — Você está certa. Tive um pouco de tempo ontem à
noite na cadeia para pensar, e devo dizer que os acontecimentos das últimas vinte e
quatro horas, particularmente dos relacionados a Becky, me abriram os olhos.
— Abriram seus olhos para o quê?
— Para o que é realmente importante na vida. Pode parecer melodramático, mas
pude perceber a grandeza do erro que cometi. Dediquei-me excessivamente à carreira e
à competitividade, em detrimento da família; e de nós.
— Estou admirada de ouvi-lo dizer essas coisas — disse Tracy. Aquele não se
parecia com o Kim de quem tinha se divorciado.
— Receio ter sido um grande egoísta durante toda minha vida adulta —
prosseguiu Kim. — É um pouco irônico, considerando-se que por todo esse tempo me
ocultei sob a fachada do médico altruísta, caridoso. Como uma criança, necessitava de
constante atenção e devoção, e a atividade de cirurgião estava perfeitamente de acordo
com isso. Tudo isso me deixa triste e envergonhado. Também me faz querer pedir seu
perdão e desejar que fosse possível recuperar tantos anos desperdiçados.
— Estou surpresa e sensibilizada — disse Tracy. — Mas aceito. Fiquei
impressionada com seu insight.
— Obrigado — disse Kim, simplesmente. Ele olhou através do pára-brisa. Já
tinham entrado na estradinha de terra, aproximando-se das dependências da Higgins e
Hancock. O prédio parecia calmo e claro por entre os flocos de neve.
— É aqui? — perguntou Tracy.
Kim balançou a cabeça afirmativamente.
— A entrada do estacionamento fica logo adiante — disse ele — Meu carro
deve estar em frente à entrada principal. Pelo menos foi lá que o deixei.
Tracy dobrou no local indicado por Kim. Lá estava o carro inteiramente isolado.
Somente dois outros veículos eram visíveis na extremidade oposta do estacionamento.
— O carro de Marsha estava estacionado onde estão aqueles dois. Talvez haja
uma entrada de serviço do outro lado.
Tracy parou ao lado do carro de Kim e puxou o freio de mão.
Kim apontou para a janela da sala de registros que tinha quebrado para entrar no
prédio. Estava tampada com um pedaço de compensado. Explicou para Tracy que tinha
feito aquilo com uma das pedras do meio-fio.
— Qual é o plano? — perguntou Tracy quando ele terminou
Kim soltou um suspiro.


— Tenho de voltar ao hospital — disse ele. — Tom aceitou cuidar de meus
pacientes, mas também preciso vê-los. Depois, vou procurar Kelly Anderson. Sei onde
ela mora.
— Temos algumas decisões a tomar com relação à Becky — disse Tracy.
Kim assentiu com um movimento de cabeça e seu olhar pareceu perder-se na
distância.
— Sei que é difícil — prosseguiu ela. — Mas temos de providenciar o funeral.
Pode até nos ajudar a aceitar sua morte.
Kim mordeu o lábio.
— Ódio e rejeição fazem parte da dor — disse Tracy, ante o silêncio de Kim. —
Tenho tanta culpa por usar isso quanto você, mas não podemos abandonar nossas
responsabilidades.
Kim a fitou com lágrimas no canto dos olhos.
— Tem razão — admitiu. — Mas, como disse, preciso de um pouco mais de
tempo por causa de tudo o que aconteceu. Seria muito se eu lhe pedir que tome essas
providências sem mim? Sei que é difícil. É claro que concordarei com tudo o que você
decidir. Estarei presente à cerimônia. Só quero cuidar o mais rápido possível desse
assunto com Kelly Anderson.
Tracy ponderou a respeito daquele pedido, tamborilando com os dedos no
volante. Pensou, primeiramente, em dizer não e que ele estava sendo mais uma vez
egoísta, mas logo reconsiderou. Embora não desejasse tratar sozinha dos preparativos
para o funeral, sabia que a cerimônia em si era muito mais importante que os
preparativos. Reconhecia também que no momento tinha melhores condições
psicológicas do que ele para tratar daquele assunto.
— Não se importa se eu escolher o dia? — perguntou Tracy. — E o local da
cerimônia?
— Claro que não. O que você decidir está bem.
— Muito bem. Mas tem de prometer que vai me ligar assim que chegar em casa.
— Eu prometo — disse Kim, esticando a mão para dar um aperto carinhoso no
braço de Tracy antes de sair do carro.
— Vou esperar para ter certeza de que seu carro vai pegar.
— Boa idéia. E obrigado. — Ele bateu a porta, e antes de se dirigir para o
veículo, despediu-se com um aceno de mão.
Tracy também acenou e ficou ponderando se estaria mesmo agindo de maneira
correta.
Kim abriu a porta de seu carro, mas não entrou. Observou o complexo da
Higgins e Hancock e estremeceu ao relembrar a noite anterior. A sensação do terror que
tinha sentido fugindo do homem com a faca percorreu-lhe todo o corpo. Foi uma
experiência que jamais poderia esquecer.
Quando já se inclinava para entrar, hesitou novamente. Por um momento,
pensou em conversar com o guarda de serviço para tentar descobrir onde localizar Curt,
o segurança da noite passada, mas o conselho de Tracy logo veio à sua mente. Se Curt
tinha mentido para a polícia sobre a presença de Marsha, certamente não diria a verdade
a ele. E o fato de provavelmente estar mentindo era uma indicação de que tinha algo a
esconder.
Kim deu a partida com facilidade e acenou para Tracy, que também lhe dirigiu
outro aceno antes de deixar o estacionamento. Kim seguiu-a a distância, rememorando a
conversa que acabara de ter. Considerou irônico que os terríveis acontecimentos dos
últimos dias, a morte de Becky e os episódios que quase terminaram em seu assassinato,
o tivessem feito sentir-se tão perto de Tracy, como havia anos não acontecia, ou talvez


jamais tivesse acontecido.
Na auto-estrada tomaram caminhos diferentes. Kim buzinou em sinal de
despedida, e Tracy fez o mesmo antes de acelerar em direção de seu bairro. Kim pegou
a saída certa para o Centro Médico.
Aos domingos o estacionamento dos médicos ficava quase vazio e foi fácil
encontrar vaga perto da entrada principal do hospital. A primeira coisa que pensou em
fazer quando desceu do carro foi correr para o vestiário da cirurgia. Queria, antes de
mais nada, tomar um banho, barbear-se e vestir as roupas que tinha deixado lá na sextafeira de manhã.
Martha Trumbull e George Constantine eram septuagenários e fiéis voluntários
do Centro Médico Universitário. Por seu tempo de dedicação ao serviço, foram
presenteados com a medalha dos Amigos do Hospital, que exibiam orgulhosamente.
Martha a usava presa no bolso do avental rosa e George, na lapela de seu blazer azul de
voluntário.
A tarefa predileta de Martha e George era tomar conta do balcão de informações
no saguão do hospital. Gostavam de trabalhar ali, principalmente aos domingos, quando
podiam ficar sozinhos. Nos outros dias da semana, havia sempre algum funcionário do
hospital no cargo.
Sempre eficientes em suas funções, eles conheciam perfeitamente bem, não
apenas todo o hospital em seus mínimos detalhes como se fosse a planta de suas casas,
mas também os nomes de toda a equipe profissional. Quando Kim se encaminhou direto
para o elevador, ambos pensaram tê-lo reconhecido, mas ainda não estavam
inteiramente convencidos.
Martha deu uma olhada para George.
— Aquele é o Dr. Reggis? — sussurrou ela.
— Acho que é — disse George. — Mas não consigo imaginar o que esteve
fazendo naquele paletó imundo. Talvez tenha precisado trocar um pneu.
— Para mim, a barba está pior que o paletó — disse Martha. — Alguém devia
dizer a ele, já que é um homem tão bonito.
— Espere um instante — lembrou-se George. — Não deveríamos avisar o Dr.
Biddle no caso de Dr. Reggis aparecer?
— Isso foi ontem. Acha que ainda vale para hoje?
— Por que arriscar? — disse George, pegando o interfone.
Para alívio de Kim, o elevador subiu vazio até o andar da cirurgia. Não teve a
mesma sorte durante a travessia do saguão. Algumas enfermeiras e anestesistas de
plantão tomavam café. Ninguém disse nada, mas o grupo o observou com curiosidade.
Kim ficou feliz de chegar ao vestiário, longe das fisionomias inquiridoras.
Estava particularmente satisfeito por encontrá-lo vazio. Sem perder tempo, tirou do
bolso seu cartão de identificação, algumas canetas, um bloco de anotações e um rolo de
esparadrapo. Tirou toda a roupa, do jaleco à cueca, e jogou tudo na cesta da lavanderia.
Inteiramente nu, Kim assustou-se ao se deparar com sua imagem no espelho. A
aparência estava pior do que imaginava. A barba de três dias deixara-o abatido. O
cabelo desalinhado, lambido na frente e espetado atrás, dava a impressão de que acabara
de acordar. Kim abriu seu escaninho, pegou o material de barbear que guardava ali e
logo fez a barba. Depois pegou o xampu e entrou debaixo do chuveiro.
Com a cabeça sob o jato d'água, teve a impressão de ouvir alguém chamando por
ele. Girou o pescoço e, ainda de olhos fechados por causa da espuma, aguardou por um
instante. Uma voz, em tom, sem dúvida, mais autoritário do que amistoso, repetiu seu
nome.
Kim terminou de se enxaguar e só então abriu os olhos. Era um boxe coletivo


com quatro chuveiros. Na soleira ladrilhada estavam o Dr. Forrester Biddle, chefe da
cirurgia cardíaca, e o Dr. Robert Bathborn, chefe do corpo médico. Formavam um par
curioso. Contrastando com a magreza ascética de Forrester, Robert era a expressão da
obesidade autocomplacente.
— Dr. Reggis — repetiu Robert, quando sentiu que tinha finalmente atraído a
atenção de Kim. — Na qualidade de atual responsável pelo corpo médico, é meu dever
informá-lo de que seus privilégios estão temporariamente revogados.
— Esse é um assunto bastante curioso para se discutir enquanto estou no
chuveiro — disse Kim. — Ou era seu objetivo específico me ver nu?
— Suas palavras não poderiam ser mais inapropriadas — rosnou Forrester. — Já
vinha sendo avisado, Dr. Reggis.
— Não podem esperar por cinco minutos? — perguntou Kim.
— Achamos importante que fosse comunicado com a máxima urgência.
— Quais são os motivos?
— Por ter obstruído o trabalho da equipe durante a tentativa de ressuscitação
cardíaca de sua filha — disse Robert. — Três médicos e duas enfermeiras apresentaram
queixa formal de intimidação física por sua parte, que os impossibilitou de concluir seu
trabalho.
— E eu estou horrorizado com sua decisão de executar uma massagem cardíaca
interna na própria filha — disse Forrester. — Em minha opinião, seu comportamento
profissional foi inteiramente inaceitável.
— Ela estava morrendo, Robert — sussurrou Kim. — A massagem externa não
produzia nenhum efeito. Suas pupilas estavam dilatando.
— Outros profissionais qualificados também fizeram o possível — disse Robert,
hipocritamente.
— Não fizeram coisa alguma! Não tinham a menor idéia do que estava
acontecendo. Nem eu, até ver o coração dela. — Kim se calou e desviou o olhar por um
instante.
— Haverá uma audiência — disse Robert. — O que estará em julgamento é se
você representa uma ameaça para seus pacientes ou para si próprio. Terá uma
oportunidade de apresentar sua versão desse triste episódio. Nesse meio tempo, não
poderá praticar medicina dentro desse hospital e está especificamente proibido de
operar.
— Bem, foi muita gentileza dos senhores terem vindo até meu escritório assim
dessa maneira com notícias tão boas — disse Kim.
— Eu não acharia tão engraçado, se fosse você — ameaçou Forrester.
— Nem eu — disse Robert. — Esse incidente e nossa resolução serão
comunicados ao Conselho de Medicina. Poderá ter sua licença médica cassada.
Kim deu meia-volta para que pudesse apresentar o que julgava ser a parte mais
apropriada de sua anatomia a seus dois convidados. Inclinando-se para a frente,
prosseguiu massageando a cabeça com xampu.
O bar El Toro tinha uma aparência completamente diferente durante o dia. Sem a
luz vermelha do touro de néon e o ritmo alegre da música latina, a casa, caindo aos
pedaços, parecia abandonada. A única evidência contrária eram as latas vazias de
cerveja recentemente largadas e espalhadas pelo estacionamento deserto.
Shanahan sacudiu a cabeça diante daquele quadro deprimente, enquanto seu
Cherokee navegava pela área do estacionamento. O tempo estava chuvoso e nebuloso.
O lugar estava coberto por um denso nevoeiro. Shanahan parou do lado do furgão de
Carlos.
Carlos saltou do furgão e deu a volta no Cherokee, indo até a janela do


motorista. Carlos só podia ver seu reflexo no vidro escuro, até que Shanahan baixou o
vidro da janela. Sem nenhuma explicação, entregou-lhe uma nota de cem dólares.
Carlos olhou para o dinheiro e a seguir para Shanahan.
— O que é isso? Você me disse duzentos. Cuidei da mulher conforme o
combinado.
— Você complicou tudo — disse Shanahan. — Sujou. Ficamos sabendo do
médico. Tinha que apagá-lo. Sabia que estava lá procurando a mulher.
— Eu tentei — disse Carlos.
— O que quer dizer com "tentei"? — perguntou Shanahan, debochando. — Com
toda essa sua reputação com a faca... o cara estava desarmado.
— Não deu tempo — disse Carlos. — Ele acionou o alarme silencioso quando
arrombou a janela e a polícia chegou antes que pudesse dar cabo dele. Ainda tive sorte
de ter tempo para limpar o sangue dela e sumir com suas coisas.
— O que fez com o carro dela?
— Está na oficina de meu primo.
— Vamos apanhá-lo. Não quero ninguém usando aquele carro. Tem de virar
sucata.
— Ninguém irá usá-lo.
— E o telefone? — perguntou Shanahan.
— Está comigo no furgão.
— Dê-me o aparelho! — ordenou Shanahan.
Obedientemente, Carlos foi buscar o aparelho no furgão. No minuto seguinte
estava de volta à janela de Shanahan. Carlos entregou o celular para o agente de
segurança.
Shanahan atirou o aparelho no assento do passageiro.
— Espero que não tenha feito nenhuma chamada.
Carlos ergueu as sobrancelhas inocentemente, mas não emitiu uma palavra.
Shanahan fechou os olhos, bateu com a mão na testa e sacudiu a cabeça em sinal
de desalento.
— Vamos, diga-me de uma vez que não usou o telefone — disse com os dentes
cerrados, já sabendo qual seria a resposta.
Como Carlos não se manifestava, Shanahan arregalou e cravou os olhos em seu
comparsa, esforçando-se para controlar a raiva.
— Muito bem, para quem ligou? Não sabe que a polícia pode rastrear a
chamada? Como pode ser tão estúpido?
— Liguei para minha mãe no México — Carlos admitiu arrependido.
Os olhos de Shanahan reviraram nas órbitas e ele começou a pensar que agora
talvez tivesse que se livrar também de Carlos. O problema nesse tipo de trabalho era que
quando as coisas começavam a dar errado, quase sempre escapavam muito depressa ao
controle.
— Mas minha mãe não tem telefone — disse Carlos. — Liguei para o número
de uma loja onde minha irmã trabalha.
— Que tipo de loja? — perguntou Shanahan.
— Uma grande loja. Vende todo o tipo de coisas.
— Como uma loja de departamentos?
— É, como uma loja de departamentos.
— Quando ligou?
— Ontem à noite. A loja fica aberta até tarde aos sábados, e minha mãe sempre
acompanha minha irmã até em casa.
— Em que parte do país?


— Na Cidade do México.
Shanahan ficou mais aliviado. Uma chamada anônima para uma grande loja na
cidade mais populosa do mundo não era o que se podia considerar uma pista muito boa.
— E essa foi a única ligação? — perguntou Shanahan.
— Foi, cara, só uma ligação.
— Vamos falar do médico. Ele ficou sabendo o que aconteceu com a mulher?
— É possível. Ele viu o sangue dela.
— Seja como for, ele é uma ameaça. Precisa ser eliminado. Daremos os outros
cem e mais trezentos pelo serviço. O que diz?
— Para quando?
— Hoje à noite. Temos seu endereço e ele mora sozinho, no bairro de Balmoral.
— Humm, não sei não — disse Carlos. — É um cara grande.
— Com sua reputação, não creio que faça diferença para você.
— Matá-lo não será difícil. O problema é dar um sumiço no corpo e limpar o
sangue.
— Não precisa se preocupar com isso. Apenas faça o serviço e caia fora. Talvez
possa fazer parecer um assalto, levando dinheiro e coisas de valor. Só não leve nada que
possa ser rastreado.
— Eu não sei. A polícia não gosta de ver mexicanos como eu dirigindo pelas
redondezas de Balmoral. Já fui parado lá uma vez.
— Escute aqui, Carlos — disse Shanahan, perdendo rapidamente a paciência. —
Você não tem muita escolha nessa altura dos acontecimentos. Já fez merda ontem à
noite. No meu entender, teve tempo mais que suficiente para matar o médico. Além do
mais, você sequer tem um green card.
Carlos calou-se e esfregou os braços para aquecer-se. Continuava sem casaco,
apenas com a jaqueta de couro sobre o peito nu.
— Qual o endereço? — perguntou Carlos, resignado.
— Assim é melhor — disse Shanahan, enquanto entregava a Carlos um cartão
datilografado.
Desafiando a revogação de seus privilégios, conforme anunciara Robert
Rathborn, Kim circulou pelo hospital e visitou todos os seus pacientes internados.
Dedicou mais tempo aos pós-operados da sexta-feira. Tom Bridges estava cumprindo o
que tinha prometido e acompanhava de perto a recuperação deles. Ficou satisfeito em
constatar que todos passavam bem, sem nenhuma complicação. Saiu do hospital quase
ao fim da tarde.
Kim considerou a hipótese de ligar para Kelly Anderson e marcar um encontro,
mas achou melhor ir direto, sem aviso. Além disso, não tinha o número dela e calculou
que, sem dúvida, não encontraria no catálogo.
Kelly Anderson vivia numa casa de estilo campestre na área de Christie Heights.
Não era um bairro tão refinado quanto Balmoral, mas chegava perto. Kim pisou no freio
e estacionou. Desligou o motor e observou a casa. Precisou de alguns segundos para
tomar coragem. Para ele, ir até Kelly Anderson tinha um ar de pacto com o próprio
diabo. Sentia que precisava da pessoa, mas não gostava dela.
Hesitante, caminhou até a porta, sentindo que poderia ser barrado logo na
entrada, e tocou a campainha.
Caroline, a filha precoce de Kelly, atendeu a porta. Por um segundo, Kim perdeu
a voz. A criança trouxe-lhe a indesejável imagem de Becky na UTI.
Kim escutou a voz de um homem dentro da casa perguntando à menina quem
era.
— Não sei — berrou Caroline por cima do ombro. — Ele não fala.


— Sou o Dr. Reggis — conseguiu dizer.
Edgar Anderson surgiu por trás da filha. Os óculos de aro escuro lhe davam um
ar intelectual. Vestia um casaco folgado de lã e segurava um cachimbo no canto da
boca.
— Posso ajudá-lo? — perguntou Edgar.
Kim repetiu seu nome e pediu para falar com Kelly Anderson.
Edgar apresentou-se como o marido de Kelly e convidou Kim a entrar. Levou-o
à sala de estar, que parecia nunca ter sido usada.
— Vou avisá-la de que está aqui — disse Edgar. — Sente-se e fique à vontade.
Aceita alguma coisa? Um café?
— Não, obrigado — disse Kim. Sentia-se embaraçado, constrangido, como se
fosse um mendigo. Sentou-se num sofá imaculadamente limpo.
Edgar desapareceu, mas Caroline ficou para observá-lo por trás de uma poltrona.
Kim não conseguia olhar para ela sem deixar de pensar em Becky. Sentiu-se aliviado
quando Kelly entrou na sala.
— Ora, ora — foi ela dizendo — isso é curioso. A raposa perseguindo o cão de
caça. Sente-se, por favor!
Kim tinha ficado de pé quando ela apareceu. Kelly ajeitou-se na poltrona.
— E a que devo o prazer dessa visita inesperada? — prosseguiu
— Poderíamos conversar a sós? — pediu Kim.
Agindo como se não tivesse notado a presença de Caroline Kelly pediu à filha
que fosse procurar algo de útil para fazer.
Assim que Caroline saiu da sala, Kim começou contando sobre a morte de
Becky. A entonação de Kelly mudou imediatamente. Ficou obviamente comovida com
o fato.
Kim contou a história toda, incluindo os detalhes das conversas que tivera com
Kathleen Morgan e Marsha Baldwin. Contou-lhe sua visita e conseqüente detenção no
Onion Ring e o angustiante episódio na Higgins e Hancock, que terminara em sua
segunda noite na prisão.
Quando Kim terminou, Kelly exalou um suspiro, recostou-se e sacudiu a cabeça.
— Que história! — disse. — E que tragédia para você. Mas por que me
procurou? Acho que está querendo que eu o ajude em alguma coisa.
— Obviamente — disse Kim. — Quero que faça uma matéria sobre tudo isso. É
uma coisa que o público precisa saber. E também noticiar o desaparecimento de Marsha
Baldwin. Quanto mais penso a respeito, mais me convenço de que foi vítima de uma
conspiração. Se ainda estiver viva, é melhor que seja encontrada o quanto antes.
Kelly mordeu o lábio enquanto ponderava a respeito do pedido de Kim. Havia
uma gama de elementos intrigantes na história, mas também alguns contratempos.
Depois de alguns instantes, sacudiu negativamente a cabeça.
— Obrigada por vir até aqui e me contar tudo isso, mas não estou interessada do
ponto de vista profissional: ao menos por enquanto.
A decepção no rosto de Kim foi visível. Enquanto contava a história, ia se
convencendo progressivamente de seu mérito, e a rápida negativa de Kelly caiu como
uma bomba.
— Pode me dizer por quê? — Questionou Kim.
— Claro. Da mesma forma que compartilho da dor causada pela trágica perda de
sua tão querida e talentosa filha, esse não é o tipo de telejornalismo que faço
normalmente. Lido com casos grandes, mais pesados, se é que me entende.
— Mas essa é uma história de peso — queixou—se Kim. — Becky morreu
vítima do E. coli O,57:H7. Isso já é um problema de proporção mundial.


— Concordo. Mas é só um caso isolado.
— Essa é a questão — disse Kim. — Um caso isolado por enquanto. Estou
convencido de que Becky foi contaminada no Onion Ring da Prairie Highway. Acredito
que ela possa ter sido apenas a primeira vítima de uma tragédia capaz de assumir
proporções incalculáveis.
— Mas até agora nada aconteceu — argumentou Kelly. — Disse que sua filha
ficou doente há mais de uma semana. Se houvesse contaminação, teriam ocorrido outros
casos.
— Esses casos irão ocorrer. Estou certo disso.
— Muito bem — disse Kelly — quando houver outros casos farei a matéria. Um
caso isolado não é notícia. Dá para entender agora?
— Mas centenas de crianças morrem todos os anos por causa dessa bactéria. As
pessoas não sabem disso.
— Isso pode ser verdade — disse Kelly. — Mas essas centenas de casos não
estão ligados.
— Estão sim! — argumentou Kim, exasperado. — Quase todos estão
relacionados com carne moída. A indústria da carne que produz o hambúrguer é uma
ameaça a todas as pessoas que comem carne moída. É uma situação que precisa ser
divulgada.
— Ei, por onde tem andado? — rebateu Kelly, começando também a perder a
calma. — Esse problema já foi divulgado, principalmente com o surto no Jack-in-theBox e o recolhimento do Hudson Meat. Esse E. coli tem aparecido nos noticiários quase
todos os meses.
— Está nos noticiários, mas a população está recebendo a informação errada —
disse Kim.
— Ora, é mesmo? — questionou Kelly, com desdém. — Suponho que, além de
cirurgião cardíaco, você é também um especialista em mídia.
— Não sei de nada da mídia, mas sei que a cobertura desse assunto tem revelado
duas falsas impressões: uma, é que a presença desse E. coli letal na carne moída é raro;
e a outra, é que o Departamento de Agricultura inspeciona a carne para garantir a
segurança no consumo. Ambas as afirmações são falsas, conforme evidenciado pela
morte de cerca de quinhentas crianças a cada ano que passa.
— Uau! — exclamou Kelly. — Agora você está andando sobre gelo fino. São
duas acusações sérias. Como pode sustentar seu argumento? Que provas tem em seu
favor?
— A morte de minha filha — respondeu Kim, visivelmente furioso. — E os
registros do Centro para Controle de Doenças sobre outras mortes.
— Refiro-me à acusação que fez sobre o fato de o E. coli ser comum e de que o
Departamento de Agricultura é negligente no campo da inspeção.
— Não tenho provas concretas neste exato momento. É o que espero que
descubra quando fizer a reportagem. Muitas crianças não teriam morrido se não fosse
verdade. E tudo isso foi constatado por Marsha Baldwin.
— Ah, sim, claro — disse Kelly, dubiamente. — Como poderia esquecer. A
misteriosa inspetora do Departamento de Agricultura que diz estar desaparecida a
menos de vinte e quatro horas. E você suspeita ter sido vítima de assassinato.
— Exatamente — confirmou Kim. — Tiveram que silenciá-la.
Kelly deixou a cabeça cair para o lado. Não sabia exatamente que atitude tomar
com relação a Kim, especialmente levando em conta suas duas prisões. Teve a
impressão de que a morte da filha tinha provocado algum dano à sua mente. Parecia
paranóico e ela o queria fora de sua casa.


— Diga-me uma coisa — disse Kelly. — O que o faz pensar que Marsha
Baldwin está desaparecida foi a interrupção durante a conversa telefônica e o sangue
que encontrou no abatedouro?
— Exatamente.
— E contou isso aos policiais que o prenderam?
— E claro, mas não acreditaram em mim.
Kelly pensou consigo mesma: "Posso ver por quê." Subitamente ela se levantou
e disse:
— Desculpe, Dr. Reggis, receio que estamos andando em círculo. Por enquanto
tudo isso é só boato. Gostaria de poder ajudar, mas não posso fazer nada sem fatos mais
concretos sobre os quais possa escrever uma matéria.
Kim ficou de pé num impulso. Podia sentir sua raiva retornando, mas lutou para
controlar-se. Apesar de não concordar com Kelly Anderson, podia entender seu ponto
de vista, o que renovou sua determinação:
— Muito bem — anunciou resoluto — eu voltarei com algo substancial.
— Faça isso e eu escreverei a matéria.
— Vou cobrar isso de você.
— Sou uma mulher de palavra. Mas é claro que sou eu quem decide se as
evidências serão suficientes.
— Vou me certificar para que não haja dúvida.
Kim saiu da casa e correu até o carro estacionado diante do portão. Não corria
por causa da chuva que tinha aumentado de intensidade enquanto estava na casa dos
Andersons, mas por que tinha se decidido quanto ao que fazer para conseguir as provas
que Kelly exigia. Não iria ser fácil, mas isso não o intimidava. Tinha uma missão a
cumprir.
Kim fez uma volta de 180 graus e pisou fundo no acelerador. Não notou a
presença de Kelly na varanda da casa, sacudindo a cabeça uma última vez, enquanto
ganhava velocidade.
Logo que entrou na auto-estrada, ligou para Tracy de seu celular.
— Tracy — foi dizendo sem preâmbulos quando ela atendeu — encontre-me no
shopping.
O aparelho ficou mudo por alguns instantes. Kim pensou que a ligação tivesse
caído. Já estava desistindo quando a voz de Tracy apareceu do outro lado da linha:
— Fiz tudo como você pediu. Está tudo arranjado para o funeral.
Kim respirou fundo. Em certas ocasiões conseguia tirar Becky inteiramente da
cabeça. Tinha sorte de poder contar com Tracy. Ela era uma mulher tão forte. Não seria
capaz de suportar aquela tragédia sem a sua companhia.
— Obrigado — disse, finalmente. Era difícil encontrar as palavras. — Fico
muito grato por estar fazendo isso sozinha.
— Será na Casa Funerária Sullivan, na River Street, na terça-feira.
— Tudo bem — disse Kim. Simplesmente, não conseguia concentrar-se naquele
assunto por muito tempo. — Gostaria que fosse me encontrar no shopping.
— Não quer saber sobre o resto dos detalhes? — perguntou Tracy.
— Nesse instante, encontrar-me no shopping é mais importante — respondeu
ele, preocupado em não demonstrar muita frieza. — Depois gostaria que fosse comigo
até nossa antiga casa.
— O que pode ser mais importante que o funeral de nossa filha? — perguntou
Tracy, exasperada.
— Confie em mim. Poderá me dar os detalhes quando nos encontrarmos.
— Kim, o que está acontecendo? — ela percebia uma vaga excitação em sua


voz.
— Explicarei mais tarde.
— Em que ponto do shopping? — perguntou Tracy, resignada. — O lugar é
grande.
— Farmácia Connolly. Dentro da loja.
— Quando?
— O mais rápido que puder. Eu já estou indo para lá.
— Vou levar mais de meia hora. E você sabe que hoje eles fecham às seis.
— Eu sei. Temos tempo suficiente.
Tracy desligou o aparelho. Ficou pensando se não estaria agindo de maneira
errada ao permitir que Kim evitasse tomar parte dos preparativos para o funeral. Mas
não tinha muito tempo para divagar sobre o assunto naquele exato momento.
Apesar do divórcio amargo, a preocupação com Kim trouxe-lhe de volta o
instinto materno. Ficou tentando imaginar quando ele teria feito sua última refeição.
Apesar de não sentir fome, achava que seria melhor para os dois comer algo. Por isso,
antes de sair pegou alguma coisa na geladeira, jogou dentro de um saco e levou para o
carro.
Durante o percurso, Tracy decidiu insistir com Kim para que ele participasse das
últimas decisões relativas à cerimônia de Becky. Seria melhor para os dois.
Como num típico fim de tarde de um domingo frio e chuvoso o tráfego fluía sem
retenções e Tracy chegou ao shopping mais rápido do que tinha previsto. Até o
estacionamento estava relativamente vazio. Era a primeira vez que conseguia uma vaga
a poucos metros da entrada principal.
No interior, o local estava mais cheio do que parecia, tendo em vista o número
de veículos do lado de fora. Assim que entrou, um grupo de idosos que fazia algo que
chamavam de caminhada abateu-se sobre ela. Tracy teve que entrar em uma das lojas
por alguns instantes para evitar ser pisoteada. Seguiu direto para o centro do shopping e
evitou olhar na direção do ringue, temerosa das lembranças que invariavelmente
evocaria.
A farmácia Connolly estava movimentada como de costume, principalmente o
balcão de aviamento de receitas, onde umas vinte pessoas aguardavam, aglomeradas.
Tracy deu uma volta pela sala, mas não viu Kim. Continuou procurando-o com mais
atenção e localizou-o na seção de produtos para os cabelos. Sob o braço trazia uma
caixa com uma máquina de cortar cabelo e carregava uma sacola de uma das butiques
do shopping.
— Ah, Tracy — disse Kim. — Bem na hora. Quero que me ajude a escolher um
descolorante para o cabelo. Decidi ficar louro.
Tracy colocou as mãos na cintura e olhou espantada para seu ex-marido.
— Você está se sentindo bem? — perguntou ela.
— Sim, estou bem — respondeu Kim. Ele estava preocupado, olhando a grande
variedade de produtos espalhados pelas prateleiras.
— Que história é essa de querer ficar louro?
— É exatamente isso. O mais louro possível, de cabelos bem claros.
— Kim, você ficou maluco de vez? Diga-me o que está havendo, senão vou ficar
ainda mais preocupada.
— Não há nada com o que se preocupar. Eu não estou pirando, se foi o que
pensou. Só quero encontrar um disfarce. Preciso ficar irreconhecível.
Tracy esticou os braços e o agarrou pelos ombros. Pareceu hipnotizada quando
reparou em sua orelha.
— O que é isso? — perguntou. — Está usando brinco!


— Estou feliz que tenha notado — disse Kim. — Sobrou um tempo antes de
você chegar e aproveitei para furar a orelha. Ajuda a compor o personagem. Também
comprei uma roupa de couro... ergueu a sacola.
— Para quê a máquina?
— Para você cortar o meu cabelo.
— Sabe que nunca cortei o cabelo de ninguém.
— Isso não importa — disse Kim com um sorriso. — Estou pensando num
visual skinhead.
— Isso é muito esquisito — reclamou Tracy.
— Quanto mais esquisito, melhor. Não quero ser reconhecido.
— Por quê?
— Porque fui ver Kelly Anderson — explicou Kim — e ela se recusa a
colaborar antes que eu apresente alguma prova irrefutável.
— Prova do quê?
— Das alegações que Kathleen Morgan e Marsha Baldwin fizeram sobre a
indústria de carne e do Departamento de Agricultura.
— E de que jeito um disfarce poderá ajudá-lo nisso? — perguntou Tracy.
— Vai me ajudar a conseguir um emprego. Marsha Baldin disse que matadouros
como o da Higgins e Hancock não admitem visitantes, mas ela comentou que não é
difícil arrumar emprego, especialmente se você for um imigrante ilegal. Não pretendo
me parecer com um imigrante ilegal, apenas um marginal precisando de dinheiro.
— Não posso acreditar nisso! — disse Tracy. — Está querendo dizer que vai até
a Higgins e Hancock atrás de um emprego depois que alguém tentou matá-lo lá dentro?
— Só espero que o encarregado da admissão não seja o mesmo homem da faca.
— Kim, isso não é assunto para piada. Não gosto nem um pouco da idéia,
principalmente se seus temores a respeito de Marsha forem verdadeiros.
— Não posso arriscar em ser reconhecido — admitiu Kim. — O disfarce precisa
ser bom. Marsha me garantiu que a Higgins e Hancock está sempre precisando de
pessoal porque a rotatividade ‚ muito alta. Por isso estou contando que não sejam muito
exigentes.
— Não gosto nada disso — disse Tracy. — Acho muito arriscado. Deve haver
algum jeito melhor. E se eu for conversar com Kelly Anderson?
— Ela não irá ceder. Foi bastante clara a esse respeito. Eu preciso entrar na
Higgins e Hancock, com ou sem risco. Mesmo que o risco seja grande, acho que é
válido, pela memória de Becky. Para mim, é uma forma de minimizar sua perda.
Kim não conseguiu reprimir as lágrimas que afloraram em seus olhos.
— Além disso — prosseguiu ele — tenho tempo agora, pois estou
desempregado. Fui suspenso do hospital.
— Por causa do que aconteceu na UTI? — perguntou Tracy.
— É. Aparentemente, você foi a única pessoa que interpretou minha ação como
um ato de bravura.
— Foi uma atitude corajosa — reafirmou Tracy.
Ela estava realmente impressionada. Kim tinha dado uma guinada de 180 graus.
Ele estava realmente decidido a fazer alguma coisa por Becky, arriscando até a própria
carreira e sua reputação. Não haveria como opor-se àquela decisão. Sem mais palavras,
Tracy concentrou-se nas prateleiras e caminhou pela seção até encontrar o que
considerava a melhor marca de descolorante para o cabelo.
Carlos esperou até o cair da noite antes de se aventurar com seu lastimável
furgão pelas vizinhanças de Balmoral. Gostou de ver que as ruas estavam escuras. Só
havia postes nas esquinas, iluminando as placas de trânsito. Com a ajuda de um mapa,


não foi difícil encontrar Edinburgh Lane e, conseqüentemente, a casa de Kim.
Carlos apagou o único farol que funcionava e encostou à sombra do arvoredo
que margeava a rua. Desligou a ignição e esperou. De onde estava estacionado podia ver
o contorno da casa de Kim e o céu escuro ao fundo. Carlos ficou satisfeito. As luzes
apagadas sugeriam que estava vazia. Uma vez mais, teria a vantagem do fator surpresa,
só que dessa vez seria ainda melhor. Kim seria surpreendido inteiramente desprevenido.
Carlos ficou esperando no furgão por cerca de vinte minutos antes de se sentir à
vontade para saltar. Escutou um cão latindo e ficou imóvel. O animal latiu novamente,
mas agora parecia mais afastado. Carlos relaxou.
Enfiou a mão por baixo do banco e puxou uma de suas grandes facas de matar,
ocultando-a sob o casaco.
Contornando o decrépito furgão, Carlos esgueirou-se por entre as árvores que
faziam a divisa da casa de Kim com a do vizinho. Vestindo casaco de couro preto e
calças escuras, estava praticamente invisível ao atravessar a vegetação.
Chegando aos fundos da casa, Carlos sorriu satisfeito ao constatar que não havia
luz em nenhuma das janelas. Agora tinha certeza de que a casa estava vazia.
Agachado, Carlos deixou a proteção das árvores, atravessou correndo o quintal e
espremeu-se contra a parede. Novamente, aguardou por algum sinal que indicasse que
sua presença tivesse sido notada. A vizinhança permanecia absolutamente quieta. Até os
latidos do cão silenciaram.
Sem sair da sombra, Carlos aproximou-se da entrada dos fundos, protegida por
uma tela. A faca brilhou rapidamente na penumbra, enquanto Carlos cortava a tela
apenas o suficiente para conseguir entrar. Assalto era a especialidade de Carlos; o
talento para matar surgira com a necessidade.
Kim deixou a rua principal e atravessou o portal que marcava os limites do
Condomínio Balmoral. Olhou no retrovisor. Tracy vinha logo atrás. Estava contente por
ela ter aceitado ajudá-lo no corte do cabelo, mais pela companhia que por necessidade.
Também tinha gostado de sua oferta de preparar algo para os dois comerem. Kim já não
se lembrava da última vez em que tivera uma refeição normal. Talvez tivesse sido na
noite de quinta-feira.
Depois de estacionar o carro em frente à garagem, Kim juntou seus embrulhos e
foi ajudar Tracy a saltar de seu carro. A chuva aumentara muito. Na mais completa
escuridão, correram até a varanda, evitando as poças que tinham se formado pelo
passeio.
Na varanda coberta Tracy se ofereceu para segurar os embrulhos, enquanto Kim
pegava a chave no bolso da calça.
— Não há necessidade. A porta está destrancada.
— Isso não é muito prudente — comentou Tracy.
— Por que não? Não há muito o que levar da casa e fica mais fácil para o
corretor.
— Suponho que sim — disse Tracy, descrente. Ela girou a maçaneta e os dois
entraram.
Depois de tirarem os casacos e enxugarem a água do rostos levaram os
embrulhos até a cozinha. Enquanto punha a sacola com o lanche sobre a mesa, Tracy
virou-se para Kim, dizendo:
— Eu gostaria muito de tomar um banho e me esquentar um pouco antes de
comer alguma coisa e cortar seu cabelo. Você se importa?
— Se eu me importo? É claro que não, sinta-se à vontade.
— É triste confessar — acrescentou Tracy — mas o chuveiro é a única coisa


desta casa de que sinto falta.
— Posso compreender perfeitamente. Foi a única coisa que fizemos sozinhos
nessa casa. Há um roupão junto com as toalhas se quiser. Ficaram também algumas
roupas suas que eu passei para o armário do corredor.
— Não se preocupe, encontrarei algo para vestir.
— Já tomei um banho no hospital, por isso vou acender a lareira na sala de estar.
Talvez ajude a tornar esta casa vazia um pouco menos deprimente.
Enquanto Tracy subia as escadas, Kim pegou uma lanterna numa gaveta da
cozinha e desceu até o porão, onde a lenha ficava estocada. Acendeu a luz, mas a
lâmpada nunca fora forte o suficiente para iluminar todo o amplo e entulhado espaço.
Kim nunca se sentira bem em porões por causa de um trauma sofrido na
infância. Quando tinha seis anos, seu irmão mais velho o trancou em uma adega que não
era usada e o esqueceu lá. Por causa do isolamento da porta, ninguém escutou as batidas
desesperadas e seus gritos histéricos. Somente depois que sua mãe começou a se
preocupar com sua ausência para o jantar, foi que o irmão se lembrou de onde ele
estava.
Kim sempre se recordava do terror que sentira trinta e oito anos antes, todas as
vezes que precisava descer ao porão. Enquanto reunia algumas toras de lenha, escutou
uma batida seca numa das despensas. Sentiu um arrepio na nuca. Ficou imóvel e forçou
o ouvido. O ruído se repetiu.
Procurando dominar a ânsia de correr, Kim largou as toras no chão. Segurando
a lanterna, foi até a porta da despensa. Precisou tomar coragem para abri-la com o pé e
apontar a lanterna para o interior. Alguns pares de pontos luminosos vermelhos
brilharam na escuridão à sua frente antes de se dispersarem atabalhoadamente.
Kim suspirou aliviado e voltou para pegar a lenha.
Tracy subiu os degraus sentindo uma ponta de nostalgia. Já fazia algum tempo
que não subia ao segundo andar da casa. Parou diante do quarto de Becky e ficou
olhando a porta fechada, pensando se ousaria ou não entrar. Sem poder resistir, apenas a
abriu e ficou parada na soleira.
O quarto continuava o mesmo. Como Tracy e Kim dividiam a custódia da
menina, Tracy tinha comprado uma nova mobília para a filha e deixado a antiga onde
estava. Becky não se importou e preferiu deixar o que considerava seus objetos de
infância no antigo quarto. Sequer levou sua coleção de bichos de pelúcia.
A idéia da perda de Becky era inconcebível para Tracy. Ela tinha sido o centro
de sua vida, particularmente depois que seu relacionamento com Kim se deteriorara.
Tracy respirou fundo e fechou a porta. Enquanto se dirigia para a suíte do casal,
enxugou uma lágrima do rosto com as costas da mão. Sabia, pela experiência
profissional, o quão difícil seriam os próximos meses para ela e para Kim.
Tracy preferiu entrar no banheiro pelo corredor para não ter que dar a volta pelo
quarto. Acendeu a luz e fechou a porta. Parou por um instante e examinou o interior.
Não estava tão limpo como no tempo em que morava lá, mas ainda era bonito, com a
pia de granito e o boxe revestido em mármore.
Inclinando-se para dentro do boxe, ela abriu a torneira do chuveiro e regulou o
jato d'água. Em seguida retirou do armário embutido uma grande toalha de banho e um
roupão. Deixou-os sobre a pia e começou a despir as roupas molhadas.
Carlos ouviu o chuveiro e sorriu. Aquele serviço seria ainda mais fácil do que
imaginara. Estava escondido dentro do closet da suíte do casal, na intenção de
surpreender Kim no momento em que ele inadvertidamente abrisse a porta. Mas ao
ouvir o chuveiro achou mais conveniente encurralar o médico naquele espaço confinado
tão propício, onde não teria a menor possibilidade de fuga.


Carlos abriu lentamente a porta do armário e um filete pálido de luz iluminou
seu rosto. Examinou o exterior. O quarto permanecia quase que inteiramente às escuras.
A única luz vinha do banheiro, o que também o agradava. Significava que não podia ser
visto ao aproximar-se. A surpresa era um elemento importante na execução daquele tipo
de trabalho.
Carlos abriu a porta o suficiente para enfiar o pé no recinto. Segurava a faca na
mão direita.
Movendo-se como um gato atrás de sua presa, a cada passo que dava, Carlos
tinha uma visão mais clara do interior do banheiro através da passagem que interligava
os dois cômodos. Viu a mão de alguém deixar uma roupa sobre a pia.
Dando outro passo, Carlos obteve uma visão total do banheiro e ficou paralisado
com o que viu. Não era Kim, mas uma mulher sexy e graciosa, desabotoando o sutiã.
No instante seguinte, seus seios brancos e macios revelaram-se diante do olhar atônito
de Carlos. A mulher então enfiou os dedos por baixo do elástico da calcinha e a desceu
até os pés.
Carlos ficou petrificado com aquele espetáculo inesperado e agradável, enquanto
Tracy virava as costas para ele e era envolta pela névoa esfumaçante da água quente.
Ela fechou a porta de vidro do boxe e pendurou a toalha numa barra de alumínio.
Carlos avançou um pouco como se estivesse sendo atraído por una sereia. Queria
encontrar um ponto de onde tivesse melhor visão.
Tracy pôs a mão sob o jato d'água e a encolheu rapidamente. Estava quente
demais, conforme esperava. Tinha sido seu desejo transformar o chuveiro numa sauna a
vapor.
Abriu o registro de água fria e regulou a temperatura. Enquanto esperava a água
esfriar, notou que a saboneteira estava vazia. O sabonete tinha ficado na pia.
Tracy abriu a porta para apanhar o sabão quando um brilho de luz chamou sua
atenção. Tinha vindo do quarto. No primeiro instante, não pôde acreditar em seus olhos
e piscou algumas vezes. Havia uma imagem espectral de uma silhueta masculina por
trás da porta, oculto sob a penumbra da luz do banheiro. O brilho que lhe chamara a
atenção tinha sido um reflexo na lâmina de uma faca descomunal que o homem
empunhava na mão direita.
Durante um instante, os dois se entreolharam; Tracy, totalmente apavorada, e
Carlos com um interesse libidinoso.
Tracy foi a primeira a reagir. Soltou um grito pavoroso e bateu com força a porta
do boxe. Em seguida arrancou a barra da toalha e atravessou-a no puxador em forma de
U da sólida porta de vidro para impedir que se abrisse.
A reação de Carlos foi a de invadir o boxe e fazê-la calar-se antes que Kim
viesse atrás dos gritos. Passando a faca para a mão esquerda, agarrou a maçaneta e
tentou forçar a Porta. Frustrado por não conseguir, procurou quebrar o vidro desferindo
pontapés. A barra da toalha, leve e flexível, lentamente cedeu sob seus esforços.
Quando o grito de Tracy ecoou pela casa, Kim vinha subindo a escada do porão,
trazendo a lenha para acender a lareira. Já nervoso por causa do susto com os ratos, teve
a impressão de que o coração fosse saltar-lhe da boca. Soltou o monte de toras, que
rolaram escada abaixo com um forte estrondo, derrubando tudo o que estava
inapropriadamente guardado sobre os degraus.
Como um rolo compressor, Kim atravessou a cozinha, cruzou a sala de jantar, o
hall e galgou os degraus da escada alucinadamente. No corredor do andar superior
ouviu Tracy gritar novamente e redobrou seus esforços. Jogou todo o peso do corpo
contra a frágil porta do banheiro, estraçalhando-a ao atravessá-la.
Kim irrompeu no banheiro e escorregou no tapete ao tentar frear. Viu Carlos


com a perna erguida contra o vidro do boxe aparentemente tentando quebrá-lo. Quando
notou a faca, arrependeu-se de não ter levado nada para se defender.
Carlos reagiu girando o braço, na tentativa de golpeá-lo com a faca na altura do
pescoço, mas Kim recuou num ato de puro reflexo. Não conseguiu, porém, evitar que a
ponta da lâmina lhe rasgasse o rosto bem acima do nariz.
Carlos passou a arma para a mão direita e concentrou-se inteiramente em Kim,
que, de olhos grudados na faca, procurava recuar para o corredor.
Tracy lutava para arrancar a barra de alumínio do puxador. Quando finalmente
conseguiu, Kim e Carlos tinham desaparecido pelo corredor. Agarrou a barra por uma
extremidade e sem pensar duas vezes, saiu nua do banheiro atrás dos dois homens.
Carlos ainda forçava o recuo de Kim, ameaçando-o com repetidas estocadas.
Kim tentava inutilmente defender-se usando como escudo um pedaço do umbral da
porta. Seu rosto já estava coberto de sangue.
Sem hesitar, Tracy surgiu às costas de Carlos golpeando-o intermitentemente
com a barra de alumínio. O tubo oco não era pesado o suficiente para machucá-lo, mas
forçou-o a procurar defender-se da seqüência de golpes. Virou-se para dar algumas
estocadas em Tracy, que imediatamente deu um salto para trás.
Kim aproveitou a oportunidade e agarrou uma mesinha de canto. Arrancou a
mesa da parede e espatifou-a sobre o corrimão para soltar-lhe a perna. Quando Carlos se
virou novamente para Kim, ele brandia a perna da mesa no ar como se fosse uma clava.
Com Kim de um lado e Tracy do outro, Carlos achou que sua arma letal tinha se
tornado inadequada e disparou escada abaixo, saltando os degraus de dois em dois.
Kim correu atrás dele, com Tracy logo atrás.
Carlos conseguiu chegar à porta da frente, abriu-a com violência e atravessou
correndo o gramado. Kim estava bem perto dele, mas parou ao ouvir Tracy gritando por
seu nome. Olhou para trás e a viu parada na varanda.
— Volte para cá! — berrou ela. — Não vale a pena.
Kim ainda se virou em tempo de ver Carlos entrando num furgão estacionado
sob o arvoredo. No instante seguinte, o veículo cuspiu uma fumaça negra e partiu
ganhando velocidade.
Kim voltou correndo para a casa e encontrou Tracy no vestíbulo. Ela se cobrira
com o casaco para esconder a nudez.
Kim a envolveu nos braços.
— Você está bem? — perguntou, preocupado.
— E você quem está machucado — respondeu Tracy.
O corte que ia do nariz à sobrancelha estava aberto e continuava sangrando. Kim
a soltou e foi até o lavabo examinar-se diante do espelho. Surpreendeu-se com a
quantidade de sangue. Vislumbrou o rosto de Tracy às suas costas, que tinha subido
atrás dele.
— Meu Deus, foi por pouco! — disse Kim, agora prestando atenção no
ferimento. — Essa podia ter sido séria. Primeiro, ele corta minha mão; e agora, bem
entre os olhos.
— Está sugerindo que esse é o mesmo homem que o atacou ontem à noite? —
perguntou Tracy, assustada.
— Sem dúvida alguma — reafirmou Kim. — Eu não saberia descrevê-lo bem,
mas não teria o menor problema em reconhecê-lo.
Tracy estremeceu e não conseguiu se controlar. Kim percebeu pelo espelho que
ela tremia sob o casaco. Girou nos calcanhares e segurou-a pelos ombros.
— O que há com você? Está tudo bem, não está? Não foi ferida, foi?
— Estou bem fisicamente — respondeu ela, por fim. — Só estou tomando


consciência da realidade. Aquele homem queria nos matar.
— Ele queria me matar — disse Kim. — Você foi uma surpresa e tão inesperada
que salvou minha vida. Graças a Deus não se machucou.
— Vou ligar para a polícia — disse Tracy, separando-se de Kim e indo em
direção à sala de estar.
Kim a segurou pelo braço antes que ela alcançasse o telefone.
— Não se incomode em chamar a polícia — disse ele.
Tracy olhou para a mão de Kim apertando-lhe o braço e o encarou, incrédula.
— Como assim, "não se incomode"? — estranhou.
— Venha — insistiu Kim, puxando-a na direção da escada. — Vou pegar meu
revólver. Duvido que o sujeito volte, mas é melhor estar prevenido.
— Por que não quer chamar a polícia? Não faz o menor sentido.
— Eles não farão nada. Vamos perder nosso tempo. Dirão, sem dúvida, que não
passou de um assalto frustrado. Somente nós sabemos do que se trata.
— Sabemos? — perguntou Tracy.
— É claro. Já disse que era o mesmo homem da Higgins e Hancock.
Obviamente, o que eu temia aconteceu com Marsha e os responsáveis, sejam eles da
Higgins e Hancock ou da máfia da carne, estão com medo de mim.
— Está me parecendo um motivo a mais para avisar a polícia. — disse Tracy.
— Não! — reagiu Kim, enfaticamente. — Além de não fazerem nada, ainda
poderiam causar problema. Além do mais não quero que interfiram em meu trabalho de
reunir provas para Kelly Anderson. Para eles, já sou um delinqüente. Acham que sou
louco.
— Mas não acham que eu sou louca.
— Vão achar assim que contar a eles que tem andado comigo.
— Você acha mesmo? — perguntou Tracy. Aquele era um aspecto que ela ainda
não tinha considerado.
— Venha — apressou-a Kim — vamos pegar o revólver.
Tracy acompanhou Kim até o hall e começaram a subir a escada. Sentia-se
confusa, mas deixou-se levar por ele. O ataque do homem com a faca a deixara
aterrorizada.
— Estou com muito medo desse seu envolvimento nisso tudo — disse ela.
— Eu não. Eu me sinto ainda mais estimulado. Qualquer resquício de dúvida
que ainda existia em mim dissipou-se totalmente, agora que sei até onde são capazes de
chegar para se protegerem.
Passaram pela porta quebrada do banheiro. Tracy escutou o ruído do chuveiro
aberto. Sentiu um calafrio ao pensar que ficou separada do assassino apenas por uma
chapa de vidro. Tracy acompanhou Kim até o quarto da suíte. Ele abriu a mesinha-decabeceira e retirou um Smith & Wesson calibre trinta e oito de cano curto. Conferiu o
tambor. Estava carregado. Enfiou o revólver no bolso do casaco e percebeu então que a
porta do closet estava aberta.
— O safado deve ter se escondido ali — disse.
Kim foi até lá e acendeu a luz. A maioria das gavetas estava derramada pelo
chão. Kim verificou a gaveta onde guardava seus poucos objetos de valor.
— Legal! Levou o Piaget que era do meu pai.
— Kim, acho que devemos esquecer a coisa toda. Não creio que deva procurar
emprego na Higgins e Hancock.
— Agora não me resta outra escolha. Não vou desistir do relógio de meu pai
sem luta.
— Não é hora para piadas, Kim, estou falando sério. É perigoso demais!


— E o que acha que devemos fazer? Fugir para outro país?
— É uma idéia.
Kim deixou escapar um riso desolado.
— Espere aí — disse ele — só estava brincando. Para onde gostaria de ir?
— Algum lugar da Europa — respondeu Tracy. — Tive uma segunda conversa
com Kathleen depois daquele nosso encontro. Ela me disse que existem alguns países,
como a Suécia, onde não há carne contaminada.
— Fala sério? — questionou Kim.
— Foi o que ela disse. Pode ficar mais caro, mas eles decidiram que vale a pena.
— E você consideraria seriamente a possibilidade de ir viver num país
estrangeiro?
— Não tinha pensado nisso até você dar a idéia. Mas respondendo à sua
pergunta, sim, eu consideraria. Depois do que aconteceu a Becky, gostaria de tudo isso
divulgado publicamente; aproveitaria a mudança para denunciar a situação da
alimentação neste país. E, certamente, isso seria muito menos arriscado.
— Suponho que sim — disse Kim. Pensou a respeito da idéia por um momento e
sacudiu a cabeça. — Eu penso que fugir é desistir da luta. Pela alma de Becky, vou
levar esse caso até as últimas conseqüências.
— Tem certeza de que não está fazendo tudo isso só para esquivar-se da morte
de Becky? — perguntou Tracy, nervosa. Sabia que estava abordando uma área delicada.
O antigo Kim teria reagido explosivamente.
Ele não respondeu de imediato. Ao fazê-lo, sua voz não parecia zangada.
— Já consigo aceitar isso, mas acho que também estou fazendo pela memória de
Becky. Como se o legado dela seja evitar que outras crianças tenham o mesmo destino.
Tracy estava sensibilizada. Aproximou-se de Kim e o abraçou. Ele realmente
agia como outro homem.
— Agora, vá tirar esse casaco e vestir suas roupas. Vamos comer o que você
trouxe e dar o fora daqui.
— Para onde vamos?
— Primeiro, para o hospital. Preciso costurar esse nariz ou terei de olhar para ele
assim o resto de minha vida. Depois, podíamos ir para a sua casa se não se importar.
Creio que lá estaremos mais seguros que aqui.
— E agora, quem é o infeliz que está aí fora? — perguntou Bobby Bo Mason.
Ele e sua mulher, mais as duas crianças menores comiam bifes de contrafilé com batata
assada, ervilhas e bolinhos de milho naquele jantar leve de domingo. A concentrada
mastigação foi interrompida pelos sinos da campainha da frente.
Bobby Bo ergueu uma ponta do guardanapo para limpar o canto da boca. A
outra ponta estava enfiada na camisa, espremida por seu proeminente pomo-de-adão.
Olhou para o relógio na parede. Passava um pouco das sete.
— Quer que eu atenda, querido? — perguntou Darlene. Ela era a terceira esposa
de Bobby Bo e mãe dos seus filhos menores. Ele tinha outros dois cursando a
universidade estadual de agronomia.
— Deixe que eu abro — grunhiu Bobby Bo. Levantou-se da mesa, ergueu o
queixo e dirigiu-se para a porta da frente. Ficou imaginando quem teria a ousadia de
tocar a campainha durante seu jantar, mas concluiu que devia ser importante para o
segurança ter deixado passar.
Bobby Bo abriu a porta. Era Shanahan O'Brian, com o chapéu nas mãos.
— Você não parece feliz — disse Bobby Bo.
— Não estou — admitiu Shanahan. — Não trago boas notícias.


Bobby Bo deu uma olhada por cima do ombro para certificar-se de que Darlene
não o tinha acompanhado até a porta.
— Vamos para a biblioteca — disse Bobby Bo, recuando um passo para dar
passagem a Shanahan. Entraram na biblioteca e Bobby Bo fechou a porta.
— Muito bem — disse — qual o problema dessa vez?
— Acabo de falar com Carlos. Não liquidou o médico.
— Pensei que esse cara fosse bom com a faca — queixou-se Bobby Bo.
— Foi o que me disseram — defendeu-se Shanahan. — Carlos insistiu que foi
uma questão de sorte. Chegou a entrar na casa dele. Disseram-lhe que o médico morava
sozinho, mas chegou acompanhado de uma mulher.
— Grande coisa — comentou Bobby Bo. — Esse tal Carlos foi contratado para
matar. Que diferença faz se havia uma mulher lá?
— Aparentemente, ela o deixou confuso. Ele a pegou nua e...
— Já é o suficiente — disse Bobby Bo, erguendo as mãos. — Não quero ouvir
mais detalhes. O fato é que esse tarado amador cagou o negócio todo.
— Resumindo, foi isso mesmo — concordou Shanahan.
— Merda! — explodiu Bobby Bo. Ele deu um tapa na borda da mesa e começou
a andar de um lado para o outro, aos palavrões.
Shanahan deixou que seu chefe desabafasse um pouco. Tinha aprendido com o
passar dos anos que o melhor a fazer quando Bobby Bo se irritava era falar o menos
possível.
— Bem — disse Bobby Bo, enquanto ainda se remexia inquieto, diante da
lareira. — Tudo isso serve apenas para mostrar a estupidez que é economizar alguns
dólares e confiar num novato. E a inutilidade desse Comitê para Controle de Doenças.
Vamos chamar o profissional de Chicago o mais rápido possível e acabar de vez com
essa bagunça. Como é mesmo o nome dele?
— Derek Leutmann — respondeu Shanahan. — Mas ele é caro. Acho que
devíamos dar mais uma chance a Carlos.
— Quanto ele cobra? — perguntou Bobby Bo.
— No mínimo, cinco mil.
— Ora, cinco mil é barato se for para evitar outro grande recolhimento de carne
— calculou Bobby Bo. — Estamos falando de um prejuízo de milhões de dólares, senão
da própria viabilidade de toda a indústria da forma como a conhecemos, caso o público
fique sabendo da verdadeira extensão desse problema com E. coli. Seria mil vezes pior
que James Gamer sofrer uma cirurgia cardíaca depois de fazer lobby para a indústria da
carne. — Bobby Bo soltou uma risadinha da própria piada.
— O que me preocupa mais é o problema que o médico pode causar por causa
de Marsha Baldwin — disse Shanahan.
— Pois é, isso também.
— E quanto a Carlos? — perguntou Shanahan. — Ele ficou mesmo injuriado.
Diz que faz o serviço até de graça. Passou a ser uma questão de honra.
— Quais as conseqüências desse último fracasso? — perguntou Bobby Bo. — A
polícia foi chamada? Vamos ter de nos preocupar com a mídia também?
— Aparentemente, não. Não temos notícia de nenhuma ocorrência policial.
Nada aconteceu.
— Graças a Deus. Vou lhe dizer o que fazer. Entre em contato com Leutmann e
acerte os detalhes com ele, mas caso haja a oportunidade, dê mais uma chance a Carlos.
O que acha?
— Leutmann exigirá um adiantamento só para sair de Chicago — disse
Shanahan. — Um dinheiro que não vamos recuperar de jeito nenhum.


— Nesse caso, economizamos dois mil e quinhentos, além de ficarmos
duplamente cobertos. De um jeito ou de outro, teremos nos livrado desse doutorzinho
irritante.
— Está certo — disse Shanahan. — Vou tratar logo disso.
— Ótimo — disse Bobby Bo. — Só lhe peço que da próxima vez me venha com
boas notícias.
— Fique tranqüilo. A partir de agora, a responsabilidade é minha — garantiu
Shanahan.
— Só mais uma coisa — disse Bobby Bo. — Consiga alguma informação sobre
a vida desse médico. Quando Leutmann chegar aqui, quero que ele saiba como achar o
doutor sem precisar circular por aí.
O pronto-socorro do Centro Médico Universitário estava movimentado como de
costume. Kim e Tracy esperavam no saguão, sentados num banco próximo ao que
tinham ficado quando lá estiveram com Becky. Kim pressionava a laceração com um
pedaço de gaze.
— Parece mais um desagradável replay — comentou Kim.
— Sinto como se tivesse passado um ano desde que estivemos aqui — disse
Tracy, melancolicamente. — Não posso acreditar que tenha acontecido tanta coisa em
tão poucos dias.
— De um lado, parece uma eternidade; e do outro, um piscar de olhos —
ponderou Kim, cerrando os dentes. — Não consigo deixar de me perguntar se as coisas
teriam tomado outro rumo, caso Becky fosse atendida com mais rapidez naquela
primeira visita e as culturas tivessem sido realizadas.
— Coloquei essa questão para a Dra. Morgan e na opinião dela não teria feito
muita diferença.
— É difícil de acreditar.
— Por que não chamou um de seus colegas da cirurgia para costurá-lo? —
perguntou Tracy.
— Pela mesma razão por que não quis chamar a polícia. Só quero suturar o corte
e fim. Não quero que todos fiquem falando. Com um amigo haveria perguntas, e me
sentiria culpado por mentir.
— Sem dúvida, irão perguntar como isso aconteceu, mesmo aqui na emergência.
O que dirá a eles?
— Eu não sei. Vou pensar em alguma coisa.
— Por quanto tempo acha que teremos de esperar?
— Segundo David Washington, não muito.
Por sorte, tinham cruzado com o chefe do pronto-socorro ao entrarem. Ele
soubera do falecimento de Becky e apresentou suas mais profundas condolências.
Também lhe garantiu o atendimento mais rápido possível e pareceu não se incomodar
quando Kim lhe disse que queria usar um nome fictício.
Por algum tempo ficaram sentados em silêncio observando, indiferentes, o
patético desfile dos enfermos e feridos que passavam à sua frente. Tracy foi a primeira a
quebrar o silêncio.
— Quanto mais penso na experiência por que acabamos de passar, mais
convencida fico em não permitir que prossiga com seu plano. Quero dizer, é
absolutamente autodestrutivo só de você pensar em ir à Higgins e Hancock, depois de
tudo o que aconteceu.
— Que história é essa de não permitir? — respondeu Kim irritado, ainda
divagando sobre o atendimento de Becky no pronto-socorro. — O que vai fazer?
Impedir-me fisicamente?


— Por favor, Kim. Estou tentando dialogar com você. Por causa do que
aconteceu a Becky, tenho medo de que você não seja capaz de tomar decisões racionais.
A meu ver, arranjar um emprego na Higgins e Hancock é arriscado demais.
— Pode ser arriscado, mas não há outra opção. É a única forma que temos de
atingir a mídia, e a mídia é nossa única esperança de fazer alguma coisa sobre essa
trágica situação.
— O que exatamente você espera conseguir na Higgins e Hancock que justifique
todo esse risco?
— Isso eu não posso dizer até entrar lá — admitiu Kim. — Jamais estive num
matadouro, não sei o que esperar. Mas sei o que estou procurando. Em primeiro lugar,
descobrir como Becky foi contaminada. Marsha Baldwin encontrou algo referente ao
último animal abatido no dia 9 de janeiro. Quero saber o que foi. Em segundo, o próprio
desaparecimento de Marsha Baldwin; alguém tem de saber de alguma coisa. E, por fim,
investigar como o E. coli aparece na carne. Marsha levantou a hipótese de que a causa
poderia estar na maneira como os animais são abatidos. Quero ver com meus próprios
olhos e depois documentar tudo. Aí, terei as provas que Kelly Anderson exige.
Denunciar o Departamento de Agricultura ficará, então, a cargo dela.
Tracy o encarou à distância.
— Não vai dar sua opinião? — comentou Kim após uma pausa.
— Claro — disse ela, parecendo voltar de um transe. — Você faz tudo parecer
tão fácil. Mas vou dizer-lhe uma coisa: não permitirei que vá sozinho. Preciso participar
de alguma forma, para ajudar se for preciso, mesmo que também seja obrigada a
arrumar um emprego.
— Fala sério? — exclamou Kim. Ele estava admirado.
— É lógico que falo sério. Becky era minha filha também. Não acho certo que
você seja o único a correr o risco.
— Bem, essa é uma idéia interessante — disse Kim. Agora era a vez dele
encará-la enquanto considerava a idéia.
— Eu nem precisaria me disfarçar — acrescentou ela. — Eles não me
conhecem.
— Não sei se haveria algum tipo de trabalho para você.
— Por que não? Se você pode, por que não eu?
— Marsha disse que estão sempre precisando de mão-de-obra, mas apenas na
área de abate. Não creio que você esteja preparada para isso.
— Não, mas talvez possam me empregar como secretária ou em algum serviço
de escritório. Nunca saberemos se não tentarmos.
— Tive uma idéia melhor. Lembra-se de Lee Cook, que trabalhou para mim no
Samaritano?
— Acho que lembro. Não era aquele técnico inteligente que consertava qualquer
aparelho eletrônico e conseguiu dar um jeito em todo o equipamento sofisticado do
hospital?
— Isso mesmo. Depois da fusão, ele se aposentou. Está construindo seu próprio
avião no porão de sua casa e outras coisas estranhas. Mas estou certo de que ele poderia
montar um aparelho de escuta. Desse modo, você pode ficar dentro do carro, no
estacionamento, escutando tudo ao vivo. Se necessário, poderá usar imediatamente o
celular para chamar a cavalaria.
— Eu teria condições de ficar escutando o tempo todo?
— Teria sim, o tempo todo.
— Seria possível falar com você? — perguntou Tracy.
— Bem, quanto a isso eu não sei. Precisaria de algum tipo de fone no ouvido.


Isso poderia me entregar. Não posso imaginar muitos funcionários da Higgins e
Hancock usando fones de ouvido.
— Eu poderia inclusive gravá-lo — disse Tracy, animando-se com a idéia.
— É verdade — concordou Kim.
— Será que poderíamos gravar em vídeo? — perguntou ela.
— Ei, é possível! Hoje em dia estão fabricando câmeras minúsculas. Talvez
assim consigamos a documentação necessária para Kelly Anderson.
— Sr. Billy Rubina! — chamou uma voz por sobre o burburinho da multidão.
Kim levantou a mão e ficou de pé. Tracy fez o mesmo. Um residente do prontosocorro, vestindo um jaleco imaculadamente branco, os localizou e dirigiu-se até eles.
Trazia uma prancheta com a folha do registro de Kim.
— Sr. Billy Rubina? — repetiu o residente. Em sua tarja na camisa, lia-se: DR.
STEVE LUDWIG, MÉDICO RESIDENTE. Era um rapaz vigoroso, sorridente, de
cabelos louros e ondulados. — O senhor sabia que bilirrubina é um termo médico?
— Não — disse Kim. — Não tinha a menor idéia.
— Pois é — comentou Steve. — Refere-se à quebra de hemoglobina. Mas,
enfim, vamos dar uma olhada nesse seu ferimento.
Kim retirou a gaze. Devido à inchação o ferimento parecia mais aberto que
antes.
— Uau! — exclamou Steve. — É um corte feio. Vamos ter de dar uns pontinhos
aí. Como foi que isso aconteceu?
— Fazendo a barba — respondeu Kim.
Tracy precisou se conter para não soltar uma risada.

16
Segunda-feira, 26 de Janeiro
Tracy mexia as cadeiras. impaciente. Fazia uns cinco minutos que esperava,
encostada na parede de gesso de braços cruzados, no hall do segundo andar. Estava bem
diante da porta do banheiro de hóspedes.
— Como é, vai demorar muito? — perguntou ela através da porta.
— Está pronta? — respondeu a voz de Kim.
— Há muito tempo — respondeu Tracy. — Abra logo essa porta!
A porta do banheiro se abriu. Tracy levou uma das mãos à boca e deixou escapar
uma risadinha involuntária.
Kim estava completamente diferente. O cabelo desgrenhado e curto, espetado
para cima num tom louro platinado. As sobrancelhas da mesma cor combinavam com o
cabelo, mas contrastavam com a barba escura ainda por fazer. A ferida suturada no
supercílio emprestava-lhe um ar de Frankenstein. Vestia um conjunto totalmente negro:
camisa de veludo sobre uma camiseta sem manga e calças de couro. O cinto era também
de couro, combinando com o bracelete de rebites de metal e o brinco de diamante falso
na orelha esquerda. No braço direito, exibia uma tatuagem de um coiote com a palavra
"lobo".
— E então, o que acha? — perguntou ele.
— Você ficou muito esquisito! Especialmente com esses pontos pretos na testa.
Não gostaria de cruzar com você numa rua escura.
— Era esse o efeito que eu queria — disse Kim.


— Com certeza, sua aparência não é a de alguém que eu desejasse conhecer.
— Nesse caso, talvez devesse dar uma passadinha no hospital — sugeriu Kim.
— Quem sabe, vestido dessa maneira, eles me reintegrem sem nenhuma audiência.
Tracy não pôde evitar uma gargalhada.
— Jamais suspeitaria que fosse um médico — disse. — Eu gostei,
particularmente, da tatuagem.
Kim examinou o braço para apreciar sua obra-prima.
— Muito maneiro, hein? — comentou, orgulhoso. — Nas instruções diz que
dura de três a quatro dias, se não molhar. Já imaginou?
— Onde está o microfone?
— Bem aqui, debaixo da gola.
Kim desdobrou o canto superior da camisa. Havia um minúsculo microfone
pregado por baixo.
— Foi uma pena não termos conseguido o vídeo.
— Ei, não se esqueça de que ainda há uma chance. Lee disse que daria um jeito,
e quando diz isso, nove em cada dez vezes ele resolve. Só que ainda vai levar alguns
dias.
— Vamos testar o sistema de áudio — sugeriu Tracy. — Quero ter certeza de
que vai funcionar do mesmo jeito que ontem à noite, na garagem de Lee.
— Bem pensado. Entre no carro e vá até a esquina. A distância deve ser mais ou
menos a mesma. Lee disse que pega até duzentos metros.
— Onde você vai ficar?
— Vou andar pela casa toda — disse Kim. — Vamos experimentar do porão
também.
Tracy acenou concordando e desceu para pegar o casaco no armário do hall.
— Não se esqueça de colocar os fones — gritou ela da porta.
— Já os coloquei.
Tracy saiu na manhã clara. Um vento tinha soprado durante a noite, empurrando
as nuvens escuras para o Leste. Em seu lugar havia um céu azul-pálido.
Tracy entrou no carro, deu a partida e foi até a esquina, conforme o combinado.
Encostou no meio-fio e desligou o motor. Em seguida abriu a janela lateral e colocou
uma antena improvisada sobre o teto.
No interior do veículo, Tracy colocou na cabeça um par de fones de ouvido que
estava conectado a um antigo gravador de rolo. O gravador estava ligado a um
amplificador, que por sua vez se conectava a um transformador colocado em cima de
uma bateria comum de automóvel.
Tracy ligou o aparelho, e uma lâmpada vermelha acendeu no painel frontal do
amplificador. Escutou um ruído de estática que sumiu logo em seguida. Em cima do
amplificador tinha um microfone. Tracy o pegou.
Depois de dar uma espiada ao redor para ter certeza de que não era observada
por nenhum vizinho, falou ao microfone:
— Kim, pode me ouvir?
A voz de Kim chegou tão alto, que Tracy se encolheu num reflexo.
— Posso ouvi-la como se estivesse ao meu lado — disse ele.
Tracy abaixou rapidamente o volume e apertou a tecla REC do gravador.
— Como está o seu volume? — perguntou Tracy. — Sua voz ficou muito alta
desse lado.
— Para mim está bom.
— Onde você está?
— Nos fundos do porão. Se funciona daqui, é certo que vai funcionar em


qualquer lugar.
— A nitidez do som é surpreendente.
— Bem, acho que já pode voltar. Agora vamos levar nosso show para a estrada.
— Dez-quatro — disse Tracy. Não tinha a menor idéia do significado daquela
expressão, mas já tinha ouvido em muitos filmes e programas de TV.
Ela tirou os fones dos ouvidos e parou a fita. Rebobinou-a e colocou para ouvir.
Ficou satisfeita de ver que as duas partes tinham sido gravadas com absoluta clareza.
Assim que chegou à casa, Kim já esperava à porta com tudo o que pretendiam
levar. Tinham embrulhado sanduíches e enchido duas garrafas térmicas, para o caso de
Kim ser contratado na hora. Levavam também um cobertor e agasalhos de reserva para
Tracy. Kim estava certo de que seria muito frio para ela, ficar sentada no carro o dia
todo.
Ajeitaram tudo no banco traseiro. Kim também foi atrás, já que o banco do
carona estava ocupado com o equipamento eletrônico.
Tracy sentou ao volante e já ia dar a partida quando se lembrou de mais uma
coisa.
— Onde está sua arma?
— Lá em cima, no quarto de hóspedes.
— Acho que devia levá-la.
— Não quero carregar uma arma dentro do matadouro.
— Por que não? Deus me livre, mas e se você tiver de enfrentar novamente
aquele miserável com a faca?
Kim ponderou a respeito. Havia alguns aspectos negativos. Primeiro, receava
que a arma pudesse ser encontrada. Segundo, jamais havia atirado com ela e não sabia
se conseguiria, na verdade, atirar em alguém. Lembrou-se então do pânico que sentiu
quando foi perseguido pelo homem com a faca e como tinha desejado ter algum tipo de
arma na mão.
— Está bem — disse, abrindo a porta. Tracy entregou-lhe a chave e ele voltou
até a casa. Alguns minutos depois entrou no carro e devolveu a chave a Tracy.
Ela deu a partida e engrenou a ré.
— Espere um segundo. Ainda há outra coisa.
Tracy desligou a chave de ignição. O motor espirrou e morreu. Sem entender por
que, virou-se para Kim.
— O que é agora? — perguntou.
Kim olhava a casa fixamente.
— Só estava pensando no desgraçado dentro de minha casa quando chegamos
ontem à noite. Não quero ser pego de surpresa novamente. Não seria inconcebível que
eles conseguissem me rastrear até aqui.
— O que sugere? — perguntou Tracy, sentindo um arrepio.
— Você tem algum vizinho particularmente curioso? — indagou Kim. — Essas
casas são bastante próximas umas das outras.
— A Sra. English, do outro lado da rua — disse Tracy. — É uma viúva idosa
que deve passar o dia todo olhando pela janela.
— É um bom começo. Vamos pedir a ela que fique de olho em sua casa até
voltarmos. O que acha?
— Boa idéia.
— Mas não é o suficiente. Precisamos de mais garantias. Precisamos estar cem
por cento certos. Quantas portas tem a casa?
— Apenas as convencionais: da frente e dos fundos.
— E o porão?


— A única passagem para o porão é por dentro da casa.
— O sujeito da noite passada arrombou as telas nos fundos — pensou Kim em
voz alta.
— Essa casa não tem telas.
— Isso é bom.
Kim saltou do carro, e Tracy fez o mesmo.
— Por que não fazemos alguma coisa nas portas para sabermos se foram
forçadas? — sugeriu Tracy. — Se alguém tentar entrar terá de quebrar uma janela ou
arrombar uma das portas. Poderemos verificar quando voltarmos.
— É uma ótima idéia — disse Kim. — Mas, fazer o quê?
— Bem, com toda a certeza, nós não entraremos na casa.
— Para onde poderíamos ir? Não queremos que nos sigam.
Tracy deu de ombros.
— Um motel, creio.
— Já sei o que faremos — disse Kim. — No caminho para a Higgins e Hancock
vamos dar uma parada no banco e retirar todo o dinheiro que pudermos, como garantia.
Se estamos preocupados em não ser seguidos, cartões de crédito não serão a melhor
opção.
— Caramba, você está mesmo pensando adiante! Nesse caso, será melhor
levarmos nossos passaportes também.
— Escute, estou falando sério — queixou-se Kim.
— Eu também — disse Tracy. — Se a situação chegar onde tememos, quero ter
a opção de poder ir para bem longe.
— Faz sentido. Então, vamos.
Levou meia hora para deixarem a casa como queriam e mais meia para retirarem
o dinheiro do banco. Foram em diferentes caixas para apressar as coisas, mas não
adiantou. O caixa de Kim ficou desconfiado de sua aparência e teve de procurar um
gerente que garantisse a autenticidade de sua assinatura.
— Estou me sentindo uma ladra de banco — comentou Tracy, ao voltarem para
o carro. — Nunca andei com tanto dinheiro.
— Fiquei com medo de que não me dessem o meu — disse Kim. — Talvez
tenha exagerado um pouco no disfarce.
— O fato de não o terem reconhecido é que foi mais importante.
Já eram umas dez e meia quando finalmente pegaram a auto-estrada a caminho
da Higgins e Hancock. O dia, que tinha começado tão claro, já ameaçava com algumas
nuvens de chuva. O sol raramente aparecia por muito tempo no inverno do Meio-Oeste.
— O que disse para a Sra. English? — perguntou Kim, do banco traseiro.
— Não precisei falar muito. Ficou radiante com a tarefa. É horrível dizer, mas
acho que estamos dando um novo significado à sua vida.
— Quando disse que voltaria?
— Não disse.
— Vamos rever nosso espanhol de escola — disse Kim, sem mais nem menos.
Surpresa com aquela sugestão, Tracy deu uma olhada em Kim pelo retrovisor.
Nas últimas vinte e quatro horas perdera a noção de quando ele estava fazendo piada ou
falando sério.
— Quero ver se consigo falar com sotaque espanhol — explicou Kim. —
Marsha disse que a maioria dos empregados são latinos, principalmente mexicanos.
Durante os minutos seguintes, contaram números em espanhol e construíram
frases simples. Os dois tinham esquecido muito vocabulário. Logo fizeram silêncio.


— Deixe-me perguntar uma coisa — disse Tracy, depois de rodarem alguns
quilômetros sem conversar.
— Pergunte.
— Se tudo der certo e conseguirmos que Kelly Anderson faça a reportagem e
denuncie o caso, o que gostaria que acontecesse?
— O fim do comércio para os doze bilhões de toneladas de carne moída
produzidas a cada ano.
— E depois? — perguntou Tracy.
— Bem — disse Kim, colocando os pensamentos em ordem — gostaria que o
público exigisse que a tarefa de inspecionar toda a carne produzida para consumo,
incluindo a avicultura e a aprovação das dietas desses animais, fosse transferida do
Departamento de Agricultura para algum outro órgão federal. Talvez fosse melhor se
ficasse a cargo do FDA, onde não existe nenhum conflito de interesses. Ou, melhor
ainda, preferiria ver o sistema privatizado para que houvesse verdadeira competitividade
nessa tarefa de encontrar e eliminar o foco da contaminação.
— Você não leva muita fé nessas novas técnicas de tratamento por irradiação?
— perguntou Tracy.
— Claro que não! — disse Kim. — É só mais uma forma que a indústria
encontra para tirar o corpo fora. Permitir o tratamento de carne através de irradiação é o
mesmo que incentivar a indústria, permitir que a contaminação durante o processo
aumente, na esperança de que, no final, as bactérias sejam eliminadas pelos raios gama.
Você pode verificar que mesmo com a irradiação, eles insistem que a responsabilidade é
do consumidor em manusear e cozinhar a carne da forma como a indústria considera
adequada.
— Essa também é a posição de Kathleen Morgan — disse Tracy.
— Devia ser a opinião de qualquer pessoa sensata. Precisamos da mídia para
convencer o público de que a contaminação não pode ser tolerada mesmo que isso
represente um aumento no custo final do produto.
— Essa é uma questão delicada — comentou Tracy.
— Ei, temos de pensar alto! E não é nada impossível. Afinal, a carne e o frango
que comemos não foram sempre contaminados. Esse é um fenômeno relativamente
recente.
Os primeiros currais já podiam ser vistos a distância. Como em todos os dias
úteis, rebanhos comprimiam-se nos cercados enlameados.
— É uma visão triste — disse Tracy, observando aquele aglomerado de animais.
— É como se todos tivessem sido condenados à pena de morte.
Tracy dobrou no estacionamento da Higgins e Hancock. Ao contrário da visita
do dia anterior, o parque estava quase lotado. Grande parte dos veículos eram furgões
velhos.
— Que tal me deixar perto da entrada principal? — disse Kim. — Depois sugiro
que procure uma vaga do outro lado do prédio. Ficará mais protegida, e todo o
perímetro da fábrica estará dentro dos duzentos metros.
Tracy encostou no meio-fio e os dois deram uma olhada no prédio. A janela da
sala de registros que Kim havia quebrado não estava coberta, e a falta do vidro e da
divisão dos caixilhos era aparente. No canteiro em frente à janela, um homem de
macacão tirava as medidas.
— Estou ficando com vontade de oferecer ajuda — disse Kim.
— Deixe de ser bobo.
O portão de entrada se abriu. Instintivamente, Tracy e Kim abaixaram-se nos
bancos. Dois homens saíram, envolvidos numa conversa. Em seguida, tomaram


caminhos opostos. A fábrica estava, obviamente, em operação.
Tracy e Kim endireitaram-se. Entreolharam-se e trocaram um sorriso nervoso.
— Estamos agindo como um par de adolescentes se preparando para aprontar
alguma arte — disse Kim.
— Talvez fosse melhor revermos todo o plano mais uma vez.
— O tempo de pensar já se esgotou.
Kim inclinou-se para Tracy e deu-lhe um beijo. Era a primeira vez que se
beijavam depois de um incontável espaço de tempo que nenhum dos dois fazia questão
de lembrar.
— Deseje-me sorte — disse ele.
— Não sei como fui acabar concordando com tudo isso — balbuciou Tracy,
observando, arrependida, o matadouro.
— Foi movida por sua responsabilidade cívica — disse Kim, com um sorriso
malicioso. — Caramba, se conseguirmos impedir a propagação da contaminação
estaremos salvando milhões de vezes mais vidas do que eu seria capaz em todos os
meus anos de cirurgia.
— Sabe o que acho o mais incrível nisso tudo? — disse Tracy, olhando nos
olhos de Kim. — No espaço de dois dias você passou de narcisista a altruísta, de um
extremo a outro. Eu sempre fui da opinião de que a personalidade humana é imutável.
— Deixarei que vocês, psicólogos, se preocupem com isso — comentou
Kim,abrindo a porta do carro.
— Tome cuidado — recomendou Tracy.
— Vou tomar — respondeu, descendo e dizendo pela janela: — Lembre-se de
que só raramente estarei usando o fone de ouvido.
— Eu sei. Boa sorte.
— Obrigado. Até logo!
Kim deu adeus, e Tracy o observou caminhando rumo à porta, gingando no
gênero de seu notável disfarce. Apesar da enorme apreensão, não pôde evitar um
sorriso. Ele tinha a fisionomia tipicamente debochada e desavergonhada de um roqueiro
punk.
Depois de dar ré, Tracy guiou até o final do prédio, conforme Kim sugerira, e
estacionou atrás de uma caminhonete. Desceu a janela e fixou a antena no teto do carro.
Com os fones nos ouvidos, ligou o amplificador. Depois da experiência naquela manhã
com o volume, tinha-o baixado totalmente. Girou o botão com cuidado. A voz de Kim
apareceu nitidamente, com um sotaque sobrecarregado.
— Preciso de trabalho, qualquer trabalho — dizia Kim, comendo as vogais. —
Estou liso. Disseram na cidade que vocês estão contratando.
Tracy acionou a tecla de gravar e procurou uma posição confortável.
Kim ficara ao mesmo tempo impressionado e encorajado pela rapidez com que
fora conduzido ao escritório do supervisor encarregado da área de abate. Seu nome era
Jed Street. Era um homem indefinível, com uma barriguinha saliente sob o avental
branco, todo manchado de sangue. Um capacete amarelo de plástico descansava sobre
um canto da mesa. À sua frente, tinha uma pilha de faturas de compra de gado.
Quando Kim cruzou a porta e entrou na sala, Jed o observou comicamente, mas
depois de alguns instantes pareceu aceitar sua aparência e não teceu nenhum
comentário.
— Já trabalhou num abatedouro antes? — perguntou Jed, recostando-se na
poltrona e segurando um lápis com as mãos.
— Não — respondeu Kim, displicentemente. — Mas sempre há uma primeira
vez.


— Tem o número do seguro social?
— Não. Me disseram que não ia precisar.
— Como se chama?
— José — disse Kim. — José Ramirez.
— De onde você é?
— Brownsville, Texas — disse Kim numa entonação mais sulista que latina.
— Sei, e eu sou de Paris, França — disse Jed, aparentemente indiferente à gafe
verbal de Kim. Ele foi direto ao assunto:
— O trabalho é pesado e sujo. Está pronto para isso?
— Estou pronto para qualquer coisa — respondeu Kim.
— Você tem um green card?
— Não.
— Quando quer começar?
— Posso começar agora mesmo. Não como nada há um dia e meio.
— Este é um aspecto positivo, tendo-se em conta que nunca trabalhou em
nenhum abatedouro. Vai começar lavando o chão da área de abate. São cinco dólares
por hora, em dinheiro. Sem cartão do seguro social é o máximo que posso oferecer.
— Me parece bom.
— Mais uma coisa. Se quiser o emprego, terá de trabalhar também no turno de
três às onze com o pessoal da faxina, mas é só por esta noite. Um dos rapazes ficou
doente. O que diz?
— Por mim, tudo bem — respondeu Kim.
— Ótimo — disse Jed, levantando-se. — Vamos apanhar seu uniforme.
— Preciso trocar de roupa? — perguntou Kim, ansioso.
Sentiu o peso do revólver na cintura e a bateria do sistema de áudio apertada
contra o peito.
— Não — disse Jed. — Pode vestir o avental por cima de suas roupas, enfiar as
luvas, o capacete e pegar a vassoura. Só precisa tirar os sapatos para calçar as botas de
borracha.
Kim saiu do escritório atrás de Jed e os dois atravessaram o corredor interno até
um dos almoxarifados onde Kim estivera na noite de sábado. Pegou tudo o que Jed
havia mencionado, exceto a vassoura. Quanto às botas de borracha, teve de se contentar
com um par de número quarenta e quatro. As de número quarenta e dois estavam em
falta. Eram amarelas, de borracha, e chegavam aos joelhos. Estavam usadas e cheiravam
mal. Jed entregou-lhe a chave de um escaninho e o levou até o vestiário em frente ao
refeitório. Esperou do lado de fora, enquanto Kim calçava as botas de borracha e
guardava os sapatos. De capacete, luvas amarelas e avental branco, estava perfeito.
— Corte feio esse que arrumou no nariz — comentou Jed. — Como aconteceu?
— Não reparei no vidro de uma porta — respondeu evasivo.
— Sinto ouvir isso — disse Jed. — Bem, está pronto para começar?
— Acho que sim.
Jed conduziu Kim através do refeitório e subiu os degraus da escada de nível que
dava para a porta de incêndio. Deu uma parada, retirou algo do bolso e estendeu a mão
para Kim.
— Quase me esqueci desse troço — disse Jed, entregando dois pequenos objetos
sem peso na palma da mão de Kim.
— O que é isso?
— Protetores de ouvido. O barulho é muito grande na área de abate por causa
dos trilhos, das serras elétricas e das esfoladoras.
Kim examinou um dos pequenos objetos cônicos de borracha esponjosa.


Também eram amarelos.
— Escute — disse Jed — seu trabalho é circular pelo pátio e varrer a merda do
chão para os ralos.
— Merda? — perguntou Kim.
— É. Algum problema?
— Merda de verdade?
— Bem, uma mistura de merda de vaca, tripas e sangue. Tudo o que despencar
dos ganchos. Isso aqui não é um chá beneficente. E, a propósito, cuidado com as
carcaças que passam penduradas nos ganchos das esteiras e, claro, com o chão
escorregadio. Um tombo lá dentro não é brincadeira. — Jed deu uma risada.
Kim balançou a cabeça e engoliu em seco. Teria mesmo que ser forte para se
submeter àquele serviço nojento.
Jed consultou seu relógio.
— Faltam cinqüenta minutos para a hora do almoço — disse — mas não tem
importância. Isso vai dar tempo para você se acostumar. Alguma pergunta?
Kim sacudiu a cabeça.
— Se tiver — prosseguiu Jed — já sabe onde fica minha sala.
— Certo — disse Kim. Jed parecia aguardar uma resposta.
— Não vai colocar os protetores de ouvido? — perguntou Jed.
— Ah, sim, me esqueci. — Kim enfiou os dois objetos esponjosos nos ouvidos e
fez um sinal com o polegar para cima.
Jed abriu a porta. Mesmo com os protetores, Kim ficou inicialmente aturdido
com o barulho infernal que vinha do poço da escada.
Kim seguiu atrás de Jed pela área de abate. Parecia um local inteiramente
diferente daquele em que estivera na noite de sábado. Kim pensou que estivesse
preparado para enfrentar aquela experiência, mas não estava. Seu rosto ficou
instantaneamente esverdeado, ante a visão das esteiras rolantes que transportavam
carcaças com mais de meia tonelada, suspensas e ainda quentes, aliadas ao mórbido
gemido da maquinaria e do intenso mau cheiro. O ar quente, denso e úmido, fedia a
carne crua, sangue e fezes frescas.
Kim sentiu-se esmagado também pelo impacto visual da cena. Os poderosos
condicionadores de ar no teto, funcionando inutilmente para manter baixa a temperatura
do local, faziam fumegar as mais de cinqüenta carcaças esfoladas que Kim tinha diante
de sua visão. Centenas de funcionários usando aventais brancos e manchados de sangue
estavam de pé, ombro a ombro, nas passarelas de ferro suspensas sobre ralos
longitudinais, trabalhando nas carcaças que passavam rapidamente à sua frente. Os
cabos de força pendendo do teto tinham um aspecto desconcertante, parecendo formar
uma gigantesca teia de aranha. Era um espetáculo surreal, uma imagem dantesca do
inferno sobre a Terra.
Jed deu um tapinha nas costas de Kim e apontou para o chão. Kim olhou para
baixo. A área de abate era literalmente um mar de sangue, com partes de órgãos
internos, vômito e diarréia de vaca. Jed deu mais um tapinha nas costas de Kim. Ia
entregando-lhe a vassoura quando notou a cor do rosto de Kim e os espasmos
involuntários de suas bochechas.
Jed deu um passo atrás por precaução e apontou para o lado.
A ânsia de vômito aumentou e Kim deu um tapa no próprio rosto. Olhou na
direção em que Jed apontava e viu uma porta com uma tabuleta onde se lia: HOMENS.
Kim ziguezagueou até o banheiro, abriu a porta e curvou-se sobre a pia.
Vomitou convulsivamente todo o café da manhã que saboreara com Tracy.
Quando a ânsia finalmente passou, lavou a pia e ergueu o rosto para se examinar


diante do espelho sujo e rachado. Nunca se vira tão pálido, ainda mais em contraste com
os olhos vermelhos e congestionados. Gotas de suor coroavam sua testa.
Recurvado sobre a borda da pia, apalpou o fone de ouvido que tinha enfiado por
baixo da camisa. Com os dedos trêmulos, retirou um dos protetores que Jed tinha lhe
dado e colocou o fone.
— Tracy, você está aí? — perguntou, com a voz rouca. — Estou com meu fone
no ouvido. Você pode falar.
— O que aconteceu? — perguntou Tracy. — Era você tossindo?
— Foi mais que uma tosse — disse Kim. — Acabo de vomitar meu café da
manhã.
— Sua voz está horrível. Está se sentindo bem?
— Não muito — admitiu Kim. — Fiquei desconcertado por essa reação. Com
toda minha experiência médica, não pensava que fosse reagir tão mal. Este lugar é...
bem, é indescritível.
Olhou ao redor do recinto, sem dúvida o banheiro mais imundo em que já tinha
entrado. As paredes estavam cobertas de rabiscos e grafites obscenos, a maioria em
espanhol. O chão azulejado parecia nunca ter sido esfregado e estava coberto por uma
camada de sangue e outros dejetos provenientes da área de abate.
— Quer desistir? — perguntou Tracy — Eu não o censuraria.
— Ainda não. Mas vou lhe dizer uma coisa: não passei mais de vinte segundos
na área de abate e creio ter-me transformado instantaneamente num vegetariano.
O ruído súbito da descarga de uma privada em uma das duas cabines laterais o
fez saltar. Não se preocupara em checar se algum dos toaletes estava ocupado, antes de
falar ao microfone. Arrancou o fone do ouvido, enfiou-o junto com o fio para dentro da
camisa e abriu a torneira da pia, fingindo estar se lavando. Às suas costas ouviu a porta
da cabine se abrindo.
Kim estava receoso da pessoa ter escutado qualquer coisa e por um instante não
olhou naquela direção. Pelo espelho, viu o homem passar vagarosamente atrás dele,
estudando-o de maneira esquisita. Kim pensou que seu coração iria saltar-lhe pela boca.
Era exatamente o mesmo homem que o tinha atacado, primeiro ali, na Higgins e
Hancock, e mais tarde em sua própria casa!
Vagarosamente, Kim se virou. O homem foi até a porta do banheiro, mas não a
abriu. Ainda conservava os olhos inescrutavelmente grudados em Kim.
Por um breve instante, seus olhares se cruzaram. Kim tentou sorrir, como se
estivesse procurando por toalhas de papel. Havia um porta-toalhas, mas a tampa estava
arrombada; e o interior, vazio. Kim arriscou outro olhar para o estranho. Sua expressão
enigmática não mudara. A mão direita de Kim procurou o conforto do revólver no
bolso.
Os segundos pareceram minutos. Os olhos negros, frios e impenetráveis do
estranho continuavam cravados nele. O homem parecia uma estátua. Kim precisou de
todo seu autocontrole para não dizer alguma coisa que quebrasse o angustiante silêncio.
Para alívio seu, o homem subitamente desistiu do confronto, abriu a porta e
desapareceu.
Kim soltou o ar preso nos pulmões. Sequer se dera conta de ter prendido a
respiração. Abaixando ligeiramente a cabeça, sussurrou no microfone oculto:
— Deus do céu, era o louco esfaqueador que estava no reservado da privada!
Não sei o que ele ouviu. Ficou me encarando, mas não disse nada. Reze a Deus para que
não tenha me reconhecido.
Depois de molhar o rosto com água fria e recolocar o protetor no ouvido, Kim
respirou fundo e cruzou a porta do banheiro para voltar à área de abate. Procurou


respirar com a boca ligeiramente aberta para aliviar o mau cheiro. Sentia as pernas um
pouco bambas e, só para o caso do estranho estar lhe aguardando, manteve a mão no
bolso, agarrada ao trinta-e-oito de cano curto.
Jed estava bem ao lado da porta, evidentemente à sua espera. Kim procurou pelo
estranho e pensou tê-lo avistado, sumindo por trás de uma das peças da maquinaria mais
distante.
— Você está bem? — berrou Jed, por sobre a barulheira.
Kim balançou a cabeça e procurou sorrir.
Jed retribuiu com uma careta de nojo e entregou-lhe a vassoura.
— Você devia estar com o estômago mais cheio do que imaginava — disse,
dando-lhe um último tapinha nas costas antes de se retirar.
Kim engoliu em seco e reteve outro espasmo de náusea. Olhou para o chão,
procurando desviar a atenção das fileiras de carcaças esfoladas e degoladas que
passavam ininterruptamente à sua frente a caminho da sala de resfriamento. Segurando
a vassoura com as mãos, tentou concentrar-se em arrastar as vísceras espalhadas dos
animais para um dos inúmeros ralos.
— Não sei se consegue me ouvir com todo esse barulho — disse Kim, com a
boca bem próxima ao microfone. — Obviamente, o sujeito da faca trabalha aqui, o que
não me surpreende em nada. Vou tentar localizá-lo.
Kim teve de baixar rapidamente a cabeça quando uma das fumegantes carcaças
de meia tonelada irrompeu sobre ele. Andando sem prestar atenção, cruzou
inadvertidamente à frente de uma das esteiras transportadoras. Agora, seu avental
branco também estava manchado de sangue como todos os outros dentro do imenso
galpão.
Kim recuou um passo e, depois de calcular a velocidade das carcaças, atravessou
a fileira. Sua intenção era seguir o mesmo caminho tomado por seu agressor.
— É evidente que me deram o pior serviço do lugar — comentou Kim, na
esperança de que Tracy pudesse ouvi-lo em meio àquela barulheira infernal. — Sou o
mais baixo de todos, mas ao menos tenho a oportunidade de me mexer. Todos os outros
operários trabalham como numa linha de montagem. Ficam parados no mesmo lugar,
enquanto as carcaças vão passando.
Kim contornou a imensa máquina por onde o estranho desaparecera. O chão,
naquela área do galpão, estava relativamente limpo. Só havia uma pequena quantidade
de sangue que escorrera para baixo do equipamento. À sua esquerda só tinha a parede.
Kim seguiu adiante. Mais para a frente, numa área menos iluminada do galpão,
sem lâmpadas fluorescentes, podia ver vários homens trabalhando. Um novo som se fez
ouvir em meio à caótica barulhada. Era um som que percutia num ritmo intermitente,
como o de uma pistola de ar comprimido usada em carpintaria para fixar pregos.
Kim continuou varrendo, apesar da pouca sujeira no chão. Depois de avançar
mais uns dez metros e rodear outra máquina, pôde ver em que parte do galpão se
encontrava.
— Cheguei ao local por onde entram os animais — disse Kim ao microfone. —
Eles são afunilados numa fila única. Quando o da frente enfia o pescoço sobre uma
plataforma elevada, um homem pressiona algo parecido com uma britadeira sobre a
cabeça do animal. Soa como uma pistola de ar comprimido. Deve disparar uma ponteira
que fura a caixa craniana porque posso ver o tecido encefálico espirrando.
Kim desviou os olhos por um momento. Como um homem que dedicara sua vida
a salvar outras vidas, aquela inquebrantável carnificina parecia tê-lo debilitado.
Passados alguns segundos, reuniu forças para tornar a olhar.
— As reses caem fulminadas sobre um grande tambor giratório que as


impulsiona para a frente, deixando-as de patas para cima — prosseguiu Kim. — Depois,
um outro empregado as engancha por trás do tendão de Aquiles e elas são suspensas na
esteira transportadora. Se, ou quando a doença da vaca louca chegar a este país, essa
forma de matar os animais não deverá ser a mais aconselhável. Indubitavelmente, está
enviando tecido cerebral para todo o corpo do animal, já que seu coração ainda está
batendo.
Apesar de sua repulsa diante do quadro a que assistia, Kim aproximou-se ainda
mais. Agora tinha uma visão total.
— Sabe de uma coisa? — disse Kim. — Essas reses infelizes parecem pressentir
seu destino. Devem sentir o cheiro da morte aqui. Elas descem a rampa defecando umas
por cima das outras. Isso, sem dúvida, só pode contribuir para a contaminação...
Kim interrompeu a frase no meio. À sua direita, a menos de dez metros de
distância, estava o esfaqueador. Imediatamente, compreendeu por que o sujeito tinha
uma predileção por facas. Ele era um dos dois homens que ficavam por trás do animal
recém-sacrificado, erguido pelo gancho. Com uma hábil e ligeira torção do pulso, fazia
uma incisão na garganta da rês e saltava para trás, deixando jorrar em jatos pulsantes os
quarenta litros do sangue ainda quente do animal, bombeado pelos últimos espasmos do
coração. O sangue, então, desaparecia por um ralo no chão.
No instante seguinte, a adrenalina de Kim aumentou novamente. Já tenso pela
visão de seu agressor tão próximo, apavorou-se quando alguém cutucou seu ombro.
Antes que pudesse raciocinar, virou-se com o braço erguido em atitude defensiva.
Para sorte sua era Jed, que não parecia nem um pouco contente. A reação de
Kim o assustou da mesma forma como ele o assustara.
— Que diabos está fazendo aqui? — gritou Jed, sobrepondo-se à barulheira.
O martelar repetitivo daquele instrumento mortífero de alta pressão soava como
um metrônomo maligno.
— Só estou procurando me orientar — berrou Kim.
Olhou de soslaio para seu agressor, porém o homem parecia não tê-lo visto, ou
não tinha se incomodado com ele. Tinha se afastado para o lado e estava empenhado em
afiar sua faca com uma pedra de amolar, enquanto um colega assumia o posto de
degolador. Kim podia ver a faca com clareza. Era do mesmo tipo da que o homem tinha
usado nas vezes em que o atacou.
— Ei, estou falando com você! — gritou Jed, irritado, cutucando Kim com
insistência. — Quero que fique lá onde arrancam as tripas. É lá que está a merda que
você tem que limpar.
Kim balançou a cabeça.
— Vamos, vou lhe mostrar — disse Jed, fazendo um sinal para que ele o
seguisse.
Kim deu outra olhada em seu agressor, que segurava a faca no ar para verificar o
fio. Um brilho refletiu-se na lâmina. Ele ignorou Kim.
Kim sentiu um frio no estômago e partiu atrás de Jed.
Num instante chegaram à fila móvel de carcaças. Kim estava impressionado com
a indiferença de Jed. Abria caminho por entre as carcaças empurrando-as para o lado
com as mãos como se fossem roupas num cabideiro. Kim estava relutante em tocar nos
corpos ainda quentes dos animais. Kim hesitava como alguém que tem que começar a
pular uma corda batida rapidamente por dois amigos.
— Quero você aqui — gritou Jed quando Kim o alcançou. Jed imitou, com as
mãos, o movimento de varrer. — É aqui que está a sujeira e é aqui que deve ficar com a
vassoura. Entendido?
Kim concordou, relutante, lutando para não sofrer um novo espasmo de náusea.


Estava agora na seção onde eram retirados os órgãos internos. Sobre mesas de aço
espirais gigantescas de intestinos escorriam das carcaças suspensas junto com montes de
fígados gelatinosos, rins do tamanho de abacates e tiras fragmentadas de pâncreas.
A maior parte dos intestinos parecia atada, mas alguns não estavam. Ou não
tinham sido amarrados ou o nó afrouxara. De qualquer forma, havia também muitas
fezes bovinas sobre as mesas e espalhadas por todo o chão, misturadas a rios de sangue.
Kim abaixou a vassoura e começou a empurrar aquela papa na direção de um
dos inúmeros ralos. Enquanto trabalhava, veio-lhe à lembrança o mito de Sísifo e o
terrível destino do rei cruel. Mal terminava de limpar uma área da imundície e ela era
novamente inundada por um mar de sangue e vísceras.
O único consolo de Kim era que seu disfarce parecia ter funcionado. Estava
relativamente confiante de que o homem da faca não o havia reconhecido.
Kim esforçou-se para ignorar ao máximo os aspectos mais hediondos daquele
fantasmagórico lugar. Procurou concentrar-se no serviço imediato. Aguardaria até a
hora de almoço para dar o passo seguinte em sua furtiva investigação.
Pela janela, Shanahan observou o Jumbo arrastar-se penosamente sobre a pista e
hesitantemente levantar seu nariz. Parecendo mover-se devagar demais, levantou vôo e
partiu rumo a um destino distante.
Shanahan estava em frente ao portão trinta e dois da pista B, à espera do vôo de
Chicago. Não tinha sido fácil chegar até aquele local. O pessoal da segurança não
permitia o acesso à pista de aterrissagem sem uma passagem. Como já tinha marcado o
encontro com Leutmann naquele portão, Shanahan tinha que dar um jeito de entrar.
Infelizmente, nenhuma forma de argumento ou tentativa de suborno convenceu os
guardas da segurança. A única solução foi comprar uma passagem num vôo em que não
pretendia embarcar
Shanahan e Derek jamais tinham se visto. Para solucionar esse entrave,
Shanahan dera-lhe uma descrição de si mesmo para ser reconhecido, mas para que não
houvesse nenhuma dúvida na identificação, disse também que estaria segurando uma
Bíblia. Derek respondera que a idéia da Bíblia era um toque inteligente, e disse que
estaria carregando uma maleta preta.
A porta do avião vindo de Chicago se abriu, e um comissário se postou à saída.
Quase que imediatamente os passageiros começaram a desembarcar. Shanahan agarrou
a Bíblia e aguardou. Observava cada passageiro com expectativa.
O décimo passageiro parecia promissor, embora sua aparência não fosse nada do
que Shanahan imaginara. Era um homem na casa dos trinta, magro, louro e de pele
muito bronzeada. Vestia um terno listrado e carregava uma maleta de couro preta.
Tinha um par de óculos escuros preso no alto do cabelo cuidadosamente penteado.
O homem parou assim que pôs os pés na pista e varreu a área com seus olhos
azuis. Ao localizar Shanahan, caminhou diretamente em sua direção.
— Sr. O'Brian? — perguntou Derek, com ligeiro sotaque britânico.
— Sr. Leutmann — respondeu Shanahan, um tanto surpreso. Pela voz de Derek
ao telefone, imaginara um indivíduo moreno, fisicamente grande e abrutalhado. O
homem à sua frente fazia lembrar mais um aristocrata inglês que um matador de
aluguel.
— Acredito que tenha trazido o dinheiro — disse Derek.
— É claro — confirmou Shanahan.
— Se importa de me entregar?
— Aqui, no terminal? — estranhou Shanahan.
Nervoso, olhou à sua volta. Esperava discutir a questão do dinheiro na


privacidade de seu carro, parado no estacionamento. Tinha a esperança de baixar o
preço do serviço.
— Ou fazemos negócio, ou não — disse Derek. — É melhor saber logo para
evitar futuros ressentimentos.
Shanahan puxou um envelope do bolso interno do paletó e o entregou a Derek.
Continha cinco mil dólares, a metade do valor que o matador exigira. Em público, não
tinha a menor chance de barganhar.
Para desespero de Shanahan, Derek pôs a maleta no chão e com um sorriso
jovial rasgou o envelope e começou a contar o dinheiro. Shanahan olhava para todos os
lados sem conseguir esconder a ansiedade. Embora não houvesse ninguém prestando
atenção neles, estava visivelmente tenso.
— Excelente — assentiu Derek, antes de enfiar o dinheiro no bolso. — O
negócio está fechado. Quais são os detalhes que ainda estão faltando?
— Podemos ao menos ir andando? — implorou Shanahan com a garganta seca.
A indiferença de Derek era enervante.
— É claro — disse Derek, apontando para o terminal. — Vamos pegar minha
bagagem.
Grato por estar ao menos saindo daquele lugar, Shanahan começou a andar.
Derek o acompanhou dando passos suaves com os mocassins macios.
— Você despachou sua bagagem? — perguntou Shanahan. Aquela era outra
coisa por que não esperava.
— É claro. As companhias aéreas estranham armas de fogo na cabine. No meu
tipo de trabalho, não se tem muita escolha.
Entraram numa fila junto com outros passageiros recém-chegados. A sua
esquerda, um número igual de pessoas passava na direção oposta, afobadas e com
passagens nas mãos. Não havia privacidade alguma.
— Temos um carro para você — disse Shanahan.
— Excelente. Mas no momento estou mais interessado na identidade da vítima.
Qual o seu nome?
— Reggis. Dr. Kim Reggis. — Uma vez mais, Shanahan observou os rostos das
pessoas ao seu redor. Felizmente, não percebeu nenhum sinal de interesse na conversa
por parte de ninguém. — Aqui está uma foto recente. — Entregou a foto para Derek.
Não era uma imagem muito boa. Tinha sido copiada de um artigo de jornal.
— Está muito granulada — queixou-se Derek. — Vou precisar de mais
informações.
— Preparei um dossiê sobre ele — disse Shanahan, entregando um papel a
Derek. — Verá que contém uma descrição física do homem. Também anotei a marca, o
modelo, o ano e a cor de seu carro, junto com o número da placa. Temos também seu
endereço, mas acreditamos que ele não se encontra lá no momento.
— Assim é bem melhor — disse Derek, examinando a folha de papel. — Ótimo,
está bem completo.
— Acreditamos que o Dr. Reggis tenha passado a noite de ontem na residência
de sua ex-mulher. Ela pagou a fiança para tirá-lo da cadeia ontem de manhã.
— Cadeia? Parece que o médico não anda se comportando direito.
— Isso é apenas parte de tudo que sabemos — disse Shanahan.
Chegaram à esteira das bagagens e espremeram-se em meio aos outros
passageiros. As malas do vôo de Derek estavam começando a chegar.
— Há uma coisa que precisa ficar sabendo — disse Shanahan. — Houve um
atentado frustrado contra a vida do médico ontem à noite.
— Obrigado pela franqueza. Esse é um detalhe realmente importante. Significa


que o homem deve estar bem prevenido.
— É o mais provável.
Um apito agudo causou um susto em Shanahan, que já estava com os nervos à
flor da pele. Levou um instante para perceber que se tratava de seu bip eletrônico.
Surpreso com a chamada, já que Bobby Bo sabia onde se encontrava e o que estava
fazendo, Shanahan puxou o bip do cinto e olhou na telinha de cristal líquido. Ficou
ainda mais confuso ao verificar que era um número desconhecido.
— Se importa que eu faça uma ligação? — perguntou, apontando para uma
fileira de telefones públicos.
— De forma alguma — respondeu Derek. Ele estudava, sorridente, as
informações sobre Kim contidas na folha de papel.
Depois de catar algumas moedas no bolso, a caminho do telefone, Shanahan
discou rapidamente para o misterioso número. Alguém atendeu logo ao primeiro toque.
Era Carlos.
— O médico está aqui! — disse ele excitado, quase sussurrando.
— Diabos, de onde está falando? — perguntou Shanahan.
— Da Higgins e Hancock — disse Carlos, mantendo a voz baixa. — Estou
usando o aparelho do refeitório. Preciso ser rápido. O médico está trabalhando aqui na
faxina. Ele parece louco, cara.
— Do que está falando? — perguntou Shanahan.
— Está muito esquisito. Parece um cantor de rock decrépito. Cortou o cabelo
bem curto e o que sobrou está louro.
— Está brincando — exclamou Shanahan.
— Não, cara! — insistiu Carlos. — Também está costurado na testa, bem no
lugar onde o rasguei. É ele, tenho certeza. Fiquei examinando-o por alguns minutos no
banheiro. Depois ele foi até minha estação e ficou lá um tempo até o chefe chegar e
levá-lo embora.
— Que chefe?
— Jed Street — respondeu Carlos.
— O médico reconheceu você?
— Claro, como não? Ficou um tempão me encarando. Numa certa hora pensei
que ele viesse para cima de mim, mas não veio. Se tivesse vindo, eu teria acabado com
ele. Quer que eu termine o serviço logo de uma vez? Posso pegá-lo enquanto está aqui.
— Não! — berrou Shanahan, perdendo o controle por um breve instante.
Sabia que seria um desastre se Carlos matasse Kim no meio do dia com centenas
de testemunhas. Shanahan respirou fundo e então falou com a voz calma e pausada:
— Não faça nada. Finja que não o reconheceu, fique frio. Depois digo o que
fazer. Compreendeu?
— Quero fechar esse cara — disse Carlos. — Já disse que não faço questão do
dinheiro.
— É muito generoso de sua parte. É claro que foi você mesmo quem fez a
cagada, pra começo de conversa, mas isso não interessa agora. Fique frio. Mais tarde eu
te digo o que fazer, certo?
— Certo — disse Carlos.
Shanahan desligou o telefone. Sem soltar o gancho, procurou localizar Derek
Leutmann. Aquilo estava se tornando um dilema. Naquele exato momento, não sabia
como proceder.
Uma batida inesperada na janela do motorista fez o coração de Tracy bater forte
no peito. Durante o tempo em que estivera dentro do carro estacionado nos fundos do
abatedouro, poucas pessoas tinham entrado ou saído de seus veículos. Ninguém, no


entanto, tinha aparecido para abordá-la. Tracy arrancou os fones num reflexo intuitivo e
virou-se para olhar pela janela. Um homem horrível estava debruçado com o cotovelo
apoiado sobre o teto do automóvel. Vestia um macacão imundo sobre uma camisa de
gola alta e usava um boné de beisebol virado para trás. Pendendo do lábio inferior, um
cigarro apagado que oscilava para cima e para baixo, enquanto respirava pela boca.
O primeiro impulso de Tracy foi dar a partida e fugir dali. Abandonou a idéia
assim que se lembrou da antena balançando no teto. Sentindo que não tinha outra
alternativa, abaixou o vidro.
— Eu a vi de meu caminhão — disse o homem, apontando para uma carreta
estacionada ali perto.
— Ora, é mesmo? — respondeu Tracy, ansiosa. Não sabia mais o que dizer. O
homem tinha uma cicatriz medonha do rosto até o pescoço.
— O que está escutando? — perguntou o homem.
— Nada de especial — disse Tracy. Ela deu uma espiada no gravador. A fita
ainda estava rodando. — Só um pouco de música.
— Gosto de música country — disse o homem. — Está ouvindo música
country?
— Não — respondeu Tracy, com um sorriso amarelo. — Isso é mais New Age.
Na verdade, estou esperando meu marido. Ele trabalha aqui.
— Estou mesmo fazendo serviços de encanador aqui — disse o homem. — Eles
têm mais canos e ralos que qualquer outro lugar do país. Mas, enfim, pensei que talvez
tivesse um fósforo. Não consigo achar meu isqueiro em lugar nenhum.
— Sinto muito. Gostaria de poder ajudá-lo, mas não fumo e não tenho fósforos.
— Obrigado, assim mesmo — agradeceu o homem. — Desculpe incomodar.
— Não há de quê — disse Tracy.
O homem afastou-se. Tracy deu um suspiro de alívio e subiu o vidro da janela. O
episódio serviu para mostrar o quanto ela estava tensa. Estava com os nervos à flor da
pele desde que Kim tinha entrado no prédio e sua ansiedade foi parar nas nuvens depois
que ele confrontou o assassino no banheiro. O fato dela não poder se comunicar também
não estava
ajudando. Queria lhe pedir que desse o fora daquele lugar; dizer que aquilo tudo não
valia a pena.
Depois de uma espiada furtiva ao redor para certificar-se de que ninguém a
observava, Tracy recolocou os fones de ouvido na cabeça e fechou os olhos. O
problema era que tinha de se esforçar para ouvir o que Kim dizia. O barulho no interior
da fábrica obrigou-a a abaixar quase todo o volume.
Kim tinha circulado por toda a área de evisceração e compreendia todo o
processo do abate. Podia ver os animais serem mortos, suspensos e degolados. Em
seguida, eram esfolados e decapitados, e as cabeças seguiam por outra esteira
transportadora. Após a retirada das estranhas, as carcaças eram cortadas ao meio no
sentido longitudinal por uma serra medonha, muito mais assustadora do que os mais
tétricos filmes de horror de Hollywood.
Kim consultou seu relógio para cronometrar a rapidez com que as infelizes reses
eram mortas. Ficou pasmo. Encostou o queixo no peito e falou ao microfone:
— Vamos esperar que Lee Cook consiga produzir um sistema de vídeo
adequado. Vai ser uma porrada documentar a denúncia de Marsha. Ela disse que a
origem da contaminação na indústria da carne estava nos abatedouros, que era
simplesmente uma questão de lucratividade. Acabo de cronometrar a atividade aqui.
Estão abatendo as reses no alucinante ritmo de uma a cada doze segundos. Dessa
maneira, é impossível evitar uma contaminação em massa. Quanto à suspeita de conluio


do Departamento de Agricultura com a indústria, fica evidente nesse estágio
operacional. Alguns inspetores passeiam pelas passarelas suspensas. Eles sobressaem
como ovelhas negras. Usam capacetes vermelhos em vez de amarelos, e os uniformes
brancos são comparativamente limpos. Passam mais tempo rindo e brincando com os
operários do que inspecionando. A suposta inspeção é pura simulação. A linha de
carcaças passa rápido demais e eles sequer olham para ela.
Kim notou subitamente a presença de Jed Street fuçando as pias e mesas de
evisceração. Kim retomou seu trabalho com a vassoura. Tomou a direção contrária à de
Jed, indo no sentido anti-horário, e acabou chegando na área de decapitação. A degola
era feita com outra serra, apenas um pouco menos assustadora que a usada para cortar o
animal em dois. Pouco antes do pescoço ser totalmente arrancado pelo homem
empunhando a serra, um outro pendurava a cabeça com seus mais de cinqüenta quilos
num gancho pendente de uma esteira rolante. Era um processo que exigia coordenação e
sincronismo.
Sem parar de limpar, Kim seguiu no sentido da fileira de cabeças esfoladas.
Destituídos das pálpebras, os olhos sem vida davam às cabeças penduradas uma curiosa
expressão de surpresa. Kim acompanhou a esteira até um ponto onde penetrava por uma
abertura que dava para uma sala contígua. Kim reconheceu imediatamente o local.
Tinha sido atacado ali na noite de sábado.
Deu uma olhada por cima do ombro à procura de Jed. Sem avistá-lo no meio do
pandemônio, decidiu arriscar-se e penetrou no galpão onde as cabeças eram desossadas.
— Estou no local para onde vão as cabeças — disse, ao microfone. — Isso é
potencialmente importante no que diz respeito à maneira como Becky adquiriu a
bactéria. Marsha encontrou algo nos relatórios sobre a cabeça do último animal no dia
em que a carne do hambúrguer de Becky foi processada. Ela disse que era "asqueroso",
o que agora considero curioso porque todo o processo é repugnante.
Kim observou por alguns instantes a esteira transportadora despejar uma cabeça
a cada doze segundos sobre uma mesa onde era atacada por uma equipe de carniceiros.
Com facas semelhantes às utilizadas para degolar os animais, iam extraindo
rapidamente os músculos faciais e as línguas. Os operários pegavam essa carne e a
atiravam num contêiner de uma tonelada parecido com aqueles que Kim tinha visto na
Mercer Meats.
— Estou aprendendo algo novo a cada minuto — disse Kim. — Deve haver
muita bochecha de vaca no hambúrguer.
Kim percebeu que depois de removidos os músculos faciais e as línguas, as
cabeças eram jogadas numa esteira plana que as transportava até um buraco onde eram
tragadas degradantemente por um buraco negro que, possivelmente, dava para o porão.
— Acho que talvez tenha de visitar o porão — disse Kim, indeciso. Parecia estar
adivinhando que não teria como fugir do seu trauma de infância.
Até aquele momento, o dia estava sendo bastante proveitoso para Jed Street,
apesar de ser uma segunda-feira. Tinha tomado um café da manhã fantástico, chegara
para trabalhar cedo o bastante para uma segunda xícara com vários outros supervisores,
e as faltas foram em menor número que o habitual. Contratar e manter o pessoal era a
maior dor de cabeça de Jed.
Com todos os seus subordinados presentes, Jed estava confiante que sua equipe
teria processado quase duas mil cabeças até a hora do almoço. Aquilo o deixava feliz
porque sabia que seu superior imediato, Lenny Striker, também ficaria feliz.
Jed desabotoou o avental branco e o pendurou. Querendo botar seus relatórios
em dia, voltou para o escritório com a terceira xícara de café do dia. Contornou sua
mesa e sentou-se. Caneta na mão, pôs-se a trabalhar. Tinha uma quantidade


considerável de formulários que precisava preencher todo santo dia.
Não fazia muito tempo que Jed tinha começado a trabalhar quando o telefone
tocou. Pegou o café antes de atender o aparelho. Estava relativamente despreocupado
com uma ligação àquela hora do dia e não podia imaginar que se tratava de um assunto
particularmente sério. Sabia, no entanto, que tudo era possível. Como o responsável por
algo tão potencialmente perigoso como a área de abate de um matadouro, sabia que o
desastre nunca estava longe.
— Alô — disse Jed, carregando a voz na primeira sílaba antes de sorver mais
um gole de café.
— Jed Street, aqui é Daryl Webster. Tem um segundo para falar comigo?
Jed engasgou e cuspiu o café; em seguida, enxugou os respingos nos formulários
com a manga da camisa.
— É claro, Sr. Webster — balbuciou Jed. Trabalhava a quatorze anos na Higgins
e Hancock, e durante todo aquele tempo o verdadeiro chefe nunca tinha telefonado para
ele.
— Recebi um chamado de um dos homens de Bobby Bo — explicou Daryl. —
Ele me disse que hoje contratamos um novo varredor.
— Correto — disse Jed, sentindo o rosto enrubescer.
Contratar imigrantes ilegais era tacitamente tolerado, apesar da política oficial
proibir. Jed pediu a Deus que não acabasse como bode expiatório.
— Qual o nome do homem? — perguntou Daryl.
Jed procurou freneticamente por entre os papéis sobre a mesa. Tinha escrito o
nome do sujeito em algum lugar, mas não numa ficha de admissão. Soltou um suspiro
de alívio quando encontrou.
— José Ramirez, senhor! — disse Jed.
— Ele mostrou alguma identificação?
— Não que eu me lembre — respondeu Jed, evasivo.
— Como ele se parece?
— É um tipo meio esquisito — disse Jed, desconfiado. Não estava
compreendendo que importância podia ter a aparência do sujeito.
— Pode me dar uma idéia?
— Meio punk— disse Jed, tentando imaginar como seu filho de quatorze anos
descreveria o homem. — Cabelo pintado, brinco, tatuagens, calça de couro.
— É um sujeito razoavelmente alto?
— Sim, mais de um metro e noventa, com certeza.
— E tem uns pontos no rosto?
— Sim, ele tem. Como sabe disso, senhor?
— Disse onde está morando?
— Não, e eu não perguntei — respondeu Jed. — Devo dizer que ficou bastante
satisfeito de pegar o emprego. Até concordou em trabalhar um turno e meio.
— Está dizendo que ele vai estar aí esta noite? Com o pessoal da faxina?
— Sim. Um dos homens ficou doente.
— Isso é bom. Isso é muito bom mesmo. Excelente trabalho, Jed.
— Obrigado, senhor. Há algo que queira que eu faça ou diga ao Sr. Ramirez?
— Não, nada em absoluto. Para falar a verdade, gostaria que essa conversa entre
nós ficasse em total sigilo. Posso contar com você?
— Certamente que sim, senhor.
Jed recostou-se na cadeira quando Daryl Webster desligou. Tinha sido rápido
demais. Ficou meio aturdido por um instante, olhando intrigado para o aparelho antes de
repor o fone no gancho. Para não ser apanhado na sala da desossa de cabeças, onde não


havia nada para limpar, Kim tinha retornado à área principal de abate. Ainda não
encontrara nenhuma pista que esclarecesse o que Marsha havia descoberto sobre a
cabeça da última rês, mesmo depois de seguir as esteiras transportadoras por quase toda
a fábrica. Só não sabia ainda o que acontecia às cabeças depois que desapareciam pelo
buraco negro.
Kim retornou à área de evisceração e limpou novamente partes do chão que já
lavara diversas vezes. O mais desolador era que, em certas áreas, não eram necessários
mais do que quinze minutos para dar a impressão de que ele nunca tinha passado por lá.
Apesar dos protetores de ouvido, começou, em dado momento, a escutar um
zumbido estridente. Ergueu a cabeça e olhou ao redor. A primeira coisa que percebeu
foi que as reses tinham parado de descer a rampa. Não havia nenhuma sendo abatida. Os
infelizes animais próximos ao executor estavam tendo um momentâneo adiamento da
pena. O executor tinha afastado sua ferramenta para o lado e enrolava uma mangueira
de alta-pressão.
Os animais já executados iam avançando em linha até o último ser eviscerado. O
cabo condutor parou, e a barulheira infernal foi substituída por um silêncio sinistro.
Kim levou alguns segundos até perceber que a intensidade daquele silêncio era
em parte devido aos protetores de ouvido. Ao retirá-los, ouviu o ruído das máquinas
desligando e um burburinho de animada conversa. Os operários começavam a descer
das passarelas.
Kim parou um dos operários e perguntou-lhe o que estava acontecendo.
— Não falar inglês — disse o empregado, antes de desaparecer, apressado.
Kim parou um segundo.
— Você fala inglês? — perguntou.
— Um pouco respondeu o homem.
— O que está acontecendo?
— Parada de almoço — disse, correndo atrás do primeiro.
Kim ficou observando aquela centena de homens, ou mais, deixando seus postos
nas passarelas e formando fila para passar pela porta de incêndio. Dirigiam-se para o
refeitório e vestiários. Um número igual de empregados apareceu vindo da sala de
desossa das cabeças. Apesar da fúnebre atmosfera e do fedor, a camaradagem era
evidente. Havia muita gargalhada e empurrões amistosos.
— É incompreensível como alguém é capaz de comer aqui — comentou Kim ao
microfone.
Kim divisou o homem que o atacou ao lado de seu companheiro. Caminharam
sem olhar para os lados e juntaram-se à fila que crescia a cada minuto. Sentiu-se ainda
mais confiante em relação ao seu disfarce.
Kim parou um dos estripadores cujo uniforme branco úmido estava matizado
com diversas tonalidades de rosa e vermelho. Perguntou a ele como se chegava ao
subterrâneo. O homem o olhou como se ele tivesse enlouquecido.
— Você fala inglês? — perguntou Kim.
— Claro, cara, eu falo inglês — disse o estripador.
— Quero ir lá embaixo — disse Kim. — Como faço para chegar lá?
— Você não quer ir lá embaixo — respondeu o homem. — Mas se quisesse,
teria de usar aquela porta — disse, apontando para uma porta lisa com um trinco
automático montado no canto superior.
Kim continuou varrendo até o último empregado passar pela porta de incêndio.
Depois de todo o barulho e da caótica atividade quando a linha estava em operação, era
estranho estar ali sozinho em meio a quarenta ou cinqüenta carcaças suspensas e
fumegantes. Pela primeira vez, desde o instante em que chegou, a área ao redor das


mesas de evisceração estava livre de sangue.
Pondo a vassoura de lado, Kim foi até a porta indicada pelo homem. Depois de
constatar mais uma vez que não era observado, abriu e entrou. A porta se fechou
rapidamente às suas costas.
O que primeiro lhe chamou a atenção foi o mau cheiro. Era dez vezes pior que
na área de abate. O que o tornava tão insuportável era o adiantado estado de putrefação.
Apesar da ânsia, não chegou a vomitar. Deduziu que fosse em razão do estômago vazio.
Kim estava sobre o patamar de uma escada de cimento que desaparecia na mais
completa escuridão. Sobre sua cabeça havia uma única lâmpada acesa e afixada
diretamente no bocal. Na parede atrás dele estavam pendurados um extintor de incêndio
e uma lanterna de emergência de tamanho industrial.
Kim desprendeu a lanterna do suporte e a acendeu. O facho de luz revelou o que
parecia ser um depósito subterrâneo. As paredes tinham manchas de fungos, e o piso no
fundo parecia liso e negro como um tanque de óleo cru.
Kim retirou uma das luvas de borracha e trocou o protetor de ouvido pelo fone.
— Pode me ouvir, Tracy? Em caso positivo, diga alguma coisa. Acabo de
colocar meu fone de ouvido.
— Já não era sem tempo! — disse, irritada. Sua voz soava alta e clara, apesar de
Kim encontrar-se cercado por paredes de concreto reforçadas. — Quero que venha para
cá imediatamente.
— Ei, o que foi que a mordeu?
— Está aí dentro desse abatedouro com alguém que já tentou matá-lo duas
vezes. Isso é ridículo. Quero que desista dessa loucura.
— Ainda tenho de investigar um pouco mais. Além disso, o homem da faca não
me reconheceu, portanto, fique calma!
— Onde você está? Por que não colocou o fone no ouvido antes? Essa falta de
comunicação está me deixando louca.
Kim começou a descer os degraus.
— Só posso me arriscar com os fones quando estou só — disse. — Quanto ao
local, estou no porão, e devo confessar que isso aqui não é brincadeira. É como descer
aos círculos inferiores do inferno. O fedor é indescritível.
— Não precisava ir ao porão. Gosto de poder falar com você, porém é mais
seguro se houver outras pessoas por perto. Além disso, não deve ter permissão de estar
aí, e se você for pego, vai haver problema.
— Estão todos almoçando. Não estou preocupado em ser flagrado aqui.
Respirando pela boca para tentar evitar o fedor, Kim chegou à base da escada.
Iluminou o vasto espaço imerso em total escuridão com o foco da lanterna. Havia um
amontoado de gigantescos tonéis e caçambas de lixo. Cada um deles estava conectado a
um duto ligado ao piso superior para recolher o sangue, vísceras, ossos e crânios.
— Aqui é onde ficam estocados os restos antes de serem transportados para a
fábrica de ração — disse Kim. — Pelo odor, é óbvio que se encontram nos mais
variados estados de decomposição. Não há refrigeração aqui embaixo. Esse fedor deve
ser ainda pior no verão.
— Que horror. É difícil imaginar que um lixo desses possa ter alguma utilidade.
— O processo o transforma em fertilizante — explicou Kim. — E por mais
mórbido que pareça, em ração de gado. A indústria transformou nossas inadvertidas
reses em canibais.
— Opa! — exclamou Kim, sentindo um arrepio na espinha.
— O que houve? — perguntou Tracy, nervosa.
— Escutei um barulho.


— Então saia já daí — disse ela, angustiada.
Kim apontou a lanterna na direção do ruído. De forma bastante semelhante à
noite anterior em seu próprio porão, diversos pares de diabólicos olhos vermelhos
brilharam sob o clarão do foco de luz. Num segundo os olhos desapareceram, e Kim
avistou um bando de animais do tamanho de gatos domésticos correndo em todas as
direções. Ao contrário da noite anterior, não eram simples camundongos.
— Está tudo bem — disse Kim. — São apenas umas ratazanas gigantes.
— Ah, é só isso — comentou Tracy, sarcástica. — Apenas um bando de
amistosas ratazanas gigantes.
Kim seguiu em frente e descobriu que a superfície do chão não só parecia
coberta de óleo cru como tinha também a mesma consistência. Suas botas de borracha
produziam uma sucção cada vez que erguia o pé.
— Este certamente é um quadro do pesadelo pós-industrial — observou Kim.
— Esqueça a filosofia — rebateu Tracy. — Vamos, Kim! Dê logo o fora daí!
Afinal, o que pretende?
— Quero encontrar a calha que traz as cabeças — respondeu ele.
Continuou caminhando nauseado por entre as caçambas e tonéis, tentando
calcular, no piso superior, onde estaria a sala da desossa de cabeças. Chegou a um
paredão de concreto que deduziu ser o prolongamento da parede de cima. Aquilo
significava que a calha que procurava devia estar do lado oposto.
Kim apontou o foco para a parede e varreu-a com o cone de luz até localizar uma
abertura. Foi até lá e debruçou-se para examinar esse segundo espaço. Era menor que o
primeiro e menos sujo. O que procurava também estava lá. Logo à sua direita havia uma
calha interligada a um contêiner particularmente grande.
— Acho que encontrei — disse Kim. — É do tamanho de uma caçamba de obra.
Com o foco da lanterna, iluminou o duto da calha até o local onde penetrava no
teto. Calculou que o diâmetro era o mesmo da abertura que vira no andar superior.
— Ótimo, muito bem! — disse Tracy. — Agora saia daí.
— Num segundo. Vou ver se consigo ver o que há lá dentro.
Kim dirigiu-se até a caçamba imunda e enferrujada. Naquela área do porão não
havia ruído de sucção ao pisar. Encostada ao contêiner, próximo do ponto onde se
encaixava o duto, havia uma pequena plataforma de ferro acessível por uma escadinha
de quatro degraus. Kim subiu nela. Podia dali observar o tampo da caçamba. Havia uma
portinhola fechada. Kim moveu o trinco, mas não teve força suficiente usando só uma
das mãos.
Prendeu a lanterna entre os joelhos e fez força para erguer a portinhola pelos
lados. Ela se ergueu com um rangido. Mantendo-a aberta com a mão esquerda, iluminou
com a outra o interior. Não era uma imagem agradável.
O contêiner estava quase transbordando de cabeças esfoladas e em processo de
decomposição. Ao contrário das recém-abatidas, os olhos destas estavam murchos e os
fragmentos de cartilagem enegrecidos. Em muitas, era claramente visível o furo
provocado pela pistola de ar.
Enojado por aquela visão e pelo mau cheiro, Kim estava prestes a baixar a
portinhola quando um grito involuntário de horror escapou-lhe dos lábios. O foco da
lanterna pousara sobre um quadro particularmente medonho. Parcialmente coberta por
uma subseqüente avalanche de crânios frescos de vaca, estava a cabeça decapitada de
Marsha!
Com o choque, Kim soltou a portinhola de ferro que bateu provocando um
barulho ensurdecedor no espaço confinado. O som da pancada ecoou repetidas vezes
nas invisíveis paredes de concreto.


— O que aconteceu? — perguntou Tracy, apavorada.
Antes que ele pudesse responder, um ruído estridente castigou os ouvidos de
ambos. O fechamento da portinhola ativara algum dispositivo automático.
Kim apontou o foco da lanterna na direção daquele ruído infernal. Uma porta de
aço enferrujado começou a erguer-se acima de sua cabeça.
Escutou Tracy gritando repetidamente por seu nome e exigindo uma explicação
para o que estava acontecendo, mas ele não podia responder. Não sabia realmente o que
estava ocorrendo. Por trás da porta suspensa apareceu uma empilhadeira descomunal
que subitamente entrou em funcionamento como se fosse uma horrível criatura
mecânica futurística. Luzes vermelhas começaram a piscar na parte dianteira do veículo,
iluminando o espaço com a cor do sangue.
Assim que a porta abriu-se totalmente, a máquina automática começou a apitar
intermitentemente enquanto se movia para a frente de maneira espasmódica e
barulhenta. Apavorado com a colisão iminente, Kim saltou da plataforma e espremeu-se
contra a parede.
A empilhadeira chocou-se contra o tampo do contêiner, provocando um estouro
muito mais forte que a pancada da portinhola. A caçamba estremeceu e foi erguida. À
medida que a empilhadeira retrocedia, o duto que conectava o contêiner à sala de
desossa das cabeças ia se soltando. Depois que o espaço ficou livre, outra caçamba
vazia deslizou para o lugar da primeira, causando outro estrondo ensurdecedor. O duto,
então, encaixou-se automaticamente no lugar. A empilhadeira parou, girou sobre um
eixo e voltou para a escuridão.
— Kim, não sei se pode me ouvir ou não — berrava Tracy — mas eu vou entrar!
— Não! — gritou ele ao microfone. — Eu estou bem. Inadvertidamente, ativei
algum equipamento automático de remoção. Já estou saindo, portanto, fique aí mesmo
onde está.
— Está dizendo que vai vir até o carro? — perguntou ela, esperançosa.
— Vou. Preciso de ar puro.
Não que Derek Leutmann desconfiasse de Shanahan O'Brian, mas sabia que
existia mais naquela história incômoda do que ele tinha contado. Além do mais, Derek
tinha sua metodologia particular de trabalho. Matar pessoas era um negócio em que todo
o cuidado era pouco. Em vez de seguir diretamente para a casa da ex-esposa, conforme
Shanahan sugerira inicialmente, Derek foi primeiro à casa de Kim. Queria testar a
confiabilidade das informações de Shanahan e também conhecer mais a respeito de sua
possível vítima.
Derek entrou de carro no condomínio Balmoral e sem hesitação seguiu
diretamente para a residência de Kim. Sabia, por experiência, que aquela forma de
comportamento era muito menos suspeita que ficar circulando pela vizinhança.
Derek estacionou em frente à garagem. Abriu sua valise Zero Halliburton de
metal que trazia sobre o banco do passageiro e retirou uma nove milímetros automática
de seu encaixe perfeito, cortado em espuma de borracha. Com a habilidade de um
profissional, atarraxou um silenciador e enfiou a arma no bolso direito do seu casaco de
pêlo de camelo, adaptado para acomodar a arma longa.
Derek saltou do carro, carregando sua maleta de couro de avestruz. Deu uma
rápida espiada na garagem. Estava vazia. Em seguida atravessou o jardim, dando a
aparência de um próspero empresário ou um elegante vendedor de seguros. Tocou a
campainha e só então olhou ao redor para examinar a vizinhança. Da varanda de Kim,
só avistava outras duas residências. Ambas pareciam desocupadas naquele momento.
Tocou a campainha uma segunda vez. Como ninguém viesse atender, tentou a


porta. Ficou surpreso, mas satisfeito ao ver que estava destrancada. Caso não estivesse,
não teria feito muita diferença. Derek tinha as ferramentas e sabia bem como lidar com
a maioria das trancas.
Sem um momento de hesitação, entrou na casa e fechou a porta atrás de si. Ficou
imóvel por um instante, escutando. O silêncio era absoluto.
Ainda segurando a maleta, Derek fez um rápido reconhecimento do primeiro
andar. Notou alguns pratos sujos na pia. Pareciam ter sido largados havia pouco tempo.
Subindo até o segundo andar, Derek passou pela porta estraçalhada do banheiro.
Examinou o recinto e pegou nas toalhas. Era evidente que nenhuma tinha sido usada
recentemente, portanto, até ali a informação de Shanahan parecia estar correta.
No armário embutido da suíte encontrou um amontoado de roupas espalhadas
pelo chão. Ficou tentando imaginar o que teria acontecido durante o fracassado atentado
que Shanahan tinha mencionado.
De volta ao primeiro andar, Derek foi até a biblioteca e sentou-se diante da
escrivaninha de Kim. Sem remover as luvas, começou a examinar a correspondência
para ver o que poderia descobrir a respeito do homem que fez com que o trouxessem de
Chicago para matar.
Tracy tinha dado marcha à ré até um ponto em que podia divisar toda a frente da
Higgins e Hancock. Pensou em ficar perto da entrada, mas desistiu porque não haviam
combinado onde estaria quando ele saísse. Temia que não a achasse. Pouco depois
avistou-o saindo pela porta da frente e vindo em sua direção. Estava de avental branco e
usava um capacete amarelo de operário. Correu até o carro e depois de uma espiada por
cima do ombro entrou e sentou-se no banco traseiro.
— Você nunca esteve tão pálido — comentou Tracy. Ela estava virada de lado
até onde permitia o volante. — Mas acho que o cabelo dá mais realce.
— Acabo de ver uma das piores coisas em toda minha vida.
— O quê? — perguntou Tracy, alarmada.
— A cabeça de Marsha Baldwin. Provavelmente, foi tudo o que restou dela além
de alguns ossos. Por mais mórbido que seja, creio que a maior parte de seu corpo virou
hambúrguer.
— Oh, meu Deus! — murmurou Tracy. Entreolharam-se por um segundo. Ela
percebeu as lágrimas aparecerem nos olhos dele e não pôde deixar de reagir do mesmo
modo.
— Primeiro Becky, agora isso — balbuciou Kim. — E sou eu o responsável. Por
minha causa, uma tragédia levou a outra.
— Posso compreender como você se sente — tentou Tracy. — Mas, como falei
antes, Marsha agiu de livre e espontânea vontade, fez o que acreditava ser o certo. Isso
não justifica sua morte, mas não foi culpa sua.
Tracy estendeu o braço para Kim. Ele pegou em sua mão e apertou-a com força.
Por alguns instantes, uma silenciosa mas poderosa comunicação se fez presente entre os
dois.
Tracy suspirou, sacudiu a cabeça desolada e soltou a mão da de Kim. Girou
sobre o banco e deu a partida no carro. Antes dele chegar ela havia recolhido a antena.
— Uma coisa é certa — disse Tracy, engatando a primeira marcha. — Nós
estamos caindo fora daqui.
— Não! — gritou Kim, esticando o braço e agarrando com força no ombro dela.
— Eu tenho de voltar. Vou até o fim com essa história. Agora é pela Becky e também
pela Marsha.
— Kim, agora já é uma questão de assassinato comprovado! — disse Tracy,


pausadamente. — É um caso para a polícia.
— E só um assassinato. E isso não é nada comparado às quinhentas crianças que
são assassinadas todos os anos por essa indústria, em nome da ganância desmedida.
— A responsabilidade pelas vidas das crianças será difícil de provar no tribunal,
mas encontrar a cabeça de uma pessoa é uma prova substancial.
— Encontrei a cabeça dela, mas não sei onde pode estar agora. Estava lá junto
com as cabeças das reses, mas quando fechei a tampa, ativei um sistema de ejeção. Já
foi para o processador, portanto não haverá um cadáver mesmo se denunciarmos a
morte de Marsha. Minha palavra, obviamente, não vale coisa alguma para a polícia no
momento.
— Eles podem começar sua própria investigação. Talvez encontrem outros
ossos.
— Mesmo que o fizessem, a questão aqui não é pegar um capanga qualquer,
como esse sujeito que tentou me matar. Eu quero atingir a indústria da carne.
Tracy suspirou novamente e desligou o motor.
— Mas por que voltar lá agora? — insistiu ela. — Já conseguiu o que queria.
Viu que poderá documentar como a carne é contaminada. — Tracy deu umas
palmadinhas no gravador. — Só essa fita já é quase tão boa como um vídeo. A maneira
como descreve o que acontece lá dentro é impressionante. Estou certa de que Kelly
Anderson não jogará fora essa oportunidade.
— Preciso voltar, principalmente porque vou trabalhar no turno de três às onze,
conforme lhe disse. Espero conseguir entrar na sala de registros em algum momento
durante o expediente. Marsha encontrou o que ela chamou de um "relatório de
ocorrência" referente à cabeça de um animal doente. Ela disse que o estava pondo de
volta no arquivo e até escutei o ruído da gaveta fechando. Quero encontrar esse papel.
Tracy sacudiu a cabeça, desanimada.
— Você está se arriscando demais — disse. — Se Kelly Anderson pegar o caso,
deixe que ela procure por esse relatório de ocorrência.
— Não creio que esteja correndo risco algum no momento. O sujeito da faca me
olhou cara a cara, lá no banheiro. Se fosse reconhecido, teria sido naquele momento. Na
verdade, nem quero mais ficar com essa arma.
Com alguma dificuldade, Kim retirou o revólver do bolso da calça e o entregou a
Tracy.
— Pelo menos, fique com a arma — disse Tracy.
Kim sacudiu a cabeça.
— Não, eu não quero.
— Por favor.
— Tracy, já estou carregando muita coisa com essas baterias. E acho que a arma
representa mais risco do que segurança.
Relutante, Tracy pegou a arma e colocou-a sobre o assoalho do carro.
— Não há forma de convencê-lo a desistir de voltar lá para dentro?
— Quero levar isso até o fim — respondeu Kim. — É o mínimo que posso fazer.
— Espero que compreenda que ficar sentada aqui enquanto você corre perigo
está me deixando louca.
— Eu entendo. Por que não vai para casa e volta para me buscar às onze?
— De jeito nenhum! Seria muito pior. Pelo menos daqui posso ouvir o que
acontece.
— Está certo, você é quem sabe. Agora é melhor eu voltar. A hora de almoço
está quase acabando.
Kim pôs as pernas para fora do carro e então se lembrou de algo.


— Pode fazer uma coisa para mim durante a tarde? — perguntou.
— É claro. Desde que não precise sair do carro.
— Ligue para o laboratório Sherring pelo celular. Pergunte sobre o resultado das
amostras da carne que deixei lá. Já deve estar pronto.
— Está bem.
Kim apertou-lhe os ombros em sinal de solidariedade.
— Obrigado — disse, antes de saltar do carro. Fechou a porta, acenou e
caminhou de volta ao prédio.
Derek Leutmann diminuiu a marcha ao aproximar-se da casa de Tracy. Os
números de algumas casas vizinhas não eram muito visíveis e ele não queria ficar
circulando pela área. Quando avistou a casa, viu o Mercedes estacionado no passeio da
garagem. Para evitar bloqueá-lo, deu meia-volta e estacionou do outro lado da rua.
Apanhando o papel que Shanahan tinha lhe dado, Derek conferiu o número da
placa do Mercedes. Suas suspeitas confirmaram-se. Aquele era o carro do médico.
Depois dos procedimentos de praxe, como fizera na casa de Kim, saltou do carro
sob a chuva fina que começava a cair. Abriu um pequeno guarda-chuva automático e
pegou a maleta. Com a maleta em uma das mãos e o guarda-chuva na outra, ele
atravessou a rua e espiou no interior do veículo. Estranhou vê-lo ali. Esperava que
estivesse com Kim no consultório, o que obviamente sugeria que Kim não estaria no
consultório.
Agora, Derek estava bem mais informado a respeito de Kim. Sabia que era um
cirurgião cardíaco de grande prestígio. Que era divorciado e pagava uma pensão
considerável para a ex-esposa e a filha. O que não sabia era por que O'Brian e seu chefe
no negócio de gado queriam o homem morto.
Tinha feito aquela pergunta a Shanahan, mas só obtivera uma resposta vaga.
Derek nunca se interessava pelos detalhes das transações entre seus clientes e o alvo em
potencial, mas gostava de ficar a par das generalidades. Era outra forma de reduzir
riscos, não apenas durante a ação, mas também posteriormente. Tentou pressionar
Shanahan, mas não teve sucesso. Tudo o que lhe foi dito era que envolvia negócios. O
curioso era que Derek não descobrira nenhuma conexão entre o médico e a indústria da
carne, apesar de ter encontrado grande número de informações na escrivaninha do
médico.
O trabalho de Derek, na maioria das vezes, estava ligado a problemas
envolvendo dinheiro de um jeito ou de outro. Competição, jogatina, divórcio e
empréstimos não pagos encabeçavam a lista. A maior parte da clientela, ou dos alvos,
era a escória, e era assim que Derek gostava. Aquele caso estava inteiramente diferente
e uma certa dose de curiosidade somava-se às suas outras fortes emoções. O que Derek
menos gostava era de ser subestimado ou enganado. Ele não entrara no negócio da
forma convencional, através de alguma associação mafiosa. Tinha sido mercenário na
África nos dias em que ainda existiam os bons e os maus, antes dos exércitos nacionais
começarem a receber treinamento.
Derek subiu a escadinha da varanda e tocou a campainha. Com o carro de Kim
parado na calçada da garagem, esperava obter alguma resposta, mas nada. Tocou mais
uma vez. Virou-se e examinou a vizinhança. Era bem diferente da de Kim. De onde se
encontrava, tinha uma boa visão de cinco casas e uma vista parcial de mais quatro,
porém não havia muita atividade. A única pessoa que viu foi uma senhora empurrando
um carrinho de criança, e ela estava se afastando.
Apesar da minuciosa revista na correspondência e nos arquivos de Kim, Derek
não conseguiu encontrar nenhuma evidência que sugerisse um envolvimento do médico


com algum problema de Jogo e por isso concluiu que aquele não seria o motivo que
levara Shanahan a contratá-lo. O divórcio também estava fora de questão porque a exesposa tinha
conseguido um bom acordo. Além disso, os dois pareciam estar se dando bastante bem.
Caso contrário, ela não teria pago sua fiança, como dissera Shanahan. Agiotagem
também era improvável, já que não havia indícios nos arquivos de Kim de que ele
precisasse de dinheiro e, mesmo que assim fosse, por que iria pegar emprestado com um
industrial do gado? Sobrava o fator competição. Só que esse era o motivo mais
improvável de todos. Kim sequer possuía ações da indústria de gado além de umas
poucas de uma cadeia de lanchonetes. Aquele caso era, na verdade, um mistério.
Derek voltou-se e examinou a porta. Estava trancada, apenas uma pequena
inconveniência frente a sua experiência. A questão era se existia alarme.
Pondo a maleta no chão, Derek levou as mãos em concha ao rosto e observou
pelo vidro da porta. Não viu nenhuma caixa de alarme. Retirando do bolso esquerdo seu
estojo de serralheiro, trabalhou com rapidez na fechadura. A porta abriu-se e ele deu
uma espiada na parte interna do umbral. Não havia nenhuma chave de circuito. Entrou
no pequeno vestíbulo e examinou os cantos à procura de um dispositivo qualquer que
pudesse estar escondido. Não havia nenhum. Em seguida, procurou por algum possível
detector de movimentos na cornija. Ele relaxou. Não havia nenhum sistema de alarme.
Derek pegou a maleta antes de fechar a porta. Fez um rápido reconhecimento do
primeiro andar antes de subir ao segundo. No quarto de hóspedes encontrou uma sacola
com um estojo de barba e roupas que deduziu pertencerem a Kim. No único banheiro da
casa, encontrou diversos conjuntos de toalhas úmidas.
Derek voltou para o andar inferior e procurou ficar à vontade na sala de estar.
Com o carro de Kim parado na garagem e seus pertences no quarto de hóspedes, sabia
que o médico teria de voltar. Era só uma questão de tempo.
Carlos veio por trás e jogou o ombro sobre Adolpho, que estava desprevenido,
tirando-o do caminho. Enfiou seu cartão de ponto no relógio antes do companheiro. Era
uma brincadeira que faziam havia meses.
— Eu te pego na próxima — gracejou Adolpho. Fazia questão de falar em inglês
porque Carlos lhe tinha dito que queria aprender a falar melhor.
— Só passando por cima do meu cadáver! — respondeu Carlos. Aquela era uma
de suas frases novas prediletas.
Foi Adolpho quem tinha apresentado Carlos à Higgins e Hancock e depois o
ajudado a trazer sua família. Adolpho e Carlos conheciam-se desde os tempos de
criança, no México. Adolpho tinha imigrado para os Estados Unidos alguns anos antes
de Carlos.
Os dois amigos saíram de braços dados sob a chuva vespertina. Em meio a um
exército de trabalhadores, dirigiram-se para seus carros.
— Nos vemos essa noite no El Toro? — perguntou Adolpho.
— Claro — disse Carlos.
— E bom levar muitos pesos — avisou Adolpho. — Vai perder muito dinheiro.
— Fez um movimento como se desse uma tacada de sinuca.
— Isso nunca — disse Carlos, dando um tapa nas costas do amigo.
Naquele exato momento, notou o Cherokee preto de vidro fumê. O veículo
estava próximo ao seu e uma fumaça escapava lânguida pelo cano de descarga.
Carlos deu um último tapa nas costas de Adolpho. Ficou observando seu
companheiro entrar em seu furgão antes de dirigir-se para o seu. Carlos esperou um
pouco e acenou para Adolpho quando ele passou. Só então se encaminhou para o


Cherokee e parou diante da janela do motorista.
O vidro da janela baixou, e o rosto de Shanahan apareceu sorrindo.
— Trago boas notícias — disse ele. — Dê a volta e entre no carro.
Carlos fez o que Shanahan mandou e bateu a porta.
— Vai ter mais uma chance de fechar o médico — foi dizendo Shanahan.
— Fico feliz — disse Carlos, retribuindo o sorriso. — Quando?
— Esta noite. O médico vai trabalhar aqui.
— Não disse? Eu sabia que era ele.
— Estamos com sorte. O melhor de tudo é que ele vai estar fazendo faxina no
turno da noite. Irão mandá-lo lavar o banheiro masculino que fica do lado da sala de
registros. Sabe onde fica? Eu não. Nunca estive na Higgins e Hancock.
— Sim, sei onde fica. É proibido usar aquele banheiro.
— Bem, esta noite você terá permissão — disse Shanahan com um sorriso
irônico. — Será mais tarde, provavelmente depois das dez. Esteja lá a essa hora.
— Eu vou estar — prometeu Carlos.
— Não deve ter problemas. Vai lidar com uma pessoa desarmada e
desprevenida, dentro de uma sala pequena. Apenas cuide de dar sumiço no corpo do
mesmo jeito que fez com Marsha Baldwin.
— Farei como mandar — disse Carlos.
— Cuidado para não estragar tudo outra vez. Você me deixou em apuros e não
quero ficar mal com o chefe de novo.
— Sem problema! — assegurou Carlos, enfaticamente. — Essa noite eu maaaato
ele!

17
Segunda feira, 26 de janeiro - Noite
Kim soltou um gemido e endireitou as costas. Soltou o cabo do esfregão,
colocou as mãos na cintura e esticou-se o máximo que pôde.
Estava sozinho, lavando a entrada principal, vindo da área de recepção. Colocara
o fone nos ouvidos havia cerca de dez minutos e reclamava com Tracy do cansaço que
sentia. Ela foi solidária.
A limpeza tinha sido exaustiva. Toda a equipe começara lavando a área de abate
com jatos de vapor sob alta pressão. Era um trabalho que forçava principalmente as
costas, já que as mangueiras pesavam centenas de quilos e tinham de ser levantadas até
as passarelas.
Dali tinham passado às salas de desossa, onde permaneceram até o intervalo do
jantar, às seis. Naquela hora, Kim voltou ao carro e chegou até a comer um pouco da
comida que tinham trazido pela manhã.
Na segunda metade do turno, Kim foi mandado para fazer diversos serviços em
diferentes pontos da fábrica. Com a redução do ritmo de trabalho, ele se ofereceu como
voluntário para esfregar o chão do hall de entrada.
— Juro que nunca mais direi que a cirurgia é trabalho pesado — disse, ao
microfone.
— Depois de mostrar tanto serviço, acho que vou querer contratá-lo para
trabalhar em minha casa — brincou Tracy. — Você também limpa as janelas?
— Que horas são? — perguntou ele. Não estava no clima para piadas.
— Dez e pouco. Falta menos de uma hora para você sair. Acha que vai
conseguir?


— Vai dar tudo certo. Não vi nenhum colega da limpeza nessa última hora. É
hora de entrar na sala de registros.
— Não demore! Com você lá dentro vou ficar muito nervosa de novo. Não estou
mais agüentando essa tensão.
Kim enfiou o esfregão no balde e carregou seu equipamento de trabalho pelo
hall até chegar à porta da sala de registros. O vidro quebrado tinha sido substituído por
um pedaço de compensado fino.
Kim experimentou a maçaneta. A porta abriu-se com facilidade. Ele entrou e
acendeu a luz. Exceto por uma folha maior do mesmo compensado tapando o buraco da
vidraça que dava para o parque de estacionamento, a sala parecia totalmente normal. O
vidro quebrado e o paralelepípedo que atirara de fora para dentro tinham sido retirados.
No canto esquerdo da sala havia uma longa fileira de arquivos de gavetas. Kim
abriu uma delas ao acaso. Os papéis estavam tão espremidos que não havia espaço para
nem mais uma folha sequer.
— Deus do céu! — exclamou Kim. — Eles têm mesmo uma infinidade de
relatórios. Não vai ser tão fácil como pensei.
A ponta de um charuto El Producto brilhou, incandescente, por uns instantes e
diminuiu de intensidade. Elmer Conrad prendeu a fumaça na boca durante alguns
segundos de prazer e em seguida soprou, satisfeito, para o teto.
Elmer era o supervisor da equipe de limpeza do turno das três. Tinha aquele
emprego havia oito anos. Sua concepção de trabalho era suar como louco na primeira
metade do turno e depois relaxar. Naquele momento, encontrava-se na fase do
relaxamento, assistindo a uma TV portátil no refeitório, com os pés cruzados em cima
de uma mesa.
— Queria me ver, chefe? — perguntou Harry Pearlmuter, aparecendo na porta
do salão. Harry era um dos subalternos de Elmer.
— Sim. Onde está aquele cara novo com pinta de veado?
— Acho que está lavando o hall de entrada. Pelo menos foi o que disse que iria
fazer.
— Sabe se ele já lavou os banheiros do corredor?
— Não sei dizer. Quer que eu dê uma checada?
Elmer deixou seus pés pesados desabar sobre o chão com um ruído seco e pôs-se
de pé. Tinha dois metros de altura e pesava mais de cento e dez quilos.
— Obrigado, mas eu mesmo vou verificar — disse. — Já falei com ele duas
vezes que tem que lavar os banheiros antes das onze. Se ainda não lavou, vai lavar
agora! Não vai sair daqui antes de terminar.
Elmer deixou o charuto no cinzeiro, tomou um gole de café e saiu à procura de
Kim. Estava motivado pelas ordens específicas de seus superiores de que o novato
deveria lavar os banheiros em questão, e sozinho. Elmer não fazia a menor idéia do
motivo, mas isso não lhe interessava. O importante é que a ordem fosse cumprida.
— Não será assim tão difícil, pelo que parece — disse Kim, ao microfone. —
Encontrei uma gaveta cheia dos tais relatórios de ocorrência. Vão desde 1988 até o
presente. Agora, só falta achar o dia 9 de janeiro.
— Rápido, Kim — disse Tracy. — Estou começando a ficar nervosa outra vez.
— Relaxe, Tracy. Já disse que não vejo viva alma há mais de uma hora. Acho
que estão todos no refeitório assistindo a um jogo. Ah, aqui está, 9 de janeiro. Hummm.
A pasta está cheia.
Kim puxou um maço de papéis da pasta, virou-se e colocou-os sobre a mesa de


leitura.
— Na mosca! — exclamou, contente. — São os mesmos papéis encontrados por
Marsha. — Espalhou-os sobre a mesa para observá-los em conjunto. — Aqui está a
fatura de compra de Bart Winslow pelo que devia ser uma rês doente.
Kim examinou os outros papéis e finalmente apanhou um deles.
— Encontrei o que estava procurando. É um relatório de ocorrência referente ao
mesmo animal.
— O que diz ele? — perguntou Tracy.
— Estou lendo — disse Kim. Após um momento, ele prosseguiu. — Bem, está
resolvido o mistério. A cabeça da última rês caiu da esteira rolante no chão. Agora sei o
que isso significa, depois do serviço de hoje. Provavelmente despencou sobre o próprio
estrume e depois foi processada para virar carne de hambúrguer. Essa rês poderia estar
infectada com E. coli. Isso é coerente com o resultado positivo dos exames feitos pelo
laboratório Sherring, indicando que a amostra do hambúrguer feito da carne processada
em 9 de janeiro estava fortemente contaminada.
No instante seguinte, Kim tomou um susto tão grande que soltou um grito.
Subitamente, o relatório de ocorrência foi-lhe arrancado das mãos. Girou nos
calcanhares e deu de cara com o rosto de Elmer Conrad a meio metro do seu. Enquanto
conversava, não notou a entrada do homem na sala.
— Que diabos está fazendo com esses papéis? — bufou Elmer, exigindo uma
explicação. Seu rosto enorme estava vermelho como um tomate.
Kim sentiu o coração disparar. Além de ser apanhado em flagrante examinando
documentos confidenciais, estava com o microfone pendurado no ouvido direito.
Procurando esconder o fio da vista de Elmer, manteve a cabeça virada para a direita,
olhando-o pelo canto do olho.
— É melhor responder logo, rapaz — rosnou Elmer.
— Estavam espalhados pelo chão — disse Kim, procurando desesperadamente
pensar em alguma coisa. — Só estava tentando pôr no lugar.
Elmer olhou para a gaveta aberta do armário de arquivos e em seguida para Kim.
— Com quem estava conversando?
— Eu estava conversando? — desconversou Kim, inocentemente.
— Não brinque comigo, rapaz — admoestou Elmer.
Kim levou as mãos à cabeça e gesticulou de modo ineficaz para Elmer, mas
nenhuma palavra saiu de sua boca. Estava tentando pensar em algo inteligente para
dizer, mas nada lhe vinha à mente.
— Diga a ele que estava falando sozinho — sussurrou Tracy.
— Está bem — disse Kim. — Estava falando comigo mesmo
Elmer olhou de esguelha para Kim, quase da mesma forma como Kim o fitava.
— Parecia estar batendo um tremendo papo — disse Elmer.
— Estava — confessou Kim. — Só que comigo mesmo. Sempre faço isso
quando estou sozinho.
— Você é um cara esquisito. O que aconteceu com seu pescoço?
Kim coçou o lado esquerdo do pescoço com a mão esquerda.
— Está um pouco dolorido — disse. — Muita esfregação, eu acho.
— Bem, terá mais um pouco pela frente — disse Elmer. — Lembra-se dos dois
banheiros aqui do lado no corredor? Esqueceu que eu o mandei limpar os dois?
— Acho que me distraí um pouco. Desculpe, posso cuidar deles agora mesmo.
— Não quero um trabalho malfeito. Por isso, vá devagar, mesmo que passe das
onze. Entendeu?
— Vão ficar brilhando — prometeu Kim.


Elmer jogou o relatório de ocorrência sobre a mesa e juntou os papéis
desordenadamente. Enquanto estava ocupado, Kim puxou o fone do ouvido e o enfiou
sob a camisa. Era bom poder endireitar o pescoço.
— Vamos deixar que as secretárias cuidem desses papéis — disse Elmer. Foi até
o arquivo e fechou a gaveta aberta. — Agora, dê o fora daqui. Não devia entrar nesta
sala, para começar.
Kim saiu da sala na frente de Elmer. Antes de fechar a porta o supervisor,
desconfiado, deu mais uma espiada no interior. Só então apagou a luz e a fechou. Tirou
do bolso um chaveiro grande com dezenas de chaves e trancou-a.
Kim estava ocupado, enxaguando o esfregão, quando Elmer virou-se para ele,
dizendo:
— Vou ficar de olho em você, rapaz — advertiu. — E voltarei para inspecionar
os banheiros assim que tiver terminado. Por isso, não tente me embromar.
— Farei o melhor possível — disse Kim.
Elmer lançou-lhe um último olhar de censura antes de voltar para o refeitório.
Kim recolocou o fone no ouvido assim que Elmer desapareceu de vista.
— Você ouviu toda a conversa? — perguntou ele.
— É claro que sim — respondeu Tracy. — Vai desistir dessa loucura agora! Saia
já daí!
— Não, quero ver se consigo pôr as mãos naqueles papéis. O problema é que o
desgraçado trancou a porta.
— Por que está querendo esses papéis? — perguntou Tracy, exasperada.
— É mais uma evidência para mostrar a Kelly Anderson.
— Já temos o resultado do laboratório — contestou Tracy. — Deve ser
suficiente para Kelly Anderson fazer a denúncia e pedir o recolhimento. Não é isso o
que está querendo?
— Sim, claro. No mínimo, toda a produção da Mercer Meats com data de 12 de
novembro tem de ser interditada. Mas esses papéis mostram claramente como a
indústria é propensa à compra de reses doentes, se esquiva da inspeção e depois permite
que a cabeça de uma rês visivelmente emporcalhada continue na linha de produção.
— Acha que foi assim que Becky adoeceu? — perguntou Tracy, emocionada.
— É uma boa possibilidade — respondeu Kim, com emoção igual. — Isso e
mais o fato do seu hambúrguer não ter sido bem cozido.
— Isso nos faz ver quão tênue é a vida, que ela pode ser levada por causa de
algo tão trivial como a cabeça de uma rês caindo no chão e um hambúrguer mal cozido.
— Também realça a importância do que estamos fazendo aqui — disse Kim.
— O que vai fazer para pegar os papéis agora que a porta da sala de registros
está trancada?
— Ainda não sei — admitiu Kim. — Mas a porta tem um pedaço de
compensado fino tapando o buraco. Provavelmente não será difícil arrancá-lo. Antes,
porém, tenho de dar uma geral nesses dois banheiros. Acredito que Elmer volte em
alguns minutos, portanto é melhor começar a trabalhar.
Kim olhou para as duas portas. Ficavam uma de frente para a outra. Abriu a do
banheiro masculino. Com cuidado, para não entornar o balde, empurrou-o para cima do
piso azulejado com o pé e deixou a porta fechar-se às suas costas.
O recinto era bastante amplo, com dois reservados com privadas e dois mictórios
à direita. À esquerda havia duas pias com espelhos. No lado interno da porta, vários
ganchos de pendurar roupas. Os únicos outros objetos no banheiro eram dois portatoalhas e um cesto de lixo. Bem no meio da parede do fundo havia uma janela que dava


para o estacionamento.
— Pelo menos esse banheiro masculino não está tão sujo — disse Kim. — Meu
medo é que estivesse como o mictório da área de abate.
— Gostaria de estar aí para te ajudar — disse Tracy.
— Uma ajuda seria bem-vinda — respondeu Kim, torcendo o excesso de água
do esfregão e dirigindo-se até a janela para recomeçar o trabalho.
A porta do banheiro abriu-se com tal violência que chegou a partir o azulejo da
parede com o choque. O estrondo e o susto deixaram Kim paralisado por alguns
instantes. Para seu total desalento, viu-se diante do mesmo homem que o atacara
previamente. Da mesma forma que antes. O homem empunhava uma faca de matar. Os
lábios do homem trincaram vagarosamente num sorriso cruel.
— Nos encontramos de novo, doutor. Só que desta vez sem polícia e sem mulher
nenhuma para ajudá-lo.
— Quem é você? — perguntou Kim, numa tentativa de manter o homem
falando. — Por que está fazendo isso comigo?
— Meu nome é Carlos. Estou aqui para matá-lo.
— Kim! Kim! — gritava Tracy em seu ouvido — O que está acontecendo?
Para pensar melhor, Kim tirou o fone do ouvido. Agora a voz frenética de Tracy
soava como se ela gritasse de uma distancia longínqua.
Carlos deu um passo no interior do banheiro com a faca na mão. Kim pôde
observar com clareza o tamanho dela e a curvatura da lâmina. A porta fechou-se atrás
dele.
Kim tinha o esfregão em suas mãos e instintivamente o ergueu para o alto.
Carlos soltou uma risada. Para ele, a idéia de um esfregão contra um facão de
abate era algo ridículo.
Sem outra alternativa, Kim enfiou-se num dos reservados abertos e passou a
corrente no trinco. Carlos investiu contra a porta desferindo um violento pontapé. O
reservado estremeceu ante o impacto, mas a porta não cedeu. Kim agarrou-se às paredes
do reservado com força. Por baixo da porta podia ver os pés de Carlos posicionando-se
outra vez para tentar derrubá-la.
Tracy entrou em pânico. Tentou atabalhoadamente girar a chave de ignição até
que conseguiu dar a partida. Engrenou a primeira e pisou fundo no acelerador. O
veículo deu um solavanco para a frente, que a imprensou no banco. A antena
equilibrada no teto deslizou pela traseira do carro e ficou quicando no cimento, presa
pelo fio.
Tracy brigou com o volante para tentar que o carro fizesse uma curva fechada
em alta velocidade. Mas não julgou corretamente a distância de outro veículo
estacionado e o atingiu de lado, ricocheteando, numa fração de segundo, sobre duas
rodas. O carro baqueou no solo cantando os pneus e disparou pela frente da Higgins e
Hancock.
Tracy não tinha nenhum plano a princípio. Seu único pensamento era chegar ao
banheiro masculino onde Kim estava encurralado, aparentemente pelo mesmo homem
que estava na casa de Kim na noite anterior. Sabia que tinha pouco tempo. Podia ver
com os olhos da mente o semblante horrível do homem, no momento em que tentava
entrar à força no chuveiro com sua faca.
Por um breve instante, pensou em jogar o carro para dentro da entrada principal
do prédio, mas deduziu que aquilo não daria necessariamente certo. O que precisava
fazer era dar um jeito de entrar no banheiro masculino. Foi quando se lembrou da arma
e praguejou por Kim não tê-la levado com ele.
Pisando no freio com violência, Tracy parou bruscamente de frente para a janela


da sala de registros. Esticou o braço e pegou o revólver deixado no assoalho.
Segurando-o com força, saltou do carro e correu até a janela.
Lembrando-se de como Kim tinha feito para entrar, pôs a arma no chão e
escolheu um dos paralelepípedos que compunham o meio-fio. Usando ambas as mãos,
bateu com ele contra a folha de compensado. Na segunda tentativa, conseguiu soltar a
folha dos pregos que a prendiam provisoriamente. Sem perda de tempo, empurrou-a
para dentro.
Tracy apanhou o revólver e o atirou pela janela. Em seguida meteu a cabeça pela
abertura e pulou. Uma vez no interior, foi preciso engatinhar tateando pelo chão, à
procura da arma. Enquanto procurava, podia ouvir pancadas intermitentes do outro lado
da parede, à sua direita, como se alguém estivesse chutando uma divisória de metal
repetidamente. O barulho só aumentava sua angústia.
Seus dedos finalmente encontraram a arma junto à perna de uma mesa. Agarroua com força e procurou se mover tão rápido quanto permitia a escuridão, na direção do
que parecia ser a porta para o corredor.
Tracy destrancou a porta. Pela conversa que escutara entre Kim e Elmer, sabia
que o banheiro masculino tinha de ficar perto da sala de registros. Decidiu seguir o
ruído das pancadas. Virou à direita no corredor e viu logo a placa do banheiro.
Sem um segundo de hesitação, Tracy projetou-se de ombro sobre a porta. Tinha
a arma agarrada com as mãos e apontava para o fundo do recinto.
Ela não tinha a menor idéia do que iria encontrar. O que viu foi Carlos a menos
de três metros de distância, com uma perna já erguida em posição de desferir novo chute
na porta do reservado, que Kim tinha entortado.
Assim que a viu, Carlos se virou e saltou sobre Tracy. Como na noite anterior,
empunhava uma enorme faca.
Tracy não teve tempo de pensar. Cerrando os olhos frente àquela figura voadora,
puxou o gatilho duas vezes em rápida sucessão, antes de Carlos desabar sobre ela,
projetando-a contra a porta e arrancando a arma de sua mão. Sentiu uma dor aguda no
peito enquanto caía esmagada sob o peso do homem.
Tracy procurou desesperadamente respirar enquanto se retorcia, tentando livrarse do corpo esparramado por cima dela. Ele, porém, a mantinha facilmente imobilizada.
Para surpresa de Tracy, o assassino saiu de cima do seu corpo. Ela abriu os
olhos, esperando vê-lo de pé à sua frente, empunhando a faca para desferir o golpe de
misericórdia. No entanto, o que viu foi o rosto transfigurado de Kim, gritando:
— Oh, Deus! Tracy!
Ele erguera o assassino de cima dela e o atirara para o lado como se o homem
fosse um mero saco de batatas. Transtornado com a quantidade de sangue no peito de
Tracy, jogou-se ao chão de joelhos e rasgou sua blusa. Acostumado a cirurgias no tórax,
já cuidara de feridas de faca no peito e sabia o que esperar. Mas só encontrou um sutiã
encharcado de sangue. A pele de Tracy estava intacta. Não havia nenhuma perfuração
com penetração de ar, como temia.
Kim aproximou mais o rosto do de Tracy. Ela ainda respirava com dificuldade.
— Você está bem? — perguntou ele.
Tracy balançou a cabeça, mas ainda não conseguia falar.
Kim voltou a atenção para o assassino. O homem contorcia-se gemendo e
conseguira dobrar-se sobre a barriga. Kim o chutou de volta para a mesma posição e
recuou um passo.
A uma distância tão curta, os dois tiros acertaram o alvo. Uma das balas entrou
pelo olho direito e atravessou o crânio; a outra atingiu-o no lado direito do peito, o que
explicava a quantidade de sangue em Tracy. O homem espumava pela boca e


convulsionava descoordenadamente. Era evidente que estava agonizando.
— Ele está ferido? — balbuciou Tracy. Pressionando o peito no local da dor,
esforçou—se para encontrar uma posição sentada.
— Está praticamente morto — disse Kim, levantando-se e procurando pela
arma.
— Oh, não! — lamentou—se ela. — Não posso acreditar. Não consigo pensar
que matei um homem.
— Onde está a arma?
— Oh, meu Deus! — balbuciou Tracy. Não conseguia tirar os olhos de Carlos,
que agonizava sufocado.
— A arma! — repetiu Kim, atirando-se ao chão de joelhos.
Ele podia ver a faca de Carlos, mas nenhum sinal do revólver. Movendo-se até
os reservados, acabou encontrando-o debaixo de uma das privadas. Esticou o braço e o
alcançou.
Dirigiu-se até a pia, puxou uma toalha de papel e limpou-o com cuidado.
— O que está fazendo? — perguntou Tracy, entre lágrimas de desespero.
— Apagando suas impressões digitais. Quero só as minhas nessa coisa.
— Por quê?
— Por que quaisquer que forem as conseqüências, a responsabilidade é minha.
— Empunhou a arma e a atirou para o lado. — Vamos! Temos que dar o fora daqui!
— Não! — reagiu ela, agachando-se para pegar a arma. — Estou envolvida
nisso tanto quanto você.
Kim a agarrou pelo braço, erguendo-a.
— Não seja idiota! Sou eu o réu dessa história. Vamos embora!
— Mas foi em legítima defesa — queixou-se Tracy em meio às lágrimas. — É
horrível, mas foi justificável.
— Não podemos confiar em como o sistema legal interpretará a situação. Você
está invadindo propriedade alheia e eu estou aqui sob falso pretexto. Vamos logo! Não é
hora de discutir!
— Não deveríamos ficar aqui até a polícia chegar? — sugeriu Tracy.
— De jeito nenhum. Não vou ficar sentado numa cela enquanto decidem sobre o
que irão fazer. Vamos embora já, antes que alguém entre aqui.
Tracy não gostava da idéia de fugir da cena, mas sabia que Kim estava
determinado. Deixou-se levar para fora do banheiro. Kim espiou o corredor nos dois
sentidos, surpreso pelos tiros não terem atraído nenhum de seus colegas da limpeza.
— Como entrou aqui? — sussurrou Kim.
— Pela janela da sala de registros. A mesma que você quebrou.
— Ótimo! — disse, segurando a mão dela. Juntos, correram para a porta da sala
de registros.
No exato momento em que entravam, ouviram vozes se aproximando. Kim fez
um sinal para Tracy ficar em silêncio enquanto fechava silenciosamente a porta,
trancando-a por dentro. No escuro, tatearam primeiro até a mesa de leitura, onde Kim
pegou os documentos incriminadores. Dali foram até a janela. Do outro lado da parede,
podiam ouvir o tumulto no banheiro dos homens seguido de correria pelo corredor.
Kim pulou primeiro. Em seguida ajudou Tracy. Juntos, dispararam em direção
ao carro dela.
— Deixe que eu dirija — disse Kim.
Ele se acomodou à frente do volante, enquanto Tracy se acomodava no banco
traseiro. Deu a partida e afastou-se em alta velocidade do estacionamento.
Permaneceram em silêncio durante alguns minutos.


— Quem poderia supor que as coisas chegariam a esse ponto? — comentou
Tracy, finalmente. — O que acha que devemos fazer?
— Talvez você tivesse razão. Talvez fosse melhor se tivéssemos nós mesmos
chamado a polícia e enfrentado as conseqüências. Creio que ainda não é tarde demais
para nos apresentarmos, mas acho que antes devemos entrar em contato com Justin
Devereau.
— Já não penso mais da mesma forma — retrucou Tracy. — Acho que seu
instinto estava certo. Você certamente será preso e talvez eu também. Poderia levar no
mínimo um ano até um julgamento. E aí, quem sabe o que poderá acontecer? Depois do
caso de O. J. Simpson, minha confiança no sistema judiciário americano passou a ser
nenhuma. Não temos um milhão de dólares para desperdiçar com advogados famosos
como Johnny Cochrane ou Berry Scheck.
— Aonde quer chegar? — perguntou Kim, lançando um olhar de esguelha no
retrovisor. Ela nunca deixava de surpreendê-lo.
— Em nossa conversa de ontem à noite. Vamos embora para longe daqui e tratar
desse assunto em outro país. Algum lugar onde a comida não seja contaminada e
possamos continuar nossa luta.
— Está falando sério? — perguntou Kim.
— Estou.
Kim sacudiu a cabeça. Haviam considerado aquela alternativa e tinham até os
passaportes, mas ele não tinha levado a idéia realmente a serio. Em sua cabeça, era mais
um esquema desesperado de fuga, uma emergência no caso de uma situação
apocalíptica. Evidentemente, em função da morte de Carlos, tinha de admitir que a
situação não poderia piorar muito mais.
— É claro que devemos ligar para Justin — acrescentou Tracy. — Ele dará bons
conselhos. Ele sempre dá. Talvez saiba para onde devemos ir. Pode haver problemas
legais com relação à extradição e coisas do gênero.
— Sabe o que mais me agrada sobre a idéia de irmos para um país estrangeiro?
— disse Kim, após alguns minutos de silêncio. Olhou no retrovisor para ter um contato
visual com Tracy.
— O que é?
— Que você está sugerindo irmos juntos.
— Ora, é claro.
— Sabe? Talvez não devêssemos ter nos divorciado.
— Devo admitir que essa idéia já passou por minha cabeça.
— Talvez algo de bom resulte de toda essa tragédia.
— Se voltarmos a viver juntos, sei que não poderíamos ter outra Becky, mas
seria bom se tivéssemos outra criança.
— Você quer mesmo? — perguntou Kim.
— Gostaria de tentar.
Novamente, o silêncio reinou por algum tempo e ambos reconsideraram suas
próprias emoções.
— Quanto tempo acha que temos antes que polícia chegue até nós? — perguntou
Tracy.
— É difícil dizer. Se quer saber de quanto tempo dispomos antes de nos
decidirmos sobre o que fazer, diria que não temos muito tempo. Umas vinte e quatro ou
quarenta e oito horas.
— Ao menos haverá tempo para os funerais de Becky, amanhã — disse Tracy
com a voz embargada.
Kim sentiu lágrimas aflorarem em seus olhos ante a menção do iminente funeral.


Apesar de todo o esforço para evitar o fato, Kim já não podia negar a terrível realidade
de que sua filha estava morta.
— Oh, meu Deus! — exclamou Tracy, em tom de lamúria. — Quando fecho os
olhos posso ver o rosto do homem em quem atirei. É uma coisa que jamais vou
conseguir esquecer. Vou me assombrar para o resto da vida.
Kim enxugou as lágrimas do rosto e respirou fundo para recompor-se.
— Precisa pensar naquilo que disse no banheiro. Foi justificável. Se não tivesse
puxado o gatilho, ele certamente a mataria. E depois a mim. Você salvou minha vida.
Tracy fechou os olhos.
Já passava de onze horas quando chegaram à casa de Tracy e estacionaram atrás
do carro de Kim. Estavam ambos inteiramente esgotados física, mental e
emocionalmente.
— Espero que esteja pensando em passar a noite aqui — disse Tracy.
— Estava torcendo para ainda ser convidado.
Desceram do carro e de braços dados caminharam até a casa.
— Acha que devemos entrar em contato com Justin ainda esta noite? —
perguntou Tracy.
— Vamos esperar até amanhã de manhã. Ligado do jeito como estou, não sei se
conseguirei dormir, mas preciso ao menos tentar. No momento, não consigo pensar em
nada além de uma ducha quente bem demorada.
— Eu posso entender.
Tracy tirou a chave da bolsa e abriu a porta. Depois de dar passagem a Kim,
trancou-a e só então tateou a parede à procura do interruptor de luz.
— Puxa, essa luz é mesmo forte — comentou Kim, desviando os olhos do lustre
no teto.
Tracy usou o dimmer para diminuir o brilho.
— Eu sou mesmo distraído — admitiu Kim. Tirou o avental branco da Higgins e
Hancock e segurou-o com o braço esticado. — Essa coisa devia ser queimada.
Provavelmente está cheia de E. coli.
— Acho que só precisa jogar fora. Mas é melhor jogar na lata de lixo dos
fundos. Não quero nem pensar no cheiro que vai ficar amanhã.
Ela tirou seu próprio casaco e apalpou a região dolorida no peito. Alguma coisa
dura a havia atingido bem à esquerda do esterno no momento do choque com Carlos. Na
hora, a dor fora tão aguda que pensou ter sido esfaqueada.
— Você está bem? — perguntou Kim, diante da reação dela.
Cuidadosamente, Tracy apalpou a área dolorida.
— Há algum osso que pudesse quebrar nessa região? — perguntou.
— É lógico! — disse Kim. — Você pode ter fraturado uma costela ou até
mesmo o próprio esterno.
— Mas que beleza! O que devo fazer, doutor?
— Um pouco de gelo não faria mal — disse Kim. — Vou lhe trazer um pouco
depois que me livrar desse avental.
Kim dirigiu-se para a porta dos fundos, passando pela cozinha. Tracy foi até o
armário do hall, pendurou o casaco e tirou os sapatos. Fechou a porta e andou em
direção à escada. Repentinamente, parou aterrorizada e deixou escapar um grito
cortante.
Kim acabara de entrar na cozinha quando ouviu o grito de Tracy. Voltou
correndo e ficou aliviado ao vê-la intacta, de pé, no meio do hall. Sua expressão era
calma, embora parecesse estranhamente petrificada diante de algo na sala de estar. Kim


tentou acompanhar sua linha de visão. A princípio não viu nada e ficou intrigado. Então
também viu do que se tratava. Ficou igualmente atemorizado.
Na sombra da sala parcialmente iluminada, viu a silhueta de um homem sentado
imóvel na poltrona ao lado da lareira. Vestia terno e gravata escuros. Um casaco de pêlo
de camelo estava cuidadosamente dobrado sobre as costas da cadeira. Estava com as
pernas cruzadas de maneira informal.
O homem esticou um braço e acendeu o abajur.
Tracy deixou escapar outro gemido melancólico. Sobre a mesinha de canto,
plenamente visível e ao alcance do homem havia uma pistola automática negra adaptada
com um silenciador.
O homem era a imagem da serenidade, o que o tornava ainda mais aterrorizante.
Depois de acender a luz, recolocou o braço sobre o descanso da cadeira. Sua expressão
era sombria, quase cruel.
— Vocês me fizeram aguardar muito mais do que eu esperava — disse o homem
subitamente, quebrando o silêncio num tom zangado e acusatório.
— Quem é você? — perguntou Tracy, hesitante.
— Cheguem mais perto e sentem-se — disse ele, sem responder.
Kim olhou para sua esquerda, julgando quão rápido seria capaz de empurrar
Tracy para trás da parede arqueada do vestíbulo e possivelmente fora do campo de
perigo. Não conseguia conceber uma forma de ser rápido o suficiente, principalmente
porque ela teria ainda de sair da casa pela porta da frente.
Derek respondeu à hesitação dos dois erguendo e apontando a arma na direção
deles.
— Não me aborreçam mais! — avisou ele. — Este foi um dia muito ruim e já
estou bastante irritado. Eu lhes dou dois segundos para virem até aqui e se sentarem no
sofá.
Kim engoliu em seco e conseguiu dizer num sussurro rouco:
— Acho melhor nos sentarmos.
Kim apressou Tracy, recriminando-se por não ter verificado a casa na hora em
que chegaram. Com a morte de Carlos, esquecera-se totalmente do trabalho que tiveram
para detectar a possível entrada de algum invasor.
Tracy sentou primeiro. Kim tomou o lugar ao lado dela. Estavam em posição
diagonalmente oposta à cadeira de balanço.
Derek recolocou calmamente sua arma sobre a mesinha de canto, encostou e
descansou as mãos sobre os braços acolchoados da poltrona, com os dedos ligeiramente
curvados, como um pistoleiro pronto para sacar. Era como se estivesse instigando os
dois a tentarem escapar ou pegar a arma, dando-lhe um motivo para atirar.
— Quem é você? — repetiu Tracy. — O que está fazendo na minha casa?
— Meu nome não importa — disse Derek. — Já o motivo de estar aqui é outro
assunto. Fui trazido a esta cidade para matar o doutor.
Tanto Kim como Tracy balançaram ligeiramente. A aterradora revelação de
Derek os deixou momentaneamente tontos. O horror os deixou sem palavras. O homem
era um matador de aluguel.
— No entanto, alguma coisa deu errado — prosseguiu Derek. — Eles me
trouxeram até este lugar esquecido por Deus e depois romperam o contrato sem uma
explicação razoável, dizendo que outra pessoa ia fazer o serviço. Tiveram até a cara-depau de me pedir o adiantamento de volta, depois de voar centenas de milhas até aqui.
Derek inclinou-se para a frente, e seus olhos brilharam.
— Por isso, além de deixá-lo vivo, ainda lhe farei um outro favor. Para começar,
não imagino o motivo que essa gente da carne tem para querê-lo morto.


— Posso lhe contar tudo — ofereceu-se Kim, ansioso. Estava mais que desejoso
em cooperar.
Derek ergueu a mão.
— Não há necessidade para que eu saiba dos detalhes a esse respeito — disse.
— Tentei descobrir, mas acabei desistindo. É problema seu. O que precisa saber é que
essa gente o quer morto, ao ponto de contratar a mim ou alguém como eu para executálo. Minha forma de retribuir a sacanagem que fizeram comigo é avisá-lo de que se
encontra em grande perigo. O que vai fazer depois dessa informação é problema seu.
Estou sendo claro?
— Perfeitamente — disse Kim. — Obrigado.
— Não precisa agradecer. Não faço isso por razões altruístas — respondeu
Derek, levantando-se. — A única coisa que peço em troca é que mantenham essa
conversa em caráter estritamente confidencial. Caso contrário, serei obrigado a voltar
para fazer uma nova visita a um dos dois. Devo avisá-los de que sou muito bom no que
faço.
— Não se preocupe — disse Kim. — Não vamos comentar isso com ninguém.
— Excelente — disse Derek. — Agora, se me permitem, vou ver se consigo
voltar para casa.
Kim fez menção de levantar-se do sofá.
— Não precisa se incomodar — disse Derek, fazendo um sinal para Kim
permanecer sentado. — Entrei sozinho; posso também sair sozinho.
Kim e Tracy ficaram olhando perplexos enquanto Derek vestia seu casaco de
pêlo de camelo e guardava a arma no bolso. Em seguida, apanhou a maleta.
— Eu não teria sido tão rude se vocês tivessem chegado em casa numa hora
decente — disse Derek. — Boa noite.
— Boa noite — disse Kim.
Derek saiu da sala de estar.
Kim e Tracy ouviram a porta abrir e fechar.
Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.
— Isso é inacreditável. É como viver um pesadelo sem poder acordar — disse
Tracy.
— É um pesadelo que não acaba — concordou Kim. — Mas temos que fazer
tudo o que pudermos para dar um fim nele.
— Ainda acha que devemos fugir para um país estrangeiro?
Kim balançou a cabeça.
— Pelo menos eu devo. Parece que me tornei um homem marcado. Acho que
não devemos nem ficar aqui esta noite.
— Para onde iremos?
— Hotel, motel, qual a diferença? — pensou Kim.

18
Terça feira, 27 de janeiro
Mal a luz do sol começou a banhar a cortina barata, Kim desistiu de tentar voltar
a dormir. Levantou-se lentamente para não acordar Tracy, catou suas roupas e
silenciosamente entrou no banheiro do Sleeprite Motel. Fechou a porta com todo o
cuidado e acendeu a luz.
Encolheu-se assim que se olhou no espelho. Com aquele ridículo cabelo louro e
o ferimento suturado, os olhos vermelhos e encovados, mal conseguia reconhecer a si


próprio. Apesar da exaustão, tivera um sono entrecortado e acordara pela última vez às
cinco da manhã. No decorrer de toda a noite estivera revendo os horríveis
acontecimentos dos dias anteriores, pensando no que fazer. A idéia de ser perseguido
por assassinos de aluguel estava um pouco além de sua compreensão.
Barbeou-se e tomou um banho, sentindo-se agradecido por aquelas tarefas
simples que distraíam sua mente por alguns momentos. Depois de pentear o cabelo para
o lado, como fazia normalmente, considerou sua aparência bem mais apresentável.
Terminou de se vestir e abriu a porta. Ficou satisfeito ao ver que Tracy não tinha
se movido. Sabia que ela havia dormido igualmente mal e agradou-lhe ver que agora
seu sono era profundo. Estava grato pela presença dela, também preocupado com os
riscos que ela corria a seu lado.
Dirigiu-se até a mesa e escreveu uma curta mensagem no bloco que estava ao
lado do telefone, avisando que tinha saído para buscar um café da manhã. Colocou o
papel sobre o cobertor, no seu lado da cama. Pegou, então, as chaves do carro.
Foi mais difícil abrir a porta do quarto sem fazer ruído que a do banheiro. A do
quarto tinha uma fechadura de metal e, além disso, tinham passado a corrente.
Uma vez no corredor, reconsiderou a idéia de estar sendo perseguido por
assassinos de aluguel. Aquilo o deixou totalmente paranóico, apesar de sentir que
estavam fora de perigo pelo menos por algum tempo. Tinham se registrado no hotel
com nomes falsos e pago em dinheiro.
Kim foi até o carro e sentou-se ao volante. Deu a partida, mas não engatou a
marcha. Ficou observando o homem do balcão que tinha preenchido suas fichas seis
horas antes. Ele o viu sair do quarto, mas tinha voltado aos seus afazeres. Estava
ocupado varrendo a frente do escritório. Antes de deixar Tracy sozinha, queria
certificar-se de que o homem não faria nada de suspeito como correr para dentro do
escritório e usar o telefone.
Reconhecendo sua paranóia, Kim censurou-se. Sabia que precisava manter-se
sereno ou correria o risco de tomar as decisões erradas.
Deu marcha à ré, manobrou e saiu do estacionamento.
Não muito longe dali, parou numa confeitaria e pediu dois cafés, dois sucos de
laranja e alguns donuts. O local estava praticamente lotado de caminhoneiros e peões de
obra. Enquanto Kim esperava sua vez na fila do caixa, muitos o observaram com
expressão cética. Sua figura, sem dúvida, nada tinha a ver com o ambiente.
Sentiu-se aliviado ao sair. Logo que pôs os pés na calçada, seus olhos bateram
na manchete do jornal por trás do vidro da máquina. Dizia, em letra de imprensa:
"MÉDICO LOUCO SE VINGA COMETENDO ASSASSINATO!" E no fundo da
página, em letras menores: "RESPEITÁVEL PROFISSIONAL É AGORA UM
FUGITIVO DA JUSTIÇA."
Um calafrio de pavor percorreu a espinha de Kim. Rapidamente, voltou para o
carro e guardou a comida e as bebidas. Retornou até a máquina de jornais e procurou as
moedas certas no bolso. Com a mão trêmula, retirou um exemplar. A janela de vidro
fechou-se com um estalido.
Qualquer esperança remota de que a história não fosse a dele desvaneceu-se no
instante em que viu uma foto sua abaixo da manchete. Tinha sido tirada havia vários
anos, apresentando sua aparência normal, de cabelos escuros.
De volta ao carro, Kim abriu o jornal. A reportagem estava na página dois.
EXCLUSIVO PARA O MORNIG SUN TIMES:
O Dr. Kim Reggis, respeitado cirurgião cardíaco e ex-chefe do departamento de


cardiologia do Hospital Samaritano, atualmente trabalhando no Centro Médico
Universitário, resolveu tomar a lei em suas próprias mãos ao estilo olho por olho,
dente por dente. Em reação à trágica morte de sua filha no último sábado, segundo se
alega, disfarçou-se pintando o cabelo de louro, conseguiu um emprego na Higgins e
Hancock usando falsa identidade e em seguida assassinou brutalmente outro
trabalhador, de nome Carlos Mateo. Acredita-se que o motivo dessa morte a sanguefrio seja a crença do Dr. Reggis de que sua filha tenha falecido em decorrência da
ingestão de carne abatida na Higgins e Hancock.
O Sr. Daryl Webster, presidente da Higgins e Hancock, declarou ao Times que
essa é uma alegação absurda. Disse também que o Sr. Mateo era um trabalhador
honesto e católico devoto, que deixa tragicamente uma esposa inválida e seis crianças...
Furioso, Kim atirou o jornal sobre o banco do passageiro. Não precisava ler o
resto para ficar ainda mais revoltado e preocupado. Deu a partida no carro e voltou para
o motel. Carregando a comida e o jornal, entrou no quarto.
Tracy o ouviu chegando e pôs a cabeça no vão da porta do banheiro. Estava
enxugando o cabelo depois de ter saído do chuveiro.
— Já está de pé — comentou Kim, deixando a comida sobre a mesa.
— Ouvi você saindo. Fico mais tranqüila em vê-lo de volta. Tive um pouco de
medo que me deixasse aqui para tentar resolver tudo sozinho para me poupar. Prometa
que não vai fazer isso.
— Confesso que a idéia passou pela minha cabeça — admitiu ele, afundando
desanimado sobre a única cadeira.
— Qual o problema? — perguntou Tracy, intrigada. Embora soubesse que sua
cabeça estava a ponto de estourar, ele parecia bem mais desesperançado do que ela
esperava.
Kim mostrou-lhe o jornal.
— Leia isso! — disse.
— É sobre o homem da Higgins e Hancock? — perguntou ela, temerosa. Não
estava certa de querer ler os detalhes.
— Sim, e sobre mim também.
— Oh, não! — disse ela, abatida. — Você já está ligado aos acontecimentos?
Tracy saiu do banheiro para o quarto enrolada na toalha. Pegou o jornal e leu a
manchete. Vagarosamente, andou até a beirada da cama, virando a página para ler o
resto.
Não foi preciso muito tempo. Ao terminar, dobrou o jornal e o colocou de lado.
Olhou para Kim e disse:
— Que massacre — comentou sombriamente. — Incluíram até suas recentes
prisões e a suspensão dos privilégios no hospital.
— Não fui tão longe — disse Kim. — Li apenas os dois primeiros parágrafos,
que já foram o suficiente.
— Não consigo acreditar que tudo isso tenha acontecido tão rapidamente.
Alguém deve tê-lo reconhecido na Higgins e Hancock.
— Obviamente. O homem que matamos não estava querendo pegar José
Ramirez. E quando falhou, as pessoas que o estavam pagando optaram por destruir
minha credibilidade e possivelmente me mandar para a cadeia pelo resto da vida. —
Kim soltou uma risada sombria. — E pensar que eu estava preocupado com os aspectos
legais! Nunca dei crédito à mídia. Ela, certamente, pode nos dar uma idéia do dinheiro e
do poder dessa indústria na cidade, para conseguirem distorcer a verdade dessa forma.
Veja bem, nesse artigo não há nenhum parecer investigativo. O jornal apenas imprimiu


o que a indústria da carne mandou. Eles me têm como o frio assassino de um homem
temente a Deus, tomado por um impulso de vingança.
— Isso quer dizer que não temos vinte e quatro ou quarenta e oito horas para
decidirmos o que fazer — observou Tracy.
— Concordo — disse Kim, erguendo-se da cadeira. — Já devíamos ter tomado
alguma decisão ontem à noite. Significa também que não me resta alternativa. Não irei
desistir da luta, mas definitivamente ela terá de ser travada do exterior.
Tracy ergueu-se e caminhou até ficar de frente para Kim.
— Também não me resta outra opção. Iremos embora e lutaremos juntos.
— Isso significa que não poderemos comparecer ao funeral de Becky — disse
Kim.
— Eu sei.
— Creio que ela entenderá.
— Espero que sim — balbuciou Tracy. — Sinto tanto a falta dela.
— Eu também.
Kim e Tracy entreolharam-se. Ele estendeu os braços e enlaçou a ex-esposa. Ela
passou os braços ao seu redor e os dois trocaram um intenso abraço como se estivessem
involuntariamente separados havia anos. Um longo momento se passou antes de Kim se
afastar para voltar a olhar Tracy nos olhos.
— Parece uma volta ao passado estar assim tão próximo de você.
— Um passado muito distante — concordou Tracy. — Como se fosse em outra
vida.
Kelly Anderson consultou seu relógio. Era quase uma e meia.
— Ele não vem — comentou com Brian Washington, sacudindo a cabeça.
— Você não estava mesmo esperando que ele aparecesse, estava — respondeu
Brian, ajustando sua câmera no ombro.
— Ele amava a filha. E este é o funeral dela.
— Mas a polícia está bem aí fora. Eles o agarrariam assim que desse as caras. O
homem só viria se fosse louco.
— Eu acho que ele é meio louco — disse Kelly. — Quando esteve em minha
casa tentando convencer-me a engajar-me em sua cruzada, tinha uma expressão
desvairada no olhar. Cheguei mesmo a sentir um pouco de medo.
— Isso eu duvido — disse Brian. — Nunca a vi com medo. Na verdade, acho
que você tem gelo correndo nas veias, especialmente levando em conta a quantidade de
chá gelado que você bebe.
— Você, mais que ninguém, devia saber que é só teatro. Fico apavorada toda
vez que entro no ar.
— Besteira — disse Brian.
Kelly e Brian estavam na entrada da casa funerária Sullivan. Outras pessoas
circulavam lentamente pelo local e conversavam discretamente. Bernard Sullivan, o
proprietário, estava de pé perto da porta. Encontrava-se visivelmente ansioso e olhava
freqüentemente para o relógio. O serviço funerário tinha sido marcado para o horário de
uma hora, e o movimento seria grande naquele dia.
— Acredita que o Dr. Reggis seria tão louco a ponto de matar alguém do jeito
como estão dizendo no jornal? — perguntou Brian.
— Vamos colocar desse jeito — disse ela — digamos que ele tenha chegado ao
seu limite.
Brian sacudiu os ombros e concluiu, filosoficamente:
— Nunca se sabe.


— A ausência do doutor ainda é compreensível — prosseguiu ela — mas não
consigo entender por que Tracy também não apareceu. Ela era a mãe de Becky, pelo
amor de Deus, e não tem nenhum motivo para se esconder da lei. Isso é que está me
deixando preocupada.
— O que quer dizer?
— Se o prezado doutor perdeu realmente o juízo, não seria muito improvável
que ele encontrasse alguma forma distorcida de culpar a mulher pela morte da filha.
— Deus do céu! — exclamou Brian. — Não tinha pensado nisso.
— Escute — disse Kelly, tomando subitamente uma decisão. — Dê uma ligada
para a emissora e pegue o endereço de Tracy Reggis. Eu vou ter uma conversinha com o
Sr. Sullivan e pedir-lhe que entre em contato conosco caso ela apareça
— Certo — disse Brian.
Brian partiu na direção do escritório da casa funerária enquanto Kelly seguiu na
direção oposta, até onde estava o proprietário, e cutucou-lhe o braço. Vinte minutos
mais tarde, os dois saltavam do carro de Kelly em frente à porta da casa de Tracy.
— Opa! — disse Kelly.
— O que é? — perguntou Brian.
— Aquele carro — disse ela, apontando para o Mercedes. — Acho que é o carro
do doutor. Pelo menos é o mesmo carro que dirigia quando foi me visitar.
— O que devemos fazer? Não quero dar de frente com nenhum maluco correndo
para fora da casa com um taco de beisebol ou uma escopeta na mão.
Brian tinha certa razão. Seguindo sua linha de pensamento, Reggis poderia
muito bem estar dentro da casa mantendo a ex-esposa como refém ou coisa pior.
— Talvez seja melhor darmos uma circulada e conversarmos antes com os
vizinhos — sugeriu Kelly. — Alguém pode ter visto alguma coisa.
Nas primeiras duas casas que abordaram, ninguém atendeu à campainha. A
terceira foi a da Sra. English, e ela abriu a porta prontamente.
— Você é Kelly Anderson! — disse a Sra. English, visivelmente excitada, assim
que viu o rosto de Kelly. — Você é maravilhosa! Eu a vejo na TV o tempo todo!
A Sra. English era uma mulher minúscula e de cabelos brancos que parecia
encarnar a quintessência da avó universal.
— Obrigada — disse Kelly. — Se importaria se fizéssemos algumas perguntas?
— Eu vou aparecer na TV? — perguntou a Sra. English.
— É possível — respondeu Kelly. — Estamos apurando uma reportagem.
— Pode perguntar.
— Estamos curiosos sobre a sua vizinha do outro lado da rua: Tracy Reggis.
— Algo de estranho está acontecendo lá. Isso é certo.
— Está? Conte-nos o que é.
— Começou ontem de manhã — foi dizendo a Sra. English. — Tracy veio aqui
e me pediu para observar a casa. Eu sempre observo, mas dessa vez ela foi bem
específica. Queria que eu lhe avisasse se aparecesse algum estranho. Bem, apareceu um.
— Alguém que nunca tinha visto antes?
— Nunca — respondeu a Sra. English com absoluta convicção.
— O que fez ele?
— Ele entrou na casa.
— Enquanto Tracy estava ausente?
— Isso mesmo.
— Como ele entrou?
— Não sei. Acho que tinha uma chave porque entrou pela porta da frente.
— Era um homem alto, de cabelos escuros?


— Não, tinha estatura mediana e cabelo louro. Muito bem vestido, como um
banqueiro, ou advogado.
— E depois, o que aconteceu?
— Nada. O homem não saiu mais e quando escureceu nem sequer acendeu uma
luz. Tracy só voltou bem tarde, acompanhada de outro homem louro. Esse homem era
mais alto e vestia um jaleco branco.
— Parecido com o de um médico? — perguntou Kelly, piscando um olho para
Brian.
— Ou açougueiro — prosseguiu a Sra. English. — Seja como for, Tracy não
voltou para falar comigo como disse que faria. Simplesmente entrou direto em casa com
o segundo homem.
— E então o que aconteceu?
— Ficaram os três lá dentro por um tempo. Então, o primeiro homem saiu e foi
embora em seu carro. Pouco depois, Tracy e o outro homem saíram carregando malas.
— Malas como se fossem partir em viagem?
— Sim, mas não era hora para ninguém sair de viagem. Já era quase meia-noite.
Tenho certeza porque nunca fui me deitar tão tarde em toda minha vida.
— Obrigada, Sra. English — disse Kelly. — A senhora foi extremamente útil.
— Kelly fez um sinal a Brian para irem embora.
— Eu vou aparecer na TV? — insistiu a Sra. English.
— Entraremos em contato com a senhora — disse Kelly. Despediu-se dela e
voltou com Brian para o carro.
— Essa história está começando a ficar boa — disse Kelly. — Eu jamais teria
levantado essa hipótese, mas está parecendo que Tracy Reggis aparentemente decidiu
fugir com o ex-marido procurado. E pensar que ela parecia ser uma pessoa tão sensata.
Estou embasbacada!
Por volta das três horas, o movimento do almoço diminuiu finalmente na
lanchonete Onion Ring da Prairie Highway. O pessoal do turno da manhã, esgotado, foi
embora para casa. Todos, exceto Roger Polo, o gerente. Consciencioso como sempre,
não podia sair antes de verificar que a transição para o turno da tarde iria transcorrer
normalmente. Só então passaria o comando a Paul, o cozinheiro, que atuava como
supervisor na ausência de Roger.
Roger estava ocupado, instalando uma nova fita em uma das caixas
registradoras, quando Paul assumiu seu posto por trás da chapa de fritura e começou a
arrumar os utensílios a seu modo.
— Muito trânsito hoje? — perguntou Roger, fechando a portinhola da caixa.
— Até que não — disse Paul. — E o dia aqui, foi agitado?
— Muito. Devia ter umas vinte pessoas esperando para entrar na hora em que
abri as portas e a fila não parou de crescer.
— Leu o jornal da manhã?
— Quem dera. Não tive tempo nem de sentar para comer.
— É bom dar uma olhada — disse Paul. — O médico doido que veio aqui na
sexta-feira matou um sujeito na Higgins e Hancock ontem à noite.
— Está brincando! — respondeu Roger, realmente estarrecido.
— Um pobre coitado mexicano com seis filhos. Atirou no olho do cara. A bala
atravessou o cérebro, já imaginou?
Roger não podia imaginar. Apoiou-se no balcão sentindo as pernas
cambalearem. Ficara indignado pelo soco que recebera no rosto; agora se sentia um
homem de sorte. Estremeceu ao pensar no que poderia ter ocorrido se o médico


estivesse armado naquela noite no Onion Ring.
— Cada um tem sua hora — disse Paul, filosoficamente. Deu meia-volta e abriu
o refrigerador. Verificou a caixa de hambúrgueres e viu que estava quase vazia.
— Skip! — Berrou Paul. Tinha-o visto na área externa do restaurante esvaziando
os latões de lixo.
— Está com o jornal aí? — perguntou Roger.
— Estou — respondeu Paul. — Deixei em cima da mesa, na sala dos
empregados. Pode ler.
— O que é? — perguntou Skip, aparecendo do lado externo do balcão.
— Preciso de mais hambúrgueres do freezer — disse Paul. — E já que vai até lá,
traga-me também dois pacotes de pãezinhos.
— Posso antes terminar o que estou fazendo? — perguntou Skip.
— Não! Preciso deles agora. Só tenho mais dois sobrando.
Skip contornou o balcão resmungando e saiu andando em direção aos fundos da
lanchonete. Gostava de terminar um serviço antes de começar outro. Estava começando
a injuriar-se com aquela mania que todos tinham agora de mandar nele.
Skip abriu a pesada porta isolante do freezer e penetrou naquela atmosfera ártica.
A porta automática fechou-se às suas costas. Puxou as alças da primeira caixa à
esquerda, mas ela estava vazia. Soltou um palavrão em voz alta. Seu colega do turno da
manhã sempre lhe deixava coisas por fazer. Aquela caixa vazia devia ter sido picada
para ser reciclada. Foi até uma segunda caixa e encontrou-a também vazia. Agarrou as
duas, abriu a porta do freezer e atirou-as para fora. Em seguida foi até o fundo da
câmara de congelamento para pegar caixas de hambúrgueres estocadas. Raspou o gelo
no rótulo do mais próximo e leu: MERCER MEATS. REG. 0.I. CARNE MAGRA,
HAMBÚRGUER. LOTE 6 REM. 9-14, PRODUZIDO JAN.12 VÁLIDO ATÉ ABR. 12
— Lembro-me dessa caixa — disse Skip, em voz alta. Verificou as bordas.
Evidentemente, a caixa já tinha sido aberta.
Para certificar-se de que não havia nenhuma outra com data anterior, Skip
conferiu o selo da última caixa. Tinha a mesma data.
Puxando a primeira pelas bordas, Skip carregou-a até a entrada do freezer.
Somente então enfiou o braço para retirar um dos pacotes do interior. Conforme
esperava, aquele também já tinha sido aberto.
Skip levou o pacote para a cozinha e depois de se espremer para passar entre a
parede e Paul, que estava ocupado em raspar os resíduos da chapa, colocou-o dentro do
refrigerador.
— Estamos finalmente usando aqueles hambúrgueres que abri por engano há
uma semana mais ou menos — comentou Skip, batendo a porta do refrigerador.
— Tudo bem, desde que os outros já tenham acabado — disse Paul, sem perder
a concentração no que fazia.
— Eu verifiquei. Os velhos acabaram.
O relógio pendurado na parede da redação da WENE dava a Kelly a hora exata:
eram seis horas e sete minutos. O noticiário local estava no ar desde as cinco e trinta.
Seu segmento estava esquematizado para entrar às seis e oito, e o técnico de som ainda
parecia atrapalhado com o microfone. Como sempre, seu pulso batia disparado.
Uma das câmeras posicionou-se subitamente diante de seu rosto. O operador
balançava a cabeça e sussurrava suavemente em seu headphone. Pelo canto do olho,
percebeu o diretor pegar o fio do microfone e vir em sua direção. Ao fundo, podia ouvir
a âncora, Marilyn Wodinsky, finalizando a vinheta do noticiário nacional.
— Deus meu! — murmurou Kelly.


Afastou a mão do técnico e segurou rapidamente o microfone ela mesma. Foi
uma boa idéia, porque em poucos segundos o diretor erguia os cinco dedos dando início
à contagem regressiva e terminou apontando diretamente para Kelly. Simultaneamente,
a câmera à sua frente entrou ao vivo no ar.
— Boa noite, amigos telespectadores — disse Kelly. — Temos hoje uma
reportagem completa sobre uma triste história ocorrida em nossa comunidade, uma
história que mais parece uma tragédia grega. Há um ano tínhamos o quadro de uma feliz
e perfeita família americana. O pai, um dos mais renomados cirurgiões cardíacos do
país; a mãe, uma psicoterapeuta altamente reconhecida por seus próprios méritos; e a
filha, uma menina de dez anos, linda e talentosa, considerada por alguns como uma
estrela ascendente da patinação artística. O desenlace começou provavelmente com a
fusão do Hospital Universitário e do Samaritano. Aparentemente, o fato causou pressão
no casamento. Pouco depois, um amargo divórcio foi seguido pela batalha pela custódia
da filha. Foi então que, há poucos dias, mais precisamente na tarde de sábado, a filha
morreu vítima de uma forma anômala de E. coli que tem aparecido isoladamente em
alguns pontos do país. O Dr. Kim Reggis, pai da menina, levado ao extremo de seus
limites pela trágica desintegração de sua vida, achou que a indústria local da carne tinha
sido a responsável pela morte de sua filha. Ele estava convencido de que a menina tinha
contraído a toxina em uma lanchonete local, da Onion Ring. A cadeia de lanchonetes
Onion Ring, por sua vez, é abastecida com os hambúrgueres fabricados pela Mercer
Meats, que compra grande quantidade da carne que utiliza da companhia Higgins e
Hancock. O atormentado Dr. Kim Reggis, disfarçado com o cabelo pintado de louro,
conseguiu emprego usando identidade falsa na Higgins e Hancock, e assassinou um
empregado da companhia. A vítima se chamava Carlos Mateo, que deixa uma esposa
inválida e seis crianças.
"A WENE foi informada pelas autoridades de que uma arma deixada na cena do
crime estava registrada no nome do médico e que suas impressões digitais foram
encontradas nela. O Dr. Reggis é agora um fugitivo da justiça e esta sendo procurado
pela polícia. Tracy Reggis, sua ex-esposa, por mais estranho que pareça, aparentemente
juntou-se a ele na fuga. No momento, não se sabe se está sendo coagida ou agindo por
vontade própria.”
"Para dar continuidade a essa história, a WENE entrevistou o Sr. Carl Stahl,
diretor-presidente da Foodsmart Incorporações. Eu perguntei ao Sr. Stahl se Becky
Reggis poderia ter contraído a bactéria E. coli em um dos restaurantes Onion Ring."
Kelly soltou um suspiro de alívio. Um maquiador apareceu por trás da tela de
fundo, ajeitou alguns fios e passou um pouco de pó-de-arroz na sua testa. Nesse meio
tempo, o rosto de Carl Stahl apareceu no monitor do estúdio.
— Obrigado, Kelly, por esta oportunidade de falar com os seus ouvintes — disse
Carl, solenemente. — Primeiramente, deixe-me dizer que como amigo pessoal de Tracy
Reggis e sua filha Becky, fiquei extremamente chocado com todos esses tristes
acontecimentos. Mas, respondendo à sua pergunta, teria sido impossível a Srta. Reggis
contrair a doença em uma lanchonete da rede Onion Ring. Nós fritamos nossos
hambúrgueres sob uma temperatura interna de 81 graus, que é mais elevada que a
recomendada pelo FDA, e nossos cozinheiros são obrigados a verificar a temperatura
duas vezes ao dia.
O diretor apontou novamente para Kelly, e a luz vermelha da câmera à sua frente
se acendeu.
— Fiz a mesma pergunta a Jack Cartwright, da Mercer Meats — disse Kelly,
olhando diretamente para a câmera.
Kelly relaxou novamente, enquanto o monitor passava a mostrar outra imagem.


Desta vez, era Jack Cartwright.
— A Mercer Meats abastece a cadeia Onion Ring com hambúrguer — disse
Jack. — Eles são feitos da mais pura "carne magra" moída; por isso, é impossível que
alguém pudesse contrair alguma doença provocada por esses hambúrgueres. A Mercer
Meats cumpre e supera todas as determinações do Departamento de Agricultura no
processamento de sua carne, em termos de higiene e esterilização. As lanchonetes
Onion Ring oferecem os melhores ingredientes que o dinheiro e a tecnologia podem
comprar.
Sem um segundo de hesitação, Kelly entrou após a conclusão gravada de Jack
Cartwright:
— E finalmente coloquei a mesma pergunta para o Sr. Daryl Webster, presidente
da Higgins e Hancock.
O monitor entrou no ar pela terceira vez.
— A Onion Ring faz seus hambúrgueres com a melhor carne do mundo — foi
dizendo Daryl, num tom de voz litigioso, o dedo em riste apontado para a câmera. — E
eu desafio qualquer um que diga o contrário. Nós, da Higgins e Hancock, nos
orgulhamos de produzir para o nosso fornecedor, Mercer Meats, a carne mais fresca do
mercado. E digo mais, o que não podemos é ficar impassíveis diante da tragédia que
vitimou um de nossos melhores trabalhadores, brutalmente assassinado a sangue-frio.
Só posso desejar que esse maluco seja conduzido à justiça o mais breve possível, antes
que tire a vida de mais alguém.
Kelly ergueu as sobrancelhas assim que a câmera à sua frente entrou ao vivo
outra vez.
— Como podem ver, a questão é tensa em decorrência desse brutal assassinato e
da trágica morte de uma menina. Tivemos assim a história da família Reggis e suas
trágicas conseqüências. A WENE entrará com mais detalhes a qualquer momento. Com
você, Marilyn.
Kelly exalou outro forte suspiro e desprendeu o microfone. No fundo, podia
ouvir a voz de Marilyn:
— Obrigada, Kelly, por esta dolorosa e intrigante história. Agora, mais notícias
locais...
Kelly acionou a porta automática da garagem e saltou do carro quando esta
começou a fechar. Pendurou a bolsa no ombro e subiu os três degraus da garagem até o
interior da casa.
A casa estava quieta. Esperava encontrar Caroline sentada no sofá assistindo à
sua meia hora de TV, mas o aparelho estava desligado, e Caroline não estava à vista.
Tudo o que se ouvia era o clicar de um teclado de computador, vindo da biblioteca.
Kelly abriu o refrigerador e serviu-se de suco. Com o copo na mão, atravessou a
sala de jantar e espiou pela porta da biblioteca. Edgar estava no computador. Entrou sem
ruído, deu um beijo no rosto dele, que sorriu sem tirar os olhos do monitor.
— Aquela foi uma matéria interessante que fez sobre o Dr. Reggis — disse
Edgar, clicando duas vezes o mouse antes de virar-se para ela.
— Você achou? — disse Kelly, sem muito entusiasmo. — Obrigada.
— Uma história triste para todos os envolvidos.
— E o mínimo que se pode dizer — disse Kelly. — Há apenas um ano, ele
poderia ter sido o símbolo do americano bem-sucedido. Como cirurgião cardíaco, tinha
tudo: dinheiro, respeito, credibilidade, uma família maravilhosa, um belo lar.
— Mas acabou como um castelo de cartas.
— Aparentemente — disse Kelly, soltando um suspiro. — O que há com


Caroline? Ela já fez todo o dever de casa?
— Quase. Mas não estava se sentindo muito bem e disse que ia se deitar um
pouco.
— Qual o problema? — perguntou Kelly, intrigada. Era muito raro Caroline
deixar de assistir seu programa.
— Nada de mais — assegurou-lhe Edgar. — Só uma ligeira dor de barriga.
Provavelmente porque comeu demais e muito rápido. Ela insistiu para que déssemos
uma parada no Onion Ring depois da aula de patinação e o lugar estava superlotado.
Acho que o olho foi maior que a barriga. Pediu dois hambúrgueres, um milk shake e
uma porção grande de batatas.
Kelly sentiu uma desconfortável sensação no fundo do estômago.
— Qual Onion Ring? — perguntou, hesitante.
— Aquele da Prairie Highway — respondeu Edgar.
— Será que Caroline já está dormindo?
— Não sei dizer, mas não faz muito tempo que foi se deitar.
Kelly colocou o copo de suco sobre a mesa. Saiu da sala e subiu as escadas. Seu
rosto refletia ansiedade. Parou diante do quarto de Caroline e pôs o ouvido à porta.
Novamente, o único ruído era o clique do computador vindo do andar de baixo.
Vagarosamente, Kelly abriu a porta. A luz estava apagada. Ela entrou e andou
silenciosamente até a beira da cama da filha.
Caroline dormia profundamente. Seu rosto parecia particularmente angelical. A
respiração era lenta e regular.
Kelly resistiu à tentação de estender os braços e abraçá-la. Em vez disso, apenas
permaneceu ali, na penumbra, pensando no quanto amava Caroline e o quanto Caroline
significava para ela. Tais pensamentos Fizeram-na sentir-se profundamente vulnerável.
A vida era de fato um castelo de cartas.
Kelly saiu do quarto, fechou a porta e desceu. Voltou para a biblioteca e pegou o
copo com o suco. Sentou-se no sofá de couro e pigarreou.
Edgar virou-se para ela. Conhecendo Kelly tão bem, sabia que estava querendo
falar e desligou o computador.
— O que há? — perguntou.
— É a matéria do Dr. Reggis — disse ela. — Não estou satisfeita. Disse o
mesmo ao diretor, mas ele não concordou, dizendo que era só fofoca de tablóide e nada
de importante, e que eu não perdesse mais tempo nisso. Mas, seja como for, vou
continuar.
— O que a fez decidir isso? — perguntou Edgar.
— Muitas coisas estranhas que não têm explicação. A mais importante envolve
uma fiscal do Departamento de Agricultura chamada Marsha Baldwin. Quando Kim
Reggis esteve aqui no domingo, disse-me que suspeitava do desaparecimento da
mulher. Ele insinuou que ela podia ter sido vítima de um crime.
— Presumo que esteve à procura dela.
— Mais ou menos — admitiu Kelly. — Realmente, não levei Kim Reggis muito
a sério. Como disse, achei que ele tinha perdido o juízo depois da morte da filha. Estava
agindo de maneira bizarra e, segundo ele, a mulher só estava desaparecida havia poucas
horas. De qualquer forma, atribuí seus argumentos a um delírio paranóico.
— Então, não encontrou a mulher.
— Não. Na segunda-feira fiz algumas ligações, mas ainda não estava dando
muita atenção. Hoje, porém, liguei para o escritório da administração do Departamento
de Agricultura. Quando perguntei por ela, insistiram para que eu falasse com o gerente
distrital. É claro que não me importei em falar com o chefão, só que ele também não me


deu nenhuma informação. Disse apenas que não a tinham visto. Depois que desliguei,
achei curioso ter de falar diretamente com o chefe do departamento para obter uma
informação tão simples.
— É curioso — admitiu Edgar.
— Mais tarde, liguei outra vez e perguntei exatamente para onde ela tinha sido
designada. Adivinhe o lugar.
— Não faço a menor idéia.
— A Mercer Meats.
— Interessante — disse Edgar. — Então, como vai fazer para investigar esse
caso?
— Ainda não sei. Adoraria encontrar o doutor, agora. Parece que estou sempre
atrás dele.
— Bem, aprendi a respeitar sua intuição. Vá em frente!
— Mais uma coisa. Mantenha Caroline longe dos restaurantes Onion Ring,
principalmente o da Prairie Highway.
— Por quê? Ela adora a comida.
— Por enquanto, vamos dizer apenas que é minha intuição.
— Vai ter que dizer a ela você mesma.
— Não tem problema.
A campainha da porta surpreendeu a ambos. Kelly olhou o relógio.
— Quem poderia estar tocando nossa campainha às oito horas de uma terçafeira?— questionou ela.
— Não tenho idéia — disse Edgar, pondo-se de pé. — Deixe que eu abro.
— Fique à vontade.
Kelly coçou a cabeça, pensando na pergunta de Edgar sobre como iria enfocar o
caso Reggis. Sem o médico, não seria fácil. Tentou relembrar tudo o que Kim tinha dito
durante sua visita no domingo.
Ouviu Edgar conversando com alguém na varanda, pedindo-lhe que assinasse
alguma coisa. Alguns minutos depois ele estava de volta. Trazia um envelope pardo e
examinava o rótulo.
— Uma encomenda para você — disse ele, balançando o pacote. Algo se mexia
livremente no interior.
— Quem enviou? — perguntou Kelly. Ela não gostava de receber pacotes
misteriosos.
— Não há remetente. Apenas as iniciais KR.
— KR — repetiu Kelly. — Kim Reggis?
Edgar sacudiu os ombros.
— É possível.
— Deixe-me dar uma olhada.
Edgar entregou o pacote a ela. Kelly apalpou a embalagem.
— Bem, não está parecendo perigoso. Parece uma fita solta, ou algo assim.
— Abra logo — disse Edgar.
Kelly rasgou o envelope e retirou um maço do que pareciam ser relatórios
oficiais e uma fita de rolo. Preso à fita com durex havia um bilhete, onde se lia: Kelly,
aqui está a documentação que você queria. Estarei em contato. Kim Reggis.
— Estes relatórios são todos da Higgins e Hancock — disse Edgar. — Com
cópias em anexo.
Kelly sacudia a cabeça enquanto examinava o material.
— Acredito que agora sei por onde levar minha investigação.


EPÍLOGO
Quarta-feira, 11 de fevereiro
O motor falhava e explodia exalando uma fumaça preta, mas o furgão velho e
dilapidado prosseguia em seu caminho, subindo por uma ligeira inclinação da estrada
logo após cruzar a ponte de um pequeno riacho.
— Deus do céu, esse é o pior torcicolo que tenho em anos — comentou Bart
Winslow. Ele e seu companheiro, Willy Brown, seguiam por uma estrada de terra
isolada, tentando voltar à estrada principal depois de recolherem um porco morto.
Chovia havia quase dois dias, e a estrada estava enlameada e os buracos cheios de água
barrenta.
— Eu estava pensando — disse Bart, depois de cuspir um pouco do tabaco de
mascar pela janela. — Benton Oakly vai acabar quebrando, se suas vacas continuarem
adoecendo como essa que apanhamos antes do porco.
— Pode apostar — disse Willy. — Mas essa não está muito pior do que aquela
que pegamos no mês passado. O que acha de a levarmos para o abatedouro como
fizemos com a outra?
— Acho que vale a pena — respondeu Bart. — O problema é que teremos de ir
até o abatedouro de Laudersville.
— Sim, eu sei — disse Willy. — Aquela repórter da TV conseguiu que
interditassem a Higgins e Hancock por duas semanas, para investigarem alguma coisa.
— O bom da história é que o abatedouro de Laudersville não é tão cheio de
frescura como a Higgins e Hancock — disse Bart.
— Lembra-se daquela vez que vendemos a eles duas vacas, que estavam mais
mortas que um peru de Natal?
— É claro que sim — disse Willy. — Você sabe quando a Higgins e Hancock
irá reabrir?
— Ouvi dizer que na próxima segunda. Não encontraram nada lá, além de
alguns imigrantes ilegais.
— E então? — disse Willy. — O que acha que devemos fazer com essa vaca?
— Vamos vender para o matadouro — disse Bart. — Cinqüenta paus é sempre
melhor que vinte e cinco.

POSFÁCIO
Um requisito básico na busca da felicidade e de uma vida saudável, e o mínimo
necessário para a boa saúde são água limpa e comida livre de contaminação. Nossa
civilização tem lutado pelo primeiro desde os primórdios da urbanização. Somente em
tempos recentes a engenharia civil conseguiu apontar possíveis soluções. Tragicamente,
em relação à comida, a situação é inversa. Depois de um progresso tecnológico
significativo em relação à preservação de alimentos, particularmente em relação à
refrigeração, começamos a retroceder em função da crescente demanda e da pressão
pela queda de preços. Técnicas modernas de criação animal desenvolveram na verdade
novas e aterrorizantes formas de contaminação que ameaçam expandir-se. É um
problema que exige a máxima atenção das autoridades competentes.

FIM


Esta obra foi revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira
totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou
àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste ebook ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente
condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da
distribuição, portanto distribua este livro livremente.
Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois
assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.
Se quiser outros títulos nos procure :
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