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MISTÉRIO EM NOVA IORQUE
H. W. MEIER

Resumo:
A história de alguém que se tornou detetive particular quase por acaso ao desvendar um misterioso desaparecimento.

Bom, antes de começar a contar a história que vou contar a vocês, deixem-me me apresentar. Sou conhecido por Xerlok Gomes, o melhor detetive particular de Nova Iorque. Nova Iorque neste caso não é New York City, a mais deslumbrante cidade dos Estados Unidos, a grande maçã, a cidade que nunca dorme segundo Frank Sinatra. Trata-se de Nova Iorque aqui no Maranhão mesmo, este particularíssimo estado nordestino de nosso inefável Brasil. Cabe lhes declarar ainda que meu nome verdadeiro é Severino da Silva Gomes, a alcunha Xerlok me foi perpetrada pelo caloroso povo local, certamente em reconhecimento ao meu particular faro profissional para desvendar os mais espinhosos casos policiais já vistos. Quanto aos motivos que me fizeram abraçar esta prestigiosa ocupação de detetive particular, poderão conhecê-los ao longo desta narrativa.
Agora sobre a história em si: trata-se do misterioso desaparecimento do Dr. Orlando Capanova, meu ex-patrão e mentor, ocorrido a cerca de seis meses atrás. A bem da verdade, foi Dr, Orlando, ex-delegado lotado por muitos anos na capital do estado São Luís e que retornara a esta sua cidade natal após a aposentadoria, quem tornou-se por força de ofício e vício o primeiro detetive particular, ou investigador privado como ele mesmo preferia se denominar, desta cidade. Estabelecido em seu nada suntuoso escritório na sobreloja do bar do Zé Mineiro, propunha-se a esclarecer as mais diversas pendengas – em geral roubos de galinhas, mortes misteriosas de bodes ou cabras, desaparecimento de objetos sem valor comercial algum, etc. - esquecidas pelas morosas polícia e Justiça locais. Eis que um belo dia, apesar do muito pouco a fazer, Dr. Orlando decide contratar um ajudante geral, para, em suas palavras, “acompanhar-me nas mais delicadas e perigosas investigações, atender aos clientes em minha ausência, dar cabo de organizar a imensa papelada, e preparar-me um bom café fresco sempre que necessário”. Nada mais natural que eu, que já dava expediente no bar do Zé Mineiro no período noturno, atendendo aos clientes com bebidas suspeitas e comidas mais ainda, me candidatasse ao cargo e fosse de imediato aprovado, certamente devido à minha inteligência e perspicácia mais que evidentes, e a despeito do fato de nenhum outro postulante ter aparecido.
E assim se passaram vários meses, eu sem muito o que fazer além de uns razoáveis cafés, porém recebendo os pagamentos quase sempre em dia, podendo engordar meus parcos vencimentos. Aos poucos, e de tanto ouvir nas intermináveis tardes as histórias do Dr. Orlando sobre as mais misteriosas investigações de seu tempo na capital, fui tomando gosto pela coisa, sendo fato que meu patrão logo se afeiçoou de mim e alegou ter percebido em minha pessoa certo talento para as atividades detetivescas. Até que o inesperado aconteceu: não mais que de repente meu mestre desaparece, sem deixar notícias ou resquícios, sem aviso ou preparação, sem pistas aparentes.
Por se tratar de pessoa que vivia sozinha, sem esposa ou filhos, ao menos que se soubesse, sem irmãos e com pais provavelmente já falecidos dada sua idade já madura, coube a mim tomar as medidas cabíveis no caso. Após mais de uma semana sem comparecimento do Doutor a seu escritório e depois de diversas incursões feitas à sua residência sem encontrar viva alma no local, não tive outra opção do que comunicar às autoridades competentes o fato ocorrido. Logo uma grande movimentação teve início, em parte pelo ineditismo da ocorrência em localidade tão pacata e diminuta, em parte pelo relativo prestígio que o Dr. Orlando desfrutava na cidade. A polícia local de forma pouco usual prontamente começou as buscas, auxiliada até por investigadores vindos da capital, decerto devido à atuação policial do desaparecido por muitos anos em São Luís. Com a mesma prontidão logo tiveram inicio as investigações. O povo clamava por uma resposta, não se falava de outra coisa nas casas, nos bares, na igreja e nas praças. O que afinal teria acontecido? Um crime fora cometido? Em quais circunstâncias, por que e por quem? Onde estaria o corpo? Sem uma direção firme a seguir, a polícia começou a interrogar a esmo dezenas de pessoas na cidade, inclusive a mim, este pobre coitado. O que teria eu a declarar além do que todos já sabiam? Pois mesmo assim fui obrigado a responder as mesmas perguntas por três ou quatro vezes, a policiais diferentes, sempre dando as mesmas respostas e sem poder infelizmente ajudar em nada. Ao cabo de algumas semanas, porém, sem a polícia ter conseguido avançar em nada na solução do caso, o interesse do povo arrefeceu, e a coisa toda acabou quase que como esquecida por todos.
Ou por quase todos. Como já lhes dissera anteriormente, as conversas vespertinas com Dr. Orlando tinham despertado em mim um interesse inaudito pelas coisas investigativas. E não seria esta uma oportunidade de exercitá-las? Haveria de ser uma bela homenagem a meu mentor, caso o mesmo tivesse realmente morrido, além de uma chance única para ganhar fama na cidade, ao desvendar um mistério em que a própria polícia havia fracassado. Porém, por onde começar? Até aquele momento, minhas únicas fontes de conhecimento para as técnicas de investigação policial eram as dissertações do Dr. Orlando, nas quais eu mais ouvia timidamente do que questionava, além de poucos filmes policiais vistos na TV sobre os quais eu passara a me interessar. Passavam-se os dias e as semanas, e eu sem bem conseguir planejar ou agir já pensava em desistir, quando parece que a sorte resolveu sorrir-me.
Em mais uma noite modorrenta de trabalho no bar do Zé Mineiro, eu casualmente passava perto de uma mesa nos fundos do estabelecimento ocupada por dois freqüentadores habituais de má fama e já um tanto embriagados, quando penso ter escutado de um dos sujeitos a frase “morte do Dr. Orlando”. Imediatamente apurei os ouvidos, e fingindo limpar as mesas próximas ouvi do outro bebum: “Bem feito, quem mandou se meter com mulher casada” e depois “Tenho certeza sim, eu mesmo vi os dois por mais de uma vez conversando em particular em um bar lá na periferia, ele e Dona Lulu...”. Opa, poderia ter ocorrido então um crime passional? Teria o Dr. Orlando se envolvido amorosamente com Dona Lulu, e sido mortos possivelmente os dois pelo seu marido, o temido Tião Olho Furado? Tião Olho Furado era o apelido jocoso de Sebastião Ribamar de Souza, alcunha recebida em função de um tiro que lhe acertou o olho direito no inicio da vida adulta durante uma briga violenta ocorrida em um prostíbulo da cidade, quando segundo consta o atirador foi morto. Dr. Tião, como era formalmente tratado, desde há muito tempo se tornara o maior fazendeiro da região, homem bronco e violento, verdadeiro coronel nordestino. Já Dona Lúcia, ou Lulu como era mais conhecida, era uma perua loira platinada, sua terceira esposa e bem mais jovem que ele, natural da Capital. Teria sido muito fácil para Tião Olho Furado ter matado ou mandado matar os dois amantes, e depois enterrado os corpos em qualquer cova rasa ao longo de suas propriedades. Mas, houvera de fato esta infidelidade, ou seria só mais uma conversa de bar? Somente uma investigação minuciosa poderia esclarecer os fatos...
Investigação minuciosa era comigo mesmo, pensei, só que esta operação envolvia grandes riscos. Fatalmente eu teria que interrogar, ou melhor, ter uma conversa e a sós com o Dr. Tião e também Dona Lulu, se esta ainda estivesse viva. Caso ele fosse mesmo culpado, Tião Olho Furado poderia simplesmente dar cabo de mim nesta visita, de forma a afastar quaisquer suspeitas. Após uma noite totalmente insone pensando nestes fatos, já na manhã seguinte me enchi de coragem e fui dar com o suspeito na sede de suas fazendas, não sem antes tomar a precaução de deixar com o meu patrão Zé Mineiro um envelope lacrado contando de toda a minha investigação e com ordens expressas de ser enviado à polícia caso eu não aparecesse naquela noite para trabalhar. Reproduzo meu diálogo com Dr. Tião:
- Dr. Sebastião, venho a sua presença para falar sobre o desaparecimento recente do Dr. Orlando Capanova, meu ex-patrão. O senhor ouviu falar do caso, pois não? Como a polícia não conseguiu elucidar esta ocorrência, sinto-me na obrigação moral de tentar ajudar, até como agradecimento aos ensinamentos que me foram passados por ele.
- Ah, sim, ouvi algo a respeito na rádio ou na cidade. Só não sei como posso ajudá-lo.
- Bem, vou direto ao ponto Dr. Sebastião, e espero que não se ofenda com minhas palavras. Corre porém na cidade um boato de que o Dr. Orlando teria sido visto em companhia de sua esposa em colóquios particulares, em local afastado e em mais de uma oportunidade. O senhor tem conhecimento de tais fatos?
- Há, há, há,...o quê, minha esposa, a Lulu? Impossível, eu e minha esposa nos amamos muito, impossível que ela me traísse, ainda mais com um velhote como este Dr. Orlando.
- Veja bem, Dr. Sebastião, estamos falando somente de alguns encontros a sós, onde só foram testemunhadas conversas entre os dois.
- Mesmo assim é impossível, a Lulu quase não sai de casa e quando sai sempre está acompanhada por algum dos empregados. Se ela tivesse estado com este delegadozinho eu saberia.
- Entendo, Dr Sebastião, entendo. Mesmo assim, e se não for ousadia demais minha, seria possível que eu tivesse um dedinho de prosa com Dona Lúcia? Ela se encontra?
- Você não poderá encontrá-la, meu jovem, pois Lulu viajou para a capital já há alguns meses, para fazer companhia a uma tia muito doente. Não creio também que ela volte em breve, a não ser que a velha...
- Bom, agradeço por sua atenção, Dr. Sebastião, e peço desculpas por ter tomado seu tempo com hipótese tão absurda.
Já me preparava para deixar a imensa casa que servia de sede para a fazenda, com uma quase certeza em mente: Tião Olho Furado mentira em nossa conversa, o que pude perceber por sua comunicação corporal – isto era algo que tinha aprendido com meu mentor. Além disso, a data alegada para a tal viagem de D. Lulu coincidia com a do desaparecimento do Dr. Orlando. Será que os dois tinham sido mesmo flagrados e mortos? Antes de chegar à porta de saída, porém, uma voz me chamou pelo nome. Esta voz era conhecida, a voz do Dr. Orlando. Seria um fantasma?
- Severino, meu querido pupilo, venha cá sem medo, se aproxime para conversarmos um pouco.
- Dr. Orlando, que tremendo susto o senhor me deu, é o senhor mesmo? Não imagina o quanto fico feliz em reencontrá-lo. Mas, como tem passado, por onde andou, o que aconteceu afinal?
- Calma, meu jovem rapaz, muita calma que vou lhe matar toda a curiosidade em alguns instantes. Mas antes, você vai ter que me prometer uma coisa: tudo que você ouvir aqui deve ser mantido em segredo. Nada do que for falado deve sair desta sala, e logo você vai compreender por que. Concorda?
- Ahn, concordo, concordo sim, Dr. Orlando, tem a minha palavra.
- Então, sente-se aqui junto de nós, meu amigo, que vou lhe contar todos os detalhes desta história. Antes de mais nada, porém, quero parabenizá-lo por ter chegado até o Dr. Sebastião em sua investigação, nem a polícia o havia feito. Vejo que meus ensinamentos foram de alguma valia.
- Muito obrigado meu patrão, realmente suas lições foram-me de muita ajuda...
- Bem, vamos aos fatos. Tudo teve início na festa de São João do ano passado aqui na cidade, quando eu acidentalmente reencontrei o Tião em meio às barracas de comidas típicas. Imediatamente começamos a conversar e relembrar os velhos tempos. Havíamos sido colegas na escola pública, e desde então não nos vimos mais. Cursáramos juntos o primário e o ginásio, mas ao final daquele período minha família decidiu se mudar para a Capital em busca de melhores oportunidades. Na verdade fomos melhores amigos, e creio que ao final do ginásio algo já mais do que amizade começara a surgir entre nós. Porém, naquela época não podíamos imaginar do que se tratava, nem este tipo de coisa era muito comentada, de modo que tudo ficou como estava. Só me lembro que quando de minha despedida da cidade para aquela viagem sem volta, ambos choramos muito, o que foi entendido pelos adultos somente como sinal de amizade.
- Tião, me corrija por favor se eu estiver errado. Depois deste primeiro encontro, passamos a nos reunir periodicamente, de forma a colocar a conversa em dia, depois quase que diariamente, até que aquele antigo sentimento adormecido veio a ressurgir. Veja bem, Severino, que peça o destino resolveu nos pregar: dois homens adultos, vividos, estabelecidos, envolvidos repentinamente em um novo amor...homossexual! Mas como poderíamos vivenciá-lo em uma cidade pequena e tradicional como a nossa? Teria que ser algo secreto, sem dúvida, mas mesmo assim restava um problema: o que fazer com D. Lulu, pedir o divórcio? Coube a mim convencê-la, o que confesso não foi muito difícil, e isto é o que motivou nossos encontros particulares de que você tomou conhecimento. Em troca de uma soma em dinheiro muito superior a que teria direito legalmente, logo concordou em ceder o divórcio amigavelmente e comprometer-se a manter sigilo sobre os motivos, partindo de volta a São Luís. Desta maneira, meu amigo, chegamos ao ponto em que nos encontramos hoje, vivendo nossa relação em segredo nesta casa, contando com o silêncio dos empregados que são de absoluta confiança do Tião e com o meu tão misterioso desaparecimento. Espero não tê-lo chocado com minhas declarações, mas esta é a verdade dos fatos.
- Ehn, bom, não me sinto exatamente chocado Dr. Orlando, na verdade estou surpreso, primeiro por encontrá-lo aqui, nestas circunstâncias, e depois por tudo que me contou. Claro que a situação toda é muito insólita, nem em meus maiores devaneios a imaginaria, mas não me cabe fazer qualquer juízo de valor. O que me importa afinal foi tê-lo encontrado, com vida e bem. Caso encerrado, missão cumprida. Espero poder vê-lo novamente em algum momento. Passar bem, meu patrão.
- Até mais ver, meu fiel amigo.
Posso dizer que saí daquele encontro completamente atônito, e diferentemente do que havia dito ao Dr. Orlando, estava sim chocado. Seria mesmo possível um amor entre dois homens, nesta altura da vida, intenso a ponto de modificar de tal forma suas histórias? Não tinha motivos para duvidar das palavras do meu querido mestre, mas no fundo não conseguia aceitar com tranqüilidade aquela situação. Talvez eu ainda devesse evoluir.
Outro ponto que me causou certo desgosto na história toda, é que a segunda parte do meu intento ao buscar esclarecer o desaparecimento do Dr. Orlando, de me tornar famoso na cidade ao desvendar um mistério não esclarecido pela polícia, não seria possível dada a promessa de total sigilo que havia afiançado a meu tutor. Eu nunca o trairia, muito menos em situação tão delicada. Até que...
Até que em certa manhã chuvosa, fato raro aqui nesta Nova Iorque, passados não mais do que trinta dias daquele primeiro e único encontro com Dr. Orlando, recebo em minha casa diretamente das mãos de um mensageiro uma carta remetida por Tião Olho Furado, com os dizeres:
“Prezado Severino,
Não traz esta infelizmente boas notícias, mas é meu dever informá-lo do falecimento de nosso querido amigo Dr. Orlando Capanova. Tal fato se deu de forma súbita, nas dependências de minha fazenda, há cerca de dez dias.
Por motivos que o amigo deve conhecer bem, o sepultamento ocorreu de forma particular e sigilosa, contando porém com as bênçãos do pároco local sob condição de segredo.
Tenho certeza de que nosso companheiro partiu feliz e realizado, porém eu que fico de tão entristecido tomei decisões radicais. Parto amanhã pela manhã para as terras e a companhia de meu filho em São Raimundo Nonato, após desfazer-me de todas as propriedades e deveres nesta região.
Desta feita, entendo que fica você livre do compromisso de sigilo assumido com o Dr. Orlando e comigo, podendo fazer bom uso da história a que teve acesso.
Atenciosamente,
Sebastião Ribamar de Souza”
E assim chegamos ao final desta narrativa, quando decidi finalmente assumir o lugar do Dr. Orlando em seu escritório de investigações, após ter tornado público todo o ocorrido, escrevendo na porta em letras garrafais: XERLOK GOMES, O MELHOR DETETIVE PARTICULAR DE NOVA IORQUE.


Biografia:
Engenheiro e empresário, escritor iniciante.
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