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Só mais um cigarrinho...
Cláudio Thomás Bornstein

Ele só queria poder morrer em paz e fumar um último cigarrinho. Mas, que nada! Era jogo de pingue-pongue, raquetada de um lado, raquetada do outro. De um lado a irmã, do outro lado a ex-mulher.

“Eu já não aguento mais, Rejane. Você tem que dar um jeito de tirar este homem daqui. Transformou a minha vida em um inferno. Não sou mais criança e mal tenho condição de cuidar de mim. Quanto mais de um velho, ranheta e teimoso como uma mula.” Ana, a irmã, tinha ligado para Rejane, a ex-mulher, para desabafar. Marcelo não tinha mais condição de morar sozinho. Estava com um câncer terminal e o médico tinha dado somente mais algumas semanas.

Rejane pensava. A mãe-de-santo tinha dito que a semana ia ser cheia de oportunidades. “Vou ver o que eu posso fazer. Aqui perto de casa tem um apartamento vago, três quartos. Com a atual crise não vão alugar nunca. Vou tentar regatear. A Silvinha está procurando casa para morar e ela bem que podia dar uma ajudazinha para cuidar do Marcelo.”

Em um quarto ela colocava o Marcelo. Tinha que cuidar bem que é para ver se ele durava mais um pouco. Afinal, deles ali, era o único que tinha grana. Ex-funcionário do Banco do Brasil, tinha uma bela aposentadoria que dava para pagar o apartamento e ainda sobrava para mais umas coisinhas.

O outro quarto ficava com a Silvinha. Ela tinha ligado há dois dias, voz chorosa: “Mãe, acabou. Vou ter que sair daqui.” Era outra que o jogo da vida não dava descanso. Passava de mão em mão, as vezes mão de homem, as vezes mão de mulher que ali não havia fidelidade ideológica. Era o que pintava, o que o momento permitia, ou o tesão.

Silvinha era menina bonita. Traços finos, nariz afilado, boca pequena, mas carnuda, tez morena. Passava o maior tempo na praia, vendendo artesanato. Pena eram aqueles penduricalhos, anéis, ganchos a perfurar a carne, argolas penduradas no lóbulo do nariz, orelha, alfinetes espetados no umbigo e sabe-se lá mais aonde. Também, pudera, tinha a quem puxar! Rejane não tinha anéis, ganchos, brincos a perfurar o corpo, não tinha alfinetes espetados na carne, mas eram tantos os balangandãs, pulseiras, colares, fitas, que o efeito era quase o mesmo. As carnes fartas derramavam-se por todos os rasgos, decotes e aberturas da roupa e quando ela caminhava pela calçada mais parecia uma barca em dia de mar agitado, chacoalhando e balançando de um lado para o outro.

Rejane continuava pensando. Sobrava um quarto. Bem que ela podia colocar todas aquelas tralhas que estavam atulhando o seu apartamento e infernizando a sua vida. Como o novo apartamento era pertinho, cada vez que fosse visitar o Marcelo levava uma sacola e assim ia liberando espaço. E Rejane concluiu: “Ana, vai levando com calma, que a gente vai encontrar uma solução. Concordo com você, o Marcelo não é mole. Eu bem que sei. Deixa eu desligar que já estou atrasada. Passo hoje lá no apartamento novo e vou estudar as condições. Ligo para você mais tarde.” Rejane desligou o aparelho e saiu zunindo.

Rejane falou com Silvinha que topou. Ia poder fumar o seu baseado que o Marcelo nem ia notar. Falou também com o Marcelo, mas nem precisava porque na situação em que ele se encontrava, tinha mesmo era que aceitar. Ia morar aonde, agora que a Ana não o queria mais?

O dono do apartamento novo aceitou a oferta. O lugar era espaçoso e cabia tudo, o Marcelo, a Silvinha e mais a tralha . O banheiro era grande, dava até para cadeirante, o que, por hora não era necessário, mas, nunca se sabe. O problema era o fiador. O dono não abrira mão da exigência. Rejane coçava a cabeça, cenho enrugado. Ali ninguém tinha apartamento. Ela morava em imóvel alugado, Ana também. Silvinha não tinha nada. Só se o João Eduardo...

João Eduardo era filho do primeiro casamento do Marcelo. Depois da separação de Rejane, pai e filho tinham ido morar no apartamento do primeiro. Em função da doença, João Eduardo tinha convencido Marcelo a passar o apartamento para o seu nome. Como este ia morar com a irmã, não precisava mais de moradia própria. Marcelo, conformado, concordara. João Eduardo nunca aceitara Rejane, e era uma maneira de tentar a reconciliação.

O problema era que João Eduardo era osso duro de roer. Vagabundo, não fazia nada. Passava os dias ao léu, alegando sempre estar à procura de emprego. Também, pudera, tinha estudado administração de empresas. Ora, administrador todo mundo é. Quero ver, pegar no pesado, descascar o abacaxi. Assim pensava Rejane. Na família dela todo mundo trabalhava. Até mesmo a Silvinha fazia os seus bicos.

Rejane pensava. Era melhor deixar a tarefa ingrata do contato com o João Eduardo para a Ana. Ela era a tia, eles que se entendessem. Era Ana quem tinha maior interesse na questão, livrar-se daquele peso morto, ou melhor, quase morto.

Ana concordou. Ligou para o João Eduardo e explicou a situação, tim-tim por tim-tim, as dificuldades, a idade avançada, a ranhetice do irmão. Não dava mais. Deixou até subentendido, muito vagamente para não ofender, que o dever de cuidar do pai era do filho e não da irmã. Falou cheia de dedos, com muito cuidado, mas era preciso mencionar, despertar os sentimentos, o remorso, a consciência. Só o que Ana não precisava ter falado era que a idéia do novo apartamento era da Rejane. Nem precisava ter dito que a Silvinha ia morar lá.

“A Silvinha? A Silvinha não suporta o velho. Como é que o velho aceitou, isto é que eu não entendo. Deve estar gagá. Vai ver que nem falaram com ele. Montaram a arapuca e botaram o velho à força. Do jeito que ele está, tem que aceitar. É tudo armação da Rejane. Quer resolver os seus problemas às nossas custas. O dindim para pagar esta orgia, vai ser do velho. É nisso que ela está de olho.” João Eduardo fez uma pausa que Ana aproveitou para insistir. Mas já não adiantava mais. João Eduardo a interrompeu e deu o argumento definitivo, infalível: “No mais, tia, nem adianta, porque eu não posso ser o fiador. O dono não vai aceitar. Nós fizemos a escritura, o velho passou o imóvel para o meu nome, mas não fiz o registro. Não fiz por falta de grana.”

Ana colocou o telefone no gancho e ligou para Rejane para comunicar o resultado. João Eduardo não estava com a documentação em dia e o proprietário do apartamento novo não ia aceitá-lo como fiador.

O jeito era voltar para o pingue-pongue. Uma semana Marcelo passava na casa da irmã, e uma semana na casa da ex-mulher. Silvinha? Silvinha logo arrumou um namorado com casa em Búzios. E João Eduardo, é claro, não providenciou o RGI. Agora ele sabia que além de economizar a grana, isto tinha lá as suas vantagens. O único problema não resolvido era o cigarrinho. Nem mesmo no táxi que o levava da casa da irmã para a casa da ex-mulher Marcelo tinha liberdade para fumar.


Biografia:
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